John King - Um Iniciado

Marina Cesar Sisson 
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 04, nov./99) 
 
  

Neste número do Informativo HPB continuaremos a tentar decifrar este "pedaço não digerido" da literatura teosófica é que John King (Spierenburg, p. 168). Como vimos no Informativo HPB no 3, John King era um ser com grande influência e domínio sobre a Madame. Vimos também que, considerando o grau de desenvolvimento dos poderes psíquicos de HPB, esta influência só poderia ser explicada se ele fosse hierarquicamente superior a ela, sendo, portanto, um membro da Hierarquia.  

William Stainton Moses foi um médium inglês que escreveu vários livros sob o pseudônimo de "M. A. Oxon" e que se comunicava com uma entidade que se autodenominava "Imperator". O contato dele com Olcott e a Madame começou em 1875, a partir da publicação do livro de Olcott People from the Other Worlds ("Gente dos Outros Mundos"), gerando uma amizade estreita que durou muitos anos. Há várias passagens nas cartas dos Mestres para Sinnett que citam Moses e "Imperator". Numa carta, referindo-se a John King como sendo um iniciado, Olcott recomenda que Moses tentasse conversar com ele através de médiuns da época:  

"Tente conseguir uma conversa particular com ‘John King’ - ele é um iniciado, e suas leviandades de fala e de ação têm o propósito de encobrir questões sérias. Você pode encontrá-lo no Herne ou no Williams e combinar, em particular, para que ele venha e converse com você e traga outros." (Godwin, p. 108) Portanto, nesta época (julho de 1875), Olcott ainda não usava a "desculpa" de um espírito desencarnado para justificar o comportamento atípico de John King, mas revelava conhecer que este comportamento tinha a intenção de encobrir questões sérias. Mas a verdade é que, apesar de Olcott demonstrar conhecer este lado de John King, em algumas ocasiões ele ainda se sentia confuso e desconfiado com relação aos seus métodos. O Mestre Serapis, numa carta também desta época, lhe chama a atenção por causa desta sua atitude, dizendo que:   "O guardião estava agindo, tentando envenenar seu coração com a dúvida negra e faze-lo desacreditar nosso bom John. Você o magoou muito, pois mesmo que vinculado de outro modo à terra, e compartilhando em grande medida das frágeis imperfeições humanas, ainda assim nosso Irmão John é verdadeiro e nobre em seu coração, e incapaz de deliberadamente decepcionar um amigo." (LMW, 2nd S., p. 24)  

John King - um Auxiliar do Mestre Serapis

  Há várias cartas do Mestre Serapis para Olcott que mencionam John King. Nelas, ele geralmente aparece como um auxiliar do Mestre Serapis. Por exemplo, enquanto estava em Boston, Olcott encaminhava relatórios diários para a "Loja" através de John King:   "Escreva diariamente para nossa Irmã que está sofrendo. Conforte seu coração dolorido e perdoe as deficiências infantis de alguém cujo verdadeiro e fiel coração não compartilha dos defeitos resultantes de uma tenra infância mimada. Você deve endereçar seus relatórios e notas diárias para a Loja, enquanto estiver em Boston, através do Irmão John, não omitindo os sinais cabalísticos de Salomão no envelope." (LMW, 2nd S., p. 39)     "Irmão Henry deve apresentar relatório todas as noites e, tendo apresentado sua opinião sobre o trabalho do dia, postá-la para o endereço de nosso bom Irmão John, envolvendo os sinais do envelope com o selo do Rei Salomão" (LMW, 2nd Series, p. 40) Esta referência ao uso do selo de Salomão nas correspondências de Olcott para a "Loja", reforçam a hipótese levantada no Informativo HPB no 2 de que ele, nesta época, teria um anel de sinete com o desenho dos dois triângulos entrelaçados, isto é, do Selo de Salomão, a partir do qual HPB teria feito uma duplicação fenomênica. Esta hipótese também havia sido reforçada pelo fato de HPB aparecer numa foto de setembro de 1875 com um anel no qual aparecia apenas o símbolo de Salomão (Gomes, p. 83).  

Em relação a este símbolo, não parece ser um mero acaso que um dos Mestres interessados em Olcott - Polydorus Isurenos - era da "Seção de Salomão".   

O Auto-retrato de John King

 No início de março de 1875, HPB escreve ao general Lippitt que iria lhe mandar um auto-retrato que John King fizera, no qual ele aparece "em sua sacada, no Summer-land" (HPB Speaks, I, p.57). Elaborada em cores sobre um pedaço de cetim branco, a pintura mostra no centro a cabeça e parte do tronco de um homem, com barba preta cerrada, vestindo um turbante e vestes brancas. Ele está de pé numa sacada, rodeado por folhagens e uma grande grinalda de flores. Ao fundo, à direita, há pálidas figuras humanas e, à esquerda, uma construção que lembra um castelo à beira de um lago. Ele segura um grande livro com símbolos em sua capa. Na pilastra da sacada aparecem os símbolos do selo de Salomão e da suástica.  

É importante observarmos que estes dois símbolos também estão presentes no monograma de HPB (vide a capa deste Informativo) e no símbolo da ST. Diz Gomes que:  

"Esta pintura está preservada na sede da ST em Adyar, Índia. As cores ainda são extraordinariamente brilhantes para sua idade; o cetim desbotou apenas em um lugar. Ela foi levada para Londres em junho de 1893 por W.Q. Judge, então presidente da Seção Americana da Sociedade, como um presente do general Lippitt para Annie Besant." (Gomes, p. 211) Olcott, que estava na casa nesta ocasião, descreve numa carta para o general Lippitt como o retrato foi feito (HPB Speaks, I, p. 78). A Madame comprou um pedaço de um fino cetim branco do tamanho requerido (1 jarda² = 0,91m²). Este foi colocado numa prancheta, junto com pincéis, tintas e água. Todo este material foi coberto com um pano e deixado por toda a noite na sala especialmente dedicada aos "espíritos".  

Pela manhã toda a parte superior da pintura e a face de John estavam esboçados e havia um colorido à volta das figuras humanas, no fundo. John, então, pediu a HPB que começasse a grinalda de flores que fica à volta, como uma moldura. Porém, como a Madame trabalhava "muito devagar quando ele não me ajuda ou o faz ele mesmo" (HPB Speaks, I, p. 57), John, insatisfeito com o trabalho dela, dispensou-a. Quando chamou-a de volta, ela encontrou toda a folhagem superior e a sacada de mármore delineadas. HPB passou então a trabalhar nesta folhagem e, dai por diante, limitou-se exclusivamente a pintar este pedaço. Olcott relata:  

"John fez todo o restante ele mesmo - por partes, algumas vezes de dia e algumas vezes à noite. Eu estava na casa durante a maior parte deste tempo e em mais de uma ocasião sentei-me próximo dela [HPB] enquanto pintava, e com ela sai da sala por alguns minutos enquanto o espírito artista desenhava alguma parte da pintura, embaixo do pano que cobria sua face. As palavras gregas e hebraicas e os símbolos cabalísticos foram as últimas coisas a serem colocadas." (HPB Speaks, I, p. 78) No início de abril a pintura foi enviada para o general Lippitt, com o pedido de que ele nunca se separasse dela, e não deixasse que muitas pessoas a tocassem, ou se aproximassem muito dela. (HPB Speaks, I, p. 64). A Madame comenta a reação de Lippitt à pintura:   "Eu estou contente que você tenha gostado da pintura de Johny, mas você não deve chamá-lo de turco, pois ele é um nobre e querido espírito, e gosta muito de você. Não é culpa de ninguém se você ainda não o viu, até agora, como ele é na realidade, e sempre imaginou-o parecido com o velho médico judeu meio materializado que lhe era geralmente apresentado nos Holmes. Apenas em Londres ele aparece como ele é; mas ainda trazendo, em suas queridas feições, alguma semelhança com seus respectivos médiuns, pois é difícil para ele mudar completamente as partículas extraídas por ele de vários poderes vitais." (HPB Speaks, I, p. 65) É interessante esta referência de HPB de que "apenas em Londres ele aparece como ele é". Numa sessão realizada em Londres, com o médium Williams, em março de 1873, foi feito um esboço de John King o qual, a menos das flores e do fundo à volta da figura central, é igual ao retrato feito para Lippitt. (Cooper, p. 145) Isto reforça o fato de que esta pintura de John King deve ser muito parecida com o que "ele é na realidade".   

John King - Um Irmão da Ordem 

Ao enviar a pintura para Lippitt, a Madame também lhe disse que:   "John pede que você dê atenção à figura do espírito que paira acima - ‘a mãe e filho’. Diz que você vai reconhecê-la. Eu não a reconheci. Johny quer que você tente e compreenda todos os símbolos e sinais maçônicos colocados." (HPB Speaks, I, p. 64). Lippitt não reconheceu o espírito e, posteriormente, a Madame identificou-o como sendo a imagem de Katie King, que havia aparecido em várias sessões ao general (HPB Speaks, I, p. 66). Mas, quanto aos símbolos que ele devia tentar compreender, HPB comenta:   "Até que todo o significado dos símbolos na pintura de John seja descoberto, John não pode ensinar às pessoas - e declina de torná-las mais sábias. ‘Tente’ e descubra-o, se puder." (HPB Speaks, I, p. 73) O uso da palavra ‘tente’ - característica das cartas do Mestre Serapis - e a referência a John King como alguém apto a tornar as pessoas mais sábias, são mais um reforço à hipótese de que ele era um membro da Hierarquia e, como vimos, hierarquicamente superior a HPB.  

Olcott numa carta para Lippitt explica que as palavras gregas e hebraicas e os símbolos cabalísticos da pintura eram conhecidos de todos os estudantes da Cabala e que:  

"Elas [as palavras] e os símbolos e a jóia que John King usa sobre seu peito são todos símbolos Rosacruzes, tendo sido ele um irmão da Ordem, e sendo este o laço que o liga à nossa dotada amiga Madame de B. [Blavatsky]." (HPB Speaks, I, p. 79) É importante notar que Olcott refere-se a John King como sendo "um irmão da Ordem" e que este é o "laço que o liga" à Madame. HPB reforça esta ligação de John King com uma Ordem, ou Fraternidade, ao escrever para Lippitt que as cartas que ele recebera, ditadas por espíritos e que aparentemente não significavam nada, eram instruções para os espíritas dos Estados Unidos, escritas num alfabeto cifrado, isto é:   "... o cabalístico, empregado por Rosacruzes e outras Fraternidades das Ciências Ocultas. Eu não estou em liberdade para lê-las para você, até ter a permissão. Não considere estas palavras como uma artimanha. Eu lhe dou minha palavra de honra de que é assim. É claro que John sabe escrever desta maneira, pois ele pertenceu, como você soube, a uma das ordens. Preserve tudo que você possa receber deste modo muito cuidadosamente." (HPB Speaks, I, p. 97) Observe-se que em 1874 HPB se declarava uma "rosacrusiana" (CW, I, p.100), mas num artigo em junho de 1875 escrevia que "... estritamente falando, os Rosacruzes agora nem mesmo existem, tendo o último daquela Fraternidade partido com a pessoa de Cagliostro." (CW, I, p.103) Ora, se ela se declarava uma Rosacruz, mas dizia que o último desta Fraternidade havia partido com Cagliostro, ela devia estar se referindo a uma Fraternidade - ou Ordem - num sentido mais elevado. Portanto, esta Ordem devia ser ligada à Hierarquia. Se esta Fraternidade era o laço que ligava HPB a John King, então, ele também seria um membro da Hierarquia.  

Esta hipótese é reforçada por Olcott quando diz que HPB, em 1874, usava sobre seu peito "uma jóia com um emblema místico de uma Fraternidade Oriental", da qual, provavelmente, era "a única representante neste país." Esta jóia que HPB usava é descrita como sendo a misteriosa jóia do 18o Grau Rosacruz, que teria pertencido ao próprio Cagliostro (Taylor, p. 79). Escreve Olcott:  

"Se Madame de B. foi admitida para dentro do véu ou não [nos ramos superiores da Magia Branca], pode-se apenas conjeturar, pois ela é muito reticente sobre este assunto, mas seus dons surpreendentes parecem impossíveis de serem explicados com qualquer outra hipótese. Ela usa sobre seu peito um emblema místico em forma de jóia, de uma Fraternidade Oriental e é, provavelmente, a única representante neste país desta irmandade, a qual (como Bulwer observa) ‘numa época mais antiga, era a possuidora de segredos dos quais a Pedra Filosofal era o menor; que considerava-se a herdeira de tudo que os Caldeus, os Magi, os Gimnosofistas e os Platônicos haviam ensinado; e que diferiam de todos os filhos sinistros da Magia, pela virtude de suas vidas, pela pureza de suas doutrinas e pela sua insistência, como o fundamento de toda Sabedoria, na subjugação dos sentidos e na intensidade de Fé Religiosa’" (POW, p. 453) 

John King Cura a Perna de H.P.B.

 Em janeiro de 1875, HPB havia caído no chão ao tentar mover a armação de uma cama pesada, machucando seriamente seu joelho e quase quebrando sua perna, obrigando-a a permanecer em repouso (HPB Speaks, II, p. 163). Em janeiro, ela diz que sua perna estava ficando paralisada (HPB Speaks, II, p. 174). Em meio de abril, HPB relata que John King curou sua perna mas que, como ela não cumpriu com o repouso, sua perna piorou novamente:   "Minha perna está pior que nunca. John a curou completamente, e me ordenou repousar por três dias. Eu negligenciei isto e desde aquele dia sinto que ela está ficando cada vez pior."(HPB Speaks, I, p. 75) Em 26 de maio Betanelly escreve para Olcott dizendo que a perna de HPB estava ficando paralisada e que a amputação poderia ser necessária. Ocorre então uma mensagem precipitada por John King na carta, dizendo que ele a curaria. (CW, I, p. lvi). Nesta data, HPB manda Betanelly embora, pois ela estava muito mal, e queria ficar sozinha. Ela diz, em 12 de junho, numa carta para o general Lippitt:   "Você precisa agradecer a "John King" se sua última carta teve qualquer resposta, pois o Sr. B[etanelly] foi para o Oeste. Eu o mandei embora pelo dia 26 de maio, quando supunham que eu estava tão doente, e os doutores começaram a pensar em me privar da minha melhor perna. Pois eu pensei, nesta hora, que estava indo "para o andar de cima" pour de bon [para melhor] e, como detesto ver caras tristes, lamentações, choradeira e coisas deste tipo quando estou doente, mandei-o embora. (...) eu lhe disse que estivesse pronto para voltar quando lhe escrever que estou melhor, ou quando alguma outra pessoa lhe escrever que eu fui para casa, ou "chutei o balde" como "John" muito bondosamente me ensinou a dizer. Bem, eu ainda não morri (...) mas ainda estou na cama, muito fraca, irritada, e geralmente me sinto enlouquecida das 12h às 24h. Então ainda mantenho o camarada longe, para benefício dele e meu próprio conforto." (HPB Speaks, I, p. 80) No início de junho, além da perna, HPB fica seriamente doente, às vezes parecendo estar morta, sendo um quebra-cabeça para os médicos. O máximo da crise foi alcançado à meia noite de 3 de junho. Seus acompanhantes chegam a pensar que ela estava morta, pois ela jazia fria, sem pulso e rígida. Sua perna machucada dobrou de tamanho, ficou preta e seu médico desistiu de fazer qualquer coisa, dizendo que ou amputavam a perna imediatamente ou HPB não teria chances de sobreviver. Entretanto, dentro de algumas horas, o inchaço passou e ela reviveu (CW, I, p. lvi). Em meio de junho, quando Betanelly retorna, escreve para Lippitt que HPB ainda está muito doente:   "Todos estes dias Madame estava sempre na mesma: três ou quatro vezes ao dia, perdendo energia e deitada como se estivesse morta, por duas ou três horas a cada vez, quando o pulso e coração paravam, e ficava fria e pálida como uma morta. John King disse a verdade imediatamente, em tudo. Ela estava num tal transe segunda-feira de manhã e à tarde, das três às seis, que nós pensamos que ela estava morta. As pessoas dizem que, nestas ocasiões, o espírito dela viaja, mas eu não sei nada disso, e eu simplesmente pensei muitas vezes que tudo estava acabado. (...) John fez coisas estranhas, materializou sua cabeça e a beijou, mas como ela não gosta de ser beijada, quando ela melhorou, o xingou e eles ficavam sempre brigando, como você lembra; pois ela detesta quando ele beija nos lábios." (HPB Speaks, I, p. 93-94) Esta também é a época aproximada em que, nas palavras de Olcott, "uma certa maravilhosa transformação psíquico-fisiológica ocorreu em HPB, sobre a qual eu não estou em liberdade para falar e de que ninguém, até agora, suspeitou" (ODL, I, p.18)  

O fato é que, sem dúvida, esta foi uma época do treinamento oculto de HPB em que seus poderes psíquicos passaram por transformações. Como mencionamos no Informativo HPB no 3, ela havia a pouco adquirido dons de clarividência: "Atualmente, por exemplo, a natureza me dotou muito generosamente com a segunda visão, ou dons clarividentes" (HPB Speaks, I, p. 87). Outras transformações em suas capacidades psíquicas também estavam ocorrendo neste período.  

 Não é Mediunidade: É de Uma Ordem Totalmente Superior

  Na época em que Ísis foi publicada, Vera Jelihovsky começou a ficar muito preocupada, pois sua irmã Helena estava escrevendo de uma maneira que, poucos anos antes, teria sido impossível. Ela não conseguia entender como HPB havia adquirido um tal conhecimento, que levava a imprensa americana e inglesa a exaltá-la. Havia rumores de que a fonte deste conhecimento era "bruxaria", o que atemorizava a família. Vera então escreve à irmã, implorando por uma explicação e HPB lhe responde:  

"Não tenha medo de que eu esteja louca. Tudo o que posso dizer é que alguém positivamente me inspira - ... mais do que isso: alguém entra em mim. Não sou eu quem fala e escreve: é algo dentro de mim, meu Eu superior e luminoso, que pensa e escreve por mim. Não me pergunte, minha amiga, o que eu experimento, porque eu não poderia lhe explicar claramente. Eu mesma não sei! A única coisa que eu sei é que agora, quando estou para alcançar a velhice, me tornei uma espécie de depósito do conhecimento de outra pessoa.... Alguém vem e me envolve como uma névoa, e de repente me empurra para fora de mim mesma, e então não sou mais ‘eu’ - Helena Petrovna Blavatsky - mas uma outra pessoa. Alguém forte e poderoso, nascido numa região completamente diferente do mundo; e, quanto a mim, é quase como se eu estivesse dormindo, ou deitada não bem inconsciente - não em meu próprio corpo, mas perto dele, presa apenas por um fio que me amarra a ele." (Letters of HP Blavatsky, Letter I) Em 1865, quando morava no Cáucaso, HPB também passou, durante um período, por algo semelhante. Sinnett narra como ela mesma lhe descreveu o processo:   "Sempre que era chamada pelo nome, abria os olhos quando ouvia o chamado, e era eu mesma, com minha própria personalidade em todos os detalhes. Mas logo que me deixavam sozinha, no entanto, recaía em minha habitual condição meio sonhando, e me tornava uma outra pessoa (quem era, Madame B. não contará). (...) Quando acordada, quando era eu mesma, lembrava-me perfeitamente de quem eu era no meu segundo papel, do que tinha sido e do que estava fazendo." (Incidents, p. 147) HPB também descreve para sua irmã que o processo deste "Alguém" habitando seu corpo, desta dualidade, estava ocorrendo desde a época em que ela quase havia amputado sua perna, ocasião em que foi completamente curada por um negro, a mando de seu "Sahib":   "Ele me curou completamente. E bem por esta época eu comecei a sentir uma dualidade muito estranha. Várias vezes por dia, eu sinto que, além de mim há alguém mais, bem distinguível de mim, presente em meu corpo. Eu nunca perco a consciência de minha própria personalidade; o que eu sinto é como se eu estivesse me mantendo quieta e o outro - o hóspede que está em mim - estivesse falando com a minha língua. (...) Mas qual a utilidade de falar sobre isso? É algo suficiente para deixar alguém maluco. Eu tento me entregar à tarefa e esquecer a estranheza de minha situação. Isto não é mediunidade, e de modo algum é um poder impuro; pois isto tem uma ascendência forte demais sobre nós todos, nos conduzindo a um melhor estado de ser. Nenhum diabo agiria desta maneira. ‘Espíritos’, talvez? Mas se admitíssemos esta hipótese, como explicar que meus antigos ‘espectros’ não ousam mais se aproximar de mim? Basta que eu entre numa sala onde está sendo realizada uma sessão para parar todos os tipos de fenômenos imediatamente, especialmente as materializações. Ah não, isto é de uma ordem totalmente superior! Mas fenômenos de uma outra espécie ocorrem mais e mais freqüentemente sob a direção de meu No. 2." (Letters of HP Blavatsky, Letter I) Para sua tia Nadya ela reafirma tanto a cura quanto a dualidade que ela vivenciava:   "Quando minha perna tinha que ser operada (eles queriam operar quando a gangrena estava se desenvolvendo), o ‘dono da hospedaria’ (‘host’) me curou. Ele estava todo o tempo de pé, próximo a um velho negro, e ele pôs um pequeno prendedor branco em minha perna. Você se lembra que eu lhe escrevi sobre este incidente? Agora, ele vai em breve me levar, a Olcott e a vários outros para a Índia para sempre, nós apenas precisamos primeiro organizar a Sociedade em Londres. Se ele ocupa outros corpos além do meu, eu não sei. Mas eu sei que quando ele não está aqui - às vezes por muitos dias - eu freqüentemente ouço sua voz e lhe respondo ‘através do mar’; Olcott e outros também muitas vezes vêem sua sombra, algumas vezes ela é sólida como uma forma viva, várias vezes como fumaça; ainda mais freqüentemente não é vista, mas sentida.     "Somente agora estou aprendendo a sair de meu corpo; tenho medo de faze-lo sozinha, mas com ele não tenho medo de nada." (HPB Speaks, I, p. 224)  

John King - o "Sahib" de H.P.B.

 Observemos que HPB está dizendo para sua tia e para sua irmã que este "alguém", "dono da hospedaria", "No. 2" ou "Sahib" - aquele que ocupava o corpo dela, que a fazia passar por uma vida dupla, que a ensinava "a sair do corpo", e em companhia de quem ela não tinha "medo de nada" - havia sido também o responsável pela cura de sua perna!  

Ou seja, o "dono da hospedaria" ou "Sahib" era John King - o seu "único amigo", aquele com quem ela estava "em dívida pela mudança radical em suas idéias sobre a vida, seus esforços e assim por diante"; aquele que a "transformou" (Solovyoff, p. 247). Vendo John King neste papel de Instrutor de HPB, responsável até mesmo pelo treinamento e desenvolvimento de seus poderes, começamos a entender melhor a dívida que ela menciona ter com ele.  

Porém, além de ser um membro da Hierarquia com este papel muito específico junto a HPB: o de treiná-la e de instruí-la nas Ciências Ocultas, ele foi, em grande medida, o verdadeiro autor da mensagem que HPB estava trazendo para o mundo, pelo menos nesta fase inicial de seu trabalho público. Como citamos acima, a própria HPB descreve: "Não sou eu quem fala e escreve: é algo dentro de mim (...) A única coisa que eu sei é que agora, quando estou para alcançar a velhice, me tornei uma espécie de depósito do conhecimento de outra pessoa."  

Com todos estes dados em mente, podemos agora começar a tentar decifrar quem era este misterioso personagem. Quem era este ser que treinava HPB, que a havia transformado, que a acompanhava e interferia diretamente em sua vida e seu trabalho, assim como na ST? Seria o seu Guru, o Mestre Morya? Solovyoff, que em 1895 foi o primeiro autor de uma biografia acusando HPB de ser uma impostora e de inventar os Mestres, dá como uma das "provas" da charlatanice de HPB, justamente a confusão entre John King e o Mestre Morya:  

"Aqui estão os primeiros traços da gradual transformação de John King no Mahatma Morya. O ‘mestre’ ainda não foi inventado, uma vez que ele apenas se desenvolverá claramente no decorrer de um par de anos, na Índia, na pessoa de quem o ‘espírito familiar’ irá se tornar." (Solovyoff, p. 247)

Bibliografia

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, vol. I. TPH, Wheaton, 1977.  

Blavatsky, H.P. H.P.B. Speaks, vol. I. Ed. by C. Jinarajadasa. TPH, Adyar, 1986.  

Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky The Blavatsky Archives Online, 1999.  

Cooper, J. Theosophical History, vol. 7, no 4, October 1998.  

Godwin, J. Theosophical History, vol. 3, no 4, October 1990.  

Gomes, M. The Dawning of the Theosophical Movement. TPH, Wheaton, 1987  

Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom, 2nd Series. TPH, Adyar, 1973.  

Olcott, H.S. People from the Other Worlds (1875). Kessinger Publ. Co., Montana  

Olcott, H.S. Old Diary Leaves. TPH, Adyar, 1974.  

Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. Blavatsky, 1886. Kessinger Publ. Co., Montana.  

Solovyoff, V.S. A Modern Priestess of Isis, Longmans, Green, and Co., London, 1895.  

Spierenburg, H.J. Theosophical History, Vol. 1, no 7, July 1986.  

Taylor, N.C. Theosophical History, Vol. 3, no 3, July 1990.  

 
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