John King: Um Pedaço
Não Digerido da Literatura Teosófica
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
03, nov./99)
John King é um personagem da história teosófica que
é muito pouco conhecido e muito pouco compreendido. A grande maioria
das biografias e estudos sobre a ST e a Madame apenas o mencionam rapidamente,
como se sua importância fosse completamente marginal. Isto acontece
porque ele é um personagem muito controvertido, que às vezes
parece ser um elemental brincalhão manipulado por HPB, outras vezes
parece ser o espírito de um pirata desencarnado, e ainda em outras
ocasiões parece ser um membro da Hierarquia.
Decifrar John King, mostrando sua verdadeira identidade e a importância
de seu papel, não é uma tarefa fácil. Como Spierenburg
escreveu: "Na literatura teosófica, John King é um pedaço
não digerido ["an undigested lump"]. Temos que admitir isso."
(TH, p. 168). Neste Informativo HPB no
3 vamos começar a examinar o personagem John King, mostrando alguns
aspectos de sua participação na vida de Olcott e da Velha
Senhora.
John King: Ele é Meu Único Amigo
A falta de maiores informações sobre John King pode ser exemplificada
por sua pequeníssima menção na volumosa obra biográfica
de Sylvia Cranston. Este livro, que no original tem 648 páginas,
usa somente um parágrafo para falar sobre John King:
"Quem é o John King mencionado acima? Como HPB foi ordenada
a não revelar, de início, que os fenômenos que ocorriam
em sua presença eram realizados por ela mesma, ela tinha que atribui-los
a alguém, e John King, um nome familiar nos círculos espíritas,
foi o escolhido. Isto satisfez a Olcott, que ainda era um espírita
convicto. Ele próprio comenta: "(...) Não me fizeram de
início acreditar que eu estava lidando com espíritos desencarnados;
e não me apresentaram um disfarce para dar batidas e escrever, e
produzir para mim formas materializadas sob o pseudônimo de John
King?" O nome era também usado por HPB nesta época como
um despiste para seus instrutores e seus agentes. "Pouco a pouco",
Olcott acrescenta, "HPB me fez saber da existência de adeptos
orientais e seus poderes, e me deu, por meio de um grande número
de fenômenos, as provas de seu próprio controle sobre as forças
da natureza [até então] atribuído a John King."
(Cranston, p. 132)
Ou seja, nos dá a entender que era a própria Madame a autora
de quase todos os fenômenos que ela atribuía a John King.
E que, ocasionalmente, embora de uma forma não explicada por Cranston,
John King também poderia estar servindo como um disfarce para os
instrutores de HPB.
Entretanto, especialmente quando estudamos o período em que HPB
morou em Filadélfia, logo nos damos conta que este personagem provavelmente
era o verdadeiro autor dos fenômenos e que, certamente, estava muito
longe de ser uma figura marginal, tanto na vida de HPB, quanto na de Olcott.
Uma demonstração disso é o depoimento que a Madame
deu, numa carta para Aksakov, onde ela manifestou sua imensa gratidão
a John King pela mudança em sua vida:
"Além disso, o espírito John King gosta muito de mim,
e eu gosto mais dele do que de qualquer outra coisa na terra. Ele é
meu único amigo, e se estou em dívida com alguém pela
mudança radical em minhas idéias sobre a vida, meus esforços
e assim por diante, é tão somente com ele. Ele me transformou,
e eu estarei endividada com ele, quando eu ‘for para o andar de cima’,
por não ter que viver, talvez por séculos, na escuridão
e no desalento." (Solovyoff, p. 247)
Outra demonstração clara da importância de John King
é dada por Olcott:
"Pouco a pouco, HPB me fez saber da existência de adeptos orientais
e seus poderes, e me deu, por meio de um grande número de fenômenos,
as provas de seu próprio controle sobre as forças da natureza.
De início, como já comentei, ela os atribuiu a "John King",
e foi através de sua mencionada amizade que eu primeiro entrei em
correspondência pessoal com os Mestres. (...) Alguns, como Damodar
e HPB, primeiro os viram em visões quando ainda eram jovens; alguns
os encontraram sob estranhos disfarces nos locais mais improváveis;
eu fui apresentado a eles por HPB através do meio que minhas experiências
anteriores poderiam tornar mais compreensível, um pretenso "espírito"
que incorporava em médiuns. John King trouxe quatro dos Mestres
à minha atenção, dos quais um era um Copta, outro
era um representante da escola neoplatônica de Alexandria; outro
- um muito elevado, um Mestre dos Mestres, por assim dizer - era um Veneziano;
e outro um filósofo inglês, desaparecido da vista dos homens,
porém não morto. O primeiro foi meu primeiro Guru..."(ODL,
p. 17-19)
Como se poderia conceber como tendo uma importância pequena na vida
de HPB, um ser com quem ela diz estar em dívida "pela mudança
radical em minhas idéias sobre a vida, meus esforços e assim
por diante"? Como poderia ter uma importância menor alguém
que "trouxe quatro dos Mestres" à atenção de
Olcott? É claro que sua importância não é
marginal, mas sim decisiva!
"Mensageiro e Servo -
Nunca Igualado - dos Adeptos Vivos"
Em novembro de 1874, quando Olcott voltou para Nova Iorque após
a investigação na fazenda dos Eddy, onde conheceu HPB, ele
foi ao apartamento dela. Lá HPB realizou sessões onde ocorriam
batidas na mesa e mensagens soletradas, vindas principalmente de uma inteligência
invisível que se auto denominava "John King", sobre o qual ele fala:
"Este pseudônimo tem sido familiar a freqüentadores de
sessões mediúnicas, por todo o mundo, nos últimos
quarenta anos. Foi ouvido pela primeira vez em 1850 na ‘sala de espíritos’
de Jonathan Koons, de Ohio, onde ele dizia ser o chefe de uma tribo ou
tribos de espíritos. Mais tarde, ele disse que era a alma penada
de Sir Henry Morgan, o famoso bucaneiro, e como tal ele se apresentou a
mim. Mostrou-me sua face e sua cabeça coberta por um turbante, em
Filadélfia, durante minhas investigações (...). Ele
tinha uma caligrafia singular, e usava expressões não usuais
do inglês antigo." (ODL I, p. 10)
Na época, Olcott realmente convenceu-se que John King era um espírito
desencarnado. Porém, com o passar dos anos, e com maiores conhecimentos
da filosofia do Ocultismo e dos poderes de HPB, ele entendeu que, embora
os fenômenos fossem reais, não eram realizados por um espírito
desencarnado. Olcott, então, passou a achar que existiam vários
John King, entre os quais um elemental que HPB usava como instrumento no
treinamento dele:
"Ela manteve a ilusão por meses - pela distância dos
anos, não consigo me lembrar exatamente quantos - e eu vi muitos
fenômenos feitos, conforme se afirmava, por John King. (...) Ele
era primeiro, John King, uma personalidade independente; depois era John
King, mensageiro e servo - nunca igualado - dos adeptos vivos e, finalmente,
era um elemental, puro e simples, empregado por HPB..." (ODL, I,
p. 11)
Naturalmente, é o segundo John King, "mensageiro e servo - nunca
igualado - dos Adeptos vivos" que mais nos interessa. É este
John King a quem Jinarajadasa se refere ao dizer que: "As cartas do Mestre
Serapis [para Olcott] várias vezes mencionam John King". (LMW,
2nd S, p. 8). Nestas cartas, diz Jinarajadasa, "John é ‘John King’."
(HPB Speaks, I, p. 5)
John King e a Fraternidade
de Luxor
A primeira carta que Olcott recebeu veio da "Fraternidade de Luxor", em
nome de Tuitit Bey. Não se sabe exatamente a data desta carta mas,
pelo seu conteúdo, pode-se inferir que foi em torno de maio 1875.
Nesta carta o Irmão "John" já aparece como um elo entre Olcott
e a Hierarquia:
"Irmã Helena é uma servidora valente e de toda a confiança.
Abra vosso espírito à convicção, tenha fé
e ela vos conduzirá ao Portão Dourado da verdade. (...) Nosso
bom irmão ‘John’ na verdade agiu impetuosamente, mas sua intenção
foi boa. Filho do Mundo, se vós de fato a eles ouvis, então
TENTE.
"Irmão ‘John’ trouxe três de nossos Mestres para vos
olhar após a sessão. Vossas nobres exortações
em favor de nossa causa agora nos dão o direito de vos deixar saber
quem eram: SERAPIS BEY (Seção de Ellora), POLYDORUS ISURENUS
(Seção de Salomão), ROBERT MORE (Seção
de Zoroastro) (...) Por Ordem do Grande \ TUITIT
BEY
"Observatório de Luxor, Manhã de terça-feira, Dia
de Marte." (HPB Speaks, I, p. 8)
Há também uma carta de HPB para Olcott que certamente acompanhou
a carta de Tuitit Bey, pois nela a Madame explica como a carta de T.B.
havia sido escrita. Ela também confirma que esta era a primeira
carta dos Mestres que Olcott estava recebendo. Nesta carta a Madame escreve:
"Eu a recebi neste exato momento. Tenho o direito e ousei segurar
por algumas horas a carta enviada a você por Tuitit Bey, pois somente
eu devo responder pelos efeitos e resultados das ordens de meus Chefes.
(...) A mensagem foi ordenada em Luxor, um pouco depois da meia noite,
entre segunda e terça-feira. Escrita [em] Ellora, na aurora, por
um dos secretários neófitos, e muito mal escrita. Eu quis
me certificar com T.B. se ainda era sua vontade que ela fosse enviada num
tal estado de rabiscos humanos, uma vez que ela era direcionada
para alguém que recebia uma tal coisa pela primeira vez." (HPB
Speaks, I, p. 1)
Então, ela revela que sua opinião era que, ao invés
desta carta, Olcott deveria receber um pergaminho mágico para que,
tendo um fenômeno concreto em suas mãos, ele pudesse dissipar
um pouco das dúvidas que os truques de "John" certamente estavam
lhe causando:
"Minha sugestão era deixá-lo ter um de nossos pergaminhos,
no qual o conteúdo aparece (materializado) sempre que você
põe seus olhos sobre ele para lê-lo, e desaparece a cada
vez, assim que você tiver terminado, pois, como respeitosamente inferi,
você um pouco antes tinha ficado confuso com os truques de John e
talvez sua mente, apesar de sua crença sincera, precisasse do reforço
de alguma prova mais substancial." (HPB Speaks, I, p. 2)
Porém, Tuitit Bey foi contra isto, respondendo que:
"Uma mente que procura as provas da Sabedoria e Conhecimento em aparências
externas, como nas provas materiais, não é merecedora de
ser introduzida nos grandes segredos do 'Livro da Sophia Sagrada'. Aquele
que nega o Espírito e o questiona com base em sua roupagem material,
a priori nunca o conseguirá. Tente." (HPB Speaks,
I, p. 2)
Após alertar Olcott para a repreensão de T.B., HPB lhe aconselha
a ir com calma no Caminho da busca da Sabedoria, pois nem sempre "John"
estaria a postos para socorrê-lo, evidenciando mais uma vez o papel
de John King como um instrutor neste Caminho:
"Agora meu conselho para você, Henry, um conselho de amigo:
não voe alto demais, batendo seu nariz nos caminhos proibidos
do Portão Dourado sem alguém para lhe guiar; pois John não
estará sempre lá para pegá-lo a tempo pelo colarinho
e trazê-lo a salvo para casa. O pouco que eles fazem por você
é maravilhoso para mim, pois eu nunca os vi tão generosos
desde o início. (...) Eu sou uma pobre iniciada, e sei que
maldição a palavra ‘Tente’ se provou em minha vida,
e o quão freqüentemente eu tremi e temi não compreender
bem suas ordens, e trazer punição sobre mim, tanto por levá-las
longe demais, quanto por não levá-las longe o bastante."
(HPB Speaks, I, p. 3)
Os fatos acima narrados nos mostram que John King não pode,
de modo algum, ser considerado como um personagem de menor importância,
tanto na vida de HPB, quanto na de Olcott e, por extensão, em todo
o início do movimento teosófico contemporâneo. Tendo
isto em mente, examinaremos vários episódios que ilustram
a abrangência de seu envolvimento e de sua influência.
John King como Advogado
de HPB
Em junho de 1874, HPB entrou numa sociedade com a Sra. Clementine Gerebko
com o objetivo de explorar uma fazenda em Northport, Long Island, a qual
já pertencia a esta senhora. A Madame entrou com 1.000 dólares
e, pelo contrato firmado, todo o resultado das plantações,
criação de aves domésticas ou qualquer outro produto
gerado na fazenda seria dividido igualmente, assim como todas as despesas.
HPB foi morar na fazenda mas logo entrou em litígio com a Sra. Gerebko,
e voltou para Nova Iorque, buscando judicialmente ter seu dinheiro de volta.
A firma de advogados Bergen, Jacobs e Ivins de Nova Iorque representou
HPB no caso, que foi a julgamento em 26 de abril de 1875. HPB ganhou a
ação, recebendo 1.146 dólares e as custas. Naquela
época, Long Island, onde ocorreu o julgamento, era distante do Brooklyn,
pois os meios de transporte eram muito limitados. Como o inglês de
HPB ainda era muito pobre, ela deu seu depoimento em francês, tendo
um intérprete. Por duas semanas o juiz, os advogados, os escrivães,
clientes e intérpretes se hospedaram num hotelzinho. (CW,
I, p. 84)
Charles Flint, em seu livro "Memories of an Active Life", relata
as circunstâncias do julgamento. Antes da audiência, Ivins
havia combinado com a Madame os pontos que ela deveria enfatizar em seu
depoimento, e o que ela deveria evitar. Entretanto, na hora de seu depoimento,
HPB começou a seguir uma linha de argumentação bem
oposta àquela que seus advogados haviam combinado com ela, para
desespero dos mesmos. Quando eles reclamaram com ela, perguntando o porquê
disso, ela respondeu que "... seu ‘conhecido’, a quem ela chamava de
Tom [John] King, ficou de pé ao seu lado (invisível a todos
exceto para ela mesma) e lhe ditou o seu depoimento." (CW, I,
p. 85) HPB confirma esta ajuda de John King numa carta para seu amigo general
Lippitt, dizendo que:
"Eu ganhei mais uma ação judicial, e talvez possa recuperar
$5.000 do que perdi. John me ajudou na minha ação judicial,
isto é certo, mas ele fez uma coisa muito feia, embora não
do ponto de vista do ‘Summerland’ [morada dos espíritos],
mas sim de acordo com o código de honra humano, terreno." (HPB
Speaks, I, p. 90)
É provável que a "coisa muito feia" a que ela está
se referindo seja uma briga ocorrida entre os dois advogados, aparentemente
insuflada por John King, pois ela escreve ao general Lippitt:
"... Sr. John, em seu ardente desejo de me ajudar, levou seu zelo
longe demais. Ouça o que aconteceu. Após o veredicto, Marks,
o advogado da acusada, me insultou, dizendo que eu havia ganho a causa
através da falsificação de certos documentos. Se eu
tivesse ignorado o insulto, tudo estaria bem, mas eu não o fiz,
e chamei meu advogado para testemunhar o insulto. Meu advogado chamou Marks
de um m[aldito] perjuro, um judeu e um mentiroso. O outro devolveu o cumprimento,
e meu advogado, instigado por John (pois ele diz que não pode entender
como ele fez isso), agarrou-o pelo pescoço e, jogando-o no
chão, lhe deu a mais espetacular surra para o deleite da
audiência e dos jurados, pois isso ocorreu na Sala da Corte, bem
diante do nariz do juiz." (HPB Speaks, II, p. 175)
Após o julgamento, HPB deixou a cidade e escreveu várias
cartas a Ivins, perguntando sobre o andamento do processo e, finalmente,
o deixou atônito com uma carta onde ela fazia uma previsão
da decisão da Corte. Confirmando sua previsão, a corte lhe
deu ganho de causa baseando-se em argumentos muito semelhantes aos que
ela havia antecipado em sua carta.
John King na Filadélfia
Mas é principalmente do período em que a Madame estava casada
com Betanelly, morando em Filadélfia, que temos o maior número
de registros sobre os fenômenos produzidos por John King, e que fazem
dele uma figura tão controvertida. Estes registros aparecem nas
cartas de HPB, de Olcott e de Betanelly para o general Lippitt. Betanelly
escreve:
"Não há fim para estas maravilhas. Embora eu seja um
espírita há apenas 5 meses, eu tenho visto e testemunhado
mais manifestações de espíritos, e vejo mais delas
a cada dia, do que muitos outros viram em suas longas vidas. Não
tenho tempo, nem espaço, para lhe contar tudo que J.K. faz conosco
mas, se contado, daria a mais notável história jamais escrita
sobre manifestações de espíritos." (HPB Speaks,
I, p. 60)
Diz ainda Betanelly que durante o dia John King "...apenas dá
batidas e circula pela casa. Mas à noite ele se materializa e caminha
pela casa assustando os empregados." (HPB Speaks, I, p. 95)
Betanelly conta também um episódio em que John King queria
que ele e a Madame lhe dessem $50 cada um, conforme ele relata:
"John sempre lhe pede dinheiro. Algumas vezes ela [HPB] lhe dá,
outras não, então ele rouba, e depois aparece e lhe conta
para provocá-la. Ele pediu a ela $50, mas ela não lhe deu,
porque ele não disse a razão. Então ele me pediu,
e me disse que se eu lhe prometesse os $50, ele faria um homem, que me
devia $500, me pagar. Então ele disse à Madame B., e barganhou
com ela, que se ele conseguisse $100 de um homem que devia a ela, e não
queria pagar, ela teria que lhe dar $50. John manteve sua palavra e, no
sábado, ela recebeu $100 do homem, sem lhe pedir, e eu recebi os
meus $500. John disse que ‘psicologizou’ aos dois; e isto deve ter acontecido,
pois ele conseguiu o dinheiro. Ela deu a John $50 e os meus $50, ele disse,
eu devo a ele, e pagarei quando ele me pedir. Nós colocamos o dinheiro
na escrivaninha de John, sua mesa particular, com seus papéis e
correspondências, que ninguém na casa ousa tocar, pois ele
pregará suas peças." (HPB Speaks, I, p. 94)
É interessante atentarmos para o fato de que o poder, presença
e influência de John King eram tão intensos que ele até
mesmo possuía sua escrivaninha particular, onde precipitava suas
correspondências. A Madame relata ao general Lippitt que John King
se correspondia diretamente com várias pessoas, entre elas Olcott.
Não há notícias do paradeiro destas cartas. HPB escreve:
"Você ouviu falar do fenômeno que John fez para Olcott?
Ele realmente lhe escreveu uma longa carta e, ao que parece, ele próprio
postou-a, e nela contou-lhe alguns segredos maravilhosos. Ele é
um ótimo sujeito, o meu John." (HPB Speaks, I, p. 63)
"Ele mostra-se tão poderoso que ele mesmo, de fato, escreve cartas
sem a ajuda de qualquer médium. Ele se corresponde com Olcott, com
Adams, com três ou quatro senhoras que eu nem mesmo conheço;
vem e me conta ‘o bom divertimento que ele teve com eles’, e como ele os
iludiu. Eu posso lhe dar o nome de dez pessoas com quem ele se corresponde."
(HPB Speaks, I, p. 85)
A moça que trabalhava na casa era uma médium e muitas vezes
"... ela gritou na escada ao encontrar ‘John King’ nos degraus ou no
corredor, com sua poderosa figura vestida de branco, contando que
ele ‘a olhou de forma penetrante’, com seus negros olhos de fogo.
E mais de uma vez viu perto de mim, como ela contou aos meus visitantes."
(HPB Speaks, I, p. 242) Certa vez John King assustou-a terrivelmente
quando chegou a correspondência, pois ele:
"... abriu cada uma delas antes que o carteiro tivesse tempo de entregá-las.
Minha empregada, que é magnificamente mediunística - talvez
tanto quanto ela é estúpida - e que passa todo o dia em transe
desmaterializando tudo na cozinha, entrou correndo em meu quarto,
meio chorando e tão assustada que estava muito pálida, me
dizendo que ‘aquele amigo espírito, grandão, de barba preta,
rasgou e abriu os envelopes bem na mão dela’ e, então, eu
li sua carta [de Lippitt]." (HPB Speaks, I, p. 83)
David Dana era um médium encarregado das sessões no "Clube
dos Milagres" que Olcott criou (Meade, p.140), e estava passando algum
tempo na casa da Madame, juntamente com uma amiga francesa de HPB, a Sra.
Magnon (HPB Speaks, I, p. 83). Neste período, HPB teve uma
séria doença, passando alguns dias completamente fria e desacordada.
Enquanto isso John King "tomava conta" da casa de sua "amada Ellie" (HPB).
Recuperada, a Madame descreveu o ocorrido, fazendo uma brincadeira com
o "king" de John King, que em inglês significa "rei":
"Agora, com relação a John King, aquele rei dos
traquinas condenados ["king of mischievous reprobates"]. O que ele
fez aqui pela casa, enquanto eu estava doente, na cama, a ponto de morrer,
três volumes não poderiam expressar! (...) O fato é
que nunca se sabe o que ele pode fazer logo a seguir. (...) Ele rouba tudo
na casa; outro dia, na época em que eu estava tão doente,
ele trouxe $10 para Dana; pois Dana havia lhe escrito de manhã em
seu quarto, secretamente, pedindo-lhe o dinheiro (Dana o conhece
há 29 anos). Ele trouxe $10 para o Sr. Brown; trouxe um anel de
rubi para a Sra. Magnon, o qual ela havia perdido há meses (se tinha
perdido ou se ele havia sido roubado, eu não sei) para ‘recompensá-la’,
ele disse, pois ela havia tomado conta de ‘sua amada Ellie’ (pobre ego)
..." (HPB Speaks, I, p. 83-85)
Outros detalhes da maneira intrigante como John King agia e - o que é
mais desconhecido e surpreendente - de sua ascendência sobre a Madame,
nos são por ela mesma revelados:
"Ele me ama, eu sei, e faria por mim mais do que por qualquer outra
pessoa; [ainda assim] veja as peças que ele me prega quando contrariado:
à menor coisa que eu não faça como ele gostaria que
eu fizesse, ele começa a se fazer de velho Harry, fazendo travessuras
- e que travessuras. Ele me xinga horrivelmente, me chama dos nomes mais
assombrosos, ‘nunca antes ouvidos’; vai aos médiuns e lhes inventa
histórias sobre mim, dizendo-lhes que feri seus sentimentos,
que sou uma mentirosa maliciosa, uma ingrata e assim por diante (...).
Ele falsifica a letra das pessoas e cria problemas nas famílias;
‘ele desaparece e aparece rápida e inesperadamente’ como algum Deus
ex machina infernal; ele está em todo lugar ao mesmo tempo,
e mete seu nariz nos negócios de todo mundo. Ele me prega as mais
inesperadas peças - algumas vezes peças perigosas;
me indispõe com as pessoas e, então, vem rindo e me conta
tudo o que fez, se gabando e me provocando." (HPB Speaks, I, p.
85-86)
"Há alguns dias ele queria que eu fizesse algo que eu não
queria fazer, pois eu estava doente e não achava aquilo correto;
[então] ele jogou em mim um cáustico pedaço de
pedra ‘infernale’, que estava chaveado num porta-jóias dentro
das gavetas, e queimou minha sobrancelha direita e minha bochecha. E, na
manhã seguinte, quando minha sobrancelha se tornou preta como o
azeviche, ele riu e disse que eu parecia uma ‘bela moça espanhola’.
Agora vou ficar marcada pelo menos por um mês. Sei que ele me ama,
eu sei disso, ele é devotadamente ligado a mim, mas me xinga
da maneira mais vergonhosa, o miserável criador de problemas ["wicked
wretch"]. Ele escreve longas cartas para as pessoas sobre mim,
faz elas acreditarem nas coisas mais horríveis e, então,
se gaba disso! (HPB Speaks, I, p. 86)
Todo este comportamento - tão atípico - pode nos fazer acreditar
que a hipótese de Olcott, de que havia três John Kings, é
a explicação mais plausível. Esta é, de fato,
uma hipótese muito conveniente, pois assim, as ações
que condenamos, ou que não entendemos, passam a ser atribuídas
a um "Diakka", isto é, a um espírito que "experimenta
um prazer insano em pregar peças, em fazer truques
ilusivos, em personificar papéis contraditórios"
(Isis, I, p. 219). Contudo, a própria HPB já descarta
esta hipótese, ao escrever ao general Lippitt que:
"Suas idéias e as minhas sobre o mundo dos espíritos
são duas coisas diferentes. Meu Deus! Você talvez
pensará: ‘John é um Diakka’, ‘John é um espírito
mau, um espírito brincalhão e malicioso’, mas
ele não é nem um pouco isso." (HPB Speaks, I, p. 87)
Além disso, tal hipótese não é sustentável
logicamente quando consideramos que, nesta época, a Madame já
havia desenvolvido extraordinariamente seus poderes psíquicos e,
mesmo assim, o "espírito" John King, "rei dos traquinas", sem dúvida,
exercia um grande poder e influência sobre ela. Com ele, ela nada
podia fazer, nem mesmo prever suas travessuras, como ela atesta:
"Atualmente, por exemplo, a natureza me dotou muito generosamente
com a segunda visão, ou dons clarividentes,
e eu geralmente posso ver o que eu estiver ansiando ver; mas eu
nunca posso pressentir suas travessuras, ou ficar sabendo delas,
a menos que ele próprio venha e me diga." (HPB Speaks,
I, p. 87)
Com relação ao grau de desenvolvimento psíquico alcançado
por HPB, sua irmã, Vera Jelihosvsky comenta que, de 1866 em diante:
"... HPB não é mais vítima de ‘influências’,
as quais, sem dúvida, teriam triunfado sobre uma natureza menos
forte do que a dela; mas, ao contrário, é ela quem submete
estas influências - sejam elas quais forem - à sua vontade."
(Sinnett, p. 152)
HPB confirmou este domínio quando escreveu para um familiar:
"Agora [1866] nunca mais estarei submetida a influências externas.
(...) Os últimos vestígios de minha fraqueza psíco-física
se foram, para nunca mais voltar. Eu estou isenta e purificada daquela
horrível atração por mim dos espectros errantes e
afinidades etéreas. Eu estou livre, livre, graças
ÀQUELES a quem eu agora bendigo a cada hora de minha vida." (Sinnett,
p. 152)
Deste modo, fica claro que o desenvolvimento psíquico que a Madame
possuía era tal que jamais permitiria que um espírito
desencarnado tivesse tanto poder e influência sobre ela. E um elemental
- um mero servo seu na produção de fenômenos - certamente
também não teria qualquer ascendência sobre
ela.
Por mais difícil que nos seja "digerir" o comportamento
do "rei dos traquinas condenados", dos três John Kings descritos
por Olcott, devemos concluir que o John King do período em que ela
viveu em Filadélfia, e de quem HPB afirmou estar em dívida
"pela mudança radical em minhas idéias sobre a vida",
só pode ser o "mensageiro e servo - nunca igualado - dos Adeptos
vivos".
Bibliografia
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Blavatsky, H.P. H.P.B.
Speaks, vol. II. Ed. by C. Jinarajadasa. TPH, Adyar, 1986.
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Cranston, Sylvia. HPB:
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Modern Theosophical Movement. G.P. Putnam’s Sons, New York, 1994.
Gomes, M. The Dawning
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Jinarajadasa, C. (ed.) Letters
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1973.
Meade, M. Madame Blavatsky,
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Olcott, H.S. Old Diary
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Solovyoff, V.S. A Modern
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Spierenburg, H.J. Theosophical
History, Vol. 1, no 7, July 1986.
Taylor, N.C. Theosophical
History, Vol. 3, no 3, July 1990.
****
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e pesquisas sobre HPB, realizados nos últimos anos.
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