O Chohan Quer Anna Kingsford Dentro da ST 

Marina Cesar Sisson 
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 09, Abril/00) 
 

Como vimos nos dois números anteriores do Informativo HPB, Anna Kingsford acreditava que a Filosofia Hermética seria o meio através do qual o movimento teosófico poderia ser visto de uma maneira mais universal e não sectária. Suas críticas em relação aos Mahatmas e à postura de Sinnett, criaram um movimento dentro da Loja de Londres (LL) pedindo sua renúncia. Entretanto, o Mestre KH, obedecendo a seu superior, o Grande Chohan, pediu que ela ficasse pois, para Eles, pouco importavam os sentimentos que ela nutria por Eles. O realmente importante era "a disseminação da VERDADE através de doutrinas Esotéricas, transmitidas por qualquer canal religioso, e a atenuação do materialismo crasso e dos preconceitos e ceticismo cegos." (MLcr., p. 409) Kingsford e Sinnett deveriam atuar como "os dois pólos calculados para manter todo o corpo em harmonia magnética (...) um corrigindo e equilibrando o outro." (MLcr., p. 411) Esse arranjo era calculado para conduzir a LL a um harmonioso progresso, uma vez que o sucesso da ST na Índia devia-se, inteiramente, "ao seu princípio de sábia e respeitosa tolerância às crenças e opiniões dos outros" pois, na verdade, "a discórdia é a harmonia do universo". (MLcr., p. 412) 

Anna Kingsford tentando encontrar uma solução na qual ela pudesse continuar seu trabalho na LL, propôs a criação de duas seções. Uma seria formada pelos membros que quisessem seguir os ensinamentos dos Mahatmas e reconhecê-los como Mestres, com Sinnett como presidente. A outra encorajaria o estudo de Cristianismo esotérico e do Ocultismo ocidental do qual ele surgiu, e seria conhecida como "seção católica", que ela presidiria. Nessa proposta, os membros poderiam atender livremente às reuniões das duas seções. (Ransom, p. 197) Essa idéia era próxima à que os Mestres queriam, com a criação de dois grupos dentro da LL, uma vez que o Grande Chohan "que nunca interfere em nada teosófico, menos ainda europeu" (LBS, p. 90) desejava que Kingsford ficasse dentro da Sociedade, tendo seu espaço de trabalho preservado: 

"Não sei o que é que o Mestre ordenou Olcott a fazer.(...) Mas estou certa de que nem mesmo o Chohan a imporia à Sociedade contra a vontade da maioria. Deixe-a fundar uma sociedade separada da sua (...). Agora meu Patrão quer que ela permaneça como presidente - uma vez que o Velho Chohan está apaixonado pelo seu vegetarianismo e seu amor pelos animais - mas não necessariamente da sua Sociedade. O Chohan a quer dentro da Sociedade (...). Portanto, é melhor você se preparar e buscar o conselho e a opinião de cada membro que pensa como você, e se preparar para se dividirem em duas Sociedades, pois isto é o que o Coronel tem que fazer - me disseram." (LBS, p. 81-83)
A Distância Aumenta Minha Beleza

HPB, Olcott e Mohini viajaram juntos da Índia para a Europa. Ela não queria ir e dizia que só havia consentido em ir à Europa com a seguinte condição: "não preciso, não devo e não irei a Londres. Faça o que quiser. Nem mesmo vou me aproximar de lá. Mesmo que meu patrão tivesse me ordenado isso - penso que preferiria enfrentar seu desagrado - e desobedecê-lo." (LBS, p. 74) 

Já na França, em março, HPB recebeu tantos convites insistentes para que fosse a Londres, que acabou respondendo-os na forma de uma circular, agradecendo aos convites, mas recusando-os, pois sua saúde não permitiria que ela fosse a Londres. Além disso, HPB escreve nessa circular: 

"E qual seria a utilidade de minha ida a Londres? Que bem poderia eu fazer a vocês em meio a seus fogs misturados com as venenosas evaporações da ‘civilização superior’? (...) Estou eu adequada para tais pessoas civilizadas como todos vocês? Em apenas sete minutos e um quarto, me tornaria perfeitamente insuportável para vocês, ingleses, se eu tivesse que transportar para Londres minha enorme e feia pessoa. Eu lhes asseguro que a distância aumenta minha beleza, a qual eu logo perderia se estivesse próxima." (Letters of HPB, VI) Para Sinnett HPB também escreveu que Olcott e Mohini, com as instruções que tinham dos Mestres M. e KH, respectivamente, eram as pessoas adequadas para resolver a questão, pois:  "Eu faria o oposto. Eu não poderia (especialmente em meu atual estado de nervos) ficar por lá e ouvir calmamente as fantásticas novidades (...) de que Sankara Charya era um teísta e que Subba Row não sabe do que está falando, sem me enviar de vez para a morte; (...) Você não entende porque? Não pode compreender (...) que seria para mim um inexprimível sofrimento ver como os Mestres e sua filosofia são ambos mal interpretados?" (LBS, p. 78) Em 5 de abril de 1884, pela manhã, Olcott partiu de Paris para Londres, deixando HPB que declarava não ter a menor condição ou desejo de ir a Londres, pois estava com seus nervos fragilizados pela tensão acumulada nos meses que o caso Kingsford-Sinnett vinha se arrastando:  "Como posso encarar uma Sociedade onde alguns de seus membros nutrem tais pensamentos insultantes e os expressam por escrito? É por isso que não posso ir a Londres. Se fosse seguir os ditames de minha afeição por vocês dois, e meu desejo de me relacionar pessoalmente com tais membros cheios de encanto como a Sra. e a Srta. Arundale, Sr. Finch, Sr. Wade e outros, eu conheço o resultado. Ou eu iria pular, rompendo o céu e o inferno na primeira oportunidade, ou teria que explodir como uma granada. Não posso manter a calma. Secretei e acumulei bílis por mais de seis meses durante este imbroglio Kingsford-Sinnett; segurei minha língua e fui forçada a escrever cartas civilizadas que são agora vistas como ‘correspondência simpática e encorajadora’ (...) Bem, não nasci para uma carreira diplomática. Eu entornaria o caldo ..." (LBS, p. 81)
HPB Chega Inesperadamente a Londres

William Judge, que havia ficado com a Madame em Paris, para ajudá-la com a Doutrina Secreta, descreve que na noite de 5 de abril, quando estavam sentados conversando, sentiu "o velho sinal de uma mensagem do Mestre, e vi que ela estava escutando." (Caldwell, p. 171) HPB então lhe disse que o Mestre acabara de lhe ordenar que fosse para Londres pelo expresso de 7:45h da noite seguinte, ficasse por lá apenas um dia e voltasse no seguinte. Assim, inesperadamente, obedecendo às ordens, embora confessando que não estava entendendo-as, ela partiu para Londres no dia 6 de abril, ficando hospedada com Sinnett. 

No dia marcado para a eleição, 7 de abril, Maitland propôs a reeleição de Anna Kingsford, mas apenas um ou dois membros apoiaram a proposta. Sinnett então propôs Finch, que foi eleito pela maioria. Olcott ofereceu ao grupo de Kingsford que eles formassem um novo ramo, que seria chamado de "Sociedade Teosófica Hermética" - o que foi aceito. (ODL III, p. 97) 

Uma vez resolvido o ponto mais delicado, passaram para a discussão da noite. Olcott tentava ajustar as diferenças de opinião, mas sem muito sucesso, e o clima estava tenso. Então, HPB entrou inesperadamente na reunião, sentando-se no fundo da sala, ao lado de Archibald Keightley, que era um membro novo e ainda não a conhecia pessoalmente. Ele descreve que, no momento em que alguém lá na frente aludiu a alguma ação de Madame Blavatsky, a robusta senhora a seu lado confirmou, dizendo em voz alta: "É isso mesmo." Nesse ponto, a reunião virou uma confusão, e Mohini correu para jogar-se aos pés de HPB. (Caldwell, p. 175) 

C.W. Leadbeater, que também era um membro novo e estava presente nessa reunião, descreve que uma robusta senhora, vestida de preto, havia entrado e sentado no fundo da sala. Após alguns minutos, demonstrando impaciência com a falta de evolução das discussões, ela pulou de seu assento e gritou num tom de comando militar: "Mohini!", saindo para o corredor. Então: "O altivo e sério Mohini veio correndo por aquela longa sala, na sua maior velocidade e, assim que alcançou o corredor jogou-se incontinente, com sua face no chão, aos pés da senhora de preto." (Leadbeater, p. 36) 

Muitas pessoas levantaram-se, confusas, não sabendo o que estava acontecendo. Mas logo depois Sinnett, que também havia ido até o fundo, voltou e anunciou: "Permitam-me apresentar à Loja de Londres como um todo - Madame Blavatsky!" A cena que se seguiu era indescritível: "os membros excitadamente alegres e contudo, ao mesmo tempo, meio pasmos, se juntaram à volta de nossa grande fundadora, alguns beijando suas mãos, vários ajoelhando-se diante dela, e dois ou três soluçando histericamente." (Leadbeater, p. 37) 

Ela então foi conduzida à plataforma onde, após ouvir explicações sobre o caráter insatisfatório da reunião, a encerrou e reuniu-se com os dirigentes. Relata Leadbeater que, após ouvir explicações de Kingsford e Sinnett, ralhou com ambos, como se fossem dois estudantes e fez com que dessem as mãos, numa demonstração de que suas diferenças haviam se encerrado! (Leadbeater, p. 37) 

Como já vimos extensamente, os sentimentos de HPB estavam longe de serem imparciais e isentos, como aparentam ser na narrativa de Leadbeater. Após a reunião, Madame voltou para a casa dos Sinnett, e ficou em Londres por uma semana, antes de voltar a Paris. 

O episódio, acima narrado, em que Mohini atira-se aos pés da Madame é muito interessante. Ele apresenta aspectos que dificilmente podemos entender completamente, pois estão na alçada do oculto, não do comum. Isso porque, ainda em outubro de 1883, quando o Mestre decidiu que, no ano seguinte, Mohini iria a Londres com Olcott para ajudar a resolver a questão da LL, HPB escreveu a Sinnett, alertando-o que não considerasse o Mohini que ele havia conhecido como o mesmo que estaria em Londres: 

"Em 17 de fevereiro Olcott provavelmente partirá para a Inglaterra para vários negócios, e Mahatma KH envia seu chela, sob o disfarce de Mohini Mohun Chatterjee (...). Não cometa o erro, meu querido patrão, de tomar o Mohini que você conheceu pelo Mohini que virá. Há mais de um Maya neste mundo, do qual nem você, nem seus amigos e o crítico Maitland são sabedores. O embaixador será investido de uma vestimenta interna, bem como de uma vestimenta externa. Dixit." (LBS, p. 65) Do mesmo modo que HPB havia alertado Sinnett de que não considerasse Mohini como sendo o Mohini usual, o Mestre KH manda uma carta ao próprio Mohini, em março de 1884, lhe dizendo algo semelhante com relação à Madame e lhe orientando como deveria se comportar. Ele lhe diz que como as aparências eram importantes, especialmente entre os europeus, era necessário impressioná-los externamente antes que uma impressão interna, regular e duradoura, ocorresse. Por essa razão, o Mestre orienta Mohini que quando HPB chegasse a Paris:  "... você irá encontrá-la e recebê-la como se estivesse na Índia e ela fosse sua própria mãe. Você não deve ligar para a multidão de franceses e outros. Você tem que impressioná-los; e, se o Coronel lhe perguntar por que, você lhe responderá que é o homem interior, o ocupante interno que você está saudando, não HPB, pois você foi avisado por nós nesse sentido. E saiba, para sua própria edificação, que Alguém muito superior a mim gentilmente concordou em inspecionar toda a situação, sob o disfarce dela, e então visitar, através do mesmo canal, ocasionalmente, Paris e outros locais onde membros estrangeiros possam residir. Você irá saudá-la desse modo ao vê-la e ao despedir-se dela, durante todo o tempo em que estiver em Paris – independente de comentários e de sua própria surpresa. Isso é um teste." (LMW, 2nd S., p. 111) Como vimos, HPB acabou inesperadamente indo a Londres e Mohini encontrou-a lá, e não em Paris, mas obedeceu literalmente às instruções de seu Mestre, jogando-se aos seus pés para saudá-la ou, quem sabe, ao "Ocupante" interno que ali poderia estar. 

A Sociedade Hermética

Em 9 de abril a Loja Hermética foi organizada, com Olcott e Mohini presentes. (Ranson, p. 198) Entretanto, o problema não ficou resolvido, como seria de se esperar, pois poucos dias após a criação da Loja, Olcott resolveu editar uma nova regra, pela qual as filiações múltiplas ficavam proibidas. Isso significava, na prática, que os membros da Loja Hermética não poderiam freqüentar às reuniões da Loja de Londres, e assim se beneficiar das instruções lá oferecidas e vice-versa. Essa decisão transtornou os planos para a Loja Hermética e, em 22 de abril, o grupo de Kingsford decidiu entregar a carta constitutiva e formar uma sociedade independente da ST. (Ransom, p. 198) 

Maitland diz que Olcott teria feito essa regra que proibia a filiação múltipla, seguindo conselhos de Sinnett. (The Credo, p. 24) Talvez seja a isso que o Mestre KH esteja se referindo nesta passagem abaixo, onde repreende Sinnett: 

"Então você nega que jamais tenha havido qualquer rancor em você contra K. [Kingsford]. Muito bem; chame-o de qualquer outro nome que quiser; ainda assim foi um sentimento que interferiu com a estrita justiça, e fez O. [Olcott] cometer um erro ainda pior do que o que ele já havia cometido - mas que foi permitido seguir seu curso pois se adequava aos nossos propósitos, e não causou nenhum grande mal, exceto tão somente a ele mesmo ..." (MLcr., p. 424, ML-62) Em 9 de maio a Sociedade Hermética foi fundada e logo provou-se um grande sucesso, com as palestras de Anna Kingsford enchendo salões. No final de 1884, Kingsford e Maitland saíram da LL, mas não abandonaram a ST, permanecendo ligados a Adyar. Anna Kingsford e HPB ainda se encontraram em duas ocasiões, em julho de 1884 e em outubro de 1886. Esse último encontro foi o de Ostende, narrado pela Condessa de Wachtmeister e citado no Inf. HPB n° 7. 

A Sociedade Hermética funcionou regularmente, principalmente com palestras de Anna Kingsford e Maitland, até o início de 1887, quando o estado de saúde dela já estava muito debilitado. Ela tinha problemas pulmonares crônicos e acabou morrendo de tuberculose, aos 42 anos, em 22 de fevereiro de 1888. (Godwin, p 335) Após sua morte, Maitland publicou dois livros em nome dela. O primeiro, "O Credo do Cristianismo e outras Mensagens e Ensaios sobre o Cristianismo Esotérico" é composto de várias de suas palestras na Sociedade Hermética. O outro, como comentamos no Inf. HPB n° 7, é a compilação de suas iluminações obtidas durante quase 14 anos, e que recebeu o título de "Vestida de Sol, o Livro das Iluminações de Anna Kingsford". 

Podemos agora avaliar melhor porque a ST perdeu uma grande oportunidade de se transformar naquilo que os Mestres tanto almejavam: um centro onde diferentes tradições pudessem conviver harmoniosamente, colocando em prática a tolerância que é a base do 1° Objetivo. Não há dúvidas de que, caso Anna Kingsford tivesse permanecido ativa dentro da LL, como queria o Grande Chohan, isso teria marcado o início de uma abertura inédita na ST. Pois, como disse o Mestre KH: "a Filosofia Hermética é universal e não sectária, enquanto que a Escola Tibetana sempre será considerada (...) como mais ou menos marcada pelo sectarismo. (...) Filosofia Hermética adapta-se a qualquer crença e filosofia ...." (MLcr., p. 409, ML-85) 

No entanto, a ST seguiu outro caminho, muito menos universal, e acabou desenvolvendo uma doutrina própria, com um perfil e uma terminologia bastante orientais, que passou a ser denominada de "Teosofia". Assim sendo, não é estranho que o próprio Mestre KH - que seguindo a vontade do Chohan interferiu na crise da LL - tenha feito um severo alerta quanto aos caminhos que estavam sendo seguidos pela ST escrevendo, em 1900, na última carta conhecida com a caligrafia dos Mestres: "A ST e seus membros estão lentamente manufaturando um credo. Diz um provérbio tibetano: ‘credulidade gera credulidade e termina em hipocrisia’." (LMW 1st S., p. 99) 

Anna Kingsford e a Golden Dawn

A interpretação que Anna Kingsford e Maitland faziam das escrituras cristãs naturalmente levou-os a se interessarem pela Cabala, onde encontraram grandes semelhanças com as iluminações de Kingsford. Isso levou-os a uma relação com o barão Giuseppe Spedalieri, discípulo e editor literário de Eliphas Levi. Encontrando-se com ele em 1887, quando visitava a França, Maitland recebeu alguns manuscritos de Eliphas Levi e a sua cópia do tratado de Trithemius, De Septem Secundeis. Posteriormente, Maitland passou esse material para Wynn Westcott, o qual o editou como Ritual Mágico do Sanctum Regnum. (Godwin, p. 345) 

Westcott era ligado à ordem secreta e oculta conhecida como S.R.I.A. ou Societas Rosicruciana in Anglia, da qual faziam parte Bulwer Lytton, John Yarker (que em 1877 havia concedido a HPB o diploma maçônico) e Samuel L. MacGregor Matthers. Westcott e Matthers foram também os principais fundadores da Golden Dawn, que inicialmente se apresentava como uma "ordem não maçônica, aberta a homens e mulheres" que se entitulava "Os Estudantes Herméticos da G.D." (Godwin, p. 223) 

Tanto Westcott quanto Matthers eram muito ativos na Sociedade Hermética de Kingsford. Matthers deu duas palestras, sobre Cabala e sobre Alquimia e, durante o ano de 1886, trabalhou na tradução de um livro que Maitland e Kingsford haviam consultado no Museu Britânico. Quando publicado, sob o título The Kabbalah Unveiled [A Cabala Sem Véu], o livro foi dedicado aos dois. 

De acordo com o biógrafo de Matthers, Colquhoun, provavelmente foi sob a influência de Anna Kingsford que Matthers se tornou um feminista, pelo menos no que diz respeito a questões ocultas, insistindo para que as mulheres fossem admitidas na Golden Dawn em igualdade de condições com os homens. Mas o encontro da Golden Dawn e Kingsford ia além desse ponto: 

"Pode-se entender muito melhor a Golden Dawn após se conhecer o trabalho de Kingsford e Maitland. Seus rituais evocaram o mesmo universo iniciático que as iluminações de Anna Kingsford haviam descrito: um universo cuja mitologia era Egípcia, Cabalística, Eleusiana e Cristã (Rosacruz). Era um complemento prático para os ensinamentos teóricos e morais de O Caminho Perfeito." (Godwin, p. 362)
Os Livros Sagrados de Hermes Trismegistus

Em 1884, Kingsford e Maitland publicaram uma tradução de A Virgem do Mundo de Hermes Mercurius Trismegistus, que continha textos herméticos muito raros. Além do fragmento que dá o título, contém: "Asclépios sobre Iniciações", "Definições de Asclépios" e "Fragmentos", que incluem os "Fragmentos do livro de Hermes a seu filho Tatios", "Fragmentos dos Escritos de Hermes a Ammon" e "Vários Fragmentos Herméticos". Desse último citamos a Parte III: 

"Portanto, a visão incorpórea sai do corpo para contemplar a beleza, se elevando e adorando, não a forma, nem o corpo, nem a aparência, mas aquilo que atrás de tudo, é calmo, tranqüilo, substancial e imutável; aquilo que é tudo, sozinho e uno, aquilo que é por si mesmo e em si mesmo, semelhante a si mesmo, e sem variação." (The Virgin, p. 151) Os livros sagrados de Hermes continham as leis, ciência e teologia do Egito, e os sacerdotes diziam que eles haviam sido escritos durante o reinado dos Deuses, que precedeu àquele de seu 1° rei, Menes. Havia 4 livros que, subdivididos, compunham 42 volumes. Eles eram guardados no recinto mais sagrado do templo, e apenas os sacerdotes de uma ordem superior tinham permissão de consultá-los. Nas grandes procissões religiosas os livros de Hermes eram reverentemente carregados. (The Virgin, p. i) 

Os sacerdotes levavam os dez volumes relacionados às emanações dos Deuses, à formação do mundo e à divina anunciação de leis e regras para o sacerdócio. Os profetas carregavam quatro, tratando de astronomia e astrologia. O líder dos músicos sagrados carregava dois, contendo os hinos aos Deuses e máximas para guiar a conduta do rei, as quais o cantor deveria saber de cor. A antigüidade e santidade desses hinos egípcios era tal que Platão os atribuiu a Ísis, e se acreditava terem dez mil anos de idade. Os servidores do templo levavam mais dez volumes, contendo formas de oração e regras para os oferecimentos, festivais e procissões. Os outros volumes tratavam de filosofia e ciências, incluindo anatomia e medicina. (The Virgin, p. i) 

O imperador romano Severus reuniu todos os escritos sobre os Mistérios e os queimou no túmulo de Alexandre o Grande, e Diocleciano destruiu todos os livros relacionados com a Alquimia. Os renomados livros de Hermes estiveram perdidos por 15 séculos. Nos primeiros séculos do Cristianismo, Hermes era considerado um revelador inspirado e seus escritos a teologia que havia sido passada para Moisés. Essa opinião foi aceita por vários estudiosos até a Renascença, que consideravam os livros de Hermes como a fonte das iniciações órficas e da filosofia de Pitágoras e Platão. (The Virgin, p. ii) Embora haja críticos contrários a essas conclusões, eles reconhecem uma grande coincidência entre essas doutrinas e as do Cristianismo e, portanto, que o Cristianismo não era algo completamente novo quando surgiu, mas um desenvolvimento ou uma reformulação de uma doutrina há muito pré-existente. (The Virgin, p. viii) 

Maitland explica que o método hermético para a obtenção da perfeição em qualquer plano - físico, intelectual, moral ou espiritual - é a pureza. Sendo o homem um ser consciente, ele será perceptivo de acordo com o grau de sua pureza. Assim, a pureza completa implicaria numa percepção total, até mesmo de ter a visão de Deus. O poder com o qual o Hermetista Iniciado opera é o espírito, e esse será poderoso em proporção à sua pureza. (The Virgin, p. xv) 

As doutrinas herméticas falam da intuição como o modo essencial para o homem entrar em contato com seu eu mais essencial e permanente, a alma, e dela obter conhecimento de coisas divinas que obteve em épocas distantes de seu passado. A doutrina dos múltiplos renascimentos da alma num corpo físico e a da responsabilidade pelo fruto de suas ações também estão presentes. 

Re-velação

A curta vida de Anna Kingsford gerou muitos frutos, que ainda estão ao alcance das pessoas em suas obras, onde ela revela, através de suas iluminações e filosofia, um caminho para o Oculto. É um valioso legado para aqueles que se dedicarem a trilhá-lo. Algo que ela mesma intuiu, quando, poucos dias após a fundação da Sociedade Hermética, escreveu: 

"O que realmente buscamos é reformar o sistema cristão e começar uma nova Igreja Esotérica. Uma vez que isso se inicie, poderá prosseguir indefinidamente, como a Igreja Exotérica. (...) Algumas vezes penso que as verdades e conhecimentos que possuímos são tão elevados e tão profundos que esta época ainda não está preparada para recebê-los, e que tudo que nos será permitido fazer será formulá-los em algum livro ou livros para deixá-los como um legado ao mundo quando tivermos partido." (The Credo, p. 28) Concluímos esta série do Informativo HPB sobre Anna Kingsford, citando uma de suas Iluminações, sobre a Revelação, onde se destaca a beleza, profundidade e poesia da mensagem:  "Todas as iluminações verdadeiras e valiosas são re-véu-ações, ou re-velações. Marque o significado dessa palavra. Não pode haver nenhuma iluminação verdadeira ou valiosa que destrua distâncias e exponha os detalhes das coisas. Olhe para esta paisagem. Contemple como suas montanhas e florestas estão banhadas com suave e delicada névoa, que meio encobre e meio revela suas formas e tons. Veja como essa névoa, como um delicado véu, envolve as distâncias e mescla as bordas da terra com as nuvens do céu!    "Quão belo é, quão ordenado e completo o seu ajuste e a delicadeza de seu apelo aos olhos e ao coração! E quão falso seria aquele sentido que desejasse destruir esse véu sobreposto, para trazer para perto os objetos longínquos, e reduzir tudo a um primeiro plano, no qual apenas fossem aparentes os detalhes, e todos os contornos fossem nitidamente definidos! A distância e a névoa fazem a beleza da Natureza: e nenhum poeta desejaria contemplá-la de outra forma que não fosse através deste adorável e modesto véu.    "E assim como na natureza exotérica, assim é com a natureza esotérica. (...)    "Assim, a doutrina dos mistérios é verdadeiramente re-véu-ação - um velar e um re-velar daquilo que não é possível para o olho contemplar sem violar toda a ordem e santidades da natureza. Pois a distância e os raios visuais, causando as diversidades do próximo e do distante, de perspectivas e nuances que se fundem, de horizontes e primeiros planos, são parte da ordem e seqüência natural: e a lei expressa em suas propriedades não pode ser violada. Pois nenhuma lei jamais é quebrada.    "Os tons e aspectos da distância e da névoa realmente podem variar e se dissolver, de acordo com a qualidade e a quantidade de luz que cai sobre elas: mas elas estão sempre lá, e nenhum olho humano pode anulá-las ou aniquilá-las.    "Mesmo as palavras, mesmo as figuras são símbolos e véus. A própria verdade não pode ser jamais proferida, a não ser de Deus para Deus." (Clothed, p. 9-11)
Bibliografia

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Caldwell, D. The Occult World of Madame Blavatsky. Impossible Dream Publ., Tucson, 1991 
Godwin, J. The Theosophical Enlightment. State Univ. of New York Press, Albany, 1994. 
Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Seq.) TPH, Quezon City, 1993. 
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Kingsford, A.B. & Maitland, E. The Credo of Christendom, 1916. Kessinger Publ. Co., Montana. 
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Leadbeater, C.W. How Theosophy Came to Me TPH, Adyar, 1986. 
Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. I, III. TPH, Adyar, 1974. 
Ranson, J. A Short History of the Thesophical Society. TPH, Adyar, 1989. 

 
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