John King - Um Iniciado
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
04, nov./99)
Neste número do Informativo HPB continuaremos
a tentar decifrar este "pedaço não digerido" da literatura
teosófica é que John King (Spierenburg, p. 168). Como vimos
no Informativo HPB no
3, John King era um ser com grande influência e domínio sobre
a Madame. Vimos também que, considerando o grau de desenvolvimento
dos poderes psíquicos de HPB, esta influência só poderia
ser explicada se ele fosse hierarquicamente superior a ela, sendo, portanto,
um membro da Hierarquia.
William Stainton Moses foi um médium inglês que escreveu
vários livros sob o pseudônimo de "M. A. Oxon" e que se comunicava
com uma entidade que se autodenominava "Imperator". O contato dele com
Olcott e a Madame começou em 1875, a partir da publicação
do livro de Olcott People from the Other Worlds ("Gente dos Outros
Mundos"), gerando uma amizade estreita que durou muitos anos. Há
várias passagens nas cartas dos Mestres para Sinnett que citam Moses
e "Imperator". Numa carta, referindo-se a John King como sendo um iniciado,
Olcott recomenda que Moses tentasse conversar com ele através de
médiuns da época:
"Tente conseguir uma conversa particular com ‘John King’ - ele é
um iniciado, e suas leviandades de fala e de ação têm
o propósito de encobrir questões sérias. Você
pode encontrá-lo no Herne ou no Williams e combinar, em particular,
para que ele venha e converse com você e traga outros."
(Godwin, p. 108)
Portanto, nesta época (julho de 1875), Olcott ainda não usava
a "desculpa" de um espírito desencarnado para justificar o comportamento
atípico de John King, mas revelava conhecer que este comportamento
tinha a intenção de encobrir questões sérias.
Mas a verdade é que, apesar de Olcott demonstrar conhecer este lado
de John King, em algumas ocasiões ele ainda se sentia confuso e
desconfiado com relação aos seus métodos. O Mestre
Serapis, numa carta também desta época, lhe chama a atenção
por causa desta sua atitude, dizendo que:
"O guardião estava agindo, tentando envenenar seu coração
com a dúvida negra e faze-lo desacreditar nosso bom John. Você
o magoou muito, pois mesmo que vinculado de outro modo à terra,
e compartilhando em grande medida das frágeis imperfeições
humanas, ainda assim nosso Irmão John é verdadeiro e nobre
em seu coração, e incapaz de deliberadamente decepcionar
um amigo." (LMW, 2nd S., p. 24)
John King - um Auxiliar do Mestre Serapis
Há várias cartas do Mestre Serapis
para Olcott que mencionam John King. Nelas, ele geralmente aparece como
um auxiliar do Mestre Serapis. Por exemplo, enquanto estava em Boston,
Olcott encaminhava relatórios diários para a "Loja" através
de John King:
"Escreva diariamente para nossa Irmã que está sofrendo.
Conforte seu coração dolorido e perdoe as deficiências
infantis de alguém cujo verdadeiro e fiel coração
não compartilha dos defeitos resultantes de uma tenra infância
mimada. Você deve endereçar seus relatórios e notas
diárias para a Loja, enquanto estiver em Boston, através
do Irmão John, não omitindo os sinais cabalísticos
de Salomão no envelope." (LMW, 2nd S., p. 39)
"Irmão Henry deve apresentar relatório todas as noites e,
tendo apresentado sua opinião sobre o trabalho do dia, postá-la
para o endereço de nosso bom Irmão John, envolvendo os sinais
do envelope com o selo do Rei Salomão" (LMW, 2nd
Series, p. 40)
Esta referência ao uso do selo de Salomão nas correspondências
de Olcott para a "Loja", reforçam a hipótese levantada no
Informativo HPB no 2 de que ele, nesta época,
teria um anel de sinete com o desenho dos dois triângulos entrelaçados,
isto é, do Selo de Salomão, a partir do qual HPB teria feito
uma duplicação fenomênica. Esta hipótese também
havia sido reforçada pelo fato de HPB aparecer numa foto de setembro
de 1875 com um anel no qual aparecia apenas o símbolo de Salomão
(Gomes, p. 83).
Em relação a este símbolo, não parece ser
um mero acaso que um dos Mestres interessados em Olcott - Polydorus Isurenos
- era da "Seção de Salomão".
O Auto-retrato de John King
No início de março de 1875, HPB
escreve ao general Lippitt que iria lhe mandar um auto-retrato que John
King fizera, no qual ele aparece "em sua sacada, no Summer-land"
(HPB Speaks, I, p.57). Elaborada em cores sobre um pedaço
de cetim branco, a pintura mostra no centro a cabeça e parte do
tronco de um homem, com barba preta cerrada, vestindo um turbante e vestes
brancas. Ele está de pé numa sacada, rodeado por folhagens
e uma grande grinalda de flores. Ao fundo, à direita, há
pálidas figuras humanas e, à esquerda, uma construção
que lembra um castelo à beira de um lago. Ele segura um grande livro
com símbolos em sua capa. Na pilastra da sacada aparecem os símbolos
do selo de Salomão e da suástica.
É importante observarmos que estes dois símbolos também
estão presentes no monograma de HPB (vide a capa deste Informativo)
e no símbolo da ST. Diz Gomes que:
"Esta pintura está preservada na sede da ST em Adyar, Índia.
As cores ainda são extraordinariamente brilhantes para sua idade;
o cetim desbotou apenas em um lugar. Ela foi levada para Londres em junho
de 1893 por W.Q. Judge, então presidente da Seção
Americana da Sociedade, como um presente do general Lippitt para Annie
Besant." (Gomes, p. 211)
Olcott, que estava na casa nesta ocasião, descreve numa carta para
o general Lippitt como o retrato foi feito (HPB Speaks, I,
p. 78). A Madame comprou um pedaço de um fino cetim branco do tamanho
requerido (1 jarda² = 0,91m²). Este foi colocado numa
prancheta, junto com pincéis, tintas e água. Todo este material
foi coberto com um pano e deixado por toda a noite na sala especialmente
dedicada aos "espíritos".
Pela manhã toda a parte superior da pintura e a face de John
estavam esboçados e havia um colorido à volta das figuras
humanas, no fundo. John, então, pediu a HPB que começasse
a grinalda de flores que fica à volta, como uma moldura. Porém,
como a Madame trabalhava "muito devagar quando ele não me ajuda
ou o faz ele mesmo" (HPB Speaks, I, p. 57), John, insatisfeito
com o trabalho dela, dispensou-a. Quando chamou-a de volta, ela encontrou
toda a folhagem superior e a sacada de mármore delineadas. HPB passou
então a trabalhar nesta folhagem e, dai por diante, limitou-se exclusivamente
a pintar este pedaço. Olcott relata:
"John fez todo o restante ele mesmo - por partes, algumas vezes de
dia e algumas vezes à noite. Eu estava na casa durante a maior parte
deste tempo e em mais de uma ocasião sentei-me próximo dela
[HPB] enquanto pintava, e com ela sai da sala por alguns minutos enquanto
o espírito artista desenhava alguma parte da pintura, embaixo do
pano que cobria sua face. As palavras gregas e hebraicas e os símbolos
cabalísticos foram as últimas coisas a serem colocadas."
(HPB Speaks, I, p. 78)
No início de abril a pintura foi enviada para o general Lippitt,
com o pedido de que ele nunca se separasse dela, e não deixasse
que muitas pessoas a tocassem, ou se aproximassem muito dela. (HPB
Speaks, I, p. 64). A Madame comenta a reação de Lippitt
à pintura:
"Eu estou contente que você tenha gostado da pintura de Johny,
mas você não deve chamá-lo de turco, pois ele é
um nobre e querido espírito, e gosta muito de você. Não
é culpa de ninguém se você ainda não o viu,
até agora, como ele é na realidade, e sempre imaginou-o
parecido com o velho médico judeu meio materializado que lhe era
geralmente apresentado nos Holmes. Apenas em Londres ele aparece
como ele é; mas ainda trazendo, em suas queridas feições,
alguma semelhança com seus respectivos médiuns, pois é
difícil para ele mudar completamente as partículas extraídas
por ele de vários poderes vitais." (HPB Speaks, I,
p. 65)
É interessante esta referência de HPB de que "apenas
em Londres ele aparece como ele é". Numa sessão realizada
em Londres, com o médium Williams, em março de 1873, foi
feito um esboço de John King o qual, a menos das flores e do fundo
à volta da figura central, é igual ao retrato feito para
Lippitt. (Cooper, p. 145) Isto reforça o fato de que esta pintura
de John King deve ser muito parecida com o que "ele é na realidade".
John King - Um Irmão da Ordem
Ao enviar a pintura para Lippitt, a Madame também lhe disse que:
"John pede que você dê atenção à
figura do espírito que paira acima - ‘a mãe e filho’.
Diz que você vai reconhecê-la. Eu não a reconheci. Johny
quer que você tente e compreenda todos os símbolos
e sinais maçônicos colocados." (HPB Speaks,
I, p. 64).
Lippitt não reconheceu o espírito e, posteriormente, a Madame
identificou-o como sendo a imagem de Katie King, que havia aparecido em
várias sessões ao general (HPB Speaks, I, p.
66). Mas, quanto aos símbolos que ele devia tentar compreender,
HPB comenta:
"Até que todo o significado dos símbolos na pintura
de John seja descoberto, John não pode ensinar às pessoas
- e declina de torná-las mais sábias. ‘Tente’ e descubra-o,
se puder." (HPB Speaks, I, p. 73)
O uso da palavra ‘tente’ - característica das cartas do Mestre
Serapis - e a referência a John King como alguém apto a tornar
as pessoas mais sábias, são mais um reforço à
hipótese de que ele era um membro da Hierarquia e, como vimos, hierarquicamente
superior a HPB.
Olcott numa carta para Lippitt explica que as palavras gregas e hebraicas
e os símbolos cabalísticos da pintura eram conhecidos de
todos os estudantes da Cabala e que:
"Elas [as palavras] e os símbolos e a jóia que John
King usa sobre seu peito são todos símbolos Rosacruzes, tendo
sido ele um irmão da Ordem, e sendo este o laço que o liga
à nossa dotada amiga Madame de B. [Blavatsky]." (HPB Speaks,
I, p. 79)
É importante notar que Olcott refere-se a John King como sendo "um
irmão da Ordem" e que este é o "laço que o
liga" à Madame. HPB reforça esta ligação
de John King com uma Ordem, ou Fraternidade, ao escrever para Lippitt que
as cartas que ele recebera, ditadas por espíritos e que aparentemente
não significavam nada, eram instruções para
os espíritas dos Estados Unidos, escritas num alfabeto cifrado,
isto é:
"... o cabalístico, empregado por Rosacruzes e outras
Fraternidades das Ciências Ocultas. Eu não estou em
liberdade para lê-las para você, até ter a permissão.
Não considere estas palavras como uma artimanha. Eu lhe dou minha
palavra de honra de que é assim. É claro que John sabe
escrever desta maneira, pois ele pertenceu, como você soube, a uma
das ordens. Preserve tudo que você possa receber deste modo muito
cuidadosamente." (HPB Speaks, I, p. 97)
Observe-se que em 1874 HPB se declarava uma "rosacrusiana" (CW,
I, p.100), mas num artigo em junho de 1875 escrevia que "... estritamente
falando, os Rosacruzes agora nem mesmo existem, tendo o último daquela
Fraternidade partido com a pessoa de Cagliostro." (CW, I, p.103)
Ora, se ela se declarava uma Rosacruz, mas dizia que o último desta
Fraternidade havia partido com Cagliostro, ela devia estar se referindo
a uma Fraternidade - ou Ordem - num sentido mais elevado. Portanto, esta
Ordem devia ser ligada à Hierarquia. Se esta Fraternidade era o
laço que ligava HPB a John King, então, ele também
seria um membro da Hierarquia.
Esta hipótese é reforçada por Olcott quando diz
que HPB, em 1874, usava sobre seu peito "uma jóia com um emblema
místico de uma Fraternidade Oriental", da qual, provavelmente,
era "a única representante neste país." Esta jóia
que HPB usava é descrita como sendo a misteriosa jóia do
18o Grau Rosacruz, que teria pertencido ao próprio
Cagliostro (Taylor, p. 79). Escreve Olcott:
"Se Madame de B. foi admitida para dentro do véu ou não
[nos ramos superiores da Magia Branca], pode-se apenas conjeturar, pois
ela é muito reticente sobre este assunto, mas seus dons surpreendentes
parecem impossíveis de serem explicados com qualquer outra hipótese.
Ela usa sobre seu peito um emblema místico em forma de jóia,
de uma Fraternidade Oriental e é, provavelmente, a única
representante neste país desta irmandade, a qual (como Bulwer observa)
‘numa época mais antiga, era a possuidora de segredos dos quais
a Pedra Filosofal era o menor; que considerava-se a herdeira de tudo que
os Caldeus, os Magi, os Gimnosofistas e os Platônicos haviam ensinado;
e que diferiam de todos os filhos sinistros da Magia, pela virtude de suas
vidas, pela pureza de suas doutrinas e pela sua insistência, como
o fundamento de toda Sabedoria, na subjugação dos sentidos
e na intensidade de Fé Religiosa’" (POW, p. 453)
John King Cura a Perna de H.P.B.
Em janeiro de 1875, HPB havia caído no
chão ao tentar mover a armação de uma cama pesada,
machucando seriamente seu joelho e quase quebrando sua perna, obrigando-a
a permanecer em repouso (HPB Speaks, II, p. 163). Em janeiro,
ela diz que sua perna estava ficando paralisada (HPB Speaks,
II, p. 174). Em meio de abril, HPB relata que John King curou sua perna
mas que, como ela não cumpriu com o repouso, sua perna piorou novamente:
"Minha perna está pior que nunca. John a curou completamente,
e me ordenou repousar por três dias. Eu negligenciei isto
e desde aquele dia sinto que ela está ficando cada vez pior."(HPB
Speaks, I, p. 75)
Em 26 de maio Betanelly escreve para Olcott dizendo que a perna de HPB
estava ficando paralisada e que a amputação poderia ser necessária.
Ocorre então uma mensagem precipitada por John King na carta, dizendo
que ele a curaria. (CW, I, p. lvi). Nesta data, HPB manda Betanelly embora,
pois ela estava muito mal, e queria ficar sozinha. Ela diz, em 12 de junho,
numa carta para o general Lippitt:
"Você precisa agradecer a "John King" se sua última carta
teve qualquer resposta, pois o Sr. B[etanelly] foi para o Oeste. Eu o mandei
embora pelo dia 26 de maio, quando supunham que eu estava tão doente,
e os doutores começaram a pensar em me privar da minha melhor
perna. Pois eu pensei, nesta hora, que estava indo "para o andar de cima"
pour de bon [para melhor] e, como detesto ver caras tristes, lamentações,
choradeira e coisas deste tipo quando estou doente, mandei-o embora.
(...) eu lhe disse que estivesse pronto para voltar quando lhe escrever
que estou melhor, ou quando alguma outra pessoa lhe escrever que eu fui
para casa, ou "chutei o balde" como "John" muito bondosamente me
ensinou a dizer. Bem, eu ainda não morri (...) mas ainda
estou na cama, muito fraca, irritada, e geralmente me sinto enlouquecida
das 12h às 24h. Então ainda mantenho o camarada longe, para
benefício dele e meu próprio conforto." (HPB Speaks,
I, p. 80)
No início de junho, além da perna, HPB fica seriamente doente,
às vezes parecendo estar morta, sendo um quebra-cabeça para
os médicos. O máximo da crise foi alcançado à
meia noite de 3 de junho. Seus acompanhantes chegam a pensar que ela estava
morta, pois ela jazia fria, sem pulso e rígida. Sua perna machucada
dobrou de tamanho, ficou preta e seu médico desistiu de fazer qualquer
coisa, dizendo que ou amputavam a perna imediatamente ou HPB não
teria chances de sobreviver. Entretanto, dentro de algumas horas, o inchaço
passou e ela reviveu (CW, I, p. lvi). Em meio de junho, quando Betanelly
retorna, escreve para Lippitt que HPB ainda está muito doente:
"Todos estes dias Madame estava sempre na mesma: três ou quatro
vezes ao dia, perdendo energia e deitada como se estivesse morta, por duas
ou três horas a cada vez, quando o pulso e coração
paravam, e ficava fria e pálida como uma morta. John King disse
a verdade imediatamente, em tudo. Ela estava num tal transe segunda-feira
de manhã e à tarde, das três às seis, que nós
pensamos que ela estava morta. As pessoas dizem que, nestas ocasiões,
o espírito dela viaja, mas eu não sei nada disso, e eu simplesmente
pensei muitas vezes que tudo estava acabado. (...) John fez coisas estranhas,
materializou sua cabeça e a beijou, mas como ela não gosta
de ser beijada, quando ela melhorou, o xingou e eles ficavam sempre brigando,
como você lembra; pois ela detesta quando ele beija nos lábios."
(HPB Speaks, I, p. 93-94)
Esta também é a época aproximada em que, nas palavras
de Olcott, "uma certa maravilhosa transformação psíquico-fisiológica
ocorreu em HPB, sobre a qual eu não estou em liberdade para falar
e de que ninguém, até agora, suspeitou" (ODL,
I, p.18)
O fato é que, sem dúvida, esta foi uma época do
treinamento oculto de HPB em que seus poderes psíquicos passaram
por transformações. Como mencionamos no Informativo HPB no
3, ela havia a pouco adquirido dons de clarividência: "Atualmente,
por exemplo, a natureza me dotou muito generosamente com a segunda
visão, ou dons clarividentes" (HPB Speaks, I,
p. 87). Outras transformações em suas capacidades psíquicas
também estavam ocorrendo neste período.
Não
é Mediunidade: É de Uma Ordem Totalmente Superior
Na época em que Ísis foi publicada,
Vera Jelihovsky começou a ficar muito preocupada, pois sua irmã
Helena estava escrevendo de uma maneira que, poucos anos antes, teria sido
impossível. Ela não conseguia entender como HPB havia adquirido
um tal conhecimento, que levava a imprensa americana e inglesa a exaltá-la.
Havia rumores de que a fonte deste conhecimento era "bruxaria", o que atemorizava
a família. Vera então escreve à irmã, implorando
por uma explicação e HPB lhe responde:
"Não tenha medo de que eu esteja louca. Tudo o que posso dizer
é que alguém positivamente me inspira - ...
mais do que isso: alguém entra em mim. Não sou eu quem fala
e escreve: é algo dentro de mim, meu Eu superior e luminoso, que
pensa e escreve por mim. Não me pergunte, minha amiga, o que eu
experimento, porque eu não poderia lhe explicar claramente. Eu mesma
não sei! A única coisa que eu sei é que agora, quando
estou para alcançar a velhice, me tornei uma espécie de depósito
do conhecimento de outra pessoa.... Alguém vem e me envolve
como uma névoa, e de repente me empurra para fora de mim mesma,
e então não sou mais ‘eu’ - Helena Petrovna Blavatsky - mas
uma outra pessoa. Alguém forte e poderoso, nascido numa região
completamente diferente do mundo; e, quanto a mim, é quase como
se eu estivesse dormindo, ou deitada não bem inconsciente - não
em meu próprio corpo, mas perto dele, presa apenas por um fio que
me amarra a ele." (Letters of HP Blavatsky, Letter I)
Em 1865, quando morava no Cáucaso, HPB também passou, durante
um período, por algo semelhante. Sinnett narra como ela mesma lhe
descreveu o processo:
"Sempre que era chamada pelo nome, abria os olhos quando ouvia o chamado,
e era eu mesma, com minha própria personalidade em todos os detalhes.
Mas logo que me deixavam sozinha, no entanto, recaía em minha habitual
condição meio sonhando, e me tornava uma outra pessoa
(quem era, Madame B. não contará). (...) Quando acordada,
quando era eu mesma, lembrava-me perfeitamente de quem eu era
no meu segundo papel, do que tinha sido e do que estava fazendo." (Incidents,
p. 147)
HPB também descreve para sua irmã que o processo deste "Alguém"
habitando seu corpo, desta dualidade, estava ocorrendo desde a época
em que ela quase havia amputado sua perna, ocasião em que foi completamente
curada por um negro, a mando de seu "Sahib":
"Ele me curou completamente. E bem por esta época eu comecei
a sentir uma dualidade muito estranha. Várias vezes por dia, eu
sinto que, além de mim há alguém mais, bem distinguível
de mim, presente em meu corpo. Eu nunca perco a consciência de minha
própria personalidade; o que eu sinto é como se eu estivesse
me mantendo quieta e o outro - o hóspede que está em mim
- estivesse falando com a minha língua. (...) Mas qual a utilidade
de falar sobre isso? É algo suficiente para deixar alguém
maluco. Eu tento me entregar à tarefa e esquecer a estranheza de
minha situação. Isto não é mediunidade, e de
modo algum é um poder impuro; pois isto tem uma ascendência
forte demais sobre nós todos, nos conduzindo a um melhor estado
de ser. Nenhum diabo agiria desta maneira. ‘Espíritos’, talvez?
Mas se admitíssemos esta hipótese, como explicar que meus
antigos ‘espectros’ não ousam mais se aproximar de mim? Basta que
eu entre numa sala onde está sendo realizada uma sessão para
parar todos os tipos de fenômenos imediatamente, especialmente as
materializações. Ah não, isto é de uma ordem
totalmente superior! Mas fenômenos de uma outra espécie ocorrem
mais e mais freqüentemente sob a direção de meu No.
2." (Letters of HP Blavatsky, Letter I)
Para sua tia Nadya ela reafirma tanto a cura quanto a dualidade que ela
vivenciava:
"Quando minha perna tinha que ser operada (eles queriam operar quando
a gangrena estava se desenvolvendo), o ‘dono da hospedaria’ (‘host’)
me curou. Ele estava todo o tempo de pé, próximo a um velho
negro, e ele pôs um pequeno prendedor branco em minha perna. Você
se lembra que eu lhe escrevi sobre este incidente? Agora, ele vai em breve
me levar, a Olcott e a vários outros para a Índia para sempre,
nós apenas precisamos primeiro organizar a Sociedade em Londres.
Se ele ocupa outros corpos além do meu, eu não sei. Mas eu
sei que quando ele não está aqui - às vezes por muitos
dias - eu freqüentemente ouço sua voz e lhe respondo ‘através
do mar’; Olcott e outros também muitas vezes vêem sua sombra,
algumas vezes ela é sólida como uma forma viva, várias
vezes como fumaça; ainda mais freqüentemente não é
vista, mas sentida.
"Somente agora estou aprendendo a sair de meu corpo; tenho medo de faze-lo
sozinha, mas com ele não tenho medo de nada." (HPB Speaks,
I, p. 224)
John King - o "Sahib" de H.P.B.
Observemos que HPB está dizendo para
sua tia e para sua irmã que este "alguém", "dono
da hospedaria", "No. 2" ou "Sahib" -
aquele que ocupava o corpo dela, que a fazia passar por uma vida dupla,
que a ensinava "a sair do corpo", e em companhia de quem ela não
tinha "medo de nada" - havia sido também o responsável
pela cura de sua perna!
Ou seja, o "dono da hospedaria" ou "Sahib" era John King
- o seu "único amigo", aquele com quem ela estava
"em dívida pela mudança radical em suas idéias
sobre a vida, seus esforços e assim por diante"; aquele que
a "transformou" (Solovyoff, p. 247). Vendo John King neste papel
de Instrutor de HPB, responsável até mesmo pelo treinamento
e desenvolvimento de seus poderes, começamos a entender melhor a
dívida que ela menciona ter com ele.
Porém, além de ser um membro da Hierarquia com este papel
muito específico junto a HPB: o de treiná-la e de instruí-la
nas Ciências Ocultas, ele foi, em grande medida, o verdadeiro autor
da mensagem que HPB estava trazendo para o mundo, pelo menos nesta fase
inicial de seu trabalho público. Como citamos acima, a própria
HPB descreve: "Não sou eu quem fala e escreve: é algo
dentro de mim (...) A única coisa que eu sei é que agora,
quando estou para alcançar a velhice, me tornei uma espécie
de depósito do conhecimento de outra pessoa."
Com todos estes dados em mente, podemos agora começar a tentar
decifrar quem era este misterioso personagem. Quem era este ser que treinava
HPB, que a havia transformado, que a acompanhava e interferia diretamente
em sua vida e seu trabalho, assim como na ST? Seria o seu Guru, o Mestre
Morya? Solovyoff, que em 1895 foi o primeiro autor de uma biografia acusando
HPB de ser uma impostora e de inventar os Mestres, dá como uma das
"provas" da charlatanice de HPB, justamente a confusão entre John
King e o Mestre Morya:
"Aqui estão os primeiros traços da gradual transformação
de John King no Mahatma Morya. O ‘mestre’ ainda não foi inventado,
uma vez que ele apenas se desenvolverá claramente no decorrer de
um par de anos, na Índia, na pessoa de quem o ‘espírito familiar’
irá se tornar." (Solovyoff, p. 247)
Bibliografia
Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky
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Blavatsky, H.P. H.P.B. Speaks,
vol. I. Ed. by C. Jinarajadasa. TPH, Adyar, 1986.
Blavatsky, H.P. Letters of H.P.
Blavatsky The Blavatsky Archives Online, 1999.
Cooper, J. Theosophical History,
vol. 7, no
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Godwin, J. Theosophical History,
vol. 3, no 4,
October 1990.
Gomes, M. The Dawning of the Theosophical
Movement. TPH, Wheaton, 1987
Jinarajadasa, C. (ed.) Letters
from the Masters of the Wisdom, 2nd Series. TPH, Adyar,
1973.
Olcott, H.S. People from the Other
Worlds (1875). Kessinger Publ. Co., Montana
Olcott, H.S. Old Diary Leaves.
TPH, Adyar, 1974.
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Solovyoff, V.S. A Modern Priestess
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Spierenburg, H.J. Theosophical
History, Vol. 1, no
7, July 1986.
Taylor, N.C. Theosophical
History, Vol. 3, no
3, July 1990.
****
O Informativo HPB tem por objetivo compartilhar o resultado de
estudos e pesquisas sobre HPB, realizados nos últimos anos.
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e devem ser encaminhados para a autora:
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