A ST e a Arya Samaj de Swami Dayanand Saraswati



Marina Cesar Sisson

(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 18, junho/2001)



O ano de 1878 marca um período da vida da Sociedade Teosófica (ST) em que foram dados passos que mudariam os rumos de seu trabalho. Em fevereiro a ST decidiu unir-se à organização Arya Samaj, liderada por Swami Dayanand Saraswati, numa aliança que durou de 1878 a 1882.

Em abril iniciou-se uma discussão para transformar a ST numa ordem maçônica e começaram os contatos com os budistas do Ceilão, representados pelo sumo sacerdote Sumangala, que acabou oportunizando o grande trabalho de Olcott em prol do Budismo.

Em maio Olcott escreveu uma circular sobre os objetivos da ST, empregando pela primeira vez expressão "Fraternidade da Humanidade". Também em maio HPB e Olcott receberam instruções para se preparar para partir para a Índia, fato que somente se concretizou em dezembro de 1878.

Para podermos entender melhor a importância dessas alianças de trabalho, especialmente com a Arya Samaj de Swami Dayanand Saraswati, precisamos primeiramente entender que a ST em 1878 – com apenas três anos de idade – era muito diferente da ST de hoje, inclusive quanto a seus objetivos. Vejamos então alguns aspectos do desenvolvimento da ST em seus primeiros anos.

A Sociedade Teosófica de 1875 a 1878

Quando a ST foi fundada, em 1875, seu objetivo era simplesmente: "reunir e difundir um conhecimento das leis que governam o universo". (Gomes, 89) Em seu início a idéia de formar um núcleo da Fraternidade Universal ainda não estava presente. A Sociedade estava sendo proposta como um "corpo para reunir e difundir conhecimentos; para pesquisa oculta, e o estudo e disseminação de antigas idéias filosóficas e teosóficas". (ODL I, 120) O jornal Spiritual Scientist, publicou uma matéria a respeito da nova sociedade, dizendo que o plano de Olcott era:

"organizar uma sociedade de Ocultistas e começar imediatamente a formar uma biblioteca; e difundir informações a respeito daquelas leis secretas da Natureza que eram tão familiares para os caldeus e egípcios, mas que são totalmente desconhecidas pelo nosso moderno mundo da ciência." (ODL I, 120) Em julho de 1875, Madame Blavatsky havia recebido de seu Mestre "ordens para formar uma Sociedade – uma Sociedade secreta como a Loja Rosacruz." (CW I, 73) Sendo uma sociedade de ocultistas, ela necessariamente seria para poucos, como HPB escreveu em setembro de 1875: "as obras sobre Ocultismo não foram, eu repito, escritas para as massas, mas para aqueles Irmãos que fazem da solução dos mistérios da Cabala o principal objetivo de suas vidas, e que se supõe que conquistaram as primeiras abstrusas dificuldades do Alfa da Filosofia Hermética. Aos candidatos fervorosos e perseverantes da referida ciência, eu tenho a oferecer apenas uma palavra de conselho, "Tentem e tornem-se"." (CW I, 132)
Charles Sotheran

Entretanto, em seus primeiros meses de funcionamento, a ST ainda não era uma organização realmente secreta. Essa transformação só ocorreu em decorrência a desentendimentos com Charles Sotheran, um de seus fundadores. Em parte, esses desentendimentos foram causados por discursos políticos inflamados que Sotheran fez, na rua, para grevistas. Neles ele se declarava um trabalhador socialista e incitava-os a tomar medidas contra os capitalistas exploradores. Abaixo de um recorte de jornal onde esse acontecimento é narrado, HPB escreveu: "Um teosofista se tornando um desordeiro, encorajando revolução e ASSASSINATO, um amigo de comunistas não é um membro adequado para nossa Sociedade. ELE TEM QUE SAIR." (CW I, 404)

Outra razão da saída de Sotheran foi seu questionamento sobre a veracidade dos experimentos realizados com médiuns como a Sra. Youngs, que levantava pianos e a Sra. Thayer, que precipitava flores e pombas, nas reuniões da ST. (Deveney, 50) Olcott explica nas páginas do Spiritual Scientist:

"Quanto à Sociedade Teosófica, nossa atual experiência com uma certa pessoa, o qual deve ficar sem ser nomeado uma vez que sua conduta tem sido tal que o faz perder seu direito de reconhecimento, tem sido uma lição da qual pretendemos tirar um proveito. Estamos considerando uma proposição de nos organizar como uma sociedade secreta de modo que possamos perseguir nossos estudos sem sermos interrompidos por falsidades e impertinências de pessoas de fora." (CW I, 193) Abaixo desse artigo, colado em seu scrapbook, HPB escreveu:  "Até a rixa com Sotheran a Sociedade não era uma sociedade secreta (...) Mas ele começou a atacar injuriosamente nossos experimentos & nos denunciar aos espíritas & impedir o progresso da Sociedade & achou-se necessário torná-la secreta." (CW I, 194) Em 5 de janeiro de 1876 o Conselho acatou o pedido de Sotheran para sair da ST. Com a publicação de Olcott acima citada, Sotheran escreveu para o The Banner of Light: "Afirmou-se que eu deixei a Sociedade Teosófica por "falta de coragem moral". Aqueles que me conhecem bem, não podem senão saber que essa afirmação é absolutamente falsa, e que minhas reais razões para ter dado esse passo são porque eu estou convicto que as pretensões da Sociedade são enganosas (...) eu não incomodaria seus leitores com questões de natureza pessoal, mas considero isso um dever (...) porque em conseqüência de ter recentemente recomendado a conhecidos e outros a não filiarem-se à Sociedade, Madame Blavatsky (...) ameaçou-me como "alguém que deveria ser e será processado de tal modo a impedir seus atentados ou que cause mais dano".

"Madame Blavatsky talvez tenha poderes ocultos de um caráter extraordinário; mas após um conhecimento intimo dela por um período considerável, posso afirmar que em minha humilde opinião ela NÃO possui NENHUM, muito embora ela tenha psicologizado a ela mesma e a seus defensores a acreditarem nisso, e portanto suas ameaças caem sobre mim com tão pouco efeito quanto "O vento que passa suavemente."

"Eu a aconselharia que, ao invés de ofender aqueles que como eu estão lutando pela Mais Elevada Verdade, e detestam imposturas de qualquer tipo, a se contentar em combater aqueles com quem ela tem uma real causa de indignação". (Sotheran)

Seis meses após toda essa confusão e troca de ameaças, Sotheran voltou a fazer parte da ST, freqüentar a casa de HPB e a auxiliar ativamente no trabalho. De acordo com Laura Holloway, havia uma grande amizade entre HPB e Sotheran, e ela afirma que foi dele a sugestão da palavra "teosofia" para o nome da Sociedade. Ela também revela que: "Freqüentemente se afirmava – com base em que provas, eu nunca soube – que o Sr. Sotheran conhecia pelo menos um membro da Fraternidade de Adeptos e estava, de alguma maneira, identificado com seus amplos objetivos (...). E em geral era aceito que ele havia encontrado com Madame Blavatsky no exterior e conhecia a tarefa que ela estava realizando nesse país. (...) Sua atitude era a de que ela era uma ocultista genuína, com razoáveis poderes mentais, e que havia sido treinada para usá-los. (...) Os serviços desse homem à ST em seu início nunca foram reconhecidos com justiça. Ele foi um auxiliar sem o qual os trabalhos de organização da Sociedade, de fazer pesquisas relacionadas com Ísis Sem Véu, de garantir um editor para essa obra e ainda de apresentá-la adequadamente ao público, não teriam sido executados com a metade da eficiência." (CW I, 527) Uma pequena menção a Sotheran feita por Albert L. Rawson em seu artigo "Madame Blavatsky – A Theosophical Occult Apology", de 1892, mostra o grau de intimidade e a convivência de ambos com HPB em Nova Iorque. O episódio também é interessante porque nos dá uma descrição do relacionamento de HPB com seus amigos, num clima de descontração e camaradagem.

Com a intenção clara de provocar a "esfinge" – como HPB era chamada por alguns amigos – alguém sugeriu que era uma pena que o treinamento inicial de HPB tivesse sido negligenciado pois, caso contrário, quem sabe se ela agora não teria se reencarnado como Pitágoras, Bacon ou até mesmo como Shakespeare?

Reagindo à provocação, HPB respondeu que ela não tinha qualquer dúvida de ela era um Buda, e que "aquela pequena imagem de bronze no seu santuário sou eu como eu era há mil ou dez mil anos atrás." Então, continuando a provocação, alguém sugeriu que "poderia ter sido um alívio se Buda se retirasse para o Nirvana e nos desse um outro descanso de alguns milhares de anos". (Rawson, 212-213) Para Rawson, esses momentos em que HPB era provocada eram:

"uma excelente oportunidade para estudar o espírito interno da esfinge. Calma como a Aboo Hool de Memphis num minuto, e no seguinte uma tempestade de paixão que se expressava numa torrente de palavras que feriam os ouvidos de seus ouvintes. Eu nem mesmo tentarei dar uma amostra, pois as reticências omitiriam maldições em várias línguas". (Rawson, 213) E em seguida revela que Sotheran é que havia sido o autor da provocação, perguntando-lhe: "Sotheran, por que você acordou a tigresa?" (Rawson, 213), o que demonstra o grau de intimidade que os dois tinham com HPB. Sotheran responde que havia a provocado porque essa era "a melhor maneira de abrir o repertório de seu espírito. Você notou como ela lançou Buda, os Vedas, Zoroastro, Confúcio e todos os demais sobre nós?" (Rawson, 213) Rawson então dá um belo depoimento sobre o domínio que Madame Blavatsky possuía no campo do oculto: "Como instrutora Mad. Blavatsky era imperativa, severa, impaciente com métodos vagarosos, inclemente com inteligências lerdas e detestava almas insípidas. Lhe agradava quando seu aluno acompanhava o ritmo de seus rápidos vôos, e ficava encantada se alguém parecia acompanhá-la para aquelas regiões ocultas que eram de seu peculiar domínio, cujo ar era demasiado rarefeito até mesmo para anjos, e cujas margens estavam encobertas por aquelas nuvens místicas que, ao mesmo tempo que obscurecem a paisagem para o profano, destilam orvalho dourado para os poucos esotéricos." (Rawson, 213)
A Circular de Nova Iorque

Charles Sotheran, que assim como Albert Rawson era um maçom ativo, começou em abril de 1878 uma discussão com Olcott, HPB e outros maçons com o objetivo de transformar a ST em algo análogo a uma Ordem maçônica, secreta, com rituais e graus. Olcott escreve:

"Em 17 de abril começamos a conversar com Sotheran, General T., e um ou dois outros elevados Maçons sobre estabelecer nossa Sociedade como um corpo maçônico com um Ritual e Graus; a idéia era que ela formaria um complemento natural aos graus mais elevados da Ordem, restaurando-lhe o elemento vital do misticismo Oriental que lhe faltava ou que havia perdido. Ao mesmo tempo, tal arranjo daria força e permanência à Sociedade, por associá-la com a antiga Fraternidade cujas lojas estão estabelecidas por todo o mundo. Agora que volto a olhar para isso, estávamos, na verdade, tão somente planejando repetir o trabalho de Cagliostro, cuja loja Egípcia foi em sua época um centro tão poderoso para a propagação do pensamento oculto Oriental. Não abandonamos a idéia até muito tempo depois de mudarmos para Bombay". (ODL I, 468) A idéia de transformar a ST num corpo com vários graus estava presente no documento que Olcott publicou em maio, sobre a origem, plano e objetivos da ST, conhecido como "Circular de Nova Iorque". A Sociedade se apresentava organizada "sob o princípio do segredo" (CW I, 376) e a filiação estava dividida: "em três Seções, e cada Seção em três Graus. Se exige de todos os candidatos a uma filiação ativa que entrem como probacionários, no Terceiro Grau da Terceira Seção, e nenhum tempo fixo é especificado no qual o novo membro pode avançar de qualquer grau mais baixo para um superior; tudo depende do mérito. Para ser admitido no grau mais elevado, da Primeira Seção, o teosofista deve se libertar de qualquer inclinação por qualquer forma de religião em preferência a outra. Ele deve estar livre de todas as rígidas obrigações para com a sociedade, a política e a família. Ele deve estar pronto para sacrificar sua vida, se necessário, para o bem da Humanidade ou de um irmão membro de qualquer raça, cor ou credo ostensivo. Ele deve renunciar ao vinho, e a qualquer outra espécie de bebidas intoxicantes, e adotar uma vida de estrita castidade." (CW I, 376) Os membros da Segunda Seção eram aqueles que já haviam feito algum progresso no caminho do autodomínio e da iluminação, embora ainda tivessem alguns preconceitos religiosos e outras formas de egoísmo. A Terceira Seção era de provação, e seus membros poderiam deixar a Sociedade quando quisessem, embora continuassem com a obrigação assumida no ingresso de manter absoluto segredo quanto ao que lhes foi comunicado sob essas condições. (CW I, 376)

Os objetivos da ST agora eram vários: "Ela influencia seus membros a adquirir um íntimo conhecimento das leis naturais, especialmente suas manifestações ocultas." (CW I, 376) Para tanto, cada membro deveria "estudar para desenvolver seus poderes latentes, e se informar a respeito das leis do magnetismo, eletricidade e todas as outras formas de forças, seja do universo visível ou invisível." (CW I, 377) E continuava ressaltando que a Sociedade esperava que cada membro: 

"exemplifique pessoalmente as mais elevadas moralidade e aspiração religiosa; se oponha ao materialismo da ciência e a toda forma de teologia dogmática, especialmente a Cristã, a qual os Chefes da Sociedade consideram como particularmente perniciosa; tornar conhecidos entre as nações ocidentais fatos há muito suprimidos sobre as filosofias religiosas orientais, suas éticas, cronologias, esoterismo e simbolismo; opor-se, tanto quanto possível, aos esforços dos missionários em iludir os assim chamados "infiéis" e "pagãos" com relação à real origem e aos dogmas do Cristianismo e os efeitos práticos deste último sobre o caráter público e privado nos assim chamados países civilizados; disseminar um conhecimento dos sublimes ensinamentos daquele puro sistema esotérico do período arcaico, que estão espelhados nos mais antigos Vedas, e nas filosofias de Gautama Buda, Zoroastro e Confúcio". (CW I, 377) E concluindo a exposição sobre os objetivos da ST aparecia pela primeira vez a expressão "Fraternidade da Humanidade", ao dizer que seu objetivo era, principalmente:  "ajudar na instituição de uma Fraternidade da Humanidade, onde todos os homens puros e bons, de qualquer raça, reconhecerão uns aos outros como os produtos iguais (sobre esse planeta) de uma Causa Não Criada, Universal, Infinita e Eterna." (CW I, 377)
Sat Bhai

Em 29 de setembro de 1877 Ísis Sem Véu foi publicada com grande sucesso. Em dez dias a primeira edição estava esgotada e no espaço de sete meses mais três edições foram feitas. Uma conseqüência imediata foi um grande número de cartas de várias partes do mundo. Entre essas, iniciou-se uma correspondência com um conhecido maçom, John Yarker que estava impressionado com o conhecimento maçônico demonstrado por HPB em Ísis. (Ransom, 99-100)

Yarker, que na época era Grão Mestre do Antigo e Primitivo Rito de Memphis, 95°, 33° do Rito Escocês e 90° do Rito de Mizraim, conta que Sotheran havia levado para HPB um pequeno livro de sua autoria, publicado em 1872, e que ela havia feito referência a esse livrinho em Ísis. Então, "a pedido do Irmão Sotheran, eu enviei para Madame Blavatsky o diploma do ramo feminino da Sat Bhai." (CW I, 311) 

Olcott respondeu a Yarker em relação ao diploma da Sat Bhai, dando testemunho de que HPB era proficiente em todas as ciências maçônicas. Em agosto de 1877, Yarker recebeu um diploma de membro honorário da ST. Em 24 de novembro, ele enviou a HPB um segundo diploma, desta vez do Rito de Adoção de Memphis e Mizraim, conferindo-lhe o mais alto grau deste Rito Adotivo, aquele da "Princesa Coroada 12°" (CW I, 312) A publicação desse segundo diploma gerou ataques e questionamentos quanto a sua validade. Ao defender-se, HPB escreve:

"eu nunca recebi "os graus regulares" em qualquer Loja Maçônica Ocidental. Naturalmente, então, não tendo recebido nenhum desses graus, eu não sou um maçom grau trinta e três. (...) Minha experiência maçônica – se você assim quiser denominar minha filiação em várias Irmandades Maçônicas orientais e Fraternidades Esotéricas– está confinada ao Oriente. Mas, no entanto, isso não impede que eu conheça, em comum com todos os "maçons" orientais, tudo que está conectado com a Maçonaria Ocidental (...) e nem, desde o recebimento do diploma enviado pelo "Soberano Grão Mestre" (...) que eu esteja entitulada a me chamar uma maçom." (CW I, 308) A Ordem Sat Bhai (Sete Irmãos), era assim chamada porque cada grupo era composto por sete pessoas. Se dizia que essa Ordem havia sido iniciada, ou transmitida, por um Pandit brâmane de Benares. Aparentemente alguns oficiais britânicos haviam sido iniciados e pretendia-se que eles espalhassem os ideais da Sat Bhai pelo mundo. O Major J.H. Lawrence Archer havia introduzido o ritual na Inglaterra, em torno de 1872. Yarker escreve sobre a Sat Bhai: "O nome alude ao pássaro Malacocercis Grisis, o qual sempre voa em grupos de sete. Ela tem sete graus descendentes, cada um com sete discípulos, que constituem os seus sete; e sete graus ascendentes de Perfeição, Ekata ou Unidade. Seu objetivo é o estudo e desenvolvimento da filosofia indiana. De algum modo, sua raison d’etre deixou de ser necessária quando a Sociedade Teosófica foi estabelecida por H.P. Blavatsky, a qual numa determinada época pelo menos tinha seus sinais secretos de Entrada." (Yarker, 492) Aparentemente, a Sat Bhai era a divisão mundana da "Royal Oriental Order of Sikha (Apex)". (Scott) Yarker havia introduzido cerca de uma centena de pessoas à Ordem Sat Bhai, entre elas algumas mulheres de destaque. Tanto o simbolismo dos rituais quanto os títulos dos oficiais eram indianos, e apenas os rituais iniciais estavam prontos. A Ordem não tinha nada em comum com a maçonaria ocidental. (Ranson, 100)

Após várias correspondências com HPB, Yarker propôs que aqueles que passassem ao segundo Grau teriam que estudar a literatura dos Vedas e os do terceiro Grau deveriam praticar a genuína maçonaria oriental. (Ranson, 100) Numa carta de Yarker para HPB, de janeiro de 1879, ele pede instruções, mostrando o envolvimento de HPB com o trabalho de estruturação da Sat Bhai:

"Adotarei as suas Cerimônias revisadas – gostaria de adiantar 3 objetivos: 1. Auditor (com as 7 cerimônias imperfeitas, 4 das quais eu lhe enviei), 2. Perfeição (dando o âmago da doutrina védica), 3. Para uns poucos selecionados, a divisão dos 7 graus de acordo com o dogma do Oriente. Ou você faria dois ramos – 1. Os 7 ritos Auditores, e 2. a cerimônia de Perfeição, classificando como primeiro o grau Oriental, Auditor o segundo e Promotor o terceiro?" (Muehlenger) Em 25 de janeiro de 1878, Kenneth Mackenzie escreveu para Francis Irwin, que também era membro na Ordem Sikha: "Ouvi falar que Madame Blavatsky é a chefe da Ordem!" (Muehlenger) Mesmo que isso não fosse verídico, a carta de Yarker é clara quanto ao grande envolvimento de HPB com a concepção da Sat Bhai. Assim, é possível que o modelo que Sotheran, HPB e Olcott estavam estudando implementar na ST se espelhasse na Sat Bhai.

Um Viajante Americano

Tendo em mente o panorama do que era a ST nessa época, vejamos agora como começou a relação com Swami Dayanand e a Arya Samaj. Olcott relata que numa tarde do ano de 1877, quando Ísis Sem Véu estava sendo escrita, um "viajante americano que havia recentemente estado na Índia" (ODL I, 395) apareceu e reparou numa fotografia pendurada na parede, onde estavam dois senhores hindus com quem Olcott havia feito uma viagem em 1870.

Embora esse viajante seja usualmente identificado como James Peebles, Michel Gomes chama a atenção que "Edward Whipple, o biógrafo de Peebles, diz que o médico de 75 anos partiu de sua casa em Hammond, Nova Jersey, em agosto de 1876 para sua segunda viagem à volta do mundo, retornando a Nova Iorque em junho de 1878." (Gomes, 228). Portanto, sua ausência de Nova Iorque em 1877, faz com que ele não seja o "viajante americano".

Um possível candidato, que também foi um conhecido "viajante americano" e que foi um grande companheiro das primeiras viagens de HPB é Albert Rawson. Pelo episódio citado acima, em que Sotheran provoca HPB, percebemos que a intimidade e familiaridade que Rawson tinha com Madame Blavatsky correspondia ao de alguém pertencente ao seu círculo mais íntimo de amigos. Embora ele praticamente não seja citado por Olcott em seus livros sobre a história da ST, HPB revela tratar-se de um personagem importante pela forma com que o apresenta em Ísis:

"Fora do Oriente encontramos um único iniciado (e somente um), o qual, por algumas razões que ele mesmo melhor conhece, não faz segredo de sua iniciação na Fraternidade do Líbano. É o erudito viajante e artista, professor A. L. Rawson da cidade de Nova Iorque. Esse cavalheiro passou muitos anos no Oriente, visitou quatro vezes a Palestina e viajou para Meca. Podemos com segurança dizer que ele tem um inestimável conhecimento de fatos acerca dos primórdios da Igreja Cristã, que ninguém, a não ser aquele que tenha tido livre acesso aos repositórios fechados ao viajante comum poderia ter coletado." (Isis II, 312) Embora ainda saibamos pouco a respeito de sua vida, sua carta publicada em Ísis, sobre sua iniciação com os druzos no Monte Líbano (Isis II, 313), está datada: "Nova Iorque, 6 de junho de 1877", mostrando que nesta época ele provavelmente estava por lá, reforçando a hipótese de que ele seja o "viajante americano".

Esse "viajante americano", ao olhar a fotografia na parede de Olcott, reconheceu um dos dois indianos como sendo Moolji Thackersey, com quem ele se encontrara recentemente em Bombay. Obtendo assim seu endereço, Olcott escreveu para Moolji contando sobre a ST e o amor que sentia pela Índia. A resposta de Moolji foi entusiasmada, aceitando o diploma de membro que Olcott lhe oferecera. Moolji também lhe contou sobre um movimento chamado Arya Samaj, que tinha como um de seus objetivos o resgate da religião dos Vedas, e que era liderado por um grande Pandit e reformador, Swami Dayanand Saraswati.

Pequena Biografia de Swami Dayanand Saraswati

Swami Dayanand Saraswati nasceu em Kathiawar, Gujarat, em 1824, recebendo o nome de Moola Shankar. Sua família era de brâmanes ortodoxos, seguidores de Shiva. Desde cedo ele foi iniciado nos conhecimentos tradicionais. Aos 5 anos começou a aprender os caracteres Devanagari do sânscrito e as práticas e costumes de sua casta e de sua família. Aprendeu hinos religiosos, mantras, stanzas e comentários. Aos 8 anos recebeu o cordão sagrado dos brâmanes e aprendeu o Gayatri e suas práticas. Também estudou gramática sânscrita e aprendeu os Vedas de cor.

Seu pai era muito rigoroso quanto à necessidade de cumprir os jejuns e orações devotados a Shiva. Sua mãe se opunha a que o filho seguisse tais prescrições por temer por sua saúde, mas seu pai assim o ordenava. Isso gerava infindáveis discussões entre os dois. Como tinham uma boa situação financeira, em qualquer lugar que tivesse um Shiva Puran para ser lido e explicado, seu pai lá estaria com Dayanand, pois esse sempre o acompanhava aos templos de Shiva.

Aos 14 anos, em meio a noite de jejum e vigília de adoração à imagem de Shiva, no sagrado festival de Shivatree, ao ver ratos comendo as oferendas dedicadas à divindade, começou a rejeitar essa forma de Deus que seu pai lhe ensinara, pois lhe parecia impossível "conciliar a idéia de um Onipotente Deus vivo, com esse ídolo, que permite que os ratos andem por seu corpo e assim sofre a profanação de sua imagem sem o menor protesto." (Dayanand, 10). A partir deste episódio Dayanand passou a dedicar mais tempo a seus estudos e menos tempo às práticas religiosas.

Aos 18 anos uma de suas irmãs, de apenas 14 anos, teve uma súbita enfermidade e morreu em pouco tempo. Sua morte gerou em Dayanand profundas meditações sobre a instabilidade da vida humana, e uma firme determinação de alcançar uma realização interna que o salvasse da miséria de morrer descrente. Essa determinação fez com que rompesse com as penitências e mortificações externas e passasse a valorizar cada vez mais os esforços internos da alma. A morte de seu tio preferido, dois anos depois, deixou-o num estado de profunda tristeza, e com uma firme convicção de que não havia nada que valesse a pena na vida mundana. (Dayanand, 10-11)

Aos 22 anos, quando seus pais resolveram que ele tinha que casar-se, Dayanand fugiu de casa, indo morar com um homem sábio, chamado Lála Bhagat, com quem viveu algum tempo. Então um Brahmachari lhe aconselhou a entrar para a Ordem dos Sanyasis. Ao ser aí iniciado adotou o nome de Shudda Chaitanya e passou a usar as roupas amarelas desta Ordem. Mas pouco tempo depois encontrou com um conhecido de sua família, que o reconheceu e comunicou a seus pais seu paradeiro. Seu pai foi buscá-lo e levou-o à força de volta para casa.

Embora fosse sempre vigiado, Dayanand conseguiu novamente fugir de casa. Juntou-se a outros sanyasis, e desta vez foi iniciado na 4ª Ordem dos Sanyasis, isto é, aquela em que seus membros renunciam a todas as considerações mundanas. Foi então que recebeu o nome de Dayanand Saraswati. Passou vários anos viajando pela Índia, estudando e praticando Ioga. Nestas viagens, vendo a prática religiosa da população, ficava horrorizado com as superstições com que se deparava, e que ele atribuía a traduções erradas dos Vedas. (Dayanand, 9-13)

Em novembro de 1860 ele encontrou Swami Virajananda Saraswati, um asceta cego, que redirecionou sua busca, tornando-se a influência religiosa mais importante em sua vida. Em 1863, Dayanand o deixou, jurando dedicar-se à reforma do Hinduísmo, combatendo "a idolatria, castas, casamento infantil, pretensões de superioridade dos brâmanes, peregrinações, horóscopos, a proibição das viúvas de casarem-se novamente, restrições a viagens ao exterior – a grande maioria das práticas religiosas populares do Hinduísmo". (Johnson, 111)

No período entre 1863 e 1875, Swami Dayanand passou cada vez mais a dedicar-se a reformas sociais, sob o lema "De Volta aos Vedas". A Arya Samaj foi fundada em Bombay, em 10 de abril de 1875. Quase dois anos depois, em 24 de junho de 1877, Swami Dayanand foi para Lahore, e lá estabeleceu a sede da Arya Samaj.

Aliança entre a ST e a Arya Samaj

Além de escrever para Olcott sobre Swami Dayanand, Moolji Thackersey também lhe escreveu entusiasmado sobre o líder da Arya Samaj em Bombay, Hurrychund Chintamon. Então em 18 de fevereiro de 1878 Olcott escreveu para o Swami falando do grandioso trabalho que planejavam para a ST. Entre os vários objetivos propostos estava um que certamente conquistaria a boa vontade do Swami: imprimir e distribuir traduções corretas dos Vedas e de outros livros sagrados, acompanhadas de comentários. Após discorrer sobre a proposta de trabalho, Olcott lhe dizia:

"Veja, respeitado Instrutor, o vasto, solene e importante campo de trabalho que estamos percorrendo. O Sr. nos honraria aceitando o diploma de membro correspondente da Sociedade? Sua aprovação e apoio nos fortaleceria imensamente. Nós nos colocamos sob suas instruções. Talvez possamos, direta e indiretamente, ajudá-lo a apressar a realização da sagrada missão em que está engajado, pois seu campo de batalha estende-se pela Índia e, dos Himalaias ao cabo Comorin, há trabalho que podemos fazer. Nós labutamos para estabelecer uma verdadeira Fraternidade da Humanidade, na qual o supremo laço de parentesco será o amor à verdade. Aspiramos ajudar a fazer desaparecer dogmas, credos e teologias, pois seja quem for que os tenha criado, ou seja quem for a autoridade que os sustente, eles são nuvens escuras obstaculizando o sol da luz espiritual." (Olcott, 1882) Na verdade, Olcott e HPB não sabiam muito acerca da Arya Samaj pois, quatro dias depois, em 22 de fevereiro, Olcott escreveu para Chintamon pedindo-lhe explicações sobre as diferenças entre a Brahmo e a Arya Samaj, que no seu entender era principalmente que a Brahmo Samaj aceitava a doutrina de um Deus pessoal, enquanto que a Arya Samaj pregava a existência de uma Essência Divina, eterna e ilimitada. E lhe dizia: "Com uma tal Samaj como a última (se for como a descrevi), a Sociedade Teosófica tem a maior das afinidades. De fato, no que diz respeito a seu departamento de trabalho no campo das religiões, ela já é uma Arya Samaj sem o saber... Se a Arya Samaj é o que imagino, ficarei orgulhoso de ser admitido como seu membro e proclamar o fato para todo o público cristão. Mande-me todos os documentos necessários para que eu possa compreender exatamente o que ela ensina." (Olcott, 1882) Em maio receberam a resposta de Swami Dayanand, datada de 21 de abril, traduzida para o inglês por seu discípulo Shyamji Krishnavarma, na qual ele declarava aceitar o diploma e fazia votos de continuar com a troca de correspondência e amizade. Veio também uma carta de Chintamon, datada de 22 de abril de 1878, na qual ele assegurava que os princípios da ST eram idênticos aos da Arya Samaj e propunha uma fusão das duas sociedades por duas razões: "primeiro, visto que se reconhece que a VERDADEIRA LUZ só pode ser obtida no Oriente, e que os Arianos foram os primeiros a fazer um progresso satisfatório no estudo da ciência da Psicologia, por que não adotar um nome original ao invés de recorrer à invenção de uma nova palavra; e, segundo, porque .... todas as instituições no trabalho, que têm o mesmo objetivo, deveriam usar o mesmo nome em todos os lugares." (Olcott, 1882) Entusiasmados com a possibilidade de fortalecimento do trabalho, o Conselho da ST reuniu-se e aprovou a união das duas sociedades. Em 22 de maio de 1878, Augustus Gustam, secretário do Conselho, escreveu para Swami Dayanand informando: "Foi resolvido por unanimidade que a Sociedade aceita a proposta da Arya Samaj de unir-se a ela, e que a denominação da Sociedade Teosófica seja alterado para "Sociedade Teosófica da Arya Samaj". E também que Swami Dayanand será reconhecido como "seu diretor legal e chefe." (Gomes, 162) Outra decisão do Conselho foi voltar à cobrança de taxas dos membros e enviá-las para a Arya Samaj.

Swami Dayanand como Instrutor dos Membros Ocidentais

Em seu artigo "Astral Projection or Liberation of the Double and the Work of the Early Theosophical Society", John Deveney mostra como o trabalho inicial da ST estava voltado para instruções práticas de seus poucos membros, como aprender a sair conscientemente do corpo físico e fazer viagens astrais. O treinamento oculto prático era o objetivo mais perseguido na época. Nesse contexto, a aliança com Swami Dayanand Saraswati era muito oportuna, pois HPB e Olcott reconheciam Dayanand como sendo um "Swami Adepto", como alguém que poderia dar instruções práticas aos membros. Olcott escreve:

"não me ofereci individualmente como seu Chela. Eu já era um aluno aceito de um Mahatma, e recebendo instruções. Mas nossos membros em geral não eram tão favorecidos, e por eles eu roguei ao Swami para assumir a relação de Instrutor. Estando no mundo, e trabalhando ativamente, eu naturalmente inferi que ele estaria mais livre do que nossos Mahatmas para estabelecer relações com aqueles membros que não haviam prestado os votos de celibato e total abstinência que eu havia prestado. E os Irmãos Adeptos que nós conhecíamos, tendo se recusado a instruir qualquer membro que não fosse um chela aceito, esses membros, tanto na América quanto na Europa, estavam então muito ansiosos para encontrar um tal Instrutor. Às nossas ansiosas perguntas sobre o Swami, nossos Instrutores invariavelmente nos respondiam que: - "Ele era um Chela, era um Iogue... Ele é um bom homem. Teste-o e vejam. Ele pode ser muito útil para seus membros americanos e ingleses." O que aprendemos do Swami, depois, logo após nossa chegada à Índia, não estamos em liberdade para divulgar." (Olcott, 1882) Chintamon chegou até mesmo a sugerir que o Swami poderia ir para a Europa e América para dar tais instruções. Enquanto isso, as instruções do Swami para os teosofistas seriam "da segunda seção da filosofia indiana" uma vez que: "nenhum verdadeiro Muni ou adepto jamais revelará o segredo da 3ª (nossa 1ª) seção – o genuíno e mais elevado conhecimento – a ninguém a não ser que esteja completamente satisfeito com os méritos e aptidões do receptor; e esse conhecimento deve ser dado a ele pessoalmente... e não por escrito". (Olcott, 1882) Além das instruções, outro ponto que unia a todos era a aparente similaridade dos objetivos das suas Sociedades. Entretanto, três meses depois, em agosto de 1878 Olcott e HPB receberam os estatutos da Arya Samaj, traduzidos para o inglês por Krishnavarma. Perceberam então que os objetivos da Arya Samaj eram bastante diferentes dos da ST. Isso levou-os a rescindir a resolução do Conselho de unir as Sociedades, e a ST retornou para a sua denominação original. (Ransom, 108)

Provavelmente a importância que Swami Dayanand assumia como um instrutor prático é que fez com que as duas Sociedades continuassem juntas. Não mais como uma fusão, mas agora como uma aliança de trabalho – semelhante àquela que se iniciava com os budistas do Ceilão. Sumangala, sacerdote chefe do monastério no sopé do Pico Adam, era para todos os efeitos práticos considerado como Chefe do Budismo do sul como um todo. (CW III, 531) Analogamente ao caso de Swami Dayanand, HPB dá a entender que Sumangala também estava em contato com Adeptos. (CW II, 438)

Dois Krishnavarmas?

Pandit Shiamji Krishnavarma, um dos principais discípulos de Swami Dayanand, nasceu em 1857 em Kutchi. (Johnson, 117). Pouco tempo após HPB e Olcott terem chegado à Índia, Krishnavarma foi para Oxford, aceitando a posição de Conferencista Oriental do Balliol College. Num tempo inacreditavelmente curto, ele aprendeu Grego e Latim e passou pelos difíceis exames em Direito e Economia Política. Ele foi nomeado Conferencista em Sânscrito, Marathi e Gujarati e assessorou ao Prof. Sir Monier-Williams, que havia originalmente patrocinado sua ida. (CW I, 437)

Há uma carta de HPB para sua tia onde ela fala sobre a existência de dois Krishnavarmas. Não há dúvidas de que HPB está se referindo ao Krishnavarma descrito acima quando escreve para sua tia: o "segundo Krishnavarma Sheyamaji, principal apóstolo e aluno de nosso Swami virá no próximo inverno para nos ensinar." (HPB Speaks I, 200) 

Olcott não faz nenhum comentário sobre a existência de dois Krishnavarmas em seu livro sobre a história da ST, Old Diary Leaves. É interessante observarmos isso porque, como veremos adiante, esse outro Krishnavarma não parece ser um personagem fácil de esquecer. Portanto, ou ele é uma ficção criada por HPB ou é alguém que queria ficar incógnito. A única referência conhecida para esse outro Krishnavarma é essa carta de HPB para sua tia, que Jinarajadasa data como sendo de 3 de julho de 1877, embora pelo seu conteúdo fique claro que foi escrita em 1878. (Deveney et. al., 51).

HPB escreve para sua tia que esse outro misterioso Krishnavarma tinha sido de grande auxílio para eles. Ele havia chegado há duas semanas de Multan (Punjab, Índia) numa carroça e que estava hospedado com eles. Para surpresa de HPB ele traduziu trechos da carta em russo de sua tia:

"Só o Diabo sabe como, mas ele traduziu para mim, em inglês, todos os parágrafos escritos por você em russo sobre suas dúvidas e temores a respeito de minha suposta negação de Cristo e pediu insistentemente pela carta." (HPB Speaks I, 190) Ela também relata que havia retornado há três dias de uma viagem com Krishnavarma e Olcott, na qual foram até um local "quase tão distante quanto a Califórnia" (HPB Speaks I, 198). Eles se encontraram com "um de nossos membros, o editor de um jornal, que está em Sacramento e nós tivemos que falar sobre questões de negócios com ele; ele veio metade do caminho para nos encontrar." (HPB Speaks I, 198) Deveney, Godwin e Gomes identificam essa pessoa como sendo George Frederick Parsons, editor do Daily Record Union de Sacramento, que havia devotado três colunas de seu jornal para uma crítica de Ísis Sem Véu em novembro de 1877. (Deveney et. al., 51). HPB descreve a viagem: "Em Milwaukee e Nevada, todas as senhoras ficavam todo o tempo andando perto de nossas janelas e do terraço onde estávamos sentados, para olhar para Krishnavarma; ele é excepcionalmente bonito, embora de uma cor café claro. Em sua longa túnica branca, com um turbante branco estreito em sua cabeça, com diamantes em seu pescoço e os pés descalços, ele é realmente uma visão curiosa entre os americanos de paletós pretos e colarinhos brancos. Muitos fotógrafos vieram me pedir permissão para tirar fotos suas, mas ele negou a todos eles, e todos se admiravam quão bom e puro era seu inglês. Deus sabe qual a sua idade. Quando alguém o olha pela primeira vez, ela parece não ter mais do que 25, mas há momentos em que ele parece um homem de 100 anos." (HPB Speaks I, 198) Esta viagem para um lugar "quase tão distante quanto a Califórnia", da qual teriam voltado há três dias, ou seja, em final de junho de 1878, é difícil de encaixar nas atividades de HPB e Olcott nesse período. Sabe-se que eles viajaram para Nova Jersey e Albany, no estado de Nova Iorque. A única época em que tal viagem talvez tivesse ocorrido é o período entre a segunda metade de abril até perto de 20 de maio, pois não há informações do que eles fizeram nesse período. (CW I, lxiii)

Considerando que HPB esteja exagerando quando diz ter ido a um lugar "quase tão distante quanto a Califórnia", e aceitando que ela tenha ido até Milwaukee, às margens do Lago Michigan, no estado de Wisconsin, é provável que Nevada não seja o estado próximo à Califórnia, nem a cidade com esse nome na própria Califórnia, mas a pequena cidade de Nevada perto de Marion, no estado de Ohio – mais próxima a uma possível rota entre Nova Iorque e Milwaukee.

HPB ainda escreve que Krishnavarma estaria indo no dia seguinte para a América do Sul, e que trouxera para a ST 40.000 rúpias ou 20.000 dólares em ouro. Lembrando das dificuldades financeiras que HPB e Olcott passavam, ou esse dinheiro foi repassado para outro trabalho que desconhecemos, ou a quantia parece ser mais um exagero de HPB. Krishnavarma também teria dado a HPB 200 moedas de ouro inglesas por sua estadia de duas semanas, embora com exceção do chá que ele mesmo preparava, não tivesse tirado nada da dispensa. E conta um pouco de seus hábitos e um episódio que ocorreu com o serviçal de Krishnavarma:

"Todas as manhãs, seu velho servo (como um tipo de servo – eu não sei) ia à cidade para trazer frutas e arroz em suas próprias travessas de prata. Este homem se diria ter 1000 anos de idade. Sua face é velha, velha como um pergaminho, mas que força! Alguns dias atrás, meninos e alguns adultos, aborreceram-no muito, seguindo-o por toda parte e provocando-o. Ele segurou um deles pelo pescoço e jogou-o do outro lado da rua numa vala com água suja e outro uns 50 passos mais adiante. A multidão estava brava, mas Krishnavarma jogou no meio deles um punhado de moedas de ouro e eles pularam sobre o dinheiro como feras selvagens e gritavam para os dois Hurra! até que eles entraram em nossa casa. Agora, para evitar escândalos, Olcott está indo com o velho homem até o mercado, comprar provisões." (HPB Speaks I, 199) Também é interessante observar que abril marca o início da relação de Thomas Alva Edison com a ST. Dia 5 ele enviou seu pedido de ingresso. HPB fala na carta que Krishnavarma havia ensinado a Edison, que sofria problemas de audição: "mais duas "maravilhas", de modo que com um pequeno e quase invisível aparato colocado em seu pescoço, o surdo ouvirá bastante bem." (HPB Speaks I, 202)

Embora tanto HPB quanto Olcott se orgulhassem de sua filiação, referindo-se a ele como "Sr. Edison, o teosofista", a verdade é que sua relação com a Sociedade nunca foi muito profunda, ainda que seus pontos de vista pessoais tivessem muitas semelhanças com aqueles expostos em Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta. (Deveney et. al., 51) Apesar de vários convites, ele e HPB nunca se encontraram pessoalmente. Na correspondência até hoje conhecida, trocada entre HPB, Olcott e Edison, não há qualquer referência a Krishnavarma. (Deveney et. al., 54-57)

HPB e Olcott Chegam na Índia

Embora já em 16 de maio de 1878 HPB e Olcott tivessem recebido as primeiras ordens para se prepararem para uma mudança para a Índia (Ransom, 106), apenas em 18 de dezembro é que eles conseguiram partir de Nova Iorque, acompanhados de Edward Wimbridge. Chegaram em Londres em 3 de janeiro de 1879, e nos quinze dias que lá passaram a ST em Londres foi organizada.

Em 18 de janeiro, os três embarcam para a Índia acompanhados de Rosa Bates (ODL II, 9), chegando em Bombay em 16 de fevereiro de 1879. O navio mal havia ancorado quando três cavalheiros subiram a bordo à procura de Olcott e HPB: eram Moolji Thackersey, Shiamji Krishnavarma e Ballajee Sitaram, todos membros da ST. Mais tarde Chintamon também apareceu e levou-os para uma casa de sua propriedade.

Na noite seguinte, Chintamon ofereceu uma enorme festa de boas-vindas, para 300 convidados, com guirlandas de flores e discursos que emocionaram Olcott (ODL II, 18). No outro dia, visitaram as cavernas de Elephanta, receberam presentes e saudações de inúmeros visitantes e assistiram ao drama hindu "Sitaram", especialmente encenado em honra deles.

Porém, descreve Olcott, "a doçura desta noite foi seguida por nosso primeiro gosto de amargura, na manhã seguinte." (ODL II, 20). A aparente amável recepção de Chintamon foi colocada numa enorme conta, em que cobrava todas as despesas por ele efetuadas, como aluguel da casa, comida, reformas efetuadas na casa para hospedá-los, aluguel de centenas de cadeiras para a festa, flores etc. deixando Olcott e HPB quase sem dinheiro. (ODL II, 20)

A segunda decepção com Chintamon foi quando, logo em seguida, Olcott e HPB descobriram que o dinheiro por eles enviado para a Arya Samaj, 609 rúpias, havia parado nos bolsos de Chintamon. Com as reclamações de outros membros da Arya Samaj, HPB forçou Chintamon a devolver todo o dinheiro. Em 7 de março eles mudaram-se para uma pequena casa na Girgaum Back Road, 108, onde moraram por quase dois anos.

Em 4 de abril HPB, Olcott e Moolji partiram para as cavernas Karli, numa viagem que Olcott entendia estar sendo feita a convite de "um certo Adepto com quem eu havia tido estreitas relações na América, durante o período em que Ísis foi escrita; e que as várias provisões para nosso conforto en route haviam sido ordenadas por ele."(ODL II, 46) Poucos dias depois, em 11 de abril, os três partiram para o norte da Índia, encontrando Swami Dayanand em Sarahanpur, no dia 30. Olcott descreve sobre o encontro:

"Eu estava imensamente impressionado com sua aparência, modos, voz harmoniosa, gestos afáveis e dignidade pessoal. (...) Na longa conversa que se seguiu, ele definiu seus pontos de vista quanto ao Nirvana, Moksha e Deus, em termos tais que não tínhamos nenhuma objeção. Na manhã seguinte discutimos as novas normas da ST, ele aceitou um lugar no Conselho, me deu procuração por escrito com totais poderes, recomendou a expulsão de Hurrychund Chintamon e aprovou completamente nosso esquema de ter seções compostas por grupos afins como budistas, parsis, maometanos, hindus, etc." (ODL II, 78) No dia seguinte partiram para Meerut, acompanhando Swami Dayanand. No caminho, chegaram a um acordo de que ele iria "esboçar e nos enviar os três graus maçônicos que pretendíamos criar para classificar nossos membros avançados, de acordo com suas capacidades mentais e espirituais." (ODL II, 79). Ficaram até o dia 7 participando de várias atividades da Arya Samaj, num clima bastante cordial. Em 13 de maio de 1879, seguindo a recomendação de Swami Dayanand, o Conselho da ST expulsou Chintamon, que foi para Londres e acabou influenciando C.C. Massey, presidente da Loja de Londres, a suspeitar de fraude por parte HPB. (Inf. HPB 12)

Em julho de 1879 Damodar K. Mavalankar pediu ingresso na ST. Em agosto passou a viver com Olcott e HPB, trabalhando como secretário. Também em julho decidiram fundar a revista oficial da ST, o The Theosophist. Um de seus objetivos iniciais era ser um meio para responder às inúmeras – e geralmente repetidas – perguntas que chegavam, respondidas em infindáveis horas escrevendo cartas. Após vários meses envolvidos com o desenvolvimento da nova revista, em outubro de 1879 o primeiro número foi publicado.

Em 2 de dezembro de 1879, HPB, Olcott e Damodar foram para Allahabad, para conhecer Sinnett, com quem HPB já estava se correspondendo desde fevereiro. Logo depois, Damodar partiu para Benares para encontrar-se com Swami Dayanand, a fim de tratar "de assuntos ligados ao Ritual." (Eek, 33). É interessante lembrar que Olcott menciona em seu diário, com relação ao plano de transformar a ST num corpo maçônico, que "Swami Dayanand Saraswati havia me prometido compilar um Ritual para uso de nossos membros de Nova Iorque e Londres." (ODL I, 468)

Em 15 de dezembro de 1879, HPB e Olcott chegam a Benares, acompanhados do casal Sinnett e de Alice Gordon. O casal Sinnett queria muito que Swami Dayanand lhes mostrasse algum fenômeno, mas ele se recusou a faze-lo. Ficaram numa casa providenciada pelo Marajá de Vizianagram em cujo palácio, dois dias depois, foi realizado um encontro do Conselho. Nessa reunião, com a presença de Swami Dayanand, os estatutos foram revisados. (ODL II, 118)

Em abril de 1880, HPB e Olcott receberam ordens para organizar a ST no Ceilão, e em 7 de maio HPB, Olcott, Damodar e outros embarcaram para lá. (Ranson, 142) Esta visita já estava sendo solicitada há algum tempo por Sumangala, sacerdote chefe budista, com quem já estavam em contato desde Nova Iorque. Uma grande multidão os recebeu, e toda a ilha foi tomada por uma grande excitação, pois eles eram os primeiros brancos a admirar o Budismo, em flagrante contraste com os missionários cristãos. (ODL II, 165)

Durante a estadia no Ceilão, HPB, Olcott e Damodar foram formalmente reconhecidos como budistas, ao passar pela cerimônia do pancha sila, na qual o sacerdote recita os "Cinco Preceitos" e os "Três Refúgios" em Pali, sendo repetidos pelos candidatos e presentes. (Inf. HPB 6)

Este reconhecimento público como budistas contribuiu para piorar as relações com Swami Dayanand que, como veremos mais adiante, desde março de 1880 estavam se deteriorando.

Fraternidade Com Proeminência, Ocultismo em Segundo Plano

Em dezembro de 1880 HPB e Olcott estavam novamente em Benares. Foi a partir dessa visita que, com a permissão do Marajá de Benares, a ST adotou o lema de sua família, "Satyan Nasti Paro Dharma" (Ranson, 151). Esse lema foi traduzido como "Não há religião superior à verdade". No entanto, a palavra sânscrita "dharma", traduzida no lema como "religião", tem um significado bem mais amplo. Como Sri Ram escreveu, o lema quer dizer: "Não há Dharma – não há doutrina, não há regra estabelecida de conduta, não há nada que possamos contar como apoio – maior do que a Verdade." (Sri Ram, 9)

No final de 1880, de volta a Bombay, a sede da ST foi transferida para outra casa mais espaçosa, "O Ninho do Corvo", cujo aluguel estava reduzido pela fama que a casa tinha de ser mal assombrada. (ODL II, 288) Em 17 de fevereiro de 1881 o Conselho se reuniu e alterou os objetivos da ST, que passaram a ter uma formulação bem mais próxima à atual. O primeiro objetivo passou a ser: "Formar o núcleo de uma Fraternidade Universal da Humanidade." (Ranson, 155)

Dois dias depois, em 19 de fevereiro, o Mestre Hillarion visitou HPB em Bombay (Inf. HPB 5), e lhe "expôs toda a situação, sobre o que eu não entrarei em detalhes, uma vez que tudo aconteceu como ele nos havia prevenido." (ODL II, 294) Ao partir, ele deixou "um barrete, muito usado, bordado a ouro, de um formato peculiar, do qual me apossei e tenho até hoje." (ODL II, 294) Um resultado dessa visita foi que alguns dias depois, em 25 de fevereiro, HPB e Olcott tiveram uma longa discussão sobre a ST, que resultou:

"num acordo entre nós de "reconstruir a ST numa base diferente, colocando a idéia da Fraternidade mais proeminentemente à frente e mantendo o ocultismo mais em segundo plano; em resumo, ter uma seção secreta para ele". Esta, então, foi a semente da Seção Esotérica da ST, e o começo da adoção da idéia da Fraternidade Universal numa forma mais definida do que anteriormente." (ODL II, 294). Essa nova atitude de deixar o Ocultismo mais em segundo plano está claramente exposta na carta de Damodar para Sinnett, recebida antes do dia 20 de fevereiro de 1881, onde ele escreve: "Parece prevalecer uma impressão geral de que a Sociedade é uma seita religiosa. Essa impressão tem sua origem, penso eu, na crença de que toda a Sociedade está voltada para o Ocultismo. Até onde posso julgar, esse não é o caso. Se fosse, o melhor caminho a adotar seria tornar toda a Sociedade secreta, e fechar suas portas para todos, exceto àqueles muito poucos que tenham demonstrado uma determinação para dedicarem suas vidas inteiras ao estudo do Ocultismo. Se não for assim, e a Sociedade estiver baseada no amplo princípio Humanitário da fraternidade universal, deixemos o Ocultismo, que é um de seus inúmeros aspectos, ser um estudo completamente secreto." (MLcr, 41; ML-142A) Logo depois, em abril, Olcott foi para o Ceilão, onde ficou até dezembro trabalhando em prol do Budismo. Sua principal meta era levantar um fundo para educação, a qual se encontrava quase completamente nas mãos dos missionários cristãos. Logo que chegou, Olcott editou dois folhetos: "Por que não sou Cristão" e "Por que sou Budista". Os missionários logo contra-atacaram, publicando artigos contra HPB e Olcott. (Ranson, 158) Impressionado com a ignorância dos singaleses sobre o Budismo, Olcott compilou um "Catecismo Budista", análogo ao utilizado pelos cristãos, que foi editado simultaneamente em inglês e em singalês em julho de 1881. As edições rapidamente se esgotaram, marcando o início de sua campanha pelo Budismo. (ODL II, 301-302)

Desentendimentos com Swami Dayanand

Como já mencionamos, desde março de 1880 as relações com Swami Dayanand começaram a ficar difíceis. No dia 18, Olcott e HPB receberam dele uma carta severa, devolvendo seu diploma e exigindo que seu nome fosse retirado da relação de membros. (Ranson, 141) Olcott escreve:

"Por essa época estávamos passando por uma desagradável fase em nossas relações com Swami Dayanand. Sem a menor causa sua atitude para conosco se tornou hostil; ele nos escreveu cartas exasperantes, depois as modificou, depois novamente mudou seu tom e assim nos manteve permanentemente sob tensão. O fato é que nossa revista não era de modo algum um órgão exclusivo da Arya Samaj, nem nós consentiríamos em nos manter distantes dos budistas ou dos parsis, como ele quase insistia que deveríamos fazer. Evidentemente ele queria nos forçar a escolher entre a continuação de seu apoio e a fidelidade ao nosso declarado ecletismo. E nós escolhemos; pois de nossos princípios nós não abriríamos mão em troca de quaisquer outros." (ODL II, 150) É bom também lembramos que as condições sob as quais Swami Dayanand havia aceito seu diploma de membro da ST já não eram as mesmas. Em abril de 1878, quando Olcott lhe ofereceu o diploma de membro correspondente, havia também um pedido explícito de que ele fosse um Instrutor dos membros ocidentais da ST. Logo após, em maio de 1878, ao enviar-lhe o diploma, este já era o diploma de uma ST que fazia parte da Arya Samaj, tanto que sua nova denominação era "Sociedade Teosófica da Arya Samaj", e Swami Dayanand era seu Chefe.

Em 30 de agosto de 1880, poucos meses após Swami Dayanand ter devolvido o diploma, HPB e Olcott encontraram-se com ele em Meerut e o acharam muito mudado. Olcott relata:

"Na presença de seus seguidores, iniciamos uma discussão visando estabelecer seus reais pontos de vista sobre a Yoga e os ditos siddhis, ou poderes humanos psico-espirituais; seus ensinamentos para os seus samajistas foram calculados para desencorajar a prática do ascetismo, e até mesmo para lançar dúvida sobre a realidade dos poderes; enquanto que suas conversas conosco foram em outro tom." (ODL II, 215) Apesar de Olcott dizer que estava tentando saber qual era a posição do Swami quanto aos "siddhis", ele a conhecia bem, pois o fato é que em dezembro de 1879 Dayanand já se recusara a fazer qualquer exibição de fenômenos para o casal Sinnett. Em 26 de julho de 1880, Dayanand já lhe escrevera sua opinião sobre a demonstração de "tamasha", ou poderes ("siddhis") inferiores: "O que eu disse para o Sr. Sinnett está certo, pois eu não considero apropriado ver e exibir tais questões de ‘tamasha,’ sejam realizadas por prestidigitação ou pelo poder ióguico, porque ninguém pode compreender a importância da Ioga e ter um verdadeiro amor por ela, sem que ele mesmo a pratique e estude. Mas elas (as testemunhas) são apenas levadas a um estado de dúvida e perplexidade, e estão o tempo todo querendo examinar aqueles que os demonstram, e vendo ‘tamasha,’ deixam de lado questões do seu próprio melhoramento. Eles não se empenham para adquiri-los. Eu não mostrei nenhum fenômeno ao Sr. Sinnett, nem desejo que qualquer coisa lhe seja mostrada, fique ele contente ou descontente comigo, pois se eu estivesse disposto a fazer isso, todos os tolos, assim como os Pandits, me pedirão para lhes mostrar fenômenos similares pela Ioga, como eu poderia ter mostrado a ele. E também porque eu teria sido importunado com essa questão mundana de ‘tamasha’, assim como ocorre com Madame H.P. Blavatsky. Ao invés de investigarem, e aceitarem suas informações científicas e religiosas, por meio das quais a alma, sendo purificada, alcança felicidade, todos os que se dirigem a ela pedem pela exibição de ‘tamasha.’ Por essas razões eu não encorajo tais coisas, direta ou indiretamente. Mas se alguém desejar, posso ensinar-lhe Ioga, de modo que por sua própria prática ele possa experimentar os Siddhis." (Olcott, 1882) Ainda em Meerut, Olcott fez uma palestra sobre "A ST e a Arya Samaj, suas Regras e Relações Mútuas." Ficou acertado que nenhuma das Sociedades seria responsável pelos pontos de vista da outra. (Ransom, 145) Nenhuma das Sociedades era considerada como um ramo da outra, mas compunham uma Seção Védica, que era como o elo que as unia. (Olcott, 1882) Na relação de dirigentes da ST em 1880, Swami Dayanand aparece como "Chefe Supremo dos Teosofistas da Arya Samaj", que era "um ramo distinto da ST e da Arya Samaj da Índia (...) composto por teosofistas ocidentais e orientais que aceitam Swamiji Dayanand como seu líder." (Ransom, 153)

Após Meerut, HPB e Olcott foram visitar os Sinnetts em Simla, ficando até 21 de outubro. Foi nessa estadia que ocorreram os famosos fenômenos produzidos por HPB durante um piquenique, em que ela duplicou uma xícara de chá, materializou um diploma para o major Henderson e fez aparecer um broche que a Sra. Sinnett havia perdido tempos atrás. (Ranson, 146) Esses fenômenos receberam grande publicidade. Foi durante essa visita que começou a comunicação entre Sinnett e o Mestre KH. 

Em seguida foram para Amritsar, onde ainda receberam uma cordial recepção da Arya Samaj. Sete membros dela entraram para a ST e ajudaram a formar um ramo local. (ODL II, 259) Depois, partiram para o Lahore, onde ficava a sede da Arya Samaj, e lá também foram bem recebidos. Nas discussões com a Arya Samaj, o ponto crucial era a questão da natureza de Iswara e a personalidade de Deus, sobre o que "HPB e eu nutríamos crenças muito divergentes das deles." (ODL II, 258)

É evidente que havia outros pontos de discordância, como a questão da demonstração ou não de fenômenos, e a transmissão de conhecimentos ocultos aos membros. A questão da natureza de Deus, que Olcott aponta como sendo um ponto crucial, nunca foi matéria de consenso entre eles. Ainda em Nova Iorque, haviam recebido uma carta de Swami Dayanand onde ele expunha a natureza da alma, os ritos para os mortos e a adoração prescrita a Deus. Ao receber essa carta, o choque que essas idéias causaram em Olcott foi tamanho que ele escreveu em seu diário, em 18 de setembro de 1878: "Um Deus pessoal, uma revelação inspirada, um Céu e um Inferno são ali ensinados. Graças a Deus pelo menos esse Deus é "alegre e casto", isso já é melhor do que Jeová!" (Gomes, 164)

Como já mencionamos, Olcott passou de abril a dezembro de 1881 trabalhando pelo Budismo no Ceilão. Em agosto foi fundado o ramo anglo-indiano da ST, em Simla, com Hume como presidente e Sinnett como vice. A importância deste ramo anglo-indiano era enorme, pois trazia prestígio e reconhecimento público para a ST. Em 14 de fevereiro de 1882, Olcott fez uma palestra sobre o espírito da religião de Zoroastro. Os parsis mandaram imprimir e distribuir 20000 cópias dessa palestra, em inglês e gujarati. Depois Olcott partiu para uma viagem ao norte da Índia.

Em 15 de março de 1882, um famoso médium inglês, William Eglinton, após passar um bom tempo na Índia tentando verificar a realidade dos Mestres, partiu de volta para a Inglaterra. No dia 22, ele recebeu a visita astral do Mestre KH. No dia 24, em alto mar, as cartas escritas por Eglinton foram transmitidas quase que instantaneamente, por meios ocultos, para Bombay. Isso foi noticiado tanto pela imprensa indiana quanto a inglesa, causando grande sensação. (Eek, 188)

É possível que esta propaganda com relação a fenômenos ("tamasha"), acrescida da grande publicidade dada à ajuda aos budistas do Ceilão e aos parsis de Bombay, tenha levado Swami Dayanand a colocar um ponto final em sua relação com a ST. Após pedir várias vezes para conversar com Olcott e HPB, sem resultados, em 26 de março de 1882, o Swami fez uma palestra pública em Bombay denunciando a ST e os fundadores por mudanças em suas atitudes e crenças, como o fato de antes terem se declarado membros da Arya Samaj e agora se apresentarem como budistas. (Ransom, 169) Olcott respondeu às acusações num artigo para o The Theosophist, em julho de 1882.

Terminava desta triste maneira a aliança entre a Arya Samaj e a ST. Foi uma perda para as duas Sociedades. Talvez a primeira grande oportunidade perdida no desenvolvimento da ST, que demonstrou inabilidade em conciliar crenças divergentes. Anos mais tarde, isso se repetiria em relação a Anna Kingsford. (Inf. HPB 9). Nas duas ocasiões a ST perdeu força, inspiração e ecletismo, avançando na cristalização de um credo próprio, como o Mestre KH advertiu em sua carta de 1900: "A ST e seus membros estão lentamente manufaturando um credo." (LMW, 1st S., 99)

Bibliografia

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, vol. I, II & III. TPH, Wheaton, 1977.

Blavatsky, H.P. H.P.B. Speaks, vol. I & II. TPH, Adyar, 1986.

Blavatsky, H.P. Isis Unveiled, Theosophy Company, Los Angeles, 1982.

Dayanand, S. The Theosophist, Vol. 1, Oct. 1879, 9-13

Deveney, J.P. Theosophical History Occasional Papers, Vol. VI, Fullerton, 1997.

Deveney, J.P; Godwin, J. e Gomes, M. Theosophical History, Vol. VI, No. 2, April 1996.

Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement. TPH, Adyar, 1978.

Gomes, M. The Dawning of the Theosophical Movement TPH, Wheaton, 1987.

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Sequence) TPH, Quezon City, 1993.

Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom, 1stSeries. TPH, Adyar, 1973

Johnson, K. P. The Masters Revealed. Suny Press, Albany, 1994.

Muehlengger, B. "The Theosophical Aryan League of Honour and the Dalip Singh Conspiracy." http://www.unet.univie.ac.at/~a7502210/dsconspiracy.html

Olcott, H.S. "Swami Dayanand's Charges", 1882. Blavatsky Arch. Online http://blavatskyarchives.com

Olcott, H.S. Old Diary Leaves Vol. I & II.. TPH, Adyar, 1974.

Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society. TPH, Adyar, 1989.

Rawson, A. Theosophical History, Vol. 2, No. 6, April 1988, 209-220.

Scott, C. "The Sat B'hai Code." http://www.freemasonry.bc.ca/aqc/fringe/appendix2.html.

Sotheran, C. Charles Sotheran on Madame Blavatsky. Blavatsky Archives Online, 1999.

Sri Ram, N. On the Watch Tower. TPH, Adyar, 1966.

Yarker, J. The Arcane Schools. Kessinger Publ. Co., Montana

O Informativo HPB tem por objetivo compartilhar o resultado de estudos

e pesquisas sobre HPB realizados nos últimos anos.
 
 

Comentários, sugestões ou perguntas são bem-vindos

e devem ser encaminhados para a autora

Marina Cesar Sisson

msisson@zaz.com.br

Caixa Postal 08.861 

70.312-970 Brasília, DF - Brasil
 

___________
 

BN-Inglês | BN-Português| alto