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Ceilão: Terra de Arhats
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
06, jan./2000)
O Ceilão, atual Sri Lanka, é uma ilha de pouco mais de 65
mil km2, ao sul da Índia. De acordo com a Doutrina
Secreta, é uma das terras mais antigas do planeta, pois HPB
diz que já fazia parte do antigo continente a que se deu o nome
de Lemúria (SD, II, p. 324), e que apenas esta ilha e uma
parte do que hoje é a África sobraram do que era a Atlântida
(SD, II, p. 314). Assim, o Ceilão deve trazer consigo os
mais antigos registros da humanidade.
Esta pequena ilha, direta ou indiretamente, influenciou e foi influenciada
pelo trabalho da ST ou de alguns de seus líderes, como HPB e Olcott
- que lá é reverenciado e conhecido como o "Budista Branco".
O Ceilão está presente no começo da vida da ST, na
figura de Sumangala, um sacerdote budista que foi seu vice-presidente honorário,
e na influência que a Madame exerceu sobre o singalês Anagarika
Dharmapala, que se tornou um reformador budista mundialmente conhecido.
A ilha também está ligada ao Mestre Morya e ao Mestre KH.
Neste Informativo veremos algo destas histórias
relacionadas ao Ceilão e procuraremos mostrar porque esta terra
esteve tão próxima de HPB e merece ser chamada de Terra
de Arhats.
Primeira Visita de HPB ao Ceilão
Embora o período inicial de viagens da Madame seja muito desconhecido,
o Ceilão já aparece neste começo. Sinnett relata que,
após suas andanças pelo México, ela resolveu que iria
à Índia, "pois já estava completamente consciente
da necessidade de buscar, além das fronteiras norte daquele país,
por uma maior aproximação com aqueles grandes instrutores
da mais elevada ciência mística, com os quais estava associado,
em sua mente, o guardião de suas visões." (Incidents,
p. 65) Após HPB ter se encontrado com um "inglês" e um hindu:
"... que ela logo verificou ser o que se chama de um ‘chela’,
ou aluno dos Mestres ou adeptos da ciência oculta oriental. Os três
peregrinos do misticismo foram, via o Cabo, para o Ceilão e, depois
disso, num veleiro, para Bombay onde, pelo que eu deduzi das datas, devem
ter chegado quase no final de 1852." (Incidents, p. 66)
Como já vimos no Informativo HPB n° 5, supomos
que este "inglês" seja Albert Rawson, o companheiro de HPB no Cairo
quando ambos foram instruídos por "Paulos Metamon" e, assim, esta
viagem provavelmente teria ocorrido entre 1854 e 1855. Como as datas são
incertas, o máximo que podemos dizer é que ela ocorreu na
primeira metade da década de 1850.
Primeiros Contatos com os Budistas do Ceilão
A segunda viagem de que se tem registro da Madame à ilha foi em
1880, acompanhada de Olcott e Damodar. Esta visita já era requisitada
há muito tempo, tanto pela comunidade leiga da ilha, quanto pelos
principais monges budistas, representados principalmente por U. Sumangala
e M. Gunananda, um monge que era famoso na ilha como orador.
Sumangala era o sacerdote-chefe do templo que fica ao pé do
Pico Adam, que é o ponto mais elevado do Ceilão, com 2.243
m. Para todos os efeitos práticos, era considerado como o Chefe
do Budismo do sul como um todo. (CW III, p. 531). HPB dá
a entender que Sumangala estava em contato com Adeptos, pois após
a visita de 1880 ela escreve:
"Gratificou imensamente nossos Delegados no Ceilão descobrir
que não apenas todos os sacerdotes e leigos educados, mas também
o povo não educado daquela ilha, sabiam da possibilidade do ser
humano adquirir os exaltados poderes psíquicos do adeptado, e o
fato de que eles têm sido adquiridos freqüentemente. Em Bentota
fomos levados a um templo onde uma comunidade de 500 destes Rahats,
ou adeptos, haviam anteriormente residido. Mais ainda, nós até
mesmo encontramos aqueles que encontraram, muito recentemente, tais homens
santos; e um certo eminente sacerdote, que filiou-se à nossa Sociedade,
logo depois teve a permissão de ver e trocar alguns de nossos sinais
de reconhecimento com um deles." (CW II, p.438)
A ligação entre os dois Fundadores e Sumangala havia sido
feita através de J.M. Peebles, um escritor e viajante americano
que estava no Ceilão em 1874, quando Sumangala organizou um debate
entre missionários cristãos e o monge Gunananda. Peebles
mostrou a Olcott e HPB uma reportagem sobre o acontecimento. Quem relata
como os fatos se desenrolaram é Anagarika Dharmapala, que depois
se tornou mundialmente famoso pelo trabalho pelo Budismo.
Dharmapala conta que, embora tivesse apenas dez anos nesta época,
lembra-se de como, por três dias, o debate movimentou centenas de
pessoas vindas de todas as partes da ilha. Olcott e a Madame escreveram
a Sumangala e Gunananda que "em benefício da fraternidade universal,
eles haviam acabado de fundar uma sociedade inspirada por filosofias orientais,
e que eles iriam ao Ceilão para ajudar os budistas" (Caldwell,
p. 117). HPB também enviou ao monge Gunananda os dois volumes de
Ísis, como um presente. (Gomes, p. 201) As cartas
de Olcott e HPB foram traduzidas para o singalês e amplamente distribuídas.
Anagarika conta que ao ler estas cartas:
"Meu coração sentiu afeto para com estes dois estrangeiros,
tão distantes e ainda assim tão solidários, e decidi
que, quando eles viessem ao Ceilão, eu me uniria a eles. Eles realmente
vieram a Colombo alguns anos mais tarde, quando eu tinha dezesseis anos.
(...) Eu me lembro de ir saudá-los. No momento em que toquei suas
mãos, eu me senti cheio de alegria. O desejo por fraternidade universal,
por todas as coisas que eles queriam para a humanidade, tocou uma corda
receptiva dentro de mim." (Caldwell, p. 117)
Ele tornou-se membro da ST aos 19 anos e em 1884 foi morar em Adyar. Foi
um grande companheiro de Olcott no esforço de unir todos os budistas
numa grande "Liga Internacional Budista". Em 1893, no Parlamento Mundial
das Religiões, em Chicago, Dharmapala representou o Budismo do sul
e, no dia da abertura do congresso, deu um depoimento do quanto havia sido
influenciado pelo contato com HPB e Olcott, dizendo:
"Estou hoje aqui para expressar minha mais profunda simpatia, eu deveria
dizer, minha mais profunda aliança à causa teosófica,
simplesmente porque ela me levou a respeitar minha própria religião.(...)
Eles disseram: Estude sua própria religião, não
ofenda a religião dos outros, e tente encontrar a verdade: mas leve
uma vida pura." (Gomes, p. 17)
A Bordo do Ellora
No dia 7 de maio de 1880 HPB, Olcott, Damodar e seis membros da ST partiram
de Bombay para o Ceilão, num vapor chamado Ellora. Esta é
uma curiosa coincidência, pois Ellora é um nome dado
à Seção da Fraternidade à qual o Mestre Serapis
estava ligado. (LMW 2nd S., p. 12). Numa carta para Olcott,
ainda na época de Filadélfia, o Mestre Serapis refere-se
a HPB como sendo uma Elloriana: "Este é para ser um de
seus testes mais difíceis ... uma Elloriana" (LMW
2nd S., p. 34)
Olcott descreve que eles eram praticamente os únicos passageiros
a bordo e tudo contribuía para que a viagem fosse muito agradável.
HPB estava muito animada e mantinha todos de bom humor. Ela passava os
dias jogando cartas com os oficiais do navio e, nos últimos dias
de viagem, após muita insistência destes, exibiu alguns de
seus poderes psíquicos, fazendo sinos tocarem no ar, "batidas" de
espíritos e trocando o seu nome, que estava bordado num lenço,
pelo deles.
Ela também predisse o futuro do velho capitão pelas cartas,
o que se tornou motivo de risos no navio, pois ela disse que ele mudaria
de profissão, abandonando o mar. Meses depois ele lhe escreveu confirmando
a realização da previsão. Olcott diz que, embora ela
ocasionalmente fizesse este tipo de predição, ela não
usava estes poderes em benefício próprio, pois afirma não
lembrar:
"... que ela tivesse previsto qualquer um dos muitos eventos dolorosos
que lhe aconteceram através de amigos traidores ou de inimigos maliciosos.
Se ela o fez, nunca contou, nem a mim, nem a qualquer outra pessoa que
eu tenha sabido." (ODL II, p. 155)
Chegada ao Ceilão
Eles chegaram em Colombo, capital do Ceilão, na manhã de
16 de maio, onde Gunananda e outros monges do monastério de Sumangala
vieram recebe-los. Antes do amanhecer do dia 17, chegaram a Galle, onde
foram recebidos com grande pompa, o que demonstra a importância que
lhes estavam atribuindo. Levados por um barco todo enfeitado com galhos
de árvores e flores, junto com os dirigentes budistas locais, eles
passaram por cordões de barcos pesqueiros enfeitados com panos vistosos
e, ao longo da praia, uma multidão os saudava acenando bandeiras
em sinal de boas-vindas. Uma grande agitação tomou conta
da ilha, pois eles eram os primeiros "brancos" a admirar o Budismo, em
flagrante contraste aos missionários cristãos. (ODL
II, p. 165) Três sacerdotes-chefe os receberam, abençoando-os
e recitando versos em Pali.
Como Gunananda havia traduzido para o singalês trechos de Ísis,
nos quais a Madame descreve alguns dos fenômenos que ela havia presenciado
em suas viagens e, tendo ouvido falar do fenômeno do lenço
no navio, os monges lhe pediram para que o repetisse. Ela consentiu, fazendo
aparecer o nome deles bordado num lenço, no lugar do dela, e também
sinos tocarem no ar, tanto no teto quanto na varanda. Ao velho monge Bulatgama,
HPB fez demonstrações dos sinos que mais pareciam uma explosão,
"batidas" de espíritos, e fez com que a mesa da sala de jantar tremesse
e se movesse, causando pasmo em sua seleta audiência. (ODL
II, p. 161)
É interessante notarmos como, nesta época, HPB era bastante
liberal nas demonstrações de fenômenos psíquicos,
os quais ainda eram um grande elemento de atração das pessoas
à ST. Depois eles foram retirados de cena pois, como disse o Mestre
KH: "Não são fenômenos físicos que
jamais trarão convicção aos corações
dos que não crêem na ‘Fraternidade’, mas sim fenômenos
de intelectualidade, filosofia e lógica..." (MLcr,
p. 147; ML-35)
HPB e Olcott São Formalmente Reconhecidos como Budistas
No dia 25 de maio, em Galle, HPB e Olcott declararam o pansil -
palavra Pali para pancha sila ou os cinco preceitos de compaixão,
honestidade, pureza, sinceridade e temperança, numa cerimônia
oficiada pelo venerável Bulatgama, sendo então formalmente
reconhecidos como budistas. Nesta cerimônia, o sacerdote recita os
"Cinco Preceitos" e os "Três Refúgios" em Pali, sendo
repetidos pelos candidatos e presentes. Relata Olcott:
"HPB ajoelhou-se diante da enorme estátua do Buda, e eu fiz
o mesmo. Tivemos muita dificuldade em pegar as palavras em Pali
que nós tínhamos que repetir após o velho monge, e
não sei se nós o teríamos conseguido se um amigo não
tivesse ficado bem atrás de nós e nos sussurrado as palavras
seriatim. Uma grande multidão estava presente, e repetia
logo depois de nós, e um silêncio absoluto era observado enquanto
nós lutávamos com as sentenças não familiares."
(ODL II, p. 168)
Mesmo se declarando budistas, o não dogmatismo era uma luz a guiar
suas vidas, pois Olcott diz que "... se o Budismo contivesse um único
dogma que nós fossemos obrigados a aceitar, não teríamos
declarado o pansil nem permanecidos budistas por dez minutos. Nosso Budismo
era aquele do Mestre-Adepto Gautama Buda, o qual era idêntico à
Religião-Sabedoria dos Upanishads arianos e à alma de todas
as antigas crenças mundiais." (ODL, II, p. 168)
Numa carta para Sinnett o Mestre KH, ao mencionar que até mesmo
os Centros da Hierarquia apresentam significativas diferenças externas,
refere-se ao fato da Madame ser budista:
"Mesmo no momento presente, existem três centros da Fraternidade
Oculta, os quais estão tão amplamente separados geograficamente,
quanto estão separados exotericamente - a verdadeira doutrina
esotérica sendo idêntica em substância, embora diferindo
nos termos; todos visando o mesmo grande objetivo, mas nenhum aparentemente
concordando quanto a detalhes de procedimento. É algo que acontece
todos os dias encontrar estudantes pertencendo a diferentes escolas de
pensamento oculto sentando-se lado a lado aos pés do mesmo Guru.
Upasika (Madame B.) e Subba Row, embora discípulos do mesmo
Mestre, não seguiram a mesma filosofia - um sendo budista e o outro
um adwaitee [hindu da escola não dualista]. Muitos preferem
se chamar budistas não porque a palavra esteja vinculada ao sistema
eclesiástico construído sobre as idéias básicas
da filosofia de nosso Senhor Gautama Buda, mas devido à vinculação
com a palavra sânscrita "Buddhi" - sabedoria, iluminação;
e como um protesto silencioso aos rituais vãos e cerimoniais vazios,
os quais em muitos casos foram causadores das maiores calamidades."(MLcr
p. 410, ML-85)
O grupo viajou pela ilha, encontrando e iniciando pessoas como membros
da ST, e Olcott dando palestras. Um dos resultados foi que, em 8 de junho,
a ST de Colombo foi organizada, possuindo duas subdivisões - uma
para leigos e outra só para monges. Isto foi feito para atender
a uma regra dos monges, que os impedia de se associarem a leigos, em termos
de igualdade, em questões mundanas. Sumangala ficou como presidente
da associação dos monges, bem como vice-presidente honorário
da ST como um todo. (ODL II, p. 179) Também em Kandy e algumas
outras cidades a ST foi organizada. Em 14 de julho o grupo partiu de Galle,
retornando a Bombay.
Olcott voltou a visitar o Ceilão quase todos os anos, desenvolvendo
um trabalho especialmente relacionado à criação de
escolas budistas. Em 1880, havia na ilha apenas 4 escolas budistas, contra
805 cristãs. Em 1881, ficou por lá quase 8 meses e escreveu
o "Catecismo Budista". Em 1900 já havia mais de duzentas
escolas budistas. (Murphet, p. 140)
Terceira Visita ao Ceilão
HPB fez sua terceira e última visita ao Ceilão entre 17 e
21 de dezembro de 1884, quando retornava da Europa para a Índia,
com o casal Cooper-Oakley e C.W. Leadbeater, que havia se juntado ao grupo
no Egito. (Neff, p. 307) Em Colombo, Leadbeater também passou
pela cerimônia do pansil, ministrada por Sumangala. Como era
a primeira vez que um sacerdote cristão declarava-se publicamente
como budista, o fato causou grande sensação. (ODL
III, p. 205)
Embora nesta época o escândalo "Coulomb", acusando a Madame
de impostora, estivesse sendo discutido e comentado em todo o mundo teosófico,
no Ceilão sua chegada foi marcada por uma tumultuada recepção,
onde estavam membros da ST e centenas de estudantes, inclusive alunos do
próprio Christian College, cujos professores padres
estavam atacando HPB, juntamente com o casal Coulomb. Os estudantes foram
recebe-la no porto com guirlandas de flores e a escoltaram em procissão
até o salão onde se encontravam seus simpatizantes. Olcott
diz que quando a Madame entrou no salão, eles se inclinavam a seus
pés, dando vazão a seus sentimentos de estima, e gritando
vivas à medida que ela caminhava, acompanhada por ele, até
a plataforma. Seus olhos estavam cheios de luz e quase derramavam lágrimas
de alegria. Para os estudantes e indianos em geral, ela representava o
renascimento de sua própria religião, representava a antiga
crença nos poderes da Ioga e na existência dos Mahatmas. E
naquele dia eles mostraram claramente de que lado estavam. (Murphet,
p. 196)
Porque HPB Não Voltou Mais à Índia
Esta calorosa recepção deve ter
auxiliado HPB a enfrentar os duros dias que se seguiram. Chegando a Adyar,
ela e Olcott desentenderam-se. Ela queria ir à justiça contra
os Coulombs, mas ele não concordava. Um comitê especialmente
designado para discutir esta questão decidiu que a ela não
deveria entrar na justiça contra seus difamadores. Entre outras
razões porque, especialmente para os membros indianos, os nomes
dos Mestres não poderiam ser associados a uma coisa tão mundana.
HPB não gostou desta decisão, mas acatou-a. Pouco tempo depois,
em 31 de março de 1885, muito doente, ela partiu para a Europa,
nunca mais retornando à Índia.
Em 1890, numa circular aos membros indianos, ela revela porque fizera
um voto de nunca mais voltar a Adyar, uma vez que a fragilidade de sua
saúde era apenas uma desculpa, pois "Aqueles que me salvaram
da morte em Adyar, e mais duas vezes desde então, poderiam tão
facilmente me manter viva lá como Eles o fazem aqui." (CW
XII, p. 157). A verdadeira razão era que, em Adyar, o espírito
de devoção aos Mestres e a coragem de proclamá-lo
estavam cada vez mais reduzidos, e também o comportamento que os
dirigentes em Adyar haviam tido, decidindo que ela não se defenderia
judicialmente das acusações e difamações que
sofria. Ela escreve:
"... em 1884, Coronel Olcott e eu saímos para uma visita à
Europa e, enquanto estávamos longe, ‘caiu o raio’ Padres-Coulomb.
(...) Abalados em suas crenças, os temerosos começaram a
se perguntar: ‘Se os Mestres são Mahatmas genuínos, por
que Eles permitiram que tais coisas acontecessem...?’ (...)
"Eu digo, se naquele momento crítico, os membros da Sociedade, e
especialmente seus líderes em Adyar, indianos e europeus, tivessem
permanecido unidos como um só homem, firmes em suas convicções
da realidade e poder dos Mestres, a Teosofia teria saído mais triunfante
do que nunca, e nenhum de seus temores jamais teria se realizado, por mais
ardilosas que fossem as armadilhas legais preparadas contra mim, e sejam
lá quais tenham sido os enganos e erros de julgamento que eu, sua
humilde representante, possa ter cometido na condução executiva
da questão.
"Mas a lealdade e a coragem das Autoridades de Adyar e dos poucos europeus
que haviam confiado nos Mestres, não esteve à altura da provação
quando ela veio. Apesar de meus protestos, fui impelida a ir embora da
sede." (CW XII, p. 160-162)
Ceilão: Candidato a Ser a Sede da ST
Em outubro de 1877, ao escrever para Aksakov anunciando a publicação
de Ísis, HPB lhe disse: "Temos agora numerosos membros
correspondentes na Índia, e pretendemos no ano que vem partirmos
para o Ceilão e nos instalarmos lá, como Sede de nossa Sociedade."
(Solovyoff, p. 277) O plano de ter a sede no Ceilão
nunca foi concretizado, e a Índia foi a escolhida, ficando a sede
em Bombay de fevereiro de 1879 até dezembro de 1882, quando HPB
e Olcott mudaram-se para Adyar. Porém, ainda em outubro de 1881,
a possibilidade de fazer no Ceilão a sede da ST e moradia de HPB,
ainda era considerada como uma opção.
Nesta época a Madame estava muito nervosa, pois estava sendo
chamada pela imprensa de aventureira inescrupulosa e de espiã russa.
Hume escreveu um artigo defendendo-a e, com esta atitude, o Mestre M. sentiu-se
em dívida para com ele, agradecido pelo que ele fizera para auxiliar
HPB. Para o Mestre, uma dívida de gratidão era algo sagrado.
Assim, ele tenta elucidar um mal entendido que havia ocorrido entre ele,
Sinnett e a Madame:
"Eu estava lá, respeitados Sahibs, e posso repetir cada palavra
do que ela disse: "O que é isto? ... O que você andou fazendo
ou dizendo para KH" - ela gritou, em sua costumeira maneira excitada e
nervosa, para o Sr. Sinnett, que estava sozinho no quarto - "que M., (me
nomeando) esteja tão bravo, a ponto de me dizer para preparar para
ir embora e estabelecer nossa sede no Ceilão?" - foram as primeiras
palavras que ela disse, assim mostrando que ela não sabia de
nada com certeza, e lhe foi dito menos ainda, e simplesmente
conjeturou do que eu havia lhe dito. E o que eu havia lhe dito foi, simplesmente,
que ela faria melhor em se preparar para o pior e para se estabelecer no
Ceilão, do que fazer de si mesma uma tola, tremendo tanto a cada
carta que lhe era entregue para enviar a KH; que a menos que ela aprendesse
a se controlar melhor do que ela estava fazendo, eu poria um fim neste
negócio ..." (MLcr., p. 88, ML- 29)
Mestre Morya e o Ceilão
Este interesse de HPB pelo Ceilão, e a própria referência
do Mestre Morya dada acima, dizendo-lhe que "ela faria melhor em se
preparar para o pior e para se estabelecer no Ceilão" pode ser
melhor compreendida quando levamos em conta a revelação que
a Madame faz à sua tia a respeito de seu Mestre:
"Ele é um budista, mas não da igreja dogmática,
mas pertencendo ao Shivabhavika, os assim chamados
Ateus do Nepal (?!!). Ele mora no Ceilão mas o que
ele está fazendo lá eu não sei. Eu não posso,
não tenho o direito de lhe contar tudo, mas o final foi que
deixei Nova Iorque e como um resultado disso fiquei por sete semanas num
deserto, numa floresta em Sangus, onde eu o via todos os dias; primeiro
na presença de um estudioso indiano do Budismo e mais tarde sozinha,
e estava quase morrendo de medo a cada vez. Este indiano não estava
em seu duplo, mas em seu corpo normal. Ele foi o primeiro a organizar a
Sociedade Teosófica." (HPB Speaks, I, p. 222).
Esta afirmação de HPB é corroborada por Mâji,
aquela iogue que, como citamos no Informativo HPB n° 2,
a Madame, Olcott e Damodar haviam encontrado em Benares, em 1879. Mâji,
que tinha poderes psíquicos, dizia que o Guru dela era o mesmo que
o da Madame, e que ele havia nascido no Punjab, mas "geralmente vivia
na parte do sul da Índia e, especialmente, no Ceilão. Ele
tem cerca de 300 anos e tem um companheiro mais ou menos a mesma idade,
embora ambos não aparentem mais de quarenta. Em poucos séculos
ele entrará no corpo de um ‘Kshatriya’ (a casta dos guerreiros)
e fará algumas grandes obras pela Índia". (Eek,
p. 38) Damodar conta numa carta para Judge, que certa
vez o Mestre KH (simbolizado por ?) o levou
a um certo local no Ceilão. Por suas descrições, fica
claro que isto ocorreu em 1880, na viagem com HPB e Olcott. Ele diz que
numa noite, quando se preparava para dormir, o Mestre KH apareceu em seus
aposentos e o conduziu a um local que parecia uma pequena ilha.
"No topo da construção havia uma luz triangular. À
distância, uma pessoa na beira do mar pensaria ser um lugar isolado
que estava todo coberto por arbustos verdes. Há apenas uma entrada.
E ninguém a pode encontrar, a não ser que o ocupante deseje
que a pessoa ache o caminho. Após chegar na ilha, tivemos que andar
à volta por uns cinco minutos, antes de chegar em frente do verdadeiro
prédio. Lá, num pequeno jardim em frente, encontramos um
dos Irmãos sentado. Eu o havia visto antes na sala do Conselho,
e é a ele que este lugar pertence. ?
sentou-se próximo dele e eu fiquei de pé em frente a eles.
Estivemos lá por cerca de meia hora. Mostraram-me uma parte do local.
Quão agradável ele é! E dentro deste local há
uma espécie de pequeno quarto onde o corpo fica quando o Espírito
anda por aí. Que local encantador e fascinante! Que agradável
perfume de rosas e de vários tipos de flores! Desejaria que me fosse
permitido visitar aquele local novamente se eu for ao Ceilão em
outra ocasião." (Eek, p 56)
Como temos a referência da Madame que o Mestre M. morava no Ceilão,
é provável que seja a sua morada que Damodar tenha visitado.
Damodar cita numa outra carta para Judge, que ele também havia sido
levado a outros locais no Ceilão, um deles uma casa privada de ?:
"Em minha última carta eu lhe omiti mencionar os dois outros
locais aos quais fui levado antes deste último que mencionei em
minha carta. Mas, como não estou autorizado a descreve-los, me absterei
de faze-lo pelo momento, até que me seja permitido. Apenas direi
que um deles é próximo a Colombo, uma casa privada de ?
e a outro próximo a Kandy, uma biblioteca." (Eek, p. 57)
Colombo, capital do Ceilão, fica à beira mar e Kandy na parte
montanhosa, não muito distante do Pico de Adam, em cujo sopé
ficava o monastério de Sumangala. Sendo
o Ceilão um local onde tanto o Mestre Morya quanto o Mestre KH possuíam
residências, e sendo uma terra onde a "possibilidade do ser humano
adquirir os exaltados poderes psíquicos do adeptado, e o fato de
que eles têm sido adquiridos freqüentemente" era um conhecimento
difundido, e onde uma "comunidade de 500 destes Rahats,
ou adeptos, haviam anteriormente residido", começamos a entender
melhor porque a Madame foi para lá no início de suas viagens,
o seu interesse por esta terra, o projeto de que a sede da ST fosse para
lá, bem como porque ela merece ser chamada de Terra de Arhats.
Bibliografia
Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings,
vol. II, III e XII. TPH, Wheaton, 1982.
Blavatsky, H.P. H.P.B. Speaks, vol. I. Ed. by C. Jinarajadasa.
TPH, Adyar, 1986.
Blavatsky, H.P. The Secret Doctrine. TPH, Adyar, 1978.
Caldwell, D. The Occult World of Madame Blavatsky. Impossible
Dream Publ., Tucson, 1991
Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement.
TPH, Adyar, 1978.
Gomes, M. Theosophical History, vol. 3, n°
7-8, July-October 1991.
Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chr. Sequence)
TPH, Quezon City, 1993.
Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom,
2nd Series. TPH, Adyar, 1973.
Murphet, H. Hammer on the Mountain. TPH, Wheaton, 1972.
Neff, Mary K. Personal Memoirs of H.P. Blavatsky. Quest
Book, TPH, Wheaton, 1971.
Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. II. e III TPH,
Adyar, 1972, 1974.
Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P.B.,
1886. Kessinger Publ. Co., Montana.
Solovyoff, V.S. A Modern Priestess of Isis, Longmans,
Green, and Co., London, 1895.
****
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