Quem era John King?
Marina Cesar Sisson 
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 05, Dez./99) 
 

No último Informativo HPB, vimos que John King era mais do que simplesmente um membro da Hierarquia. John King era, nas palavras de HPB, seu "único amigo", aquele com quem ela estava "em dívida pela mudança radical em suas idéias sobre a vida, seus esforços e assim por diante", aquele que a "transformou". John King também foi o responsável pela cura de sua perna. Ela o chamava de o "dono da hospedaria", o "No. 2" ou o "Sahib", por ser aquele que ocupava seu corpo, que a fazia passar por uma vida dupla, que a ensinava "a sair do corpo", e em companhia de quem ela não tinha "medo de nada". Portanto, ele tinha um papel muito definido como Instrutor de HPB. Tudo isto leva muitos a se perguntarem: - mas o Mestre de HPB não é o Mestre Morya?  

Como vimos, Solovyoff, que escreveu acusando HPB de inventar os Mestres, ao perceber a dimensão do papel de John King e, ao mesmo tempo, o fato de que, poucos anos depois, o "espírito" John King desaparece, enquanto o Mestre Morya se torna mais e mais importante na vida da Madame, dá como uma das "provas" da charlatanice de HPB, a transformação de John King no Mestre Morya.  

Quando HPB escreve, por exemplo, que: "Meu John King sozinho é uma recompensa suficiente por tudo; ele é, em si mesmo, um dono de hospedaria para mim. (...) John King é uma personalidade, uma definida, viva, personalidade espiritual." (Solovyoff, p. 243), Solovyoff interpreta que esta era a primeira "aparição" do Mestre Morya:  

"O que ela diz é bem suficiente para que cada leitor de minha narrativa reconheça imediatamente neste John King a primeira aparição no palco, de nosso velho conhecido, o famoso Mahatma Tibetano Morya (...) mas ele já está incessantemente visitando nossa heroina, e é ‘em si mesmo, um dono de hospedaria’ para ela. Ele já manda Olcott para Havanna [localidade em Nova Iorque]. Ele logo será transfigurado e transformado no Mahatma Morya ou M., o famoso ‘mestre’." (Solovyoff, p. 244)  Esta confusão entre John King (Instrutor de HPB) e Mestre Morya (seu Mestre), até hoje é predominante. Muitas das ações de John King como, p. ex., no caso de quem salvou sua vida várias vezes, são atribuídas ao Mestre M. Isto ocorre pelo desconhecimento de que a presença de um Instrutor, além da do Mestre do discípulo, talvez seja uma prática mais usual do que se imagina. 

No Diário Oculto de Geoffrey Hodson podemos ler que, embora o Mestre de Geoffrey Hodson fosse o Mestre KH, por muitos anos ele teve um Instrutor - o Mestre Polydorus Isurenus - o qual:  

"... me assegurou de uma continuada orientação e de progresso e responsabilidade em muitas horas de ensinamento, o qual consiste, em grande medida, de interpretações da simbologia do Egito, do Novo Testamento e da Franco-maçonaria. (...) Com o consentimento de meu Mestre, estou em Sua Escola, treinando para importante trabalho futuro." (Hodson, p. 116)  
John King Salvou Minha Vida por Três Vezes

  Mas há quanto tempo HPB estava sob os cuidados de John King? Numa carta para Lippitt, escrita em junho de 1875, ela diz que conhecia John há 14 anos (portanto, desde 1860 ou 1861) e que, neste período, ele havia sido responsável por salvar sua vida por três vezes! Isso, mais uma vez, reforça seu papel como responsável por ela, estando sempre muito próximo:  

"Conheço John há 14 anos. Não é de hoje que ele está comigo; ele se fez conhecido de toda Petersburgo e metade da Rússia, sob o nome de Janka, ou "Johny"; ele viajou comigo por todo o mundo. Salvou minha vida por três vezes: em Mentana, num naufrágio e, na última vez, próximo a Spezia, quando nosso vapor explodiu no ar em átomos, e de 400 passageiros restaram apenas 16, em 21 de junho de 1871." (HPB Speaks, I, p. 84)  Vamos examinar essas três ocasiões em que ela diz que John King lhe salvou a vida. HPB primeiro fala da batalha de Mentana, que ocorreu em 02 de novembro de 1867. Observemos que ela está afirmando que quem a salvou foi John King, e não o Mestre M., como tantas vezes se afirma. Já a explosão do Eunomia ocorreu próximo à ilha de Spezzia, em 1871, quando a Madame ia de Chipre para Alexandria. Mas, e quanto ao outro naufrágio?  

HPB conta ao príncipe Dondoukoff que, após sua primeira viagem à Índia, em 1853, ela embarcou no "Gwalior, o qual naufragou próximo ao Cabo, mas fui salva junto com umas outras 20 pessoas." (HPB Speaks, II, p. 20). Que eu conheça, não há na literatura referência a qualquer outro naufrágio. Assim, mesmo sem uma identificação mais segura, penso que podemos assumir que é a esse naufrágio que HPB está se referindo. As datas desta época de sua vida são muito confusas, mas supõe-se que teria ocorrido entre 1853 e 1854. Assim, ao mesmo tempo em que ela fala que conhecia John King há 14 anos, portanto, desde 1860 ou 1861, ela cita um acontecimento cujo registro é bem anterior. E, se ele a salvou em 1854, é provável que já o conhecesse antes mesmo dessa data.  

Não obstante a história deste naufrágio do Gwalior ser um tanto confusa, há outras referências na literatura que nos mostram que HPB e John King já se conheciam antes de 1854. Em abril de 1875, Madame escreveu para Aksakov, um russo, pesquisador dos fenômenos psíquicos, que:  

"John King e eu nos conhecemos há muito tempo, muito antes dele começar a se materializar em Londres e andar pela casa do médium com uma lâmpada em sua mão." (Solovyoff, p. 247)  Godwin diz que John King, como entidade espírita, aparecia em sessões na Grã-Bretanha e nos EUA desde 1854 (Godwin, p. 107). Assim, aqui HPB está afirmando que já o conhecia muito antes de 1854. Numa carta para Lippitt, a Madame cita estas aparições de John King em Londres, dizendo:     "Agora, eu não vou me comprometer a dizer e testemunhar numa corte de justiça que o meu John, é o John das sessões de Londres, o John da ‘lâmpada fosforescente’, embora eu esteja bastante segura de que é ele, e ele diz que é. Mas os mistérios do mundo dos espíritos são tão mesclados, apresentam um tal maravilhoso e inextricável labirinto que - quem pode dizer?" (HPB Speaks, I, p. 84) 
Com Este Poder, Estou Familiarizada Desde a Infância

  Há ainda outra referência na literatura sobre desde que época John King e a Madame estavam em contato. Em 1881, quando o general Lippitt voltou a lhe questionar sobre a autoria da pintura em cetim, do auto-retrato de John King que ele havia ganho, HPB lhe respondeu:  

"Meu caro amigo, posso lhe contar apenas aquilo que lhe contei desde o começo, quer o resto do mundo me acredite ou não. A pintura no cetim, com as exceções que coloquei, não foi feita por mim, mas por aquele poder que chamei de John King; o poder que assumiu as características e o nome genérico de John King; pois é um nome genérico e é responsável pelas muitas afirmações contraditórias de e sobre ele, o John King em diferentes partes do mundo. Com este poder, tenho estado familiarizada desde a minha infância, mas vi sua face, como você diz, anos depois, numa viagem (quando o Sr. Blavatsky era governador em Erivan, capital da Armênia, não em Tiflis.) (HPB Speaks, I, p. 237)  Portanto, agora HPB coloca que estava familiarizada com este "poder" - John King - já desde a sua infância, mas que somente viu sua face, numa viagem, na época em que o Sr. Blavatsky era governador em Erivan, não em Tiflis. Como vimos no Informativo HPB n° 1, Nikifor Blavatsky "Em 27 de novembro de 1849, foi indicado Vice-Governador da recém formada Província do Erivan, e a governou durante a ausência do Governador militar."  

No Cairo Com o Mago Copta

 Que viagem teria sido esta? Onde estava HPB no final de 1849 ou em 1850? Após abandonar Nikifor, em outubro de 1849, ela voltou para Tiflis. De lá, após peripécias, foi para Constantinopla, onde encontrou uma velha amiga da família, a Condessa Kisselev. Helena Pissarev sugere que o príncipe Galitzin teria sido responsável tanto por esta viagem em companhia da Condessa, quanto por dar a Helena o endereço de um Ocultista no Egito. (Barborka, p. 16) Sinnett diz que HPB viajou com a Condessa, durante algum tempo, pelo Egito, Grécia e partes da Europa Oriental e que no Egito:  

"... Madame Blavatsky já começou a receber algum ensinamento oculto, embora de uma ordem muito diferente e inferior do que ela adquiriu mais tarde. Naquela época havia no Cairo um velho Copta, um homem muito bem e amplamente conhecido; de consideráveis bens e influência, e com uma grande reputação como um mago. As lendas de maravilhas contadas a respeito dele pelo povo são muito emocionantes. Madame Blavatsky parece ter sido uma aluna que prontamente atraiu seu interesse e que absorvia suas lições com entusiasmo. Ela encontrou-se com ele novamente alguns anos mais tarde, e passou algum tempo com ele em Boulak, mas seu contato com ele no começo não durou muito tempo, pois naquela época ela passou apenas cerca de três meses no Egito." (Incidents, p. 59)  Este encontro anos mais tarde, em Boulak, está relacionado à tentativa que HPB fez no Cairo, entre 1871 e 1872, de fundar a Société Spirite, que tinha por objetivo a investigação de fenômenos psíquicos, mas que logo provou-se um fracasso. De acordo com HPB, as médiuns francesas, amadoras, de quem ela se rodeou "roubam o dinheiro da Sociedade, bebem como esponjas, e agora as peguei enganando, da maneira mais vergonhosa, nossos membros que vêm para investigar os fenômenos, com falsas manifestações." (Incidents, p. 159) Ela rompeu todas as relações com as médiuns, fechou sua Société e foi morar em Boulak, próximo ao Museu. Então:   "... ela entrou novamente em contato com seu velho amigo, o Copta de fama misteriosa, cuja menção foi feita em conexão à sua primeira visita ao Egito, no início de suas viagens. Por várias semanas ele foi seu único visitante." (Incidents, p. 160) 
Albert Rawson, Companheiro das Primeiras Viagens de H.P.B.

 Mas HPB tinha um companheiro de viagens que não é citado por Sinnett. Embora ele ainda seja muito pouco conhecido, foi um personagem importante nos primeiros tempos da ST. Em fevereiro de 1892, Albert Rawson escreveu um artigo sobre a Madame, onde afirma que a conheceu por mais de 40 anos, portanto antes de 1852, e que estava com ela no Cairo. Nesse artigo, ele conta:  

"Madame e seu amigo artista [o próprio Rawson] estavam disfarçados de muçulmanos, apenas para evitar perturbações da multidão pois, naqueles tempos, pessoas em trajes europeus certamente seriam molestadas como infiéis odiados, se não realmente colocados em perigo de vida ou em apuros por fanáticos enlouquecidos. Neste disfarce eles, a salvo, visitaram o chefe dos encantadores de serpentes, Sheik Yusef ben Makersi, aprenderam segredos, e tomaram lições, de modo que se tornaram especialistas em lidar com serpentes vivas sem perigo.  

"Uma auspiciosa amizade foi feita com Paulos Metamon, um celebrado mago copta, que possuía vários livros muito curiosos, cheios de diagramas, fórmulas astrológicas, encantamentos mágicos e horóscopos, e que ele apreciava mostrar a seus visitantes, após uma introdução adequada.  

"- Somos estudantes que ouviram falar de seus grandes conhecimentos e habilidades em magia e desejamos aprender a seus pés.  

"- Eu percebo que vocês são dois europeus disfarçados, e não tenho dúvida de que estão à procura de conhecimento - de saber oculto e mágico. Eu procuro recompensa.  

"Ah, lá estava a chave para os mistérios ocultos da velha Cairo. O chefe - o sheik dos magos - havia descoberto o segredo da pedra filosofal, que transformava as coisas em ouro. Ele foi enriquecido por nós, e nós fomos iluminados." (Rawson, p. 210) 

Observemos que Rawson se refere a Metamon como um mago copta que havia "descoberto o segredo da pedra filosofal" e, portanto, não era um mago qualquer, mas alguém que já acessara profundos conhecimentos ocultos. Como veremos, a relação da Madame com este Instrutor pode ter sido bem mais profunda e duradoura do que se imagina. Que "recompensa" e que "riqueza" maior pode ter para um Instrutor do que a entrega "a seus pés" e a ardente devoção de seus jovens pupilos?  

Paulos Metamon

 Olcott, em seu livro Old Diary Leaves fala um pouco mais sobre Paulos Metamon, relatando uma experiência que a Madame lhe havia narrado:  

"Ela estava viajando no deserto, com um certo mago branco copta, que deve permanecer sem ser nomeado e, acampando uma noite, expressou o ardente desejo por uma xícara de um bom café com leite francês. ‘Bem, certamente, se você o deseja tanto’, disse o guia guardião. Ele foi até o camelo das bagagens, tirou água de um odre, e após um momento retornou, trazendo em suas mãos uma xícara de um fumegante e aromático café com leite. HPB pensou que isto era, é claro, uma produção fenomênica, uma vez que seu companheiro era um elevado adepto e possuía poderes muito grandes. Então ela lhe agradeceu e bebeu, e se deliciou, e declarou que nunca havia tomado um café melhor no Café de Paris. O mago não disse nada, mas apenas se inclinou, se divertindo, e ficou de pé ao seu lado, como se estivesse esperando para receber a xícara de volta. HPB sorveu a bebida fumegante e tagarelou feliz e - mas o que é isto? O café havia desaparecido e nada senão água pura permaneceu em sua xícara! Nunca havia sido nada além disso; ela estava bebendo, cheirando e sorvendo a Maya [ilusão] de um quente e aromático café com leite." (ODL, I, p. 432)  É claro que o mago branco copta, que deve permanecer sem ser nomeado, com quem HPB estava viajando no deserto, é Paulos Metamon. E aqui ele é identificado como sendo um elevado adepto que possuía poderes muito grandes.  

No Informativo HPB n° 4, vimos que John King era um Iniciado, um Irmão da Ordem e o Instrutor de HPB. Paulos Metamon é, além de qualquer dúvida, aquele que é reconhecido na literatura como o primeiro Instrutor de HPB. A época em que Madame estava com ele, no Egito, pode perfeitamente ser a época em que ela diz ter visto a face de John King numa viagem. Pois, como vemos, ela coincide com a época em que Nikifor estava substituindo o governador em Erivan. Assim, é bem provável que Paulos Metamon seja mais um nome "daquele poder que chamei de John King".  

Olcott ainda conta que soube por meio de uma testemunha ocular [que só pode ser Rawson] que, enquanto HPB estava no Cairo, os mais extraordinários fenômenos ocorriam em qualquer sala que ela estivesse. Por exemplo, a luminária que estava numa mesa mudaria para outra, passando pelo ar, como se estivesse sendo carregado por uma mão invisível, e que:  

"... este mesmo misterioso Copta sumiria de repente do sofá onde estava sentado, e muitas outras maravilhas, não mais consideradas como milagres, desde que os cientistas nos provaram a possibilidade de inibição dos sentidos de visão, audição, tato e olfato por mera sugestão hipnótica. Sem dúvida, esta inibição foi provocada no grupo presente, fazendo o grupo ver o Copta desaparecer e a lâmpada se mover pelo espaço, mas não a pessoa cuja mão a estava carregando." (ODL, I, p. 23)  Esta lâmpada se movendo no ar, carregada por uma mão invisível, nos faz recordar o "John da lâmpada fosforescente", que aparecia em Londres, andando "pela casa do médium com uma lâmpada em sua mão", o qual a Madame estava bastante segura que se tratava do John dela.  

Viagens ao Peru

Ainda de acordo com Sinnett, HPB viajou pela Europa com a Condessa B.[Bagration], em 1850. Estava no final do ano em Paris e, em julho de 1851, teria ido ao Canadá atrás dos índios pele-vermelha. De lá foi para Nova Orleans estudar a prática do Vodu, com o que deve ter se envolvido perigosamente, pois:    

"... a estranha proteção que tão freqüentemente havia se manifestado em seu benefício durante sua infância - a qual tinha, por esta época, assumido uma forma mais definida, pois ela havia agora encontrado, como um homem vivo, o semblante há tanto tempo familiar de suas visões - novamente vem em seu socorro." (Incidents, p. 63)  Note-se que agora, isto é, em 1851, ela já havia encontrado, como um homem vivo, a estranha proteção da infância - e é ao "poder" John King que ela diz que estava familiarizada desde a infância.  

Sinnett também relata que em 1852 ela foi para o México através do Texas e, resolvida a ir para a Índia, escreveu para um certo "inglês" juntar-se a ela nas Índias Ocidentais [região de Cuba, Bahamas, Haiti, Porto Rico e Jamaica] a fim de que fossem para o Oriente. Este "inglês" e um chela hindu, com quem HPB havia se encontrado em "Copau", México, juntaram-se a ela, e foram todos para o Ceilão, via Cabo. De lá seguiram de navio para Bombay, onde se separaram. (Incidents, p. 64-66). "Copau", México, nunca foi identificada, e muitos autores tendem a crer que ela estivesse se referindo a Copán, Honduras.  

Embora Sinnett não mencione a América do Sul, em Ísis, HPB revela ter estado no Peru duas vezes (Isis, i, p. 597). Por suas descrições, acredita-se que deve ter viajado extensivamente tanto na América Central quanto na América do Sul, visitando antigas ruínas. As datas mais prováveis destas viagens à América do Sul são após o México, em 1852, e em 1854, após ter andado pela Califórnia. Annie Besant encontrou em Adyar um manuscrito onde consta, numa letra que não se sabe de quem é, uma cronologia de viagens da Madame. Por esta ela teria estado na América do Sul duas vezes, em 1851 e entre 1853-1855. (Neff, p. 299)  

Há ainda um outro manuscrito, de quatro páginas, que foi encontrado nos Arquivos da ST em Adyar, provavelmente relacionado com alguma viagem de HPB à América do Sul. Na primeira página, há o desenho de parte da costa oeste da América do Sul, indicando algumas cidades e a fronteira entre Peru e Bolívia. Ao lado do mapa há notas escritas numa mistura de italiano com francês, falando da história do tesouro dos incas, semelhante àquela que depois é narrada em Ísis (Isis, i, p. 595-598). Há também uma curta linha em inglês e uma outra num tipo de escrita que parece ser oriental. No topo da página aparecem duas inscrições. A primeira, assinada por H. Moore, diz "Para aqueles que eu amo e protejo. Tentem."  

A segunda, que é o que nesse momento mais nos interessa, está assinada por John King, e Boris de Zirkoff descreve que "está na caligrafia arcaica usada por John King e está assinada por ele..." (CW, II, p. 342). É uma frase curta que diz "Pessoal, eu lhes recomendo a ponderar e discutir." (CW, II, p. 320)  

   

  
Figura 1: Letra de John King no bilhete do Peru.

Examinando a caligrafia no fac-símile citado acima, e naqueles das mensagens precipitadas em Filadélfia, em 1874 (POW, p. 457 e p. 468), ou ainda no fac-símile de um bilhete de John King a Olcott, em 1876 (Godwin, p. 10), vemos que as caligrafias são tão pitorescas que logo percebemos pertencerem à mesma pessoa. (Figura 2)  

 Isto está nos indicando que o John King que instruía Olcott, que atuava como seu intermediário nas correspondências com a "Loja", e que aparecia nas sessões mediúnicas na casa dos Eddy, era o mesmo que, no início da década de 1850, estava aconselhando HPB e seus companheiros a "ponderar e discutir" sobre planos de viagens à América do Sul e, portanto, já estava com HPB desde esta época! Como vimos, isto deve ter ocorrido entre 1851 e 1855, novamente nos remetendo a um período de conhecimento entre HPB e John King bem anterior a 1860.  

Reforçando ainda mais esta conclusão lemos, em Ísis, HPB afirmando que:  

 

  

Figura 2: Letras de John King no People From The Other Worlds e num bilhete para Olcott.

   

"Aproximadamente o mesmo foi nos contado pessoalmente, cerca de 20 anos atrás, por um velho sacerdote nativo, a quem encontramos pessoalmente no Peru" (Isis, i, p. 547). Lembrando que Ísis foi escrita entre 1875 e 1877, "cerca de 20 anos atrás" nos remete, novamente, ao meio da década de1850.  

A biografia de Albert Rawson inclui, entre 1854-55, investigações em túmulos pré-históricos indígenas no vale do Mississipi e nas ruínas da América Central e Yucatan (Johnson, p. 25). O período em que ocorreram estas viagens, bem como o conhecimento que Rawson revela ter de HPB, fazem com que ele seja um candidato muito provável para o "inglês" com quem HPB teria viajado. "Inglês" este que, na verdade, seria norte-americano. Sinnett situa esta viagem de HPB com o "inglês" em 1852. Contudo, se Rawson for este "inglês", isto provavelmente teria ocorrido entre 1854 e 1855.  

Não há muitas dúvidas de que este bilhete é para HPB, pois, se assim não fosse, o que estaria fazendo nos Arquivos da ST em Adyar? E, pela maneira familiar, senão íntima, com que John King se dirige aos que está aconselhando, estes parecem ser pessoas muito conhecidas. Ele diz "Folks", o que quer dizer "pessoal, gente". Como Albert Rawson estava junto com a Madame no Cairo, quando ambos foram instruídos por Paulos Metamon, se Rawson for, de fato, o companheiro de viagens de HPB, isto novamente nos faz suspeitar que Metamon seja o próprio John King.  

Identificação de John King

Somente anos mais tarde, em 1884, é que HPB nos revela quem realmente era John King. Arthur Lillie havia escrito um artigo chamado "Koot Hoomi Unveiled" (Koot Hoomi Sem Véu), no qual havia muitas críticas a HPB e aos Mestres. Neste artigo, Lillie dizia que: "Por catorze anos (1860 a 1875) Madame Blavatsky foi uma espírita declarada, controlada por um espírito chamado John King". (CW, VI, p. 269) Respondendo a ele, a Madame escreve, em agosto de 1884:  

"... Sr. Lillie afirma que eu conversei com este ‘espírito’ (John King) durante quatorze anos, ‘constantemente, na Índia e em outros lugares.’ Para começar, eu aqui afirmo que nunca ouvi o nome de John King antes de 1873. É verdade que falei ao Coronel Olcott e a muitos outros, que a forma de um homem, com uma face pálida morena, barba preta, roupas brancas flutuantes e turbante, que alguns deles haviam encontrado pela casa e em meus aposentos, era aquela de um ‘John King’. Eu tinha lhe dado aquele nome por razões que serão completamente explicadas muito em breve, e ri muito ao ver o modo fácil como o corpo astral de um homem vivo pode ser confundido por, e aceito como sendo um espírito. E eu lhes contei que eu havia conhecido aquele ‘John King’ desde 1860; pois era a forma de um adepto oriental, o qual, desde então foi para sua iniciação final, nos visitando em seu corpo físico ao passar por Bombay, em seu caminho. (...) Eu tenho conhecido e conversado com muitos ‘John King’ em minha vida - um nome genérico para mais de um espectro - mas, graças aos céus, eu ainda nunca fui ‘controlada’ por um! Minha mediunidade tem sido expurgada de mim um quarto de século ou mais; eu desafio em voz alta todos os ‘espíritos’ do Kama-loka a se aproximarem - que dizer me controlarem agora." (CW, VI, p. 271)  Como vimos, John King assina o bilhete relacionado com o Peru, que é de meados dos anos 1850. Portanto, não é verdade que HPB nunca havia ouvido falar no nome John King antes de 1873. Mas Lillie volta a criticar a resposta de HPB, interpretando que ela estava identificando o "adepto oriental" (John King), como sendo o Mestre KH, afirmando: "que o Mestre KH vinha constantemente vê-la, com barba preta e longas vestes brancas flutuantes". Ela então volta ao assunto num segundo artigo, em outubro de 1884, negando o que Lillie havia dito e desafiando-o a provar o que estava afirmando, pois, em seu artigo anterior ela havia se referido a:   "... um ‘adepto oriental, o qual, desde então foi para sua iniciação final’, que havia passado, en route do Egito para o Tibet, por Bombay e nos visitou em seu corpo físico. Por que este ‘Adepto’ deveria ser o Mahatma em questão? Então, não há nenhum outro Adepto além do Mahatma Koot Hoomi? Todo teosofista na sede sabe que eu mencionava um cavalheiro grego a quem conheço desde 1860, enquanto que nunca vi o correspondente do Sr. Sinnett antes de 1868." (CW, VI, p. 291)  Esta afirmação da Velha Senhora é referendada pelo próprio Mestre KH, que também se refere à viagem "de um dos nossos" de Chipre para o Tibet passando, em seu caminho, por Bombay:   "E o problema da Sra. B [Blavatsky] é (além da enfermidade física) que ela algumas vezes ouve a duas ou mais de nossas vozes ao mesmo tempo; p. ex., esta manhã enquanto o ‘Deserdado’ (...) estava falando com ela sobre um assunto importante, ela emprestou um ouvido a um dos nossos, que está passando por Bombay vindo de Chipre, em seu caminho para o Tibet - e, assim, misturou as duas numa confusão inextricável. Mulheres realmente carecem do poder de concentração." (MLcr, p. 52 ou ML-8)  Note-se que esta carta do Mestre KH foi recebida por Sinnett no dia 20 de fevereiro de 1881 e, nos diários de Olcott, há uma entrada na data de 19 de fevereiro de 1881, escrita em Bombay, que acaba dando a identificação conclusiva de quem era este Adepto oriental:    "Hillarion está aqui en route para o Tibet e tem examinado cuidadosamente, por todos os ângulos, a situação. Acha B--- algo moralmente horrível. Opiniões sobre a Índia, Bombay, a ST em Bombay, Ceilão (----), Inglaterra e Europa, Cristianismo e outros assuntos altamente interessantes". (LMW, 2nd S, p. 82) 
Primeiro Fui à Grécia e Vi Illarion

Assim juntando o que HPB, Olcott e o Mestre KH dizem, chegamos à identificação clara de que John King, o Instrutor e Sahib de HPB é o Adepto ligado à Hierarquia que conhecemos pelo nome de Hillarion. É interessante notar que a Madame não se refere a ele como um Mestre, mas como um Adepto Oriental, que depois passou por sua iniciação final. Nas cartas para Sinnett, ela se refere ao Mestre Hillarion simplesmente como "Illarion", como podemos ver na passagem que é erroneamente usada por muitos autores para dizer que HPB o encontrou pela primeira vez em 1860, na Grécia:  

"Por favor, não fale de Mentana e não fale do MESTRE [M.], eu lhe imploro. Eu voltei da Índia num dos primeiros vapores. Mas primeiro fui à Grécia e vi Illarion, em que lugar eu não posso e não devo dizer." (LBS, p. 153)  Note-se que ela está dizendo que primeiro foi à Grécia e viu Hillarion, e não que foi à Grécia e pela primeira vez viu Hillarion. No original: "But I first went to Greece and saw Illarion, in what place I can not and should not say.". Além da tradução neste caso não dar margens a dúvidas, já identificamos que o Mestre Hillarion é John King e, conforme vimos acima, ela já o havia encontrado bem antes de 1860.  

Mestre Hillarion e Paulos Metamon com HPB no Cairo

Nas cartas para Sinnett, HPB conta um episódio que ocorreu em 1872, no Cairo. Neste, ela demonstra claramente que suas ações, naquela época, estavam sendo orientadas pelo Mestre Hillarion, como um Instrutor, de forma análoga à época de John King. Ela conta que Agardi Metrovich havia ido ao Cairo, a pedido de sua tia, para tentar encontrá-la. Ali alguns malteses:  

"... instruídos pelos monges católico-romanos, prepararam uma armadilha para pegá-lo e matá-lo. Eu fui avisada por Illarion, então fisicamente no Egito - e fiz com que Agardi Metrovich viesse diretamente até mim e não deixasse a casa por dez dias. Ele era um homem corajoso e ousado e não pode tolerar isso, então foi para a Alexandria mesmo assim e eu fui atrás dele (...) fazendo como Illarion me disse (...). Eu nunca o deixei, pois sabia que ele iria morrer, como Illarion havia dito, e assim aconteceu." (LBS, p. 189-190)  Ela ainda relata que nenhuma igreja quis enterrá-lo, e que os franco-maçons, a quem apelou, também ficaram com medo. Então, com a ajuda de "um abissínio - um discípulo de Illarion - e com o servente do hotel (...) nós enterramos seu pobre corpo." (LBS, p. 190)  

É interessante observar que justamente nesta época em que HPB revela que o Mestre Hillarion estava fisicamente no Cairo, é a época em que ela tentou fundar a Société Spirite e que estava novamente com Paulos Metamon, o qual "por várias semanas foi seu único visitante". Isto, mais uma vez, fortalece a hipótese de que John King, isto é, o Mestre Hillarion, também seja Paulos Metamon.  

Mabel Collins e o Mestre Hillarion

Mabel Collins é conhecida no meio teosófico principalmente por ser a autora de "O Idílio do Lótus Branco" e "Luz no Caminho". Mas ela também escreveu mais de uma dezena de novelas. O Idílio foi publicado em 1884, um pouco antes dela entrar para a ST, em Londres. Apresentada a Olcott, ela lhe contou que havia escrito esta história em transe. Sinnett, num artigo sobre experiências psíquicas, publica o relato que Mabel Collins lhe fizera de como o Idílio havia sido escrito.  

Em 1878, ela estava morando em Londres quando, bem próximo à sua janela, foi colocado o obelisco de Cleópatra. Desde a primeira vez que olhou para o obelisco, percebeu nele um rosto - que logo descobriu que não era visível para mais ninguém. "Era um rosto egípcio, cheio de poder e vontade, e intensamente vivo". (Sinnett, TH, p. 121)  

Imediatamente após a chegada do obelisco, Mabel Collins também começou a perceber que uma longa fila de sacerdotes egípcios, com vestes brancas, entravam em sua casa e ficavam de pé à sua volta, enquanto ela escrevia. Isto acontecia freqüentemente, e ela se acostumou a tê-los por perto. Um dia, enquanto estava escrevendo sua novela e sua cunhada trabalhava na mesma sala, pintando, a longa fila de sacerdotes entrou e a rodeou. Ela não disse nada à cunhada, pois já havia descrito o fato várias vezes, e continuou a escrever, atarefada. Mabel Collins então descreve que a cunhada:  

"(...) olhou para mim e notou uma mudança em minha aparência; eu havia me tornado rígida, ou como alguém transformada em pedra, como ela expressou; meu olhos estavam firmemente fechados, mas eu escrevia sem parar, tão rápido como sempre, e ela me assistiu jogando página após página para o lado, com a tinta ainda molhada.  

"Isto continuou por um tempo considerável até que, finalmente, abri os olhos e larguei a caneta. Eu estava muito cansada, mas absolutamente inconsciente do fato de que tinha estado inconsciente - ou, fora do corpo (...). Ela não disse nada, mas ainda me observava, e me viu pegar uma página de meu manuscrito para olhar e descobrir, para meu inexprimível espanto, que não era, como eu acreditava, uma página da novela que estava escrevendo, mas algo completa e absolutamente desconhecido para mim. Peguei página após página e as olhei com o mesmo espanto. Descobri que tinha em minhas mãos, completos, o prólogo e o primeiro capítulo de "O Idílio do Lótus Branco". (...) Para mim, foi uma experiência muito maravilhosa, pois eu nunca havia, até então, sabido o que era ser completamente tirada de meu corpo para que minha mão e minha caneta pudessem ser usadas por uma outra inteligência, sem que meu ser - se assim posso expressá-lo - estivesse presente.  

"De tempos em tempos, após isto, algo semelhante ocorreu, embora eu nunca estivesse tão absolutamente ausente da cena quanto da primeira vez; e os sete primeiros capítulos do Idílio foram completados. A escrita foi toda completamente automática; e eu nunca estava consciente de uma única palavra que foi escrita, e depois o lia do mesmo modo como leria algo escrito por uma outra pessoa." (Sinnett, TH, p. 121) 

Ela ainda conta que quando o sétimo capítulo ficou pronto os sacerdotes deixaram de aparecer e, embora ela estivesse ansiosa para ver o manuscrito terminado, não conseguiu escrever mais nenhuma palavra nele por sete anos. Entre 1884-85, em meio a muitos problemas e doenças, "o trabalho foi novamente retomado por um misterioso poder fora de mim mesma, para quem eu era um instrumento escolhido, e foi concluído da mesma maneira que os sete primeiros capítulos foram escritos, sem que eu estivesse consciente de uma única palavra..." (Sinnett, TH, p. 122)  

As circunstâncias sob as quais Luz no Caminho foi escrita foram muito diferentes. Este livro Mabel Collins diz ter sido o resultado de seu árduo esforço de obter algum conhecimento. Quando fora do corpo, ela se sentia como uma criança que começa a descobrir seus sentidos recém adquiridos. Era conduzida pela mão por um ser poderoso que lhe mostrava o que olhar e como entender o que era. Num vasto salão, que ela chamou de "Salão do Aprendizado", ela viu as paredes cobertas de pedras preciosas e, com a ajuda de seu guia, percebeu que elas formavam frases. Lhe disseram que ela procurasse lembrar-se cuidadosamente destas frases, e as escrevesse imediatamente após retornar ao corpo físico. Estas foram as primeiras frases de Luz no Caminho. Desta maneira, aos poucos, todo o livro foi escrito. (Sinnett, TH, p. 123)  

Mabel Collins apenas encontrou com HPB, rapidamente, em novembro de 1884, antes da partida da Madame para a Índia. Numa carta publicada em Light, em junho de 1889, HPB diz:  

"... quando a encontrei [Mabel Collins] ela havia recém terminado "O Idílio do Lótus Branco" o qual, como ela afirmou para o Coronel Olcott, lhe havia sido ditado por uma ‘pessoa misteriosa’. Guiados por suas descrições, nós dois reconhecemos um velho amigo nosso, um grego, que não era um Mahatma, embora fosse um Adepto; acontecimentos posteriores provaram que estávamos certos ..." (CW, VIII, p. 427)  E numa carta para Khandalavala, em julho de 1888, Madame escreve que, até 1884, Mabel Collins era uma mulher que não dava grande atenção às questões espirituais mas que, naquele ano, ela:   "... viu diante dela, muitas vezes, a figura astral de um homem moreno (um grego que pertence à Fraternidade de nossos Mestres), que a instigou a escrever sob seu ditado. Era Hillarion, a quem Olcott conhece bem. O resultado foi Luz no Caminho e outros." (Gomes, p. 194)  Assim, HPB reconhece que foi o Mestre Hillarion que apareceu novamente para Collins, em 1884, e a fez escrever sob seu ditado, concluindo o Idílio e escrevendo Luz. Collins escreveu que Luz foi um trabalho feito sob "Sri Hilarion", tendo começado em outubro de 1884 e, o pequeno ensaio sobre a lei do Carma, que aparece como um apêndice, foi escrito em 27 de dezembro de 1884.     

  
Figura 3: Letra de Mabel Collins enquanto escrevia, em transe, o Idílio do Lótus Branco

   

  
Figura 4: Letra de Mabel Collins em estado normal.
 

Observemos, nas duas citações acima, que HPB diz que não apenas ela, mas também Olcott, reconheceu de imediato o "velho amigo grego", e que era "Hillarion, a quem Olcott conhece bem." Isto é muito revelador porque sabemos que era com John King que Olcott havia convivido mais intensamente, desde seus primeiros tempos no Ocultismo, em Filadélfia e Nova Iorque.  

Sinnett, no artigo citado, também publica o fac-símile de uma página do manuscrito original do Idílio, onde aparece "uma letra completamente diferente da dela própria." (Sinnett, TH, p. 119) (Comparar as letras nas Figuras 3 e 4). Lembremos que quando Mabel Collins descreve a produção deste manuscrito, ela diz que tinha sido: "completamente tirada de meu corpo para que minha mão e minha caneta pudessem ser usadas por uma outra inteligência". Examinando este fac-símile (Figura 3), novamente notamos características da letra de John King (Figura 2). E, uma vez que a autoria do Mestre Hillarion, nestas duas obras trazidas ao mundo por Mabel Collins é algo amplamente aceito, as semelhanças nas caligrafias, reforçam a identificação de John King como sendo o Mestre Hillarion.  

Nossos Modos de Ação são Estranhos e Não Usuais

 Mas será que existiram mesmo vários John King - o elemental, o espírito desencarnado e o Adepto? Até hoje, a principal referência neste sentido é a do próprio Olcott (ODL, I, p. 19). Entretanto, como vimos no Informativo HPB n° 3, ele mesmo reconheceu que a forma de um espírito desencarnado era a que, naquela época, ele mais facilmente poderia aceitar, quando escreveu: "fui apresentado a eles por HPB através do meio que minhas experiências anteriores poderiam tornar mais compreensível, um pretenso "espírito" que incorporava em médiuns."  

Muitos autores aceitam a fácil explicação de Olcott, de que havia vários John King, pois, por exemplo, as "brincadeiras" que fazia com a Madame contrariam as noções preestabelecidas acerca do modo que um mensageiro e servo dos Adeptos vivos "deveria" agir. Assim, como não as entendemos, estas atitudes são convenientemente atribuídas ao espírito desencarnado ou ao elemental.  

Porém, são essas próprias "brincadeiras" e atitudes, como atirar uma "pedra cáustica" no rosto da Madame, ou pedir dinheiro numa aparente troca de favores, que tornam insustentável a cômoda explicação de Olcott. Como explicar que a Madame aceitasse tais atitudes, caso vindas de um espírito? Como vimos, nesta época, HPB já possuía um desenvolvimento de seus poderes que não permitiria jamais que um espírito desencarnado a desafiasse ou influenciasse. Como ela mesma afirmou:  

"Eu tenho conhecido e conversado com muitos ‘John King’ em minha vida - um nome genérico para mais de um espectro - mas, graças aos céus, eu ainda nunca fui ‘controlada’ por um! Minha mediunidade tem sido expurgada de mim um quarto de século ou mais; eu desafio em voz alta todos os ‘espíritos’ do Kama-loka a se aproximarem - que dizer me controlarem agora." (CW, VI, p. 271)  Tudo isso nos indica que havia apenas um John King - que é difícil de "digerir" - e cujos métodos e modos de ação se chocam com as noções mundanas que temos do que deve ou não deve ser a conduta de um Adepto. Mas, não nos esqueçamos de que, na verdade, conhecemos muito pouco dos métodos Deles, pois como o Mestre KH escreveu:   "Nossos modos de ação são estranhos e não usuais e, muito freqüentemente, propensos a criar suspeita. Esta última é uma armadilha e uma tentação. Feliz é aquele cujas percepções espirituais sempre lhe sussurram a verdade! Julgue aqueles diretamente envolvidos conosco por esta percepção, não de acordo com suas noções mundanas das coisas." (LMW, 1st S., p. 32) 
Bibliografia

Barborka, G.A. H.P. Blavatsky, Tibet and Tulku. TPH, Adyar, 1966.  

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, vol. VI. TPH, Wheaton, 1977.  

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, vol. VIII. TPH, Adyar, 1960.  

Blavatsky, H.P. H.P.B. Speaks, vol. I. e vol. II Ed. by C. Jinarajadasa. TPH, Adyar, 1986.  

Blavatsky, H.P. Isis Unveiled. The Theosophy Co., Los Angeles, 1982.  

Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky The Blavatsky Archives Online, 1999.  

Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett. TUP, Pasadena, 1973.  

Godwin, J. Theosophical History, vol. 3, n° 4, October 1990.  

Gomes, M. Theosophical History, vol. 3, n° 7-8, July-October 1991.  

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Sequence) TPH, Quezon City, 1993.  

Hodson, G. Light of The Sanctuary - The Occult Diary of Geoffrey Hodson TPI, Manila, 1988.  

Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom, 1st and 2nd Series. TPH, Adyar, 1973.  

Johnson, K. P. The Masters Revealed. Suny Press, Albany, 1994.  

Neff, Mary K. Personal Memoirs of H.P. Blavatsky. Quest Book, TPH, Wheaton, 1971.  

Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. I. TPH, Adyar, 1974.  

Rawson, A.L. Theosophical History, vol. 2, n° 6, April 1988.  

Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. B., 1886. Kessinger Publ. Co., Montana.  

Sinnett, A.P. Theosophical History, vol. 2, n° 4, October 1987.  

Solovyoff, V.S. A Modern Priestess of Isis, Longmans, Green, and Co., London, 1895.  

  

****

 

O Informativo HPB tem por objetivo compartilhar o resultado de estudos e pesquisas sobre HPB, realizados nos últimos anos. Comentários, sugestões ou perguntas são bem-vindos e devem ser encaminhados para a autora: 

Marina Cesar Sisson 
msisson@zaz.com.br  
Caixa Postal 08.861 
70.312-970 Brasília, DF - Brasil 

 

BN-Inglês | BN-Português | alto