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A "Divina Anna"
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
08, Set./99)
Como vimos no Informativo HPB n0 7, Anna Kingsford
foi um grande exemplo humanitário para sua época, sobretudo
em sua luta pelo vegetarianismo e defesa dos animais. Era uma mística
cujas "iluminações" traziam profundos ensinamentos ocultos
numa linguagem poética de rara beleza. Seu trabalho pela divulgação
da Filosofia Hermética e do Cristianismo esotérico acabaram
aproximando-a da ST, onde foi eleita presidente da Loja de Londres (LL).
Kingsford queria que essa se transformasse num "corpo realmente influente
e científico", não comprometido "apenas com o Orientalismo,
mas com o estudo de todas as religiões esotericamente", dando
especial ênfase ao estudo "da nossa igreja católica ocidental".
(The Credo, p. 14)
Essas linhas de trabalho não eram as que mais agradavam à
Madame, que não era vegetariana e tinha uma conhecida implicância
com o Cristianismo dogmático, tendo uma preferência particular
pela Filosofia Oriental. Como citamos no Inf. HPB n0
7, Maitland dizia: "...nós já sabíamos o bastante
da ST, sua origem, motivos e métodos para não acreditar nela.
Seus prospectos originais cometiam a flagrante inconsistência de
declarar absoluta tolerância da Sociedade a todas as formas de religião
e, depois, afirmar que um objetivo principal era a destruição
do Cristianismo." (The Credo, p. 11) Realmente, numa circular
feita para divulgação da ST, em maio de 1878, quando seus
objetivos ainda não tinham a formulação atual, se
lia:
"Os objetivos da Sociedade são vários.(...) A Sociedade
ensina e espera que seus membros exemplifiquem pessoalmente as mais elevadas
moralidade e aspiração religiosa; oponham-se ao materialismo
da ciência e a toda forma de teologia dogmática, especialmente
a cristã, que os Chefes da Sociedade consideram como particularmente
perniciosa; tornar conhecido nas nações ocidentais, os fatos
há muito suprimidos sobre as filosofias religiosas orientais, sua
ética, cronologia, esoterismo, simbolismo; contrapor-se, tanto quanto
possível, aos esforços dos missionários de iludir
aos assim chamados ‘Infiéis’ e ‘Pagãos’ com relação
à real origem e dogmas do Cristianismo e aos efeitos práticos
dos últimos sobre o caráter público e privado nos
assim chamados países civilizados;" (CW I, p. 376-377)
Além das linhas de trabalho de Anna Kingsford não serem da
predileção da Madame, havia o fato de Kingsford se considerar
uma profetiza, porta-voz de uma nova era e de um novo evangelho, e com
conhecimentos que ela dizia serem superiores aos que HPB recebia, uma vez
que eram obtidos diretamente, sem intermediários, em suas iluminações.
Talvez essa seja a origem do apelido irônico com que HPB se referia
a ela para Sinnett, chamando-a de "Divina Anna" (LBS, p. 44). Embora
publicamente a Madame não demonstrasse seus sentimentos em relação
a Anna Kingsford, em suas cartas para Sinnett os extravasava livremente,
revelando suas críticas: "Eu era, desde o começo, contra
sua nomeação, mas tive que segurar minha língua, uma
vez que era escolha de KH ..." (LBS, p. 60). Ou, referindo-se
à escolha dela por Massey:
"... não foi ele, e somente ele que propôs
e a elegeu como a única possível Salvadora da Sociedade Teos.
Britânica? Bem, agora agradeça a ele e a mantenha para todos
vocês serem transformados numa geléia [um grupo amorfo, sem
identidade]. É claro que ela irá lhe adular mais do que nunca.
Eu sei que isto irá acabar em um escândalo." (LBS,
p. 22)
Mas o fato é que a "Divina Anna" também parecia incomodar
HPB em outros aspectos, bem mais pessoais. A Madame demonstra isso pela
maneira como descreve sua aparência física e seu modo de vestir.
Anna Kingsford, sendo uma mulher de rara beleza, é descrita por
Maitland na primeira vez que a encontrou como sendo: "Alta, esbelta
e de formas graciosas. De aparência agradável e requintada.
Brilhante e jovial em expressão. O cabelo longo e dourado (...)
Anna Kingsford parecia, à primeira vista, mais como uma fada do
que humana, mais criança do que mulher." (Shirley, p.
13) HPB havia pedido a Sinnett um retrato dela, pois não a conhecia
pessoalmente mas, pouco depois, lhe escrevia dizendo que Kingsford lhe
havia sido mostrada:
"Diga, por que ela estava usando com um vestido que parecia com ‘o
casaco preto e amarelo das zebras da criação do Rajá
do Kashmir?’ E é verdade que usava rosas em seu cabelo ‘que é
como um pôr de sol flamejante, amarelo dourado’? E por que (...)
usava ‘tilintantes brincos de lua crescente’ - simbólicos do crescente
brilho da ‘Loja de Londres’? Essa lua tomou luz emprestada do Satélite.
(...) Mas por que - por que tinha ela, a ‘mística do século’
que usar tantas jóias! Como pode confabular com os deuses invisíveis
quando parece ‘com uma vitrine de uma joalheria inglesa em Delhi’? Bem,
eu também penso que a vi, e gostaria de ter o seu retrato para comparar.
Pois ela me foi mostrada. Não é alta, fina
na cintura mas larga nos ombros, e muito bonita, bochechas ligeiramente
rosadas e com lábios bem vermelhos, e um nariz que fica mais largo
quando ela fala, do que quando está em repouso? Seus olhos são
azul claro. Ela é fascinante..." (LBS, p. 51)
Sinnett e a Autoridade do "Budismo Esotérico"
Em julho de 1883, Anna Kingsford fez sua primeira aparição
pública como presidente da LL, numa reunião para recepcionar
Sinnett, que havia recém-chegado da Índia e publicado seu
livro Budismo Esotérico. Sua chegada e a publicação
do livro modificaram completamente a LL, pois ele chegava com o status
de alguém que estava em contato com os Mestres. À volta do
casal Sinnett reuniu-se um grupo de pessoas para estudar o livro, e a Loja
passou uma resolução de que deveria se devotar "principalmente
ao estudo da Filosofia oculta como ensinada pelos Adeptos da Índia
com quem o Sr. Sinnett havia estado em comunicação."
(Ransom, p. 187)
Anna Kingsford e Maitland também se dedicaram ao estudo da obra
Budismo Esotérico. O principal ponto criticado por eles era
o fato de terem que aceitar uma autoridade, independentemente da compreensão,
pois, desse modo, estariam criando um "sacerdotalismo" destes homens divinizados
denominados Mahatmas. (The Credo, p. 16) Na verdade, eles não
negavam a possibilidade da existência de tais Seres evoluídos,
mas questionavam o método de como verificar se eles eram realmente
Seres dessa estatura. Maitland escreveu a esse respeito:
"Pois, assim como somente aqueles que possuem o espírito de
Cristo, em alguma medida, podem reconhecer o Cristo, do mesmo modo apenas
aqueles que são, eles mesmos, em alguma medida adeptos, podem reconhecer
os Adeptos. E mesmo que o ensinamento em questão tenha vindo da
fonte alegada, qual a garantia de que ele não tenha passado, na
transmissão, por uma mudança suficiente para o deturpar?"
(The Credo, p. 16)
Essas diferenças de postura começaram a criar uma situação
difícil dentro da LL. Sinnett reclamava com HPB, a qual não
podia compreender como os Mestres tinham Kingsford em alta consideração,
uma vez que "a Sra. K. não acredita e, se acredita, não
dá a menor atenção para os Irmãos." (LBS,
p. 48) Porém, a Madame logo começou a suspeitar que, por
detrás da escolha da "Divina Anna", não estava apenas o Mestre
KH, mas também seu Superior, o Grande Chohan:
"Por que o Mahatma KH teria imposto sobre a sua Sociedade um tal emplastro
como parece ser a Sra. K., uma criatura arrogante, fútil e opiniática,
a medida da presunção ocidental - ‘Deus’ sabe, eu não.
Eu acredito que o Chohan interferiu subitamente, como ele não raro
faz. E agora vai haver uma bela confusão. Mas o que se seguirá?"
(LBS, p. 64)
O Protesto de Anna Kingsford e a Eclosão
da Crise
Até então, o conflito na LL estava restrito aos seus bastidores.
Entretanto, em outubro de 1883, Maitland leu na Loja um discurso de Kingsford
contendo duras críticas. O conflito interno começava a se
exteriorizar, e surgiu um movimento pedindo que ela saísse da presidência
da Loja. Anna Kingsford, então, escreve uma longa carta a HPB, expondo
seus pontos de vista, e pedindo que os submetesse ao Mestre KH. Nessa,
ela se posiciona contra o sentimento de idolatria e submissão inquestionável,
que os membros, liderados por Sinnett, estavam nutrindo pelos Mestres.
Ela achava que, além de "ser desagradável aos próprios
Mahatmas" (LBS, p. 70), esse tipo de sentimento estava criando
para a Sociedade uma aparência de seita, o que era prejudicial para
um movimento que pretendia atrair a atenção de líderes
da época:
"‘Isso é ‘insensato’ porque num país ‘onde o olho do
criticismo e do ridículo inamistoso é mantido fixo sobre
qualquer novo movimento’, é ‘manifestamente imprudente nossa Sociedade
apresentar-se diante do mundo sob a aparência de uma Seita,
tendo chefes a quem se conferem poderes super-humanos de grandeza’. (...)
Por mais que estime o Sr. Sinnett, ela pensa que ‘ele está cometendo
um erro em aplicar neste país uma política idêntica
à que está sendo seguida pela Sociedade na Índia.
Ela será fatalmente destruidora de todas as nossas esperanças
de atrair a atenção dos líderes de pensamento (...)
e ciência, cuja cooperação seria inestimável
para nós’ etc., etc., etc." (LBS, p. 70)
Para Kingsford a base da Sociedade deveria ser a de uma escola filosófica,
"constituída sobre as bases herméticas antigas, seguindo
métodos científicos e processos exatos de razão, independentes
de qualquer autoridade absoluta de um tipo exterior, embora aceitando com
reverência ensinamentos de fontes competentes." (LBS,
p. 70) Na Índia, onde o conhecimento sobre os Adeptos era algo comum,
tal política poderia estar bem, mas em Londres esta conduta levaria
a Sociedade "a ser considerada, por um lado, como demonstrando uma credulidade
e uma ignorância não usuais acerca dos métodos científicos;
e, por outro, como um sistema que apresenta - para a mente protestante
- uma impressionante semelhança ao sistema católico de mentores
e confessores, com a requerida submissão do catecúmeno em
relação a seu guru ou Mahatma..." (LBS, p. 70)
Para HPB e outros chelas como Subba Row, uma tal posição
era um desrespeito inaceitável em relação aos Mestres,
e eles estavam indignados:
"Ontem recebi uma carta de três jardas de comprimento da Sra.
K. com sua comunicação confidencial; primeiro fruto da bondade
de KH! Bem, isto é carma do Chohan. Seja lá como for, de
Subba Row até Brown, todos aqui estão inexprimivelmente chocados
com este mais insolente e impertinente panfleto ou crítica de Maitland.
Ela solicita que KH a torne ‘o apóstolo na Europa da Filosofia Esotérica
Oriental e Ocidental’!!!!!"(LBS, p. 63)
HPB continua a carta dizendo que, de acordo com o Mestre KH, esse já
havia avisado a Sinnett que, a menos que ele criasse uma seção
secreta e a presidisse, "enquanto que a Sra. K. seria o lindo e cintilante
cartaz da ‘Loja’, representando o Cristianismo Esotérico ou qualquer
outra tolice", os Mahatmas não teriam mais nada a ver com membros
ingleses. (LBS, p. 64) E que, sob ordens do Mestre M., Subba Row
estava se encarregando de escrever uma resposta às críticas
de Kingsford. Essa, entretanto, só foi publicada três meses
depois, no final de janeiro de 1884. Enquanto isso, HPB não continha
suas críticas, e continuava a reclamar junto a Sinnett e a seu Mestre,
até que Ele lhe ordenou a ficar quieta. Ela assim escreve a Sinnett,
em novembro 1883:
"... eu sabia todo o tempo que fêmea esnobe insuportável
era ‘a Divina Anna’. Eu sabia, e o repeti e continuei protestando do início
ao fim, até que meu Patrão M. me chamou uma ‘chata’ e uma
‘fêmea de visão curta’ (...) e me ordenou a ‘calar a boca’,
uma elegante expressão que ele pegou, eu creio, do estoque de palavras
ianques de Olcott. Ainda assim, ele nunca disse que eu estava errada, mas
simplesmente que a Kingsford vestida de zebra havia sido escolhida pelo
teu protetor e guia KH, e que ELE sabia o que Ele estava por fazer - apesar
de tudo. Bem, eu supus que fosse uma de suas costumeiras amplas experiências
na natureza humana, e assim calei a boca." (LBS, p. 65)
Mas poucos dias depois, ela escreve para Sinnett: "Estamos fritos, tanto
você quanto eu. (...) estamos fritos além de
qualquer redenção". (LBS, p. 69) Seu plano de
"tirar de cena" a "Divina Anna" - "uma criatura egoísta, fútil
e mediunística, que gosta demais de adulação,
vestidos e jóias cintilantes para ser do tipo certo." (LBS,
p. 69) - havia falhado completamente, pois os Mestres haviam decidido que
ela era necessária para o movimento e deveria permanecer. Com estes
sentimentos em relação à "Divina Anna", HPB lhe respondeu
com uma "longa, polida e, pelo que eu imaginava, diplomática
carta" (LBS, p. 71). Porém, para sua tristeza:
"... eu mal havia acabado de copiar minha carta (inglês corrigido
por Mohini), uma operação realizada no meu melhor papel e
com minha caneta nova, que me tomou toda uma manhã, em detrimento
e negligência de outros trabalhos, quando o seguinte ocorreu. Minha
carta de 8 páginas - foi silenciosamente rasgada, uma página
após a outra, por meu Patrão!! Sua grande mão aparecendo
na mesa debaixo do nariz de Subba Row (que queria que eu escrevesse de
um modo bem diferente) (...). ‘KH quer que eu escreva de um modo diferente’
- era a ordem. Eles (os Patrões) confabularam e decidiram que a
‘divina Anna’ deve ser agradada. Ela é necessária
para eles; ela é um maravilhoso paliativo (seja lá
o que for neste mundo que esta palavra signifique neste caso!) e eles pretendem
usá-la. Ela deve ser levada a permanecer como a presidente
auréola, e você o presidente núcleo (ou
nucleático?). Vocês devem ver um ao outro como os dois pólos,
oportunidade guiada por Mestres, traçando finalmente o verdadeiro
meridiano entre vocês dois, para [o bem da] a Sociedade. Agora, não
imagine que eu ri ou caçoei. Estou num estado de desespero mudo
e sem solução - pois desta vez estou perdida se entendi o
que eles pretendem! (LBS, p. 71)
Como entender que uma mulher que se referia com pouca veneração
ao Mestre KH, pudesse receber este tratamento? A estas reclamações
de HPB, Djual Khool simplesmente lhe respondeu: "As palavras de uma
mulher, ferida em sua vaidade física, brava por não chamar
a atenção do Mestre (KH) são menos que uma brisa passageira.
Ela pode dizer o que quiser. Os membros cumpriram seu dever protestando,
como fizeram, ela saberá melhor agora, mas ela deve permanecer,
e o Sr. Sinnett deve se tornar o líder e presidente do círculo
interno." (LBS, p. 71)
A Madame teve que "escrever-lhe, em conseqüência, e dizer
para ela todos os tipos de piedosas e mentirosas congratulações
que eu não sinto." (LBS, p. 72) E, se o fez, foi apenas
porque devia obediência a seu Mestre pois ela própria era
claramente contrária, como escreve:
"Deixe o carma disso cair sobre meu Patrão ("Boss")
- pois eu tenho sido única e exclusivamente sua arma e agente, que
não tem a responsabilidade de tudo isso. E suponho que Mahatma KH
atuou em primeiro plano e meu Patrão, em segundo, como de
costume. E como você diz, eu tenho apenas que obedecer." (LBS,
p. 72)
E, abaixo desta frase, o Mestre M. precipitou o seguinte comentário:
"Exatamente, pois essa é a melhor política." (LBS,
p. 72) No final da carta, para tranqüilizar Sinnett, o Mestre M. também
precipitou a mensagem abaixo:
"Sinnett Sahib - você não deve estranhar. Nós
temos o bem de todo o Movimento e da Sociedade no coração.
Mesmo os desejos da maioria não devem prevalecer - os sentimentos
da minoria menos iluminada também têm que ser consultados.
Deve chegar o dia em que tudo será melhor compreendido. Enquanto
isso a akhu tenta fascinar KH com seu retrato!" (LBS, p.
73) [Akhu: Inteligência, entre os egípcios. (Glosario
Teosofico, p. 27)]
Carta do Mestre KH para a Loja de Londres
O clima era cada vez mais tenso. Aproximadamente em 9 de dezembro de
1883, Anna Kingsford e Maitland publicam um panfleto com severas críticas
ao livro de Sinnett, Budismo Esotérico. Logo após
essa publicação, Kingsford recebe um telegrama do Mestre
KH dizendo "Permaneça presidente." (CW VI,
p. xxiv) O Mestre KH também mandou um telegrama de mesmo teor para
Sinnett e uma carta que, embora escrita no dia 7 de dezembro, ele declara
ter recebido em janeiro de 1884. Nela, o Mestre diz que havia chegado a
hora de Sinnett provar sua boa vontade, seguindo seus conselhos, pois era
o desejo de seu Superior, o Chohan, que Anna Kingsford permanecesse como
presidente. Escreve o Mestre KH:
"Em uma de suas cartas recentes para a ‘V.S.’ [Velha Senhora, HPB],
você expressa sua prontidão em seguir meu conselho em quase
tudo que eu pudesse lhe pedir. Bem - o tempo chegou para você provar
sua boa vontade. E como, neste particular, estou simplesmente executando
a vontade de meu Chohan, espero que você não experimente demasiada
dificuldade em compartilhar de meu destino, fazendo – como eu estou fazendo.
A ‘fascinante’ Sra. K. tem que permanecer como presidente - jusqu’ au
nouvel ordre [até nova ordem]. (...) Explicações
detalhadas seriam uma tarefa por demais longa e tediosa. É suficiente
que você saiba que sua luta contra a vivissecção e
sua dieta estritamente vegetariana conquistaram completamente, para o lado
dela, nosso austero Mestre. Ele liga menos do que nós por qualquer
expressão ou sentimento de desrespeito externo - ou mesmo interno
- aos ‘Mahatmas’. Deixe-a cumprir seu dever para com a Sociedade, ser verdadeira
aos seus princípios e todo o resto virá no seu devido tempo.
Ela é muito jovem, e sua vaidade pessoal e outras falhas femininas
devem ser deixadas para o Sr. Maitland e o coro grego de seus admiradores."
(MLcr., p. 406, ML-86)
E o Mestre anexa a essa uma outra carta, para ser lida numa reunião
geral, a respeito da qual comenta Virginia Hanson: "Ela é uma
das cartas mais importantes do livro, no que diz respeito à Sociedade
Teosófica - especialmente no Ocidente." (MLcr., p. 409,
ML-85) Nessa, o Mestre KH começa dizendo que havia mandado os dois
telegramas notificando Sinnett e Kingsford que ela deveria permanecer como
presidente, e que este não era apenas o desejo dele e do Mestre
M., mas a vontade expressa do próprio Chohan:
"A eleição da Sra. Kingsford não é uma
questão de sentimentos pessoais entre nós e aquela Sra.,
mas baseia-se inteiramente na conveniência de ter na direção
da ST, num local como Londres, uma pessoa bem adaptada para o padrão
e aspirações de um público (por enquanto) ignorante
(das verdades esotéricas) e, portanto, malicioso. Também
não é questão que tenha a menor importância
se a dotada presidente da ‘Loja de Londres’ da Soc. Teos. nutre sentimentos
de reverência ou desrespeito para com humildes e desconhecidos indivíduos
que estão na direção da Boa Lei tibetana - ou para
com o autor da presente, ou qualquer de seus Irmãos - mas antes
uma questão se a mencionada Sra. está capacitada para o propósito
que todos nós temos em nossos corações, a saber, a
disseminação da VERDADE através de doutrinas Esotéricas,
transmitidas por qualquer canal religioso, e a atenuação
do materialismo crasso e dos preconceitos e ceticismo cegos." (MLcr.,
p. 409, ML-85)
O Mestre KH continua a carta dizendo que concordava com a Sra. Kingsford,
quando essa dizia que o público ocidental deveria ver a ST como
uma escola filosófica constituída sobre uma base hermética,
uma vez que esse público, nunca tendo ouvido falar do Sistema Tibetano,
tinha uma noção muito pervertida acerca do Sistema Budista
Esotérico e que:
"Desse modo, e até esse ponto, nós concordamos com as
observações contidas na carta escrita pela Sra. K para Madame
B. [Blavatsky], com o pedido a essa última para ‘submeter a KH’;
e lembraríamos a nossos membros da ‘LL’, com referência a
isto, que a Filosofia Hermética é universal e não
sectária, enquanto que a Escola Tibetana sempre será considerada,
por aqueles que conhecem pouco, ou nada, dela, como mais ou menos marcada
pelo sectarismo. Uma vez que a primeira não está ligada a
nenhuma casta, cor ou credo, nenhum amante da sabedoria Esotérica
pode ter qualquer objeção ao nome o que, de outro modo, poderia
sentir se a Sociedade à qual ele pertence fosse rotulada com uma
denominação específica pertencente a uma dada religião.
Filosofia Hermética adapta-se a qualquer crença e filosofia
e não colide com nenhuma. Ela é o oceano sem limites da Verdade,
o ponto central para onde fluem e onde se encontram todos os rios, assim
como todas as correntes - estejam suas fontes no oriente, ocidente, norte
ou sul. Assim como o curso do rio depende da natureza de sua bacia, assim
o canal para a comunicação do Conhecimento precisa adaptar-se
às circunstâncias à sua volta.(...)
"Portanto é evidente que os métodos do Ocultismo, embora
no principal sejam imutáveis, ainda assim têm que se conformar
a diferentes épocas e circunstâncias. O estado da sociedade
inglesa como um todo - muito diferente daquela da Índia, onde nossa
existência é um assunto de crença comum e, por assim
dizer, inerente na população, e em vários casos de
positivo conhecimento - requer uma política muito diferente na apresentação
das Ciências Ocultas. O único objetivo pelo qual esforçar-nos
é o melhoramento da condição do HOMEM por meio da
difusão da verdade adaptada aos vários estágios de
seu desenvolvimento e àquele do país em que ele habita e
pertence. A VERDADE não tem marca de propriedade e não sofre
por causa do nome sob o qual ela é promulgada - desde que o referido
objetivo seja alcançado." (MLcr., p. 409, ML-85)
A Discórdia é a Harmonia do Universo
Para o Grande Chohan, os dois - Sinnett e Kingsford - eram necessários,
justamente por serem desiguais, por serem como "os dois pólos
calculados para manter todo o corpo em harmonia magnética, uma vez
que o criterioso emprego de ambos criará um excelente campo intermediário,
que não seria obtido por qualquer outro meio; um corrigindo e equilibrando
o outro." (MLcr., p. 411, ML-85) E o Mestre KH continua falando
da importância da diversidade de opiniões, da liberdade de
pensamento, da "harmoniosa discordância" pois, a discórdia
é a "verdadeira harmonia do universo", e que esse era o segredo
do sucesso da ST na Índia:
"Eu quase não precisaria salientar como o arranjo proposto
está calculado para conduzir a um harmonioso progresso da ‘L.L.S.T.’.
É um fato universalmente aceito que o maravilhoso sucesso da Sociedade
Teosófica na Índia é devido inteiramente ao seu princípio
de sábia e respeitosa tolerância às crenças
e opiniões dos outros. Nem mesmo o Presidente fundador tem o direito
de, direta ou indiretamente, interferir com a liberdade de pensamento do
mais humilde dos membros, e menos ainda procurar influenciar sua opinião
pessoal. É apenas na ausência dessa generosa consideração
que até mesmo a mais pálida sombra de diferença arma
buscadores da mesma verdade, de outro modo sérios e sinceros, com
o escorpião do ódio contra seus irmãos, igualmente
sinceros e sérios. Vítimas iludidas da verdade distorcida,
eles esquecem, ou nunca souberam, que a discórdia é a harmonia
do universo. Assim, na Sociedade Teos., do mesmo modo que nas gloriosas
fugas do imortal Mozart, cada parte vai incessantemente ao encalço
da outra, em harmoniosa discordância, nos caminhos do progresso Eterno,
para encontrar e finalmente se fundir, no limiar do objetivo perseguido,
em um harmonioso todo, que é a linha mestra na natureza." (MLcr.,
p. 412, ML-85)
Assim sendo, embora agradecendo à maioria dos teosofistas da LL
pela lealdade a Eles, Instrutores invisíveis, era preciso lembrar
que a Sra. Kingsford:
"...também é leal e verdadeira - àquilo
que ela acredita ser a Verdade. E como ela é assim leal e
verdadeira às suas convicções, por menor que
seja a minoria que a apoie no presente momento, a maioria, liderada pelo
Sr. Sinnett, nosso representante em Londres, não pode, com justiça,
atribuir-lhe a culpa (...). Assim os teosofistas que pensam do mesmo modo
que a Sra. K. - mesmo que eles se opusessem, sem tréguas, a algum
de nós pessoalmente – são merecedores de tanto respeito e
consideração de nossa parte e de seus membros companheiros
com visões opostas (enquanto eles forem sinceros), quanto aqueles
que estão prontos, com o Sr. Sinnett, a seguir incondicionalmente
apenas nossos ensinamentos especiais." (MLcr., p. 412, ML-85)
No início de fevereiro, o telegrama é mostrado à Loja
e Anna Kingsford confirmada na presidência. Como a situação
na LL ainda estava confusa e as duas facções não estavam
conseguindo chegar à harmonia pedida na carta, os membros decidiram
postergar a eleição, esperando a vinda de Olcott e Mohini
a Londres, para ajudar a resolver a questão, a qual, disse o Mestre
KH, embora desagradável, cansativa e estressante para alguns, "ainda
assim é melhor isso do que se a velha calma paralítica tivesse
continuado."(MLcr., p. 413, ML-84)
No próximo Informativo HPB veremos qual foi o desfecho
dessa eleição na Loja de Londres, e como a ST perdeu uma
grande oportunidade de se transformar naquele centro de vanguarda do pensamento
que os Mestres tanto almejavam, especialmente no Ocidente. Um centro onde
essas duas correntes pudessem conviver harmoniosamente, demonstrando, na
prática, a tolerância pregada no 10 Objetivo.
Como bem notou P. Washington:
"O conflito entre Blavatsky e Kingsford era tanto pessoal quanto doutrinário.
Duas mulheres fortes (...) estavam fadadas a entrar em conflito. (...)
Esta foi uma oportunidade perdida. As duas mulheres tinham forças
diferentes que poderiam ter sido complementares. (...) Pouco antes de sua
própria morte, Anna K. afirmou ter sonhado que encontrou HPB no
céu budista. Blavatsky ainda estava fumando seus desagradáveis
cigarros, mas assim o fez somente após pedir humildemente permissão
para o próprio patrão de Anna, Hermes (...). A cena é
apropriadamente simbólica: a divisão entre as crenças
ocidentais e orientais ..." (Washington, p. 77)
Bibliografia
Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings,
vol. I, VI TPH, Wheaton, 1977.
Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett.
TUP, Pasadena, 1973.
Blavatsky, H.P. Glosario Teosofico. Ed. Kier, 1977.
Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological
Seq.) TPH, Quezon City, 1993.
Kingsford, A.B. & Maitland, E. The Credo of Christendom,
1916. Kessinger Publ. Co., Montana.
Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society.
TPH, Adyar, 1989.
Shirley, R. Anna Kingsford & Edward Maitland. Mandrake
Press Ltd., Thame, 1993.
Washington, P. Madame Blavatsky’s Baboon. Schocken Books,
N. York, 1993
****
O Informativo HPB tem por objetivo compartilhar o resultado de
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