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Damodar K. Mavalankar
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
19, setembro/2001)
Após a partida de HPB e Olcott de Nova Iorque, no final de 1878,
a Sociedade Teosófica (ST) na América ficou praticamente
inativa. Devido a situações particulares, os principais representantes,
William Q. Judge e general Abner Doubleday, não podiam dedicar-se
à propagação do movimento. Judge, que juntamente com
HPB e Olcott foi um dos fundadores da ST, passava por dificuldades econômicas
e familiares e Doubleday vivia na área rural. Olcott escreve:
"Mais do que nunca, o centro de desenvolvimento estava confinado a
nós dois, e a única esperança da sobrevivência
do movimento era que continuássemos vivendo e nunca permitindo que
nossas energias arrefecessem por um momento." (ODL II, 212)
Porém, poucos meses após se estabelecerem em Bombay, eles
já não estavam tão sozinhos: Damodar
K. Mavalankar havia chegado para ajudá-los, dedicando-se ao
trabalho de corpo e alma. Embora tenha participado da ST apenas entre 1879
e 1885, ele é reconhecido no meio teosófico por seu trabalho
e dedicação incansável a HPB, à ST, e como
um modelo de vida teosófica.
Damodar nasceu em Ahmedabad, Gujarat, em setembro de 1857, numa família
de brâmanes. Sua família tinha posses e ele recebeu uma excelente
educação, tanto dentro da tradição hindu quanto
inglesa. Ainda quando criança, ficou gravemente enfermo. No auge
da crise, teve uma visão com um Ser que, para ele, era como um deus:
"Em minha infância tive uma doença muito perigosa, e
os médicos perderam as esperanças de me salvar. Enquanto
meus parentes esperavam minha morte para qualquer momento, tive uma visão
que produziu uma impressão tão profunda em minha mente que
jamais pude esquecer. Vi um certo personagem – que então considerei
ser um Deva, i.e., um Deus – que me deu um estranho remédio;
e, surpreendentemente, a partir daquele momento comecei a me recuperar.
Alguns anos mais tarde, enquanto estava praticando meditação,
vi o mesmo personagem, e o reconheci como o meu Salvador. Ele também
me salvou das garras da morte numa outra ocasião." (SPR AppendixIX)
Entre 10 e 14 anos, Damodar estudou o Hinduísmo, e praticava todos
os ritos religiosos apropriados para seu estágio. À medida
que começou seus estudos acadêmicos, os rituais foram dando
lugar aos estudos escolares. De acordo com seu próprio testemunho:
"Antes, embora ardentemente ritualista, não estava realmente
gozando de felicidade e paz mental. Simplesmente praticava minha religião,
sem compreende-la. O mundo pesava tão duramente sobre mim quanto
sobre qualquer outro, e eu não podia ter nenhuma visão clara
do futuro. A única coisa real me parecia ser a rotina diária;
na melhor das hipóteses, o horizonte diante de mim se estendia apenas
até o fim de uma vida atarefada, com a queima de meu corpo e as
cerimônias fúnebres oferecidas por amigos. Minhas aspirações
eram apenas por mais Zamindaries [terras], posição
social e gratificação de desejos e apetites. Mas meus estudos
e reflexões posteriores me mostraram que todas essas coisas não
passam da névoa ilusória de um sonho e que somente é
digno de ser chamado um homem, aquele que fez do capricho seu escravo e,
da perfeição de seu ser espiritual, um grande objetivo de
seus esforços." (Eek, 140)
Em 1879, ano em que HPB e Olcott chegaram à Índia, Damodar
leu um livro que mudaria sua vida para sempre: Ísis Sem Véu.
Ao saber da presença da autora na Índia, foi imediatamente
para Bombay conhecê-la. Quando entrou na Sede da ST em Bombay, ficou
impactado ao ver o retrato do Ser que havia aparecido em suas visões.
Quando soube que Ele era um dos Mahatmas que estava por detrás de
HPB e da ST, esse reconhecimento "selou sua devoção à
nossa causa, e seu discipulado a HPB." (ODL II, 213) Em 13 de
julho de 1879 Damodar pediu ingresso na ST, sendo iniciado em 3 de agosto.
Era como se uma nova vida estivesse se iniciando para ele:
"Não é um exagero dizer que só tenho sido um
homem realmente vivo nesses poucos meses; pois entre o que a vida me parece
ser agora e como a compreendia antes, há um abismo insondável.
Sinto que agora, pela primeira vez, tenho um vislumbre do que o homem e
a vida são – a natureza e os poderes de um, as possibilidades, deveres
e alegrias da outra." (Eek, 140)
Damodar passou a fazer visitas freqüentes a Olcott e HPB, na sede
em Bombay. Olcott descreve sua aparência naquela época:
"Era a estação das chuvas e o querido rapaz costumava
nos visitar à noite, vestido com um impermeável de borracha
branca e polainas, um chapéu com abas que se fechavam, uma lanterna
em sua mão e a água escorrendo da ponta de seu longo nariz.
Ele era tão magro quanto Sarah Bernhardt, com um maxilar protuberante,
e pernas – como HPB costumava dizer – como dois lápis. No que diz
respeito às aparências, parecia tão pouco provável
que ele pudesse se tornar um Mahatma ou chegar a mil milhas de um ashram
verdadeiro, quanto qualquer homem na Sociedade. Mas as aparências,
nesse caso, eram tão falsas quanto foram no de outros membros, que
pareciam ser infinitamente superiores a ele espiritualmente, mas que se
provaram o contrário." (ODL II, 95)
De acordo com os costumes de sua casta, Damodar precisava da autorização
de seu pai para poder viver na Sede da ST com HPB e Olcott. Além
disso, ele também pediu para adotar o modo de vida de um sannyase,
renunciando a todas as ligações mundanas, inclusive à
casta. HPB e Olcott o aconselharam a esperar mais tempo, para que pudesse
refletir melhor sobre um passo tão importante como esse. (Eek,
140) Mas Damodar estava decidido e não esperou. Ele assim justifica
sua decisão:
"Que culpa tem alguém de ter nascido numa determinada casta?
Eu respeito um homem por suas qualidades e não por seu nascimento.
Isto é, o homem que a meus olhos é superior, é aquele
cujo homem interior se desenvolveu ou está numa condição
de desenvolvimento. Este corpo, riquezas, amigos, relações
e todos os outros prazeres mundanos que os homens consideram tão
caros e próximos de seus corações passarão,
mais cedo ou mais tarde. Mas o registro de nossas ações para
sempre permanecerá para ser transmitido de geração
para geração. Nossas ações, portanto, devem
ser tais que nos façam dignos de nossa existência nesse mundo,
enquanto estivermos aqui, assim como após a morte. Eu não
podia fazer isso observando os costumes da casta." (Eek, 142)
Para poder morar com HPB e Olcott, Damodar também precisava romper
com o casamento realizado ainda na infância, com Laxmibai, pois era
época dele assumir a relação marital. Seu pai era
um homem de posses e Damodar, além da herança que receberia
do pai, tinha direito a cerca de 50.000 rúpias. (SPR AppendixI)
Com a concordância da jovem esposa, Damodar doou sua herança
para seu pai, que assumiu o compromisso de zelar por ela. Laxmibai morou
na casa do sogro como uma saubhagyavati – aquela cujo marido está
vivo – até sua morte, com cerca de 60 anos. (Eek,7)
Damodar assumiu o cargo de secretário adjunto e, apesar da saúde
delicada, varava as noites trabalhando, principalmente na correspondência
e na revista recém fundada, o The Theosophist. Ao relembrar
sua dedicação, Olcott escreve:
"Embora fosse frágil como uma menina, ele se sentaria em sua
escrivaninha, algumas vezes escrevendo por toda a noite, a menos que eu
o surpreendesse e o forçasse a ir para a cama. Nenhum filho jamais
foi tão obediente a uma mãe, nenhum filho adotivo mais completamente
generoso em seu amor a uma mãe adotiva, do que ele a HPB: sua menor
palavra era para ele lei; seu desejo mais extravagante, uma ordem imperiosa,
para obedecer a qual, ele estava pronto a sacrificar a própria vida."
(ODL II, 212)
Onde Estão os Adeptos?
Cerca de um mês após ter ingressado na ST, Damodar começou
a sentir uma voz interna sussurrando que HPB não era o que aparentava
ser. Isso logo se tornou uma crença tão forte, que várias
vezes ele pensou em lhe implorar que ela se revelasse para ele. Mas, considerando-se
impuro para receber tal revelação, ficou em silêncio,
consolando-se com o pensamento de que, se algum dia HPB o julgasse digno,
lhe revelaria esse segredo. Ele achava que ela era:
"algum grande Adepto indiano que havia assumido aquela forma ilusória.
Mas quanto a isso surgiu uma dificuldade. Eu sabia que ela recebia cartas
de suas tias e que se comunicava com pessoas de quase todas as partes do
mundo. Eu não podia, portanto, conciliar com minha crença,
pois pensei que, desse modo, ela teria que exercer a ilusão por
todo o mundo. Várias explicações me ocorreram, exceto
a correta. Entretanto, eu estava certo (como averigüei posteriormente)
em minha concepção original de que ela é algum grande
Adepto indiano." (Eek, 34)
Desde os sete anos de idade, Damodar tinha um intenso desejo de encontrar
Adeptos. Nutria a convicção de que Eles viviam na Índia
e que poderiam ser encontrados. Procurava conversar sobre esse tema com
HPB, dizendo-lhe que tinha vontade de se retirar para lugares isolados
e se devotar completamente aos Adeptos. Então ela costumava lhe
perguntar o que ele faria por lá, sozinho, pois:
"ao invés de alcançar meu objetivo, talvez eu ficasse
insano, por estar sozinho nas florestas sem ter alguém para me guiar;
que eu era muito tolo ao imaginar que indo para uma floresta me encontraria
com um adepto; e que se eu realmente queria alcançar meu objetivo,
deveria trabalhar na Sociedade e, quando os Grandes seres (...) que iniciaram
essa Sociedade estivessem satisfeitos comigo, eles mesmos me chamariam
desse mundo atarefado e me ensinariam em particular." (Eek, 34)
Damodar, ingenuamente, várias vezes pediu para Madame Blavatsky
lhe dar os nomes e endereços de alguns dos Adeptos, mas não
obtinha resposta. Até que um dia ela lhe disse:
"Um de nossos Irmãos me disse que uma vez que você
está insistindo tanto comigo, é melhor que eu lhe diga de
uma vez por todas que, sendo uma européia, eu não tenho nenhum
direito de lhe dar qualquer informação sobre eles; mas que
se você continuar perguntando para indianos o que eles sabem sobre
o assunto, você poderá saber por eles; e um daqueles Elevados
seres talvez possa se colocar em seu caminho sem que você o conheça,
e lhe dirá o que deve fazer. Tendo recebido essas ordens, tinha
apenas que obedecer e esperar." (Eek, 35)
Damodar seguiu suas instruções, embora achasse que só
realizaria seu objetivo por meio de HPB. Perguntou a alguns amigos, mas
não obteve qualquer resposta confiável. Pouco depois, um
conselheiro da ST, M.V. Pandea, escreveu para HPB sobre uma mulher que
era praticante de Ioga, e que era sua Guru. Ela vivia em Benares e chamava-se
"Mâji". Damodar ficou esperançoso – talvez essa fosse a pessoa
que poderia lhe dar as informações que tanto desejava.
Viagem para Allahabad
No início de dezembro de 1879, HPB, Olcott e Damodar partiram
de trem de Bombay para Allahabad, para conhecer os Sinnetts. Durante essa
visita também encontraram pela primeira vez com o casal Hume e com
Alice Gordon. O encontro com o casal Sinnett e Alice Gordon foi tão
marcante que, para Olcott, isso já fazia a viagem até a Índia
ter valido a pena. (ODL II, 114)
Em Allahabad, Olcott fez uma palestra para uma grande audiência.
Hume, que presidia a reunião, também fez um eloqüente
discurso, bem melhor que o de Olcott. Naquele dia, HPB estava de mau humor
e passara o tempo todo ralhando com Olcott, até mesmo no momento
em que ele subia na plataforma para fazer sua palestra, "a um tal ponto
que minha cabeça estava toda confusa." (ODL II, 118)
Eles mal haviam saído do salão, voltando para casa, quando
HPB:
"disparou suas críticas sobre ele com excessivo rancor. Ao
ouvi-la voltar a falar sobre esse assunto, várias vezes durante
a noite, alguém poderia ter pensado que as aspirações
de sua vida haviam sido comprometidas, embora a reunião e a palestra
(...) não fossem importantes para o progresso da Sociedade de qualquer
forma mais séria. Col. Olcott suportou todos esses acessos de raiva
com maravilhosa firmeza, considerando-os todos como provações,
a serem atribuídas a seu chelado oculto; e apesar de todo esse comportamento
exasperante, Mad. Blavatsky tinha uma estranha faculdade de conquistar
afeição." (Sinnett, 229)
Além de reconhecer suas qualidades e sentir gratidão por
HPB ter lhe mostrado um novo caminho espiritual, Olcott suportava "seu
temperamento selvagem" (ODL II, 118) porque sabia que o bem
que ela estava fazendo ultrapassava todo o sentido de sofrimento pessoal.
Além disso:
"decididamente havia um "método em sua loucura" – que percebi
ao longo de todo o nosso relacionamento: ela somente insultava seus amigos
mais dedicados, aqueles que ela sentia que estavam tão ligados a
ela e devotados à Sociedade, de modo que estavam preparados para
tolerar tudo dela; com os demais, como Wimbridge e outros que poderia citar,
que ela sabia que não suportariam um tal tratamento, ela nunca levantava
a voz, nem os tratava de forma insolente ou ofensiva. Ela parecia ter medo
de perdê-los." (ODL II, 118)
Logo após chegar em Allahabad, Damodar partiu para Benares, para
encontrar-se com Swami Dayanand Saraswati, para tratar de questões
ligadas a um ritual que pretendiam implementar na Sociedade Teosófica.
(Inf. HPB 18). Para Damodar essa também era a oportunidade
de tentar encontrar "Mâji".
HPB lhe revelara que Dayanand era um grande iogue e que conhecia "Mâji",
mas ordenou-lhe não deixar que Dayanand percebesse o que sabia acerca
dele. Assim, Damodar não podia lhe perguntar nada diretamente, mas
apenas fazer referências indiretas, e Dayanand:
"fingia rir de mim por acreditar em poderes obtidos por um Iogue.
E quando lhe perguntei se conhecia uma mulher chamada "Mâji", ele
respondeu – Se é que essa mulher existe por aqui, ela não
é conhecida. Sempre que lhe perguntava qualquer coisa com relação
a esses assuntos, me respondia com respostas evasivas. Fiquei desapontado
quando vi que todas as minhas expectativas ao ir a Benares eram apenas
castelos no ar." (Eek, 35)
Damodar então escreveu para HPB que obedecera às suas instruções,
e que Dayanand parecia pensar que ele estava trabalhando na Sociedade Teosófica
apenas para ganhar dinheiro. (Eek, 36)
Encontro com "Mâji" em Benares
Em 15 de dezembro HPB, Olcott, o casal Sinnett e Alice Gordon, chegaram
em Benares. (Inf. HPB 18) Para surpresa de Damodar, quando HPB perguntou
para Dayanand sobre "Mâji" ele "mencionou o local onde "Mâji"
residia e se ofereceu para nos levar lá, acrescentando que a conhecia
muito bem e que ela freqüentemente vinha vê-lo." (Eek,
36)
O casal Sinnett estava muito ansioso para presenciar algum fenômeno,
mas HPB recusava-se a fazer qualquer coisa, a menos que Dayanand o permitisse.
Entretanto, ela queria satisfazer o desejo de Sinnett porque ele, sendo
influente na comunidade anglo-indiana, seria de grande auxílio no
trabalho da ST. Dayanand não permitiu que HPB fizesse qualquer fenômeno
para eles, mas sugeriu que fossem visitar "Mâji" e assim, quem sabe,
poderiam presenciar algo com ela. (Eek, 36)
Então, no dia seguinte, foram todos visitar "Mâji". Ela
vivia às margens do rio Ganges, uma ou duas milhas distante de Benares,
numa caverna escavada na rocha. Além desse agradável local,
ela havia herdado de seu pai uma casa na cidade e uma extensa e valiosa
biblioteca. Olcott descreve que naquela época "Mâji" "aparentava
cerca de quarenta anos de idade, pele clara, tinha uma calma dignidade
e um encanto nos gestos que impunham respeito. Sua voz era de um tom suave,
rosto e corpo roliços, olhos cheios de inteligência e fogo."
(ODL II, 120)
Porém, para decepção de Sinnett, "Mâji" recusou-se
a produzir qualquer fenômeno, dizendo que a Ioga era uma ciência
sagrada demais para ser tratada como um espetáculo. Nesse dia, HPB
não estava se sentindo bem e não os acompanhara na visita.
Ao mencionarem isso a "Mâji":
"ela lançou um olhar significativo ao coronel, que lhe retornou
o olhar, deste modo pedindo-lhe que ficasse em silêncio, pois apenas
os dois haviam sentido a presença de Madame perto deles. "Mâji"
então disse que embora nunca tivesse visitado europeus, ela mesma
iria ver Madame uma ou duas vezes antes de nossa partida de Benares." (Eek,
37)
O casal Sinnett e Alice Gordon, decepcionados, passaram parte da noite
conversando com HPB e Olcott sobre o assunto dos fenômenos. Durante
a conversa, quando alguém fez referência a flores, imediatamente
ouviu-se um barulho, como de algo caindo de cima. Várias flores
haviam sido jogadas por mãos invisíveis em cima da mesa em
torno da qual estavam todos sentados. (Eek, 37) Damodar relata para
Judge que achava que Dayanand havia sido responsável por esse fenômeno
das flores. Isso porque, pouco antes da ocorrência, quando ele foi
falar com o Swami:
"o encontrei num estado não usual, como o que ele sempre está,
quando está explicando o Ritual. E eu percebi que o fenômeno
correspondeu exatamente à hora em que vi Swamiji no estranho estado
de "Samadhi" que lhe descrevi acima: "Samadhi" sendo, como
você talvez saiba, aquele estado quando o adepto deixa seu corpo.
Portanto, para mim não havia dúvida do que e como isso havia
ocorrido." (Eek, 37)
"Mâji" e HPB Tinham o
Mesmo Guru
No dia seguinte, os Sinnetts voltaram para Allahabad e "Mâji"
apareceu para visitar HPB, encontrando-a sozinha com Damodar. "Mâji"
disse a HPB que elas tinham o mesmo Guru. Quando HPB lhe pediu provas disso,
ela disse que "o Guru da Madame havia nascido no Punjab, mas geralmente
vive no sul da Índia e especialmente no Ceilão. Ele tem cerca
de 300 anos e tem um companheiro de mais ou menos a mesma idade, embora
os dois não aparentem nem mesmo quarenta anos." (Eek,
38)
Então "Mâji" – que nunca falava de si mesma senão
como "esse corpo" – contou a HPB que primeiro ela havia estado:
"no corpo de um Faquir que, tendo sua mão aleijada por um tiro
que recebeu quando passava pelo Forte de Bhurtpore, teve que mudar seu
corpo, e escolheu esse que agora era "Mâji". Naquela época,
uma menina de cerca de sete anos estava morrendo e então, antes
de sua morte, esse Faquir entrou no seu corpo e tomou posse dele. Portanto,
"Mâji" não é uma mulher, mas um verdadeiro Faquir indiano
no corpo de uma mulher." (Eek, 38)
É interessante notarmos que, nessa época, Damodar havia inferido
algo semelhante sobre HPB. Ele achava que "a verdadeira HPB era apenas
uma alma paralisada ou um corpo morto sob o controle de algum adepto."
(Eek, 39) Sua conjectura fora reforçada quando, antes de
partirem de Bombay, HPB lhe perguntara como soubera "que não
era um adepto indiano que ocasionalmente tomava posse de seu corpo e fazia
todas essas coisas que lhe eram atribuídas." (Eek, 39)
É oportuno lembramos que é ao Mestre Hillarion – um Adepto
não indiano – identificado como sendo "John King", o "No. 2" ou
o "Sahib" de HPB (Inf. HPB 5), que ela está se referindo
quando escreveu para sua irmã:
"Várias vezes por dia, eu sinto que, além de mim há
alguém mais, bem distinguível de mim, presente em meu corpo.
(...) Isto não é mediunidade, e de modo algum é um
poder impuro; pois isto tem uma ascendência forte demais sobre nós
todos, nos conduzindo a um melhor estado de ser. (...) Ah não, isto
é de uma ordem totalmente superior! Mas fenômenos de uma outra
espécie ocorrem, mais e mais freqüentemente, sob a direção
de meu No. 2." (Letters of HP Blavatsky, Letter I)
Num segundo encontro, em que HPB não estava presente, Olcott fez
algumas perguntas a "Mâji" sobre HPB. Ela respondeu que "a Madame
não era o que parece ser. Seu homem interior já estivera
duas vezes em um corpo hindu e agora estava em seu terceiro." E quando
Damodar lhe perguntou se a verdadeira HPB ainda estava no corpo, "Mâji"
"recusou-se a responder essa questão, apenas acrescentando que
ela mesma – "Mâji" – era inferior à Madame." (Eek,
39)
Somente Nela Devo Colocar Minha Plena
Confiança
Depois de tentar, sem sucesso, que Damodar desistisse de seus propósitos
de busca, "Mâji" lhe disse que se ele quisesse progredir espiritualmente
e ver qualquer dos Irmãos, deveria para isso:
"depender inteiramente da Madame. Ninguém mais era competente
para me levar pelo caminho correto. (...) Devo estar sempre com a Madame
e somente nela colocar minha plena confiança. Ela me disse para
trabalhar na Sociedade e praticar regularmente, duas vezes ao dia, o que
a Madame havia me ordenado fazer. Em todos os aspectos devo agir em obediência
às suas instruções. Então ela me disse que
eu deveria ir uma vez com a Madame às montanhas Junagad, onde esses
Adeptos usualmente vivem e, mesmo que não visse ninguém na
primeira vez, o ar magnetizado no qual eles vivem, me faria muito bem.
Ela disse que em geral eles não param num lugar, mas sempre mudam
de um lugar para outro." (Eek, 40)
Para Damodar as palavras de "Mâji" em relação a HPB
foram uma confirmação do que ele mesmo já sentia,
pois poucos dias após ter pedido ingresso na ST, dissera para HPB:
"o que eu realmente sentia, que a considerava como minha benfeitora,
a reverenciava como minha Guru e a amava mais do que uma mãe. Desde
então tenho lhe asseverado o que lhe disse naquela ocasião.
E agora "Mâji" me diz a mesma coisa, reforça minha fé
e me pede para confiar nela (Madame). E quando, mais tarde, consultei Swamiji
[Dayanand] em relação à mim mesmo, sem lhe dizer uma
palavra do que "Mâji" havia me dito, ele me exortou a fazer exatamente
a mesma coisa, isto é, colocar minha fé em HPB. Desde o princípio
tenho sentido e de fato ainda sinto intensamente como
se eu já tivesse estudado essa filosofia com Madame e que alguma
vez devo ter sido seu mais obediente e humilde discípulo. Isso deve
ter sido um fato pois, de outro modo, como explicar o sentimento em mim
gerado, a seu respeito, após vê-la não mais do que
três ou quatro vezes? Portanto, todas as minhas esperanças
e planos futuros estão nela centrados, e nada nesse mundo pode abalar
minha confiança, especialmente quando dois indianos, que não
falam inglês e não poderiam ter combinado isso previamente,
me dizem exatamente as mesmas coisas (...) que eu mesmo, desde o princípio,
havia sentido." (Eek, 40)
Mais Fenômenos
Na noite anterior à partida de Benares, havia umas sete ou oito
pessoas na sala de estar de HPB, quando a Sra. Gordon, que estava conversando
com Dr. Thibaut, diretor do Benares College, falou sobre
flores. Então HPB disse ao Pandit com quem conversava, que tentaria
fazer com que um dos Irmãos lhe desse algum sinal. Em dois segundos
caiu uma chuva de flores a seus pés. Damodar, que suspeitava que
Dayanand estava ligado à produção do fenômeno,
logo olhou em sua direção, reparando que estava pálido
como um morto:
"Suas bochechas estavam pálidas e o fluxo de vida havia ido
embora. Era evidente que seu homem interno não estava nesse momento
em seu corpo. Então eu perguntei à Madame quem havia feito
o fenômeno das flores, e sua única resposta foi "Um de nossos
Irmãos", mas qual, ela deixou que eu descobrisse." (Eek,
41)
Cada um pegou uma flor para guardar de lembrança e a menor de todas
ficou com Dr. Thibaut. Ao sair, ele perguntou para HPB se poderia pegar
uma outra, que estava em cima da mesa. Ela lhe respondeu: "Você
pode pegar tantas quantas quiser. Você terá muitas mais."
(Eek, 42) E nesse momento, do teto, caíram flores à
direita dos pés do Dr. Thibaut.
Como já estava escuro quando todos se levantaram para ir embora,
Damodar pegou um lampião para lhes mostrar o caminho. Ao chegarem
na varanda a chama havia quase apagado. Surpresa, Alice Gordon quis entrar
para pegar outro lampião, mas Damodar lhe disse que não havia
nada de errado, mas que deveria ser HPB fazendo algo com o lampião.
Ao ouvir isso, Olcott chamou todos para presenciarem o fenômeno.
HPB colocou o lampião sobre a mesa, e disse:
""Qual o problema com você, suba", e imediatamente ele
resplandeceu com um brilho fora do normal. Então ela disse "Abaixe"
e num curto espaço de tempo estava praticamente escuro. Em seguida
ela fez a chama subir de novo, assim estabelecendo claramente aos visitantes
o que um Iogue pode realizar pelo poder de sua vontade." (Eek, 42)
Para Olcott, HPB contou que um Adepto, invisível para todos exceto
para ela mesma, é que havia feito a chama aumentar ou diminuir,
quando ela dava tais ordens. Outra explicação, dada em ocasiões
semelhantes, era que ela tinha poder sobre os elementais do fogo, que obedeciam
a suas ordens. Olcott comenta que o fenômeno era mais um de uma longa
série:
"provando sua posse de reais e extraordinários poderes psíquicos;
fatos aos quais eu pude sempre retornar, quando sua boa fé pudesse
ser desafiada por seus críticos ou impugnada por suas próprias
indiscrições de linguagem e de ações. A esta
altura seus amigos íntimos acreditavam nela apesar de suas freqüentes
explosões exaltadas de temperamento, quando ela se declarava pronta
para gritar do alto das casas que não existia nenhum Mahatma, nenhum
poder psíquico, e que ela havia simplesmente nos enganado todo o
tempo. E falam sobre provações e testes de fé! Duvido
que quaisquer neófitos, postulantes ou discípulos tenham
alguma vez passado por testes mais severos do que nós. Parecia ser
seu deleite nos deixar loucos com seus caprichos extravagantes e auto-acusações,
quando sabia o tempo todo que para nós era impossível duvidar,
em vista de nossa experiência com ela." (ODL II, 135)
Em 22 de dezembro de 1879, HPB e Olcott partiram de Benares, voltando à
casa dos Sinnetts. No dia 26 os Sinnetts ingressaram na Sociedade, numa
cerimônia de iniciação inesquecível, devido
a um fenômeno ocorrido. Num determinado momento do ritual de iniciação,
à pergunta de Olcott se os Mestres haviam ouvido o juramento dos
candidatos e se aprovavam suas admissões à Sociedade, uma
voz respondeu: "Sim, aprovamos." (ODL II, 137)
No final de 1879, o The Theosophist tinha 621 assinantes
o que, para a época, era um grande número, pois os jornais
de maior circulação na Índia tinham de 1500 a 2000
assinantes. O crescimento da revista trouxe muito trabalho, pois havia
poucos ajudantes e pouco dinheiro para contratar pessoas. Eles tinham que
fazer de tudo, do editorial ao empacotamento e endereçamento das
revistas. (ODL II, 137)
Pensamos que Era "O Sahib"
Na noite de 25 de março de 1880, HPB, Olcott e Damodar, resolveram
dar um passeio na carruagem aberta que Madame Blavatsky havia ganho de
Damodar, indo até o final de uma barragem conhecida como Ponte Worli.
Raios brilhavam intensamente no céu, mas não havia chuva.
HPB e Olcott fumavam e todos conversavam, distraídos, apreciando
a brisa marítima, quando ouviram o som de vozes. Era um grupo de
indianos, rindo e conversando, vindos da praia. Eles entraram em suas carruagens
e foram embora em direção à cidade. Para vê-los,
Damodar ficou de pé. Quando os últimos indianos estavam passando
ao lado deles, ele silenciosamente tocou no ombro de Olcott e indicou com
a cabeça para que ele olhasse naquela direção. Olcott
ficou de pé e viu, atrás do último grupo, uma figura
humana solitária se aproximando:
"Ele, como os outros, estava vestido de branco, mas a brancura de
suas vestes positivamente fazia com que a dos outros parecesse cinza, assim
como a luz elétrica faz com que a mais brilhante das luzes a gás
pareça opaca e amarela. A pessoa era um palmo mais alta do que o
grupo que o precedera, e seu caminhar era o próprio ideal da dignidade
refinada. Quando chegou a uma distância como da cabeça de
nosso cavalo, ele desviou-se da rua em nossa direção, e nós
dois, para não falar de HPB, vimos que era um Mahatma. Sua veste
e turbante brancos, a grande cabeleira escura caindo sobre os ombros e
a barba cheia nos fizeram pensar que era "o Sahib", mas quando ele chegou
na lateral da carruagem e ficou de pé a não mais que uma
jarda [91,4 cm.] de nossos rostos, colocou sua mão no braço
esquerdo de HPB, que repousava no corpo da carruagem, nos olhou nos olhos
e respondeu as nossas saudações reverentes, então
vimos que não era ele, mas um outro, cujo retrato HPB usou, mais
tarde, num grande medalhão de ouro, e que muitos viram." (ODL
II, 144)
Sem chamar a atenção dos indianos que se afastavam em suas
carruagens, ele foi se afastando pela barragem. Não havia nenhuma
árvore ou arbusto que pudesse escondê-lo e eles o olhavam
com intensa concentração. Mas, de repente, ele desapareceu.
Sob a excitação do ocorrido, Olcott pulou da carruagem e
correu para o ponto onde fora visto por último, mas não havia
ninguém ali – apenas a rua vazia e as costas da carruagem que recém
passara.
É interessante notarmos que no encontro descrito acima, Olcott
faz uma clara distinção entre o "Sahib" e o Mestre "cujo
retrato HPB usou, mais tarde, num grande medalhão de ouro",
identificado como sendo o Mestre Morya, o Guru de HPB. (Sinnett,
267) Essa distinção clara entre os dois reforça nossa
conclusão de que esse termo – Sahib – era usado por HPB para designar
seu Instrutor, "John King" – o Adepto Hillarion – e não seu Guru.
(Inf. HPB 4 e 5)
Entretanto, talvez Olcott não esteja dando a identidade correta
do Mestre desse encontro pois, em seu diário, além de não
demonstrar sua usual devoção pelo Mestre M., identifica o
Mestre do encontro como: "Hamlet, um de nossos Irmãos e um discípulo
de T. Bey." (Murphet, 119)
Visita à Casa do Mestre M.
no Ceilão
Em 7 de maio de 1880 HPB, Olcott, Damodar e outros embarcaram para o
Ceilão, para organizar a ST por lá. Chegaram em Galle em
17 de maio, onde uma multidão os recebeu pelas ruas, demonstrando
grande alegria. (Inf. HPB 6)
Em 25 de maio, HPB e Olcott foram formalmente reconhecidos como budistas.
Durante a estadia no Ceilão, Damodar também passou por essa
cerimônia de reconhecimento. (Eek, 6) Como em seu livro Olcott
não faz menção ao episódio, não sabemos
exatamente quando isso ocorreu. Porém, pela intensa agenda de viagens
pela ilha, dando palestras e organizando a ST, é provável
que tenha ocorrido junto com HPB e Olcott.
Para Damodar, um dos episódios mais importantes nessa viagem
ao Ceilão, foi um encontro que teve com seu Guru, o Mestre KH, relatado
numa carta para Judge. Nessa carta, Damodar designa o Mestre por três
pontos formando um triângulo: ù
. É interessante lembramos que no Ocultismo os símbolos geométricos
estão relacionados aos níveis de desenvolvimento espiritual,
sendo que: "O ê é o símbolo
de Chelas elevados, enquanto que outra espécie de triângulo
é aquele de Iniciados elevados." (The Voice of the Silence,
149)
Numa determinada vila, após trabalharem até quase meia
noite formando mais um grupo da Sociedade, HPB, Olcott e Damodar foram
dormir num local separado do restante da comitiva. Como na pousada havia
acomodações apenas para duas pessoas, Damodar ficou na poltrona
da sala de jantar. Ele mal havia se acomodado quando ouviu uma batida leve
na porta, a qual:
"se repetiu por duas vezes, antes que eu tivesse tempo suficiente
para chegar à porta. Eu a abri, e que grande alegria senti quando
vi ù novamente! Num sussurro muito
baixo, ele me ordenou que me vestisse e o seguisse. Na porta dos fundos
da pousada está o mar. Eu o segui, como ele me ordenou. Ele me levou
para a porta dos fundos do local e andamos por cerca de três quartos
de hora pela beira do mar. Então nos movemos em direção
ao mar. Tudo à volta era água, exceto o local por onde
estávamos andando, que estava bem seco!! Ele caminhava na frente
e eu o seguia. Assim andamos por cerca de sete minutos, quando chegamos
a um local que parecia como uma pequena ilha. (...) Lá, num pequeno
jardim em frente, encontramos um dos Irmãos sentado. Eu o havia
visto antes na Sala do Conselho, e é a ele que este lugar pertence.
ù
sentou-se próximo dele e eu fiquei de pé em frente a eles.
Estivemos lá por cerca de meia hora. (...) O Mestre deste local,
cujo nome não sei, colocou sua abençoada mão sobre
minha cabeça, e ù e eu fomos
embora novamente. Voltamos para perto da porta do quarto onde eu iria dormir
e ele subitamente de lá desapareceu, imediatamente." (Eek,
56-57)
Em 13 de julho a comitiva embarcou no SS Chanda, em Colombo, de
volta para Bombay. Numa noite a bordo, após se arrumar para jantar,
Damodar tirou de seu baú um casaco para vestir depois do jantar.
Como era seu hábito, antes examinou se não havia nada em
seus bolsos e colocou-o em cima da cama. A mesa de jantar ficava em frente
a sua cabine, de modo que, como ele via a porta de sua cabine, sabia que
ninguém entrara lá. Mas depois do jantar, quando Damodar
foi vestir o casaco e colocou a mão no bolso direito, encontrou,
para sua surpresa:
"uma carta endereçada a Mad. Blavatsky. Levei-a para perto
da luz e descobri no canto as iniciais ù
. O envelope estava aberto e nele estava escrito em vermelho as palavras:
"Para Damodar ler." Então li a carta e vi que era sobre a mesma
questão. Pensando todo o tempo sobre essa questão, deitei
em minha cama. Absorvido em profundos pensamentos, me assustei com o som
de passos dentro da cabine que eu havia trancado por dentro.
Olhei para trás e lá estava novamente ù
e dois outros! Que noite agradável foi aquela! Falando de várias
coisas com relação ao conhecimento e à filosofia por
quase meia hora! Aqueles foram os momentos mais felizes de minha vida!
Mas aquilo foi apenas por aquele momento e eu me determinei a tornar-me
merecedor de gozar disso sempre!" (Eek, 58)
"Tente Novamente" Sempre Deveria
Ser Nosso Lema
A determinação era um traço marcante na personalidade
de Damodar. Numa carta para Judge, escrita poucos meses após ter
entrado na ST, ele lhe fala sobre a importância de não desistir,
de sempre tentar novamente para alcançar o sucesso na vida interna:
"Ao empreender qualquer coisa, a primeira coisa que se requer é
a perseverança. "Tente novamente" sempre deveria ser nosso lema.
Uma criança nunca aprenderia a andar se nunca tentasse fazer isso,
simplesmente porque em suas primeiras tentativas ela sofre fracassos e
cai de vez em quando. Mas, apesar disso, o instinto da criança a
estimula a continuar em seus esforços até ter sucesso. Será
que o mesmo Espírito que dá à criança o instinto,
não a ilumina depois que ela se torna um homem? Não é
vergonhoso para qualquer pessoa que, embora na infância ela aja em
obediência às instruções do Espírito
Divino, após chegar à maturidade se torne surda aos ensinamentos
daquele Espírito que uma vez já lhe deu o sucesso, em sua
juventude, apesar de todos os primeiros fracassos? (Eek, 26)
Essa determinação e força de vontade também
aparecem claramente num episódio contado por Olcott, ocorrido pouco
depois deles terem se mudado para Adyar. A presença de um rio, nos
fundos da casa, despertou em HPB e Olcott a vontade de nadar:
"Deve ter espantado nossos vizinhos europeus ver quatro europeus –
pois aquela era a época dos dois Coulombs – banhando-se junto com
meia dúzia de indianos de pele escura, batendo na água e
rindo juntos, exatamente como se não acreditássemos pertencer
a uma raça superior. Eu ensinei minha "colega" a nadar, ou melhor,
a debater-se de uma maneira ou de outra, e também ao querido Damodar
que era, até um certo momento, um dos maiores covardes que jamais
vi na água. Ele tinha calafrios e tremia se a água estivesse
perto do joelho, e podem acreditar que nem HPB, nem eu, o poupávamos
com nossos sarcasmos. "Que vergonha," eu disse, "Um belo adepto você
dará, quando nem mesmo ousa molhar seu joelho!" Ele não disse
nada naquele momento. Mas no dia seguinte, quando fomos nos banhar, ele
mergulhou e atravessou o rio a nado: tendo tomado minha zombaria ao
pé da letra, decidiu que iria nadar ou morrer. Essa é a maneira
das pessoas se desenvolverem até se tornarem-se adeptos. TENTAR,
é a primeira, última e eterna lei de autoevolução.
Fracasse cinqüenta, quinhentas vezes se precisar, mas continue a tentar
e tente sempre, e você terá sucesso no final. "Eu não
posso" nunca desenvolveu um homem ou um planeta." (ODL II, 396)
A Família Rompe com Damodar
Como já vimos, quando foi morar com HPB e Olcott, Damodar havia
renunciado a sua casta, com a autorização de seu pai, que
dava todo o apoio às buscas espirituais de seu filho. Nessa ocasião,
seu pai, seu irmão e um tio também ingressaram na Sociedade
Teosófica. Entretanto, o passo que Damodar deu no Ceilão,
sendo reconhecido como budista, era algo que seus familiares não
conseguiam entender nem aceitar. No início de 1881, o pai de Damodar,
o tio e seu irmão mais velho, Krishnarao, saíram da ST e
se tornaram abertamente hostis a ela:
"quando Damodar estava completamente identificado conosco, indo até
mesmo ao ponto de, como nós, tornar-se budista no Ceilão,
sua família se revoltou e começou uma perseguição
para forçar o pobre rapaz a voltar para sua casta. Isso ele não
iria fazer, e o resultado foi a saída de seus parentes da Sociedade
e, de uma maneira não muito respeitável, travarem uma batalha
contra nós, objetos inocentes de sua raiva, na forma de panfletos
indecentes e outros ataques a nossas reputações, que eram
publicados e colocados em circulação por um ou outro em Bombay."
(ODL II, 292)
Agora que a família não estava concordando com o caminho
que Damodar estava seguindo, seu pai também começou a reclamar
que Damodar o havia importunado para dar presentes para HPB. (Ransom,
156) Sendo um homem rico, ele dera presentes valiosos para ela, como uma
carruagem e um cavalo árabe. (Chetty)
Em 27 de fevereiro, Olcott fez uma palestra sobre "Teosofia: Seus
amigos e Seus Inimigos". Antes da palestra, foram distribuídos
panfletos difamadores, dizendo para as pessoas não acreditarem nos
teosofistas e tomarem cuidado para não serem despojadas financeiramente
por eles. O folheto havia sido publicado pelo irmão mais velho de
Damodar, Rosa Bates e Wimbridge. (Ransom, 156) Olcott leu o folheto
para a audiência e, aplaudido, jogou-o no chão e pisou em
cima, dizendo que essa era a resposta para difamadores sem princípios.
(ODL II, 293)
Os problemas com a família de Damodar não pararam por
aí. Em 21 de agosto de 1881, um jornal de Bombay publicou:
"uma carta maldosa dirigida contra a honestidade e retidão
dos fundadores da Sociedade Teosófica e jogando uma nódoa
sobre os Mahatmas, com referência a questões de minha própria
família. De fato, se fazia uma tentativa de induzir o público
a acreditar que eles haviam me feito de fantoche, para me trapacear e tirar
minhas propriedades." (Eek, 484)
Damodar ficou muito aborrecido e mandou uma resposta para o jornal. Porém,
no dia 25, saiu outra matéria sobre o assunto, num jornal de maior
circulação. Ele novamente respondeu, sentindo-se muito infeliz
durante todo o dia com o ocorrido. Sua saúde, delicada, já
estava sendo afetada pelos problemas com sua família, fazendo-o
sentir-se depressivo. Naquela noite, em seu quarto, ele estava sentado
numa pequena mesa perto de sua cama, quando começou a sentir "uma
peculiar vibração magnética" (Eek, 485)
que denotava a presença de seu Mestre. Então uma carta materializou-se
diante de seus olhos. Ela dizia:
"Não se sinta tão desanimado! ... Não há
necessidade disso. Sua imaginação é seu maior inimigo,
pois cria fantasmas que mesmo seu melhor discernimento não consegue
dissipar. Não se acuse (...), nem atribua as ofensas recebidas ...
aos seus crimes imaginários. Ofensas! Eu vos digo, filho, o silvo
de uma serpente tem mais efeito sobre o velho, eterno e nevado Himavat
[Himalaia] do que as ofensas de difamadores, o riso de céticos ou
qualquer calúnia sobre mim. Mantenha-se inabalável no cumprimento
do seu dever, seja firme e correto em suas obrigações e nenhum
homem ou mulher mortal o machucará ...." (Eek, 485)
Em 22 de julho de 1881 HPB foi novamente para Allahabad e Simla, para encontrar-se
com o casal Sinnett. Em 21 de agosto foi formado o ramo Anglo-indiano da
ST em Simla, com Hume como presidente e Sinnett como vice. Posteriormente
o nome desse ramo foi mudado para "Simla Eclectic Theosophical Society".
Depois de Simla HPB foi ao Lahore e fez uma extensa viagem pelo norte da
Índia, retornando a Bombay apenas no final de novembro de 1881.
O primeiro livro de Sinnett, "O Mundo Oculto", havia sido publicado
em junho de 1881. Nele, ele discorria sobre HPB, os fenômenos ocultos
que havia presenciado, a ST, a existência dos Adeptos e as primeiras
cartas que recebera do Mestre KH. Então alguns indianos escreveram
para Sinnett e Damodar, querendo também receber tal atenção
dos Mestres. Mas, disse o Mestre, apesar de tais elevadas pretensões,
as pessoas nada faziam para merecer tal honra. Elas entram para a Sociedade
e: "embora continuem tão obstinados como sempre foram em suas
velhas crenças e superstições, nunca abandonando a
casta ou um único de seus costumes, eles, em seu exclusivismo egoísta,
esperam ver e conversar conosco, e ter nosso auxílio em todas as
coisas." (Mlcr-30, 95) Assim, o Mestre M. pediu que Sinnett
desse o seguinte recado aos indianos:
"Os ‘Irmãos’ desejam que eu informe a todos vocês, nativos,
que a menos que um homem esteja preparado para tornar-se um verdadeiro
teósofo, i.e., fazer como fez D. Mavalankar, – renunciar
completamente à casta, a suas velhas superstições
e demonstrar ser um autêntico reformador (especialmente no caso de
casamentos infantis), ele permanecerá simplesmente como um membro
da Sociedade, sem esperança alguma de receber uma comunicação
nossa. (...) É inútil para um membro argumentar: "Tenho uma
vida pura, me abstenho de álcool, carne e vícios. Todas as
minhas aspirações são para o bem etc.", enquanto que
constrói com seus atos uma barreira intransponível no caminho
entre ele mesmo e nós." (Mlcr-30, 95)
Viagem Astral à Casa
do Mestre KH
Todas essas dificuldades e desafios são inerentes à vida
daqueles que querem servir aos Grandes Seres. Como escreveu o Mestre KH:
"Ser aceito como um chela em provação –
é algo fácil. Tornar-se um chelaaceito
– é pedir as tribulações da "provação".
(...) a vida de um chela que se oferece voluntariamente é um longo
sacrifício." (LMW-68, 2ndS, 124)
Mas se o ano de 1881 trouxe provações, preocupações
e problemas para Damodar, especialmente com sua família, também
trouxe dádivas que ele nunca esqueceria. Talvez uma das mais importantes
tenha sido a visita astral à casa de seu Mestre. Essa visita está
descrita numa carta para Judge, datada de 28 de junho de 1881.
Damodar conta que certa noite, após terminar o trabalho, mais
ou menos às 2h da manhã, havia recém se deitado, quando
ouviu a voz de HPB chamando-o. Levantou-se rapidamente e foi até
o quarto dela. Ela lhe disse "algumas pessoas querem vê-lo"
e, após um momento, acrescentou "Agora saia, e não olhe
para mim." (Eek, 60) Entretanto:
"antes que tivesse tempo de virar meu rosto, eu a vi gradualmente
desaparecer no lugar onde estava e daquele mesmo chão surgiu a forma
de ù . No momento em que me virei,
vi dois outros (...). Um deles permaneceu com ù
no quarto de HPB. Quando sai encontrei o outro sentado em minha cama."
(Eek, 60)
Esse outro disse para Damodar ficar de pé, ereto, por algum tempo
e olhou-o fixamente. Damodar começou a sentir uma sensação
agradável, como se estivesse saindo do corpo. Quando retomou a consciência,
viu que estava num outro lugar, aos pés dos Himalaias. No local,
havia apenas duas casas, uma oposta à outra. De uma delas saiu Aquele
a quem Sinnett dedicou seu livro O Mundo Oculto: "Koot Hoomi ù
". Ali:
"Era sua casa. (...) Irmão K– ordenou-me que o seguisse. Após
andar uma curta distância de cerca de meia milha, chegamos a uma
passagem subterrânea natural que fica sob os Himalaias. O caminho
é muito perigoso. Há um elevado caminho natural no rio Indus,
o qual flui abaixo com toda a sua fúria. Apenas uma pessoa de cada
vez pode andar nele e um passo em falso sela a sorte do viajante." (Eek,
61)
Após cruzarem vários vales, chegaram a um local plano onde
havia um enorme edifício, muito antigo, que se erguia sobre sete
pilares em forma de pirâmides. Na frente havia uma enorme Tau, a
cruz Egípcia, e o portão de entrada tinha um grande arco
triangular. Esse é o local central onde "todos aqueles da nossa
Seção que são merecedores da Iniciação
nos Mistérios, têm que ir para sua cerimônia final e
ficar ali durante o período necessário." (Eek,
61) Damodar foi então com seu Guru até o Grande Salão:
"A grandeza e serenidade do local é suficiente para infundir
em qualquer um reverência e devoção. A beleza do Altar
que está no centro e onde todo candidato tem que prestar seus votos
na hora da sua Iniciação, certamente ofusca os olhos mais
brilhantes. O esplendor do Trono do CHEFE é
incomparável. Tudo tem um princípio geométrico e contém
vários símbolos que são explicados apenas para o Iniciado.
Mas não posso dizer mais, pois agora estou sob voto de Segredo,
que K– lá ouviu de mim. Enquanto estava lá, de pé,
não sei o que me aconteceu, mas de repente acordei e me encontrei
novamente em minha cama." (Eek, 61)
Ao se perguntar se tudo havia sido um sonho, Damodar viu cair um bilhete
a sua frente. Nele estava escrito que ele havia sido levado, em seu corpo
astral, "ao verdadeiro local de Iniciação, onde estarei
em meu corpo para a Cerimônia se me mostrar merecedor da bênção."
(Eek, 62)
Em agosto de 1882, Damodar foi passar um mês em Poona, para descansar
e se recuperar, pois estava com a saúde muito debilitada, devido
às perseguições e ao excesso de trabalho. (CWIV,
xxv) HPB também não estava bem e, em setembro, vai ao Sikkim
encontrar-se com o Mestre KH e com seu Guru, que a ajuda na sua recuperação.
O Mestre KH, em carta para Sinnett, descreve:
"Não creio que jamais tenha sido tão profundamente tocado,
em toda minha vida, por algo que testemunhei, como com o arroubo em êxtase
da pobre velha criatura, quando nos encontrou recentemente, ambos em nossos
corpos naturais (...). Mesmo nosso fleumático M. foi tirado de seu
equilíbrio, por uma tal exibição – da qual ele era
o principal herói. Ele teve que usar seu poder, e mergulhá-la
num sono profundo, pois de outro modo ela teria rompido algum vaso sangüíneo,
incluindo rins, fígado e seus "interiores" (...) em suas tentativas
delirantes de achatar seu nariz contra sua capa de montaria suja com a
lama do Sikkim! Nós dois rimos, mas como poderíamos deixar
de nos sentir tocados? É claro, ela é completamente inadequada
para um verdadeiro adepto: sua natureza é por demais apaixonadamente
afetuosa e nós não temos o direito de condescender em apegos
e sentimentos pessoais." (Mlcr-92, 297)
HPB ficou em Darjeeling até novembro, quando retornou a Bombay.
Em 17 de dezembro de 1882, HPB, Olcott, Damodar, Babajee, os Coulombs e
alguns servos indianos partiram de trem para Madras, de mudança
para a nova sede da ST, Adyar. (ODL II, 391)
O ano de 1883 foi um ano de muito trabalho, especialmente com o The
Theosophist, com poucos recursos e pouca gente para ajudar. Em setembro,
HPB escreve para Sinnett:
"Gostaria de vê-lo assumindo a administração e
edição de Phoenix com dois centavos em seu bolso,
uma hoste de inimigos à volta; sem amigos para ajudar; e você
mesmo – editor, gerente, copista e até mesmo, freqüentemente,
mensageiro,
com um pobre Damodar meio alquebrado, sozinho para ajudá-lo, por
três anos; alguém que era um menino saído dos bancos
da escola, não tendo, como eu, qualquer idéia sobre negócios
e Olcott sempre – sete meses no ano – longe! (...) lembre-se que enquanto
você, em meio a todo o seu árduo trabalho como editor do ThePioneer
costumava
regularmente sair do trabalho às 4, após começá-lo
às 10 da manhã – e saía para jogar tênis ou
dar um passeio, Olcott e eu começamos o nosso às cinco
da manhã, à luz de vela, e às vezes o terminamos às
2 da manhã. Não temos tempo para tênis, clubes, teatros
e encontros sociais como você. Nós mal temos tempo para comer
e beber." (LBS, 57)
Encontro com Mestre KH no Lahore
Em novembro de 1883, Olcott e Damodar viajaram para Lahore. Essa viagem
estava sendo feita sob ordens do Mestre KH, para que Olcott o encontrasse.
De acordo com HPB:
"Parece que Maha Sahib (o grande) é que insistiu com o Chohan
para que Olcott tivesse a permissão de encontrar pessoalmente
dois ou três dos adeptos além de seu guru M. Tanto melhor.
Eu não serei, quem sabe, a única a ser chamada de mentirosa,
quando afirmar a realidade de suas existências." (LBS, 62)
Na noite de 17 de novembro de 1883, quando estavam no trem, Damodar estava
deitado em sua cama e não parecia estar fisicamente dormindo pois,
de tempos em tempos, mexia-se. Daqui a pouco ele perguntou a Olcott que
horas eram:
"Eu lhe disse que faltavam poucos minutos para as seis da tarde. Ele
disse: "Eu recém estive na Sede" – querendo dizer no duplo
[astral] – "e aconteceu um acidente com Madame Blavatsky." E lhe
perguntei se havia sido algo sério. Ele disse que não podia
me dizer, mas achava que ela havia tropeçado no tapete e caído
pesadamente sobre seu joelho direito."(SPR Appendix I)
Na estação seguinte, Olcott enviou um telegrama para HPB
perguntando: "Que acidente ocorreu na Sede, em torno das 6h? Responda
para Lahore." No dia seguinte, ele recebeu a resposta: "Quase quebrei
a perna direita, caindo da cadeira do Bispo, arrastando Coulomb, atemorizando
Morgans. Damodoss [Damodar] nos assustou." (SPR Appendix I)
No momento em que Damodar apareceu em seu duplo astral, HPB estava em
cima de uma cadeira, limpando os retratos dos Mestres. Quando Emma Coulomb,
que era psíquica, o viu, levou um tremendo susto e largou a cadeira,
o que fez com que HPB se desequilibrasse e caísse, machucando o
joelho direito.
Ao chegarem em Lahore, Olcott, Damodar e a comitiva acamparam em tendas
em frente ao Forte. Na madrugada do dia 20 de novembro, Olcott percebeu
alguém entrando em sua tenda e tocando-o. Com medo, ele agarrou
o intruso pelos braços e perguntou quem era e o que queria. Então
ouviu uma voz suave e gentil lhe perguntando: "Você não
me conhece? Não se lembra de mim?" (ODL III, 37) Era
o Mestre KH. Olcott imediatamente o largou, juntou as mãos em saudação
e tentou sair da cama, em sinal de respeito, mas o Mestre o impediu. Após
lhe falar algumas frases, pegou sua mão esquerda e colocando os
dedos de sua mão direita na palma da mão de Olcott, fez surgir
um papel embrulhado num pano de seda. Depois o abençoou e saiu da
tenda. (ODL III, 38)
Apesar de Olcott já estar há vários anos numa convivência
estreita com HPB, muitas vezes sua mente racional ainda pedia por provas.
Esse comportamento precisava mudar e por isso o Mestre KH foi encontrá-lo
fisicamente, em Lahore. O bilhete precipitado na mão de Olcott dizia:
"Desde o início de seu período de provação
na América, você esteve muito relacionado comigo, embora seu
desenvolvimento imperfeito freqüentemente o fez confundir-me com Atrya
(...) o objetivo que tínhamos em vista, ao empreender minha viagem
do Ashrum para o Lahore, era lhe dar essa última prova substancial.
Você não apenas me viu e conversou comigo, mas me tocou, minha
mão apertou a sua e o KH da imaginação tornou-se o
K ? da realidade. Sua conduta
céptica, freqüentemente caindo num conservadorismo extremo
(...) tem séria e constantemente impedido seu desenvolvimento interno.
Ela lhe fez suspeitar – às vezes cruelmente – de Upasika, de Borg,
de Djual-K, e até mesmo de Damodar e D. Nath [Babajee], a quem você
ama como filhos. Esse nosso encontro deve mudar radicalmente o estado de
sua mente. Se não mudar, tanto pior para seu futuro; a verdade nunca
vem, como um arrombador, através de janelas gradeadas e portas blindadas
com ferro." (LMW-16, 1stS, 40)
O Mestre KH voltou ao acampamento às 22:00h, quando conversou com
Damodar e depois com Olcott, num local um pouco afastado, para evitar intromissões.
(ODL III, 44). No dia 21, eles partiram para Jammu, hospedando-se
numa casa do marajá do Kashmir. Durante o dia Olcott ia ao palácio
para dar passes mesméricos no marajá e conversar sobre Vedanta.
Na manhã do dia 25, quando Olcott acordou, percebeu que Damodar
não estava em seu quarto. Após procurá-lo sem sucesso,
um servo lhe informou que o vira saindo da casa, sozinho. Ao voltar para
seu quarto, Olcott encontrou um bilhete do Mestre dizendo-lhe para não
se preocupar, pois Damodar estava sob sua proteção. (ODL
III, 54) HPB escreve para Sinnett sobre Damodar:
"Desapareceu!! Fiquei pensando e também tive medo, éestranho
pois faz apenas quatro anos que ele é um chela. (...) KH é
esperado por aqui ou pela redondeza por dois chelas que vieram de Mysore
para O encontrar. Ele está indo para algum lugar, relacionado aos
Budistas da Igreja do Sul. Será que nós o veremos?
Eu não sei. Mas aqui há uma comoção entre os
chelas. Bem, coisas estranhas andam acontecendo. Terremotos, e sol azul
e verde; Damodar raptado pelos Mestres e o Mahatma vindo. E agora o que
faremos
no escritório sem Damodar! Oh deuses e poderes do Céu
e do Inferno, não tínhamos trabalho e problemas suficientes!
Bem, bem, SUAS vontades sejam feitas, não a
minha. Sua, sempre na água fervendo, HPB" (LBS, 72)
HPB telegrafou para Olcott dizendo-lhe que não deixasse ninguém
mexer na cama ou nas bagagens de Damodar e que ele logo retornaria. Na
noite do dia 27 Damodar voltou, trazendo para Olcott "uma mensagem de
um outro Mestre, que conheço bem". (ODL III, 57) Em seu
diário, ele escreveu: "Damodar voltou parecendo exausto, mas
mais firme e resistente que antes. Ele agora é realmente um novo
homem. Me trouxe uma mensagem de Hilarion." (LMW, 2ndS,
189)
Chamamos a atenção para o fato que Olcott se refere ao
Mestre Hillarion como um Mestre "que conheço bem". Como já
vimos, era para John King – o Sahib e Instrutor de HPB – que Olcott escrevia
relatórios diários à Loja, recebia instruções
etc. (Inf. HPB 3).
Os Coulombs e a SPR
Em 20 de fevereiro de 1884 HPB e Olcott, acompanhados por Mohini, Babajee,
Babula e Padash partem de Bombay para a Europa. (ODL III, 73) Em
Adyar, Olcott havia deixado um Conselho, presidido por Franz Hartmann,
para cuidar da Sede. Os aposentos de HPB ficaram aos cuidados do casal
Coulomb. Quando Damodar pediu à Sra. Coulomb as chaves do quarto
de HPB, ela negou-se a lhe dar. Alguns dias depois, conta a ele que o marido
estava fazendo portas falsas. Hartmann e Lane-Fox começam a investigar,
num clima nada amistoso entre o Conselho e os Coulombs. (Inf. HPB 10)
Damodar então recebe uma nota do Mestre KH lhe dizendo para ser
mais caridoso com Emma Coulomb. (Hastings, 77) Hartmann também
recebe uma carta nesse sentido:
"Enquanto alguém não tiver desenvolvido um perfeito
senso de justiça, antes deveria preferir errar pelo lado da misericórdia
do que cometer o menor ato de injustiça. Mad. Coulomb é uma
médium e, como tal, irresponsável por muitas coisas que ela
possa dizer ou fazer." (LMW-73, 2ndS, 131)
Em maio o Conselho de controle da Sede acabou expulsando o casal Coulomb
da ST, pedindo que eles deixassem a Sede. Eles não obedeceram e
trancaram-se nos aposentos de HPB. (Inf. HPB 10) Em junho a Society
for Psychical Research (SPR) começou as primeiras investigações
em Londres. (Inf. HPB 12) Em 11 de setembro é publicado o
artigo do reverendo Patterson, "O Colapso de Koot Hoomi", com base
em 15 cartas que os Coulombs atribuíam a HPB, nas quais ela os instruiria
sobre as fraudes. (Inf. HPB 13)
No final de dezembro é publicado o relatório com as conclusões
preliminares, e Richard Hodgson chega em Adyar em janeiro de 1885, para
fazer suas investigações. Para Damodar e Subba Row, falar
sobre os Mestres com Hodgson era uma profanação, sendo por
isso muito reticentes sobre o assunto, o que só aumentou as desconfianças
do agente da SPR. Mesmo com Hartmann, Damodar também era muito reticente
em relação a tudo que estava relacionado com os Mestres,
o que deu origem a desentendimentos entre os dois. (Inf. HPB 15).
Damodar Parte de Adyar
Em 23 de fevereiro de 1885, 36 dias antes de HPB partir definitivamente
da Índia, Damodar embarcou para Calcutá. De lá foi
para Benares, onde ficou até 14 de março com "Mâji".
Em 30 de março recebeu um telegrama ordenando-o a ir para Darjeeling,
para onde partiu no meio de abril. Em 19 de abril entrou no Sikkim e no
dia 23 recebeu permissão para seguir para Kali, de onde mandou os
servos que o acompanhavam de volta para Darjeeling, com seus pertences
pessoais e com seu diário. Por muitos anos esperou-se que Damodar
voltasse para Adyar e especulou-se se ele estaria vivo ou morto. Olcott
escreve sobre a partida de Damodar:
"Quatro pessoas desse lado dos Himalaias tiveram voz nessa questão,
das quais três eram HPB, T. Subba Row e "Mâji" de Benares:
a principal autoridade, é claro, era HPB, o Sr. Subba Row tendo
apenas algumas questões para serem respondidas e Mâji algumas
informações clarividentes para dar. Não mencionarei
o nome da quarta pessoa, mas apenas direi que ele é igualmente bem
conhecido de ambos os lados das montanhas, e faz freqüentes viagens
religiosas entre a Índia e o Tibet. Damodar esperava ter a permissão
de ir com ele em sua volta a Lhassa, embora sua constituição,
naturalmente delicada, estivesse esgotada pelo excesso de trabalho, com
sinais de tuberculose e ele havia tido algumas hemorragias. Logo após
ele ter deixado Darjeeling, circularam os mais preocupantes rumores sobre
o nosso querido rapaz ter perecido em sua tentativa de cruzar as montanhas."
(ODL III, 270)
Em 4 de janeiro de 1886, HPB escreveu para Sinnett: "Vi Damodar na noite
passada." Quase que na mesma época ela escrevia para Hartmann
que Damodar estava vivo e provavelmente no Tibet: "Feliz Damodar!
Ele foi para a terra da bem-aventurança, para o Tibet, e agora deve
estar longe, nas regiões de nossos Mestres." (Eek, The Writings
of a Hindu Chela)
Com base em afirmações de peregrinos vindos do Tibet,
"Mâji" disse que Damodar estava lá. No The Theosophist
de julho de 1886 foi publicada uma nota, assinada por Olcott e por
Subba Row, relatando que em 7 de junho haviam chegado notícias de
que Damodar estava a salvo, "sob a proteção de amigos
a quem ele buscou", mas que seu retorno seria ainda por muito tempo
incerto. (Eek, The Writings of a Hindu Chela)
Em agosto de 1889, Sriman Swamy, enviou uma carta para o The Theosophist
onde dizia que conhecia pessoalmente vários dos Mahatmas e que "em
março de 1887 vi o Sr. Damodar K. Mavalankar em Lhassa, num estado
convalescente. Ele me disse, na presença do Mahatma "KH",
que quase havia morrido no ano anterior."(Sriman Swamy)
Quando Khandalavala perguntou a HPB sobre as afirmações
de Sriman Swamy, ela lhe escreveu que Damodar não estava morto,
e que havia recebido uma carta dele há três meses. No entanto,
escreve HPB: "Damodar nunca esteve em Lhassa, nem Sriman Swamy, que
não tendo permissão de dizer onde ele viu Damodar, deu um
nome errado". (HPB to Khandalavala)
Numa carta aberta aos membros indianos, de 1890, conhecida como "Por
Quê Eu Não Volto Para a Índia", HPB comenta a importância
da passagem de Damodar pela Sociedade Teosófica e de seu desenvolvimento
espiritual, ao escrever que se a Sociedade Teosófica:
"nunca tivesse dado à Índia mais do que aquele futuro
Adepto (Damodar), que agora tem a perspectiva de se tornar um dia um Mahatma,
apesar do Kali Yuga, somente isso seria prova de que ela não foi
fundada em Nova Iorque e transferida para a Índia em vão."
(CW XII, 159)
Bibliografia
Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings
(CW),
vol. XII. TPH, Wheaton, 1980.
Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky The Blavatsky
Archives Online, 1999.
Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett.
(LBS) TUP, Pasadena, 1973.
Blavatsky, H.P. The Voice of the Silence. TPH, Adyar,
1975
Chetty, G.S. "Old Diary Leaves". Blavatsky Archives http://blavatskyarchives.com
Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement.
TPH, Adyar, 1978.
Eek, S. Damodar: The Writings of a Hindu Chela. TUP online
http://www.theosociety.org/pasadena
Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (Chronological
Seq.) (MLcr) TPH, Quezon City, 1993.
Hastings, B. The Coulomb Pamphlet. Beatrice Hastings,
Worthing, 1937
Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom,
(LMW), 1st&2nd Series. TPH, Adyar, 1973.
Murphet, H. Hammer on the Mountain. TPH, Wheaton, 1972
Olcott, H.S. Old Diary Leaves (ODL), Vol II, III. TPH,Adyar,
1974.
Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society.
TPH, Adyar, 1989.
Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. Blavatsky,
1886. Kessinger Publ. Co., Montana.
Society for Psychical Research Committee (SPR). "First
Report of the SPR, Appendix I " Blavatsky Archives, 2000. http://blavatskyarchives.com
O Informativo HPB tem
por objetivo compartilhar o resultado de estudos
e pesquisas sobre HPB
realizados nos últimos anos.
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