Ceilão: Terra de Arhats 
Marina Cesar Sisson 
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 06, jan./2000) 
 
O Ceilão, atual Sri Lanka, é uma ilha de pouco mais de 65 mil km2, ao sul da Índia. De acordo com a Doutrina Secreta, é uma das terras mais antigas do planeta, pois HPB diz que já fazia parte do antigo continente a que se deu o nome de Lemúria (SD, II, p. 324), e que apenas esta ilha e uma parte do que hoje é a África sobraram do que era a Atlântida (SD, II, p. 314). Assim, o Ceilão deve trazer consigo os mais antigos registros da humanidade.  

Esta pequena ilha, direta ou indiretamente, influenciou e foi influenciada pelo trabalho da ST ou de alguns de seus líderes, como HPB e Olcott - que lá é reverenciado e conhecido como o "Budista Branco". O Ceilão está presente no começo da vida da ST, na figura de Sumangala, um sacerdote budista que foi seu vice-presidente honorário, e na influência que a Madame exerceu sobre o singalês Anagarika Dharmapala, que se tornou um reformador budista mundialmente conhecido. A ilha também está ligada ao Mestre Morya e ao Mestre KH.  

Neste Informativo veremos algo destas histórias relacionadas ao Ceilão e procuraremos mostrar porque esta terra esteve tão próxima de HPB e merece ser chamada de Terra de Arhats.  

Primeira Visita de HPB ao Ceilão

Embora o período inicial de viagens da Madame seja muito desconhecido, o Ceilão já aparece neste começo. Sinnett relata que, após suas andanças pelo México, ela resolveu que iria à Índia, "pois já estava completamente consciente da necessidade de buscar, além das fronteiras norte daquele país, por uma maior aproximação com aqueles grandes instrutores da mais elevada ciência mística, com os quais estava associado, em sua mente, o guardião de suas visões." (Incidents, p. 65) Após HPB ter se encontrado com um "inglês" e um hindu:  

"... que ela logo verificou ser o que se chama de um ‘chela’, ou aluno dos Mestres ou adeptos da ciência oculta oriental. Os três peregrinos do misticismo foram, via o Cabo, para o Ceilão e, depois disso, num veleiro, para Bombay onde, pelo que eu deduzi das datas, devem ter chegado quase no final de 1852." (Incidents, p. 66) 

Como já vimos no Informativo HPB n° 5, supomos que este "inglês" seja Albert Rawson, o companheiro de HPB no Cairo quando ambos foram instruídos por "Paulos Metamon" e, assim, esta viagem provavelmente teria ocorrido entre 1854 e 1855. Como as datas são incertas, o máximo que podemos dizer é que ela ocorreu na primeira metade da década de 1850.  

Primeiros Contatos com os Budistas do Ceilão

A segunda viagem de que se tem registro da Madame à ilha foi em 1880, acompanhada de Olcott e Damodar. Esta visita já era requisitada há muito tempo, tanto pela comunidade leiga da ilha, quanto pelos principais monges budistas, representados principalmente por U. Sumangala e M. Gunananda, um monge que era famoso na ilha como orador.  
Sumangala era o sacerdote-chefe do templo que fica ao pé do Pico Adam, que é o ponto mais elevado do Ceilão, com 2.243 m. Para todos os efeitos práticos, era considerado como o Chefe do Budismo do sul como um todo. (CW III, p. 531). HPB dá a entender que Sumangala estava em contato com Adeptos, pois após a visita de 1880 ela escreve:   "Gratificou imensamente nossos Delegados no Ceilão descobrir que não apenas todos os sacerdotes e leigos educados, mas também o povo não educado daquela ilha, sabiam da possibilidade do ser humano adquirir os exaltados poderes psíquicos do adeptado, e o fato de que eles têm sido adquiridos freqüentemente. Em Bentota fomos levados a um templo onde uma comunidade de 500 destes Rahats, ou adeptos, haviam anteriormente residido. Mais ainda, nós até mesmo encontramos aqueles que encontraram, muito recentemente, tais homens santos; e um certo eminente sacerdote, que filiou-se à nossa Sociedade, logo depois teve a permissão de ver e trocar alguns de nossos sinais de reconhecimento com um deles." (CW II, p.438) A ligação entre os dois Fundadores e Sumangala havia sido feita através de J.M. Peebles, um escritor e viajante americano que estava no Ceilão em 1874, quando Sumangala organizou um debate entre missionários cristãos e o monge Gunananda. Peebles mostrou a Olcott e HPB uma reportagem sobre o acontecimento. Quem relata como os fatos se desenrolaram é Anagarika Dharmapala, que depois se tornou mundialmente famoso pelo trabalho pelo Budismo.  
Dharmapala conta que, embora tivesse apenas dez anos nesta época, lembra-se de como, por três dias, o debate movimentou centenas de pessoas vindas de todas as partes da ilha. Olcott e a Madame escreveram a Sumangala e Gunananda que "em benefício da fraternidade universal, eles haviam acabado de fundar uma sociedade inspirada por filosofias orientais, e que eles iriam ao Ceilão para ajudar os budistas" (Caldwell, p. 117). HPB também enviou ao monge Gunananda os dois volumes de Ísis, como um presente. (Gomes, p. 201) As cartas de Olcott e HPB foram traduzidas para o singalês e amplamente distribuídas. Anagarika conta que ao ler estas cartas:   "Meu coração sentiu afeto para com estes dois estrangeiros, tão distantes e ainda assim tão solidários, e decidi que, quando eles viessem ao Ceilão, eu me uniria a eles. Eles realmente vieram a Colombo alguns anos mais tarde, quando eu tinha dezesseis anos. (...) Eu me lembro de ir saudá-los. No momento em que toquei suas mãos, eu me senti cheio de alegria. O desejo por fraternidade universal, por todas as coisas que eles queriam para a humanidade, tocou uma corda receptiva dentro de mim." (Caldwell, p. 117) Ele tornou-se membro da ST aos 19 anos e em 1884 foi morar em Adyar. Foi um grande companheiro de Olcott no esforço de unir todos os budistas numa grande "Liga Internacional Budista". Em 1893, no Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, Dharmapala representou o Budismo do sul e, no dia da abertura do congresso, deu um depoimento do quanto havia sido influenciado pelo contato com HPB e Olcott, dizendo:   "Estou hoje aqui para expressar minha mais profunda simpatia, eu deveria dizer, minha mais profunda aliança à causa teosófica, simplesmente porque ela me levou a respeitar minha própria religião.(...) Eles disseram: Estude sua própria religião, não ofenda a religião dos outros, e tente encontrar a verdade: mas leve uma vida pura." (Gomes, p. 17) 

A Bordo do Ellora

No dia 7 de maio de 1880 HPB, Olcott, Damodar e seis membros da ST partiram de Bombay para o Ceilão, num vapor chamado Ellora. Esta é uma curiosa coincidência, pois Ellora é um nome dado à Seção da Fraternidade à qual o Mestre Serapis estava ligado. (LMW 2nd S., p. 12). Numa carta para Olcott, ainda na época de Filadélfia, o Mestre Serapis refere-se a HPB como sendo uma Elloriana: "Este é para ser um de seus testes mais difíceis ... uma Elloriana" (LMW 2nd S., p. 34)  
Olcott descreve que eles eram praticamente os únicos passageiros a bordo e tudo contribuía para que a viagem fosse muito agradável. HPB estava muito animada e mantinha todos de bom humor. Ela passava os dias jogando cartas com os oficiais do navio e, nos últimos dias de viagem, após muita insistência destes, exibiu alguns de seus poderes psíquicos, fazendo sinos tocarem no ar, "batidas" de espíritos e trocando o seu nome, que estava bordado num lenço, pelo deles.  
Ela também predisse o futuro do velho capitão pelas cartas, o que se tornou motivo de risos no navio, pois ela disse que ele mudaria de profissão, abandonando o mar. Meses depois ele lhe escreveu confirmando a realização da previsão. Olcott diz que, embora ela ocasionalmente fizesse este tipo de predição, ela não usava estes poderes em benefício próprio, pois afirma não lembrar:   "... que ela tivesse previsto qualquer um dos muitos eventos dolorosos que lhe aconteceram através de amigos traidores ou de inimigos maliciosos. Se ela o fez, nunca contou, nem a mim, nem a qualquer outra pessoa que eu tenha sabido." (ODL II, p. 155) 

Chegada ao Ceilão

Eles chegaram em Colombo, capital do Ceilão, na manhã de 16 de maio, onde Gunananda e outros monges do monastério de Sumangala vieram recebe-los. Antes do amanhecer do dia 17, chegaram a Galle, onde foram recebidos com grande pompa, o que demonstra a importância que lhes estavam atribuindo. Levados por um barco todo enfeitado com galhos de árvores e flores, junto com os dirigentes budistas locais, eles passaram por cordões de barcos pesqueiros enfeitados com panos vistosos e, ao longo da praia, uma multidão os saudava acenando bandeiras em sinal de boas-vindas. Uma grande agitação tomou conta da ilha, pois eles eram os primeiros "brancos" a admirar o Budismo, em flagrante contraste aos missionários cristãos. (ODL II, p. 165) Três sacerdotes-chefe os receberam, abençoando-os e recitando versos em Pali.  

Como Gunananda havia traduzido para o singalês trechos de Ísis, nos quais a Madame descreve alguns dos fenômenos que ela havia presenciado em suas viagens e, tendo ouvido falar do fenômeno do lenço no navio, os monges lhe pediram para que o repetisse. Ela consentiu, fazendo aparecer o nome deles bordado num lenço, no lugar do dela, e também sinos tocarem no ar, tanto no teto quanto na varanda. Ao velho monge Bulatgama, HPB fez demonstrações dos sinos que mais pareciam uma explosão, "batidas" de espíritos, e fez com que a mesa da sala de jantar tremesse e se movesse, causando pasmo em sua seleta audiência. (ODL II, p. 161)  

É interessante notarmos como, nesta época, HPB era bastante liberal nas demonstrações de fenômenos psíquicos, os quais ainda eram um grande elemento de atração das pessoas à ST. Depois eles foram retirados de cena pois, como disse o Mestre KH: "Não são fenômenos físicos que jamais trarão convicção aos corações dos que não crêem na ‘Fraternidade’, mas sim fenômenos de intelectualidade, filosofia e lógica..." (MLcr, p. 147; ML-35)  

HPB e Olcott São Formalmente Reconhecidos como Budistas

No dia 25 de maio, em Galle, HPB e Olcott declararam o pansil - palavra Pali para pancha sila ou os cinco preceitos de compaixão, honestidade, pureza, sinceridade e temperança, numa cerimônia oficiada pelo venerável Bulatgama, sendo então formalmente reconhecidos como budistas. Nesta cerimônia, o sacerdote recita os "Cinco Preceitos" e os "Três Refúgios" em Pali, sendo repetidos pelos candidatos e presentes. Relata Olcott:   "HPB ajoelhou-se diante da enorme estátua do Buda, e eu fiz o mesmo. Tivemos muita dificuldade em pegar as palavras em Pali que nós tínhamos que repetir após o velho monge, e não sei se nós o teríamos conseguido se um amigo não tivesse ficado bem atrás de nós e nos sussurrado as palavras seriatim. Uma grande multidão estava presente, e repetia logo depois de nós, e um silêncio absoluto era observado enquanto nós lutávamos com as sentenças não familiares." (ODL II, p. 168) Mesmo se declarando budistas, o não dogmatismo era uma luz a guiar suas vidas, pois Olcott diz que "... se o Budismo contivesse um único dogma que nós fossemos obrigados a aceitar, não teríamos declarado o pansil nem permanecidos budistas por dez minutos. Nosso Budismo era aquele do Mestre-Adepto Gautama Buda, o qual era idêntico à Religião-Sabedoria dos Upanishads arianos e à alma de todas as antigas crenças mundiais." (ODL, II, p. 168)  
Numa carta para Sinnett o Mestre KH, ao mencionar que até mesmo os Centros da Hierarquia apresentam significativas diferenças externas, refere-se ao fato da Madame ser budista:   "Mesmo no momento presente, existem três centros da Fraternidade Oculta, os quais estão tão amplamente separados geograficamente, quanto estão separados exotericamente - a verdadeira doutrina esotérica sendo idêntica em substância, embora diferindo nos termos; todos visando o mesmo grande objetivo, mas nenhum aparentemente concordando quanto a detalhes de procedimento. É algo que acontece todos os dias encontrar estudantes pertencendo a diferentes escolas de pensamento oculto sentando-se lado a lado aos pés do mesmo Guru. Upasika (Madame B.) e Subba Row, embora discípulos do mesmo Mestre, não seguiram a mesma filosofia - um sendo budista e o outro um adwaitee [hindu da escola não dualista]. Muitos preferem se chamar budistas não porque a palavra esteja vinculada ao sistema eclesiástico construído sobre as idéias básicas da filosofia de nosso Senhor Gautama Buda, mas devido à vinculação com a palavra sânscrita "Buddhi" - sabedoria, iluminação; e como um protesto silencioso aos rituais vãos e cerimoniais vazios, os quais em muitos casos foram causadores das maiores calamidades."(MLcr p. 410, ML-85) O grupo viajou pela ilha, encontrando e iniciando pessoas como membros da ST, e Olcott dando palestras. Um dos resultados foi que, em 8 de junho, a ST de Colombo foi organizada, possuindo duas subdivisões - uma para leigos e outra só para monges. Isto foi feito para atender a uma regra dos monges, que os impedia de se associarem a leigos, em termos de igualdade, em questões mundanas. Sumangala ficou como presidente da associação dos monges, bem como vice-presidente honorário da ST como um todo. (ODL II, p. 179) Também em Kandy e algumas outras cidades a ST foi organizada. Em 14 de julho o grupo partiu de Galle, retornando a Bombay.  
Olcott voltou a visitar o Ceilão quase todos os anos, desenvolvendo um trabalho especialmente relacionado à criação de escolas budistas. Em 1880, havia na ilha apenas 4 escolas budistas, contra 805 cristãs. Em 1881, ficou por lá quase 8 meses e escreveu o "Catecismo Budista". Em 1900 já havia mais de duzentas escolas budistas. (Murphet, p. 140)  

Terceira Visita ao Ceilão

HPB fez sua terceira e última visita ao Ceilão entre 17 e 21 de dezembro de 1884, quando retornava da Europa para a Índia, com o casal Cooper-Oakley e C.W. Leadbeater, que havia se juntado ao grupo no Egito. (Neff, p. 307) Em Colombo, Leadbeater também passou pela cerimônia do pansil, ministrada por Sumangala. Como era a primeira vez que um sacerdote cristão declarava-se publicamente como budista, o fato causou grande sensação. (ODL III, p. 205)  

Embora nesta época o escândalo "Coulomb", acusando a Madame de impostora, estivesse sendo discutido e comentado em todo o mundo teosófico, no Ceilão sua chegada foi marcada por uma tumultuada recepção, onde estavam membros da ST e centenas de estudantes, inclusive alunos do próprio Christian College, cujos professores padres estavam atacando HPB, juntamente com o casal Coulomb. Os estudantes foram recebe-la no porto com guirlandas de flores e a escoltaram em procissão até o salão onde se encontravam seus simpatizantes. Olcott diz que quando a Madame entrou no salão, eles se inclinavam a seus pés, dando vazão a seus sentimentos de estima, e gritando vivas à medida que ela caminhava, acompanhada por ele, até a plataforma. Seus olhos estavam cheios de luz e quase derramavam lágrimas de alegria. Para os estudantes e indianos em geral, ela representava o renascimento de sua própria religião, representava a antiga crença nos poderes da Ioga e na existência dos Mahatmas. E naquele dia eles mostraram claramente de que lado estavam. (Murphet, p. 196)  

Porque HPB Não Voltou Mais à Índia

  Esta calorosa recepção deve ter auxiliado HPB a enfrentar os duros dias que se seguiram. Chegando a Adyar, ela e Olcott desentenderam-se. Ela queria ir à justiça contra os Coulombs, mas ele não concordava. Um comitê especialmente designado para discutir esta questão decidiu que a ela não deveria entrar na justiça contra seus difamadores. Entre outras razões porque, especialmente para os membros indianos, os nomes dos Mestres não poderiam ser associados a uma coisa tão mundana. HPB não gostou desta decisão, mas acatou-a. Pouco tempo depois, em 31 de março de 1885, muito doente, ela partiu para a Europa, nunca mais retornando à Índia.  

Em 1890, numa circular aos membros indianos, ela revela porque fizera um voto de nunca mais voltar a Adyar, uma vez que a fragilidade de sua saúde era apenas uma desculpa, pois "Aqueles que me salvaram da morte em Adyar, e mais duas vezes desde então, poderiam tão facilmente me manter viva lá como Eles o fazem aqui." (CW XII, p. 157). A verdadeira razão era que, em Adyar, o espírito de devoção aos Mestres e a coragem de proclamá-lo estavam cada vez mais reduzidos, e também o comportamento que os dirigentes em Adyar haviam tido, decidindo que ela não se defenderia judicialmente das acusações e difamações que sofria. Ela escreve:  

"... em 1884, Coronel Olcott e eu saímos para uma visita à Europa e, enquanto estávamos longe, ‘caiu o raio’ Padres-Coulomb. (...) Abalados em suas crenças, os temerosos começaram a se perguntar: ‘Se os Mestres são Mahatmas genuínos, por que Eles permitiram que tais coisas acontecessem...?’ (...)  
 
"Eu digo, se naquele momento crítico, os membros da Sociedade, e especialmente seus líderes em Adyar, indianos e europeus, tivessem permanecido unidos como um só homem, firmes em suas convicções da realidade e poder dos Mestres, a Teosofia teria saído mais triunfante do que nunca, e nenhum de seus temores jamais teria se realizado, por mais ardilosas que fossem as armadilhas legais preparadas contra mim, e sejam lá quais tenham sido os enganos e erros de julgamento que eu, sua humilde representante, possa ter cometido na condução executiva da questão.  
 
"Mas a lealdade e a coragem das Autoridades de Adyar e dos poucos europeus que haviam confiado nos Mestres, não esteve à altura da provação quando ela veio. Apesar de meus protestos, fui impelida a ir embora da sede." (CW XII, p. 160-162) 

Ceilão: Candidato a Ser a Sede da ST

Em outubro de 1877, ao escrever para Aksakov anunciando a publicação de Ísis, HPB lhe disse: "Temos agora numerosos membros correspondentes na Índia, e pretendemos no ano que vem partirmos para o Ceilão e nos instalarmos lá, como Sede de nossa Sociedade." (Solovyoff, p. 277) O plano de ter a sede no Ceilão nunca foi concretizado, e a Índia foi a escolhida, ficando a sede em Bombay de fevereiro de 1879 até dezembro de 1882, quando HPB e Olcott mudaram-se para Adyar. Porém, ainda em outubro de 1881, a possibilidade de fazer no Ceilão a sede da ST e moradia de HPB, ainda era considerada como uma opção.  

Nesta época a Madame estava muito nervosa, pois estava sendo chamada pela imprensa de aventureira inescrupulosa e de espiã russa. Hume escreveu um artigo defendendo-a e, com esta atitude, o Mestre M. sentiu-se em dívida para com ele, agradecido pelo que ele fizera para auxiliar HPB. Para o Mestre, uma dívida de gratidão era algo sagrado. Assim, ele tenta elucidar um mal entendido que havia ocorrido entre ele, Sinnett e a Madame:  

"Eu estava lá, respeitados Sahibs, e posso repetir cada palavra do que ela disse: "O que é isto? ... O que você andou fazendo ou dizendo para KH" - ela gritou, em sua costumeira maneira excitada e nervosa, para o Sr. Sinnett, que estava sozinho no quarto - "que M., (me nomeando) esteja tão bravo, a ponto de me dizer para preparar para ir embora e estabelecer nossa sede no Ceilão?" - foram as primeiras palavras que ela disse, assim mostrando que ela não sabia de nada com certeza, e lhe foi dito menos ainda, e simplesmente conjeturou do que eu havia lhe dito. E o que eu havia lhe dito foi, simplesmente, que ela faria melhor em se preparar para o pior e para se estabelecer no Ceilão, do que fazer de si mesma uma tola, tremendo tanto a cada carta que lhe era entregue para enviar a KH; que a menos que ela aprendesse a se controlar melhor do que ela estava fazendo, eu poria um fim neste negócio ..." (MLcr., p. 88, ML- 29) 

Mestre Morya e o Ceilão

Este interesse de HPB pelo Ceilão, e a própria referência do Mestre Morya dada acima, dizendo-lhe que "ela faria melhor em se preparar para o pior e para se estabelecer no Ceilão" pode ser melhor compreendida quando levamos em conta a revelação que a Madame faz à sua tia a respeito de seu Mestre:   "Ele é um budista, mas não da igreja dogmática, mas pertencendo ao Shivabhavika, os assim chamados Ateus do Nepal (?!!). Ele mora no Ceilão mas o que ele está fazendo lá eu não sei. Eu não posso, não tenho o direito de lhe contar tudo, mas o final foi que deixei Nova Iorque e como um resultado disso fiquei por sete semanas num deserto, numa floresta em Sangus, onde eu o via todos os dias; primeiro na presença de um estudioso indiano do Budismo e mais tarde sozinha, e estava quase morrendo de medo a cada vez. Este indiano não estava em seu duplo, mas em seu corpo normal. Ele foi o primeiro a organizar a Sociedade Teosófica." (HPB Speaks, I, p. 222). Esta afirmação de HPB é corroborada por Mâji, aquela iogue que, como citamos no Informativo HPB n° 2, a Madame, Olcott e Damodar haviam encontrado em Benares, em 1879. Mâji, que tinha poderes psíquicos, dizia que o Guru dela era o mesmo que o da Madame, e que ele havia nascido no Punjab, mas "geralmente vivia na parte do sul da Índia e, especialmente, no Ceilão. Ele tem cerca de 300 anos e tem um companheiro mais ou menos a mesma idade, embora ambos não aparentem mais de quarenta. Em poucos séculos ele entrará no corpo de um ‘Kshatriya’ (a casta dos guerreiros) e fará algumas grandes obras pela Índia". (Eek, p. 38) Damodar conta numa carta para Judge, que certa vez o Mestre KH (simbolizado por ?) o levou a um certo local no Ceilão. Por suas descrições, fica claro que isto ocorreu em 1880, na viagem com HPB e Olcott. Ele diz que numa noite, quando se preparava para dormir, o Mestre KH apareceu em seus aposentos e o conduziu a um local que parecia uma pequena ilha.   "No topo da construção havia uma luz triangular. À distância, uma pessoa na beira do mar pensaria ser um lugar isolado que estava todo coberto por arbustos verdes. Há apenas uma entrada. E ninguém a pode encontrar, a não ser que o ocupante deseje que a pessoa ache o caminho. Após chegar na ilha, tivemos que andar à volta por uns cinco minutos, antes de chegar em frente do verdadeiro prédio. Lá, num pequeno jardim em frente, encontramos um dos Irmãos sentado. Eu o havia visto antes na sala do Conselho, e é a ele que este lugar pertence. ? sentou-se próximo dele e eu fiquei de pé em frente a eles. Estivemos lá por cerca de meia hora. Mostraram-me uma parte do local. Quão agradável ele é! E dentro deste local há uma espécie de pequeno quarto onde o corpo fica quando o Espírito anda por aí. Que local encantador e fascinante! Que agradável perfume de rosas e de vários tipos de flores! Desejaria que me fosse permitido visitar aquele local novamente se eu for ao Ceilão em outra ocasião." (Eek, p 56) Como temos a referência da Madame que o Mestre M. morava no Ceilão, é provável que seja a sua morada que Damodar tenha visitado. Damodar cita numa outra carta para Judge, que ele também havia sido levado a outros locais no Ceilão, um deles uma casa privada de ?:   "Em minha última carta eu lhe omiti mencionar os dois outros locais aos quais fui levado antes deste último que mencionei em minha carta. Mas, como não estou autorizado a descreve-los, me absterei de faze-lo pelo momento, até que me seja permitido. Apenas direi que um deles é próximo a Colombo, uma casa privada de ? e a outro próximo a Kandy, uma biblioteca." (Eek, p. 57) Colombo, capital do Ceilão, fica à beira mar e Kandy na parte montanhosa, não muito distante do Pico de Adam, em cujo sopé ficava o monastério de Sumangala.  Sendo o Ceilão um local onde tanto o Mestre Morya quanto o Mestre KH possuíam residências, e sendo uma terra onde a "possibilidade do ser humano adquirir os exaltados poderes psíquicos do adeptado, e o fato de que eles têm sido adquiridos freqüentemente" era um conhecimento difundido, e onde uma "comunidade de 500 destes Rahats, ou adeptos, haviam anteriormente residido", começamos a entender melhor porque a Madame foi para lá no início de suas viagens, o seu interesse por esta terra, o projeto de que a sede da ST fosse para lá, bem como porque ela merece ser chamada de Terra de Arhats.  

Bibliografia

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Caldwell, D. The Occult World of Madame Blavatsky. Impossible Dream Publ., Tucson, 1991 

Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement. TPH, Adyar, 1978. 

Gomes, M. Theosophical History, vol. 3, n° 7-8, July-October 1991. 

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chr. Sequence) TPH, Quezon City, 1993. 

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Murphet, H. Hammer on the Mountain. TPH, Wheaton, 1972. 

Neff, Mary K. Personal Memoirs of H.P. Blavatsky. Quest Book, TPH, Wheaton, 1971. 

Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. II. e III TPH, Adyar, 1972, 1974. 

Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P.B., 1886. Kessinger Publ. Co., Montana. 

Solovyoff, V.S. A Modern Priestess of Isis, Longmans, Green, and Co., London, 1895.   

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