Alguns Auxiliares do Final da Vida de HPB
Marina Cesar Sisson

(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n017, fevereiro/2001)

HPB chegou à Europa em abril de 1885 e lá morou por quase seis anos, até o final de sua vida em maio de 1891. Embora tenham sido anos de grandes sofrimentos físicos, foi nesse período difícil que ela produziu seus trabalhos mais importantes: escreveu A Doutrina Secreta, A Voz do Silêncio e A Chave Para a Teosofia; criou uma nova revista, Lucifer, para a qual escreveu muitos artigos; fundou a Blavatsky Lodge em Londres e a Seção Esotérica, escrevendo as instruções para seus membros.

Todo esse trabalho só pode ser realizado porque HPB contou com a ajuda de um pequeno grupo de pessoas que não acreditando nas acusações do relatório Hodgson permaneceram a seu lado, auxiliando-a com trabalho, dinheiro e amizade. Nesse Informativo HPB trataremos desse período da vida de Madame Blavatsky.

Logo que chegou na Europa HPB instalou-se em Torre del Greco, próximo a Nápoles, onde ficou por alguns meses. Com a saúde fragilizada, mudou-se para Würzburg, na Alemanha, onde chegou em 12 de agosto de 1885, acompanhada de Babajee. Ela escreve para a Sra. Sinnett:

"Não quero viver em qualquer um dos grandes centros da Europa. Mas eu preciso ter um quarto seco e aquecido, por mais frio que esteja do lado de fora, uma vez que nunca deixo meus aposentos, e aqui pessoas saudáveis ficam resfriados e com dores reumáticas, a não ser que tenham palácios. Eu gosto de Würzburg. É perto de Heidelberg e Nürenberg, e de todos os centros que um dos Mestres viveu, e é Ele quem aconselhou meu Mestre a me enviar para lá. (...) Então eu viverei para cumprir a vontade e os ditames do meu Mestre, ou melhor, deverei vegetar durante o dia e viver apenas durante a noite, e escrever pelo resto de minha vida (não) natural." (LBS, p. 105) Além do problema de saúde, HPB também estava passando por uma época de grandes dificuldades financeiras. Seu sustento provinha principalmente das histórias que escrevia para jornais russos, sob o pseudônimo de Radda Bai. Porém, naquele momento, o Mestre não estava permitindo que ela se dedicasse a isso. Felizmente Katkoff, o editor de suas histórias em russo, recém lhe pagara 4.000 francos que estava devendo, e esse dinheiro lhe permitiria viver algum tempo. HPB escreve para Sinnett, em 19 de agosto de 1885: "Quanto a mim – estou decidida a permanecer sub rosa [no secreto]. Posso fazer muito mais permanecendo na sombra do que me tornando novamente proeminente no movimento. Deixe-me ficar escondida em lugares ignorados e escrever, escrever, escrever, e ensinar a quem quer que queira aprender. Uma vez que o Mestre me força a viver, deixe-me agora viver e morrer em relativa paz. É evidente que Ele ainda quer que eu trabalhe pela ST, uma vez que Ele não me permite fazer um contrato com Katkoff – que colocaria pelo menos 40.000 francos por ano no meu bolso – para escrever exclusivamente para sua revista e seu jornal. Ele não me permitiu assinar tal contrato ano passado em Paris, quando proposto, e não o autoriza agora pois – diz Ele – meu tempo "terá que ser ocupado de outro modo." (...) Quem do público sabe que após ter trabalhado e dado minha vida para o progresso da Sociedade por mais de dez anos, eu fui forçada a deixar a Índia – como uma mendiga, literalmente uma mendiga dependendo da gratificação do The Theosophist – (minha própria revista, fundada e criada com meu próprio dinheiro!!) para meu sustento diário. Eu – sendo apresentada como uma impostora mercenária, uma trapaceira por amor ao dinheiro, quando nunca pedi ou recebi um centavo por meus fenômenos, quando muito do meu próprio dinheiro, ganho com meus artigos russos, foi doado, quando por cinco anos eu abri mão do ganho com Ísis e da renda do The Theosophist para sustentar a Sociedade. E agora – generosamente me cedem 200 rúpias mensais daquela renda para me salvar de passar fome na Europa, e por isso sou censurada por Olcott em quase que toda carta." (LBS, p. 112) Em outubro de 1885 a Condessa Wachtmeister foi visitar a família Gebhard, em Elberfeld, na Alemanha, e ficou sabendo que HPB estava enferma e sentindo-se muito só em Würzburg. Por sugestão da Sra. Gebhard, escreveu para HPB oferecendo-se para ir passar algumas semanas com ela, mas HPB lhe respondeu agradecendo e recusando a oferta. Porém, quando a condessa já estava de partida de Elberfeld, chegou um telegrama de HPB pedindo-lhe que fosse encontrá-la.

Constance Wachtmeister

Constance Georgina Louise Bourbel de Monpinçon nasceu em 28 de março de 1838, em Florença, Itália. Perdeu seus pais muito cedo e foi viver com uma tia na Inglaterra. Em 1863 casou-se com seu primo, o conde Wachtmeister, com teve um filho, o conde Axel Raoul. Após três anos, o casal mudou-se para Estocolmo onde, em 1868, o conde foi nomeado Ministro das Relações Exteriores. Após a morte do marido, em 1871, ela ainda viveu vários anos na Suécia, indo passar os invernos em climas mais amenos. Em 1879 a condessa começou a investigar o Espiritismo e em 1881 filiou-se à ST. (CW VI, p. 448)

Quando a condessa chegou em Würzburg, atendendo ao telegrama de HPB, recebeu uma calorosa recepção. HPB lhe pediu desculpas pela súbita mudança e explicou que inicialmente não queria que ela fosse para lá porque tinha apenas um quarto, e porque:

"Meus hábitos provavelmente não são os seus. Se você viesse para cá, eu sabia que você teria que suportar muitas coisas que poderiam lhe parecer desconfortos intoleráveis. É por isso que decidi recusar sua oferta, e lhe escrevi nesse sentido; mas depois que minha carta foi postada, o Mestre falou comigo e disse que era para eu lhe dizer que viesse. Eu nunca desobedeço uma palavra do Mestre, e lhe telegrafei imediatamente. Desde então estou tentando tornar o quarto mais habitável. Comprei um grande biombo que dividirá o quarto, de modo que você ficará com um lado e eu com o outro, e espero que você não fique desconfortável demais." (Wachtmeister, p. 13) Em carta para Sinnett, a condessa revela que foi ao encontro de HPB apenas por "um senso de dever e gratidão", assumindo "a tarefa de aliviar seus problemas e sofrimentos da melhor forma que pudesse" (Incidents, p. 317) a pedido de sua amiga, Mary Gebhard. E lhe confessa que nessa época estava sinceramente predisposta contra HPB, pois ouvira muitos comentários ruins a seu respeito e ainda não tivera nenhuma experiência pessoal com ela: "Tendo ouvido rumores absurdos que circulavam contra ela, nos quais ela era acusada de praticar Magia Negra, fraudes e trapaças, eu estava de sobreaviso, e fui encontrá-la num estado mental calmo e tranqüilo, determinada a não aceitar nada de caráter oculto que viesse dela sem provas suficientes; a ficar numa atitude positiva, a manter meus olhos abertos e a ser justa e verdadeira em minhas conclusões. O bom senso não me permitia acreditar em sua culpa sem provas (...) e assim minha disposição mental estava inclinada à investigação e eu estava ansiosa por descobrir a verdade." (Incidents, p. 318) Sobre suas conclusões após esse primeiro contato pessoal com HPB, bastaria dizer que ela morou e colaborou com HPB até sua morte. Para a condessa HPB foi: "uma amiga e instrutora que fez mais por mim do que qualquer outra pessoa no mundo, que ajudou a me mostrar a verdade, e que me indicou o caminho para testar e conquistar o eu – com todas suas pequenas fraquezas – e a viver mais nobremente para ser útil e para o bem dos demais." (Wachtmeister, p. 72)

A presença da condessa em Würzburg foi essencial para que HPB retomasse o trabalho de escrever a Doutrina. Como continuavam os rumores sobre HPB como impostora etc., Sinnett resolveu escrever sua biografia, como um modo de tentar contrabalançar esses falatórios adversos. Seu título inicial era Memoirs (Memórias). Entretanto, HPB não aprovava a idéia. A condessa escreve para Sinnett, em 7 de fevereiro de 1886:

"Estamos tendo terríveis tempestades por aqui nesses dias e no momento a Madame está firmemente contrária à publicação de suas Memoirs enquanto ela for viva. Toda sua família é contra isso (...) eles temem muito que os inimigos dela possam reviver antigos escândalos de família e brigas e queeles terão que sofrer por isso. (...) Durante o curto tempo que estou aqui, têm chovido ataques sobre a Madame de todos os lados. Me parece inacreditável como uma pessoa pode ter tantos inimigos rancorosos. Suponho que seja, em grande medida, porque ela deixa sua língua solta, ferindo as susceptibilidades das pessoas, sem ter essa intenção ou pensar nas conseqüências. É certo que seu Mestre lhe disse que se ela consentisse em viver, teria que passar por amargas provações e tudo se voltaria contra ela; mas, vendo o que vejo e sabendo o que sei, acredito que haveria um positivo perigo em publicar suas Memoirs esse ano." (LBS, p. 285) Logo depois a condessa lhe escreve novamente, especificando três pontos que HPB não queria que fossem incluídos: "primeiroa criança adotada, pois há muitas pessoas que podem trazer à luz desagradáveis segredos de família sobre esse ponto – também a Madame ter viajado tanto usando roupas de homem (...) e, por último, nenhuma menção sobre os Mahatmas, Seus nomes já foram suficientemente profanados." (LBS, p. 176)

Ainda em fevereiro surgiu mais uma razão para HPB pedir a Sinnett que ele pelo menos postergasse a publicação das Memoirs. Um russo conhecido de sua família, Solovyoff, que nessa época já se voltava contra ela, começou ameaçá-la com a acusação de bigamia, pois ele dizia que:

"o Sr. Blavatsky não está morto, mas é um "charmoso centenário" que achou apropriado se esconder por anos na propriedade de seu irmão – daí as falsas notícias de sua morte. Imagine o resultado se você publica as Memoirs e se ele realmente estiver vivo e eu – não for viúva!! (...) se isso for verdade (...) e nós falando o tempo todo dele, como se estivesse no Devachan [no Céu, morto] (...) isso nos trará problemas sem fim." (LBS, p. 179-180) Mas em agosto, ela já não se opunha à publicação do livro, mas apenas ao nome, uma vez que "Não é uma autobiografia, nem uma biografia, mas simplesmente fatos esparsos, coletados e reunidos. Muita coisa estará errada nele (...) Você É ACONSELHADO a chamá-lo – "Alguns Incidentes na Vida de Mad. Blavatsky" coletados de várias fontes – algo desse tipo." (LBS, p. 216) O livro foi publicado logo depois, com o título "sugerido" por HPB.

Em maio de 1886 H.P.B. havia deixado Würzburg para ir a Ostende, na Bélgica, passar o verão com sua irmã e sobrinha. No caminho, ao visitar os Gebhards em Elberfeld, sofreu uma queda, machucou o tornozelo e a perna, e foi obrigada a ficar por lá se recuperando. Ainda em maio, sua irmã Vera e a filha foram encontrá-la em Elberfeld. Em 8 de julho, as três partiram para Ostende de onde, no dia 14, sua irmã e a sobrinha voltaram para a Rússia. A condessa, que havia ido à Suécia, só voltou em agosto para Ostende. HPB escreve para a irmã, logo após sua partida:

"Terei que me compenetrar agora que estou sozinha; e, ao invés de um inquieto judeu errante, me transformarei num "caranguejo eremita", num monstro marinho petrificado, encalhado na praia. Eu irei escrever e escrever – é o meu único consolo! Ai de mim! Felizes são as pessoas que podem andar. Que vida, estar sempre doente – e, ainda por cima, sem pernas...". (HPB Letters, X)
Mary Gebhard

A família Gebhard foi fundamental para o desenvolvimento do trabalho teosófico na Alemanha. Gustav Gebhard tinha várias atividades: era banqueiro, tinha uma fábrica de seda e também era cônsul da Pérsia. Sua esposa, Mary, tinha uma genuína inclinação para o ocultismo e foi uma discípula de Eliphas Levi até a morte desse, em 1875. Nessa ocasião, Mary Gebhard começou a procurar outras conexões ocultas. Tendo ouvido sobre a ST escreveu para Olcott e, após uma troca de cartas, entrou como membro da Sociedade. (CW VI, p. 434) O casal Gebhard teve seis filhos e uma filha, e quase todos entraram para a ST.

Em julho de 1884, quando HPB, Olcott e Mohini estavam na Europa, foi organizada a Germania Theosophical Society na casa dos Gebhards, sendo W. Hübbe-Schleiden o presidente, Mary a vice e seu filho mais velho, Franz, o secretário. Em agosto de 1884, HPB passou algum tempo na casa deles, com vários teosofistas como Mohini, Bertram Keightley e Francesca Arundale com sua mãe. Elberfeld se tornou um ponto de encontro para teosofistas.

O terceiro filho, Arthur Gebhard, morou muitos anos em Nova Iorque e foi muito amigo de W.Q. Judge. Fazia freqüentes visitas à Europa e, numa dessas, em setembro de 1886, escreveu um "Manifesto" junto com Mohini, criticando a atuação de Olcott na presidência da ST. HPB escreveu uma resposta defendendo Olcott, que não foi publicada em vida, mas apenas em 1931, por Jinarajadasa, sob o título de O Programa Original da ST.

Rudolf, o quarto filho, acompanhou Olcott em seu retorno à Índia, em outubro de 1884. (Inf. HPB 14) Os dois mais novos, os gêmeos Hermann e Walter, tiveram destinos trágicos. Ambos se suicidaram: Hermann em março de 1881 e Walter em 10 de abril de 1886. (CW VI, p. 436) No caso de Walter, HPB responsabilizou Babajee pelas condições que o induziram a cometer suicídio.

Krishnaswami, ou Babajee, ou Darbhagiri Nath

O verdadeiro nome de Babajee, também conhecido como Bowajee, Bawajee ou Darbhagiri Nath, era S. Krishnaswami. Ele juntou-se ao pequeno de grupo de trabalhadores da ST ainda em Bombay, entre 1880 e 1881, a pedido do Mestre KH, de quem era um discípulo em provação. Nessa época, ele abandonou seu nome original, denominando-se Babajee. (Eek, p. 537) Posteriormente, passou a usar o nome Darbhagiri Nath. Ao ser questionado sobre as mudanças de nome, Babajee explicou que era um costume entre seu povo mudar o nome quando se tornavam sannyases ou místicos, ou mesmo alunos de místicos. (LBS, p. 340)

Há uma certa confusão em torno do nome Darbhagiri Nath porque esse era o "nome místico" de um outro chela do Mestre KH, chamado Gwala K. Deb. Em 1882, o Mestre KH queria que Deb e K. Pillai, um chela em provação, fossem encontrar Sinnett em Simla. Entretanto, Deb nessa ocasião estava no Tibet, e não podia ir em seu corpo físico. Babajee então consentiu que seu corpo físico fosse usado por Deb nessa missão. Após o término da experiência oculta, Babajee continuou a usar o "nome místico" de Deb, ou seja, Darbhagiri Nath. (Eek, p. 538)

Babajee trabalhava como assistente de Damodar e também mudou-se para Adyar quando a Sede foi transferida para lá. Juntamente com Subba Row e Damodar, ele divide a responsabilidade por "dois terços dos "mayas" do Sr. Hodgson." (Inf. HPB 15, p. 3) Quando HPB deixou a Índia, em março de 1885, CW Leadbeater se oferecera para acompanhá-la. Entretanto, Babajee insistiu em vir para a Europa com ela, onde foi seu devotado auxiliar e companheiro por vários meses.

Nos últimos dias de dezembro de 1885 o relatório final da SPR foi publicado. Nas conclusões desse relatório, os Mahatmas seriam uma invenção de HPB, realizada com o auxílio de cúmplices como os próprios Coulombs. Os fenômenos paranormais seriam tão somente truques, realizados por meio de prestidigitação ou outras formas de trapaça. O relatório conclui que HPB: "não era nem a porta-voz de sábios ocultos, nem uma mera aventureira vulgar; nós pensamos que ela alcançou um título para ser permanentemente lembrada como uma das mais perfeitas, engenhosas e interessantes impostoras da história." (Murphet, p. 184) Em carta para Sinnett, HPB comenta sobre o relatório, revelando seu estado de espírito:

"Bem – eu positivamente não encontrei nada de novo no que se refere ao meu humilde ser. Mas muito a seu respeito e de outros. Mais do que nunca, eu reconheci a mão – que guia a coisa toda; aquela mão que, tendo agarrado firmemente os eruditos membros de Cambridge pelos seus narizes, os conduz – para onde? (...) Eu sou um velho limão espremido, física e moralmente, que serve apenas para limpar as unhas do velho Nick e, talvez, para escrever 12 ou 13 horas por dia a Doutrina Secreta sob ditado, para assumir a paternidade, quando (se) publicada, de sua autoria e suas idéias nas quais meu estilo literário e galicismos serão detectados. Que eu sou chamada nele "publicamente e impresso" falsificadora umas 25 vezes, trapaceira, impostora etc. e, ainda por cima, uma espiãrussa – tudo isso c’est de l’histoire ancienne [é a velha história]. Mas há aspectos bem novos nele." (LBS, p. 134) Entre as novidades estava a de que Babula, seu fiel servo, que não conhecia uma única letra em inglês, era apontado como o autor das cartas do Mestre de HPB; outra era que Mohini, Babajee, Bawani Row, Damodar etc., eram todos apresentados como sendo seus cúmplices e mentirosos.

A publicação desse relatório talvez tenha sido um dos motivos que fez com que Babajee alterasse sua conduta em relação a HPB. Quando a condessa foi morar com HPB, ela encontrou Babajee muito infeliz, pensando em ir embora. Ela percebeu que ele estava se sentindo ferido e com inveja de Mohini, que estava em Londres fazendo vários trabalhos, enquanto que ele estava isolado com HPB. (LBS, p. 278) Então, por sugestão da condessa, e com o consentimento de HPB, Babajee foi passar algum tempo em Elberfeld, com os Gebhards.

Entretanto, Babajee passou a exercer uma influência sobre os Gebhards no sentido de desacreditar HPB, sugerindo-lhes que as cartas dos Mestres por eles recebidas eram falsas e lhes dizendo que ela "não conhecia nada dos ensinamentos esotéricos; Ísis estava cheia de erros ridículos; e do mesmo modo meus [de HPB] artigos do The Theosophist." (CW VII, p. 50)

Além disso, ele começou a escrever cartas para HPB insultando-a. A condessa, que cuidava da correspondência, lhe escreveu pedindo que parasse com isso, e avisando que não mais entregaria a HPB cartas desse teor. Então Babajee lhe escreveu, implorando que ela viesse imediatamente a Elberfeld ou ele estaria perdido, pois "o Guardião do Umbral havia vindo a ele, e que eu e somente eu poderia salvá-lo, que todos os Gebhards não poderiam fazer nada por ele; que eu, devido a meus poderes psíquicos, poderia ajudá-lo". (LBS, p. 278)

Assustada, a condessa telegrafou para Mary Gebhard, perguntando se era realmente necessário que ela fosse a Elberfeld. A resposta veio: "Sim", e a condessa partiu imediatamente. Ao chegar, a Sra. Gebhard lhe disse que Babajee estava bem, e que ele só queria "forçá-la a vir aqui, porque ele disse que Mad. B. [Blavatsky] quer psicologizá-la." (LBS, p. 278) Na conversa particular com a condessa, Babajee comportou-se como um louco, gritando, batendo na mobília, dizendo que detestava HPB, que queria destruí-la e à ST.

Quando a condessa lhe perguntou o porquê desse sentimento com relação a HPB, ele respondeu: "em primeiro lugar porque ela havia profanado os Mestres ao associá-los com os fenômenos, e em segundo lugar porque ela o havia insultado diversas vezes (e, eu diria, ferido sua vaidade)." (LBS, p. 279) Ele também disse que nunca mais voltaria para HPB, e que tentaria impedir que Mohini o fizesse.

A condessa retornou a Würzburg, preocupada com a influência que Babajee estava exercendo sobre os Gebhards e com a confusão que estava ameaçando fazer. Após alguns dias ele escreveu para HPB, mostrando arrependimento, chamando-a "Querida e respeitada Mãe". (LBS, p. 336) Uma explicação para o episódio é dada pela condessa a Sinnett, escrevendo que a atitude de lunático de Babajee, devia ter sido causada por uma magia que sua avó, uma feiticeira, havia jogado nele. (LBS, p. 282) E que HPB havia achado, entre os livros dela que Babajee cuidava:

"um manuscrito sobre magia negra escrito numa caligrafia desconhecida – não a dele, contendo com muita precisão todas as fórmulas e os diferentes mantras a serem usados. Esse ela confiscou por ser muito perigoso para ser deixado em suas mãos. Madame B. diz que a ética de Babajee vem de seus livros em Tamil, que alguns são bons, mas outros completamente falsos e em oposição aos ensinamentos dos Mestres". (LBS, p. 283) Com toda essa confusão envolvendo Babajee, Sinnett, que o havia conhecido em 1882, quando o outro chela, Gwala Deb, havia usado o corpo de Babajee para visitá-lo em Simla, e que pensava que Babajee era o outro Darbhagiri Nath, começou a questionar a validade da duplicidade do nome. HPB então lhe explica que realmente existia "um verdadeiro Dh. Nath, um chela, que está com o Mestre KH pelos últimos 13 ou 14 anos". (LBS, p.170) E que a fraude de Babajee: "não está no fato dele assumir o nome, pois era o nomede mistério escolhido por ele quando se tornou chela do Mestre; mas em se aproveitar de que meus lábios estavam fechados; das concepções errôneas das pessoas sobre ele, de que ele, esse atual Babajee, era um ELEVADO chela, enquanto que ele era apenas um chela em provação (...) Você fala de "fraudes", mistérios e ocultamentos nos quais você "nunca deveria estar envolvido". Muito fácil de falar por alguém que não está sob o compromisso de qualquer juramento ou voto. Eu gostaria que você, com suas noções européias de veracidade e "código de honra", e mais isso e aquilo, fosse submetido à provação por uma quinzena." (LBS, p. 170) Portanto, explica HPB a Sinnett, Babajee tinha o direito de usar o nome Dharbagiri Nath, mas não de abusar da posição e tomar atitudes que apenas o verdadeiro D. Nath poderia assumir, pois ele era apenas um reflexo desse verdadeiro D. Nath. E lhe revela acerca dela mesma que: "Eu também me tornei um reflexo muitas vezes e durante meses; mas nunca abusei disso, tentando impingir meus esquemas pessoais sobre aqueles que confundiam HPB da Rússia com o elevado Iniciado de "xxx" para quem às vezes ela era telefone. E é por isso que os MESTRES nunca retiraram Sua confiança em mim, quando todos os outros (com a exceção de muito poucos) assim o fizeram. Minha posição é simplesmente infernal, HORRÍVEL – porque eu, como uma européia e tendo sido educada, tanto quanto qualquer outra pessoa, com as noções mundanas de verdade e honra – tenho que agüentar as aparências de completa fraude e enganação em relação aos meus melhores amigos – aqueles a quem eu mais amo e honro. Mas esse é o resultado de servir ao Oculto e ter que viver no mundo profano e público." (LBS, p. 174) Babajee continuava com os Gebhards, exercendo grande influência especialmente sobre Mary e seu filho mais velho, Franz, colocando-os contra HPB. (LBS, p. 182, 186) Em 10 de abril Walter Gebhard foi encontrado morto em sua cama, com um tiro, aparentemente sem qualquer razão e sem causa. HPB escreve a Babajee: "Os demônios da fúria, da vingança, rancor e ódio deixados por você na casa deles se fixaram no pobre rapaz que você se gabou de influenciar tão eficazmente, e fizeram seu trabalho.Não foi seu irmão gêmeo, que cometeu suicídio há cinco anos atrás, que o influenciou. (...)

"Uma carta dos Mestres teria lhes aconselhado a manter Walter longe de sua casa, sem dar qualquer razão para isso – e os Gebhards teriam obedecido ao conselho, se eles não tivessem sido levados a acreditar, por alguém que eles consideravam e reverenciavam como um chela do Mahatma K.H., e que viveu dez anos com ele – como eu descobri tarde demais – que "nenhum Mahatma se importaria com os filhos de teosofistas, pouco ligando se eles viveram ou morreram" etc.; e que quase sem nenhuma exceção – todas as notas e cartas recebidas por eles dos Mestres eram – na melhor das hipóteses – produzidas por elementais e, ocasionalmente, fraude de HPB." (LBS, p. 300)

Logo após a morte de Walter, Babajee voltou para a Índia, sem aparecer mais na história teosófica. O Mestre KH comenta a respeito dele para Leadbeater: "O pequeno homem falhou e colherá sua recompensa." (LMW, 1st S., p. 82)

Archibald e Bertram Keightley

A partir de agosto de 1886 HPB passou uma temporada em Ostende, trabalhando na Doutrina com o auxílio da condessa. Em março de 1887, Archibald Keightley, foi a Ostende para aconselhar-se com HPB sobre o futuro do trabalho em Londres, que sofria as conseqüências do relatório da SPR. Ela já havia lhe escrito que o trabalho necessitava de um líder com determinação e vontade firme. Archibald escreve que:

"na opinião de um de seus amigos ocultos a quem ela havia consultado, era possível que eu pudesse ser tal líder e pudesse fazer o trabalho. Assim sendo, eu naturalmente desejava vê-la e ter seu conselho e assistência sobre os meios a serem adotados. Eu realmente não tinha qualquer idéia quanto ao que de melhor poderia ser feito e queria evitar erros desnecessários no início." (Keightley) Archibald Keightley nasceu em Westmorland, Inglaterra, em 19 de abril de 1859. Sua mãe pertencia a uma família de quakers e seu pai seguia a filosofia de Swedenborg. Ele foi estudar em Cambridge, onde formou-se em Medicina. Foi nessa época que começou a se interessar pelos fenômenos do Espiritismo, como indicativos da existência de forças invisíveis na natureza. Ele fez experiências em alquimia e estudou os trabalhos filosóficos e místicos, bem como os neoplatônicos que pode encontrar na biblioteca de Cambridge.

Archibald era quase um ano mais velho que o irmão de seu pai, Bertram, que nasceu em Birkenhead, Inglaterra, em 4 de abril de 1860. Bertram foi educado dentro do Cristianismo místico de Swedenborg e também foi estudar em Cambridge, onde formou-se em Matemática. Ele sentia grande atração por filosofia e ciência e, na época de Cambridge, estudou mesmerismo, Eliphas Levi, os místicos medievais e os escritores neoplatônicos. (CW IX, p. 427)

Em 1884, quando Sinnett editou seu livro Budismo Esotérico, os dois se encantaram com a obra e entraram em contato com o autor. No mesmo ano, Archibald e seu tio Bertram entraram para a ST em Londres, juntamente com o casal Oakley, sendo a cerimônia conduzida por Olcott, que na época estava em Londres.

A primeira vez que os dois encontraram com HPB foi na reunião da Loja de Londres convocada para discutir a eleição entre Sinnett e Anna Kingsford, quando HPB chegou inesperadamente e Mohini jogou-se a seus pés. (Inf. HPB 9) Durante essa estadia de HPB, em 1884, Archibald quase não pode conviver com ela, pois estava ocupado com seus estudos, mas Bertram passou muito tempo com HPB, em Paris, Londres e Elberfeld, na casa dos Gebhards.

Ao chegar em Ostende, em março de 1887, Archibald pretendia ficar num hotel, mas HPB insistiu que ele se hospedasse com ela. HPB logo lhe passou uma parte dos manuscritos da Doutrina, pedindo para ele "corrigir, cortar, alterar o Inglês, pontuar, de fato, tratá-lo como se fosse meu mesmo". (Wachtmeister, p. 83) Os poucos dias que passou em Ostende foram ocupados nessa leitura e no esforço de compreender a intenção do livro, pois em sua forma naquele momento:

"era uma série de ensaios com informações do maior interesse mas, a meu ver, não tinha nenhum plano concatenado. Era um caos de possibilidades, mas de nenhum modo um vazio, ainda que estivesse sem forma. (...) eu começava a trabalhar nos manuscritos, enquanto Mad. Blavatsky trabalhava em seu próprio quarto e ficava invisível até o fim da tarde. Ela poderia aparecer para o seu jantar, mas suas refeições eram o desespero da empregada que as preparava, pois eram banquetes cujo horário era muito mutável. À noite ela emergia e então conversávamos sobre a sua planejada visita à Inglaterra, o trabalho a ser feito lá, a Doutrina Secreta e assuntos gerais. Na maior parte da noite, enquanto conversávamos, ela jogava sua "paciência", conversando enquanto arrumava as cartas." (Keightley) Após a morte de HPB, Archibald diz ter aprendido que enquanto a "paciência" ocupava o cérebro, "HPB estava ocupada em trabalhos muitos diferentes, e que Madame Blavatsky podia jogar paciência, tomar parte da conversa entre nós, que continuava à volta dela, dar atenção ao que nós costumávamos chamar de "o andar de cima" e também ver o que estava acontecendo em seu próprio quarto e outras peças na casa e fora dela, tudo ao mesmo tempo." (Keightley)

HPB prometeu a Archibald que iria a Londres, mas que ainda não podia fixar a data. Após dois ou três dias ele voltou à Inglaterra e começou a procurar um local onde pudesse hospedá-la. Porém, dez dias após seu retorno, chegaram notícias de que ela estava muito doente, com infecção nos rins. Dr. Ellis, um médico que fazia parte do grupo de teosofistas de Londres, foi para Ostende.

Enquanto Mary Gebhard não chegava para auxiliar a condessa, essa contratou uma irmã de caridade para ajudar a cuidar de HPB, com resultados desastrosos. Assim que a condessa virava as costas, a freira segurava o crucifixo diante de HPB, lhe implorando que se convertesse e entrasse para a igreja, antes que fosse tarde demais. Isso deixava HPB furiosa e não restou outra alternativa para a condessa senão mandar a ajudante embora. (Wachtmeister, p. 59)

Como os médicos acharam que dificilmente ela escaparia da morte, HPB chegou a fazer um testamento, deixando suas poucas posses para a condessa. Entretanto, de maneira análoga ao que Isabel Cooper-Oakley havia testemunhado na Índia (Inf. HPB 15), após uma noite em que parecia que HPB iria morrer, ela recuperou-se como por milagre. Madame Blavatsky contou à condessa que a cura se dera novamente por intervenção de seu Mestre, que lhe permitiu escolher seu destino:

"eu poderia morrer e ficar livre se eu quisesse, ou poderia viver e concluir A Doutrina Secreta; Ele me disse quão grandes seriam meus sofrimentos e que período terrível eu teria diante de mim na Inglaterra (pois eu estou para ir para lá); mas quando pensei naqueles estudantes a quem eu poderei ter a permissão de ensinar umas poucas coisas e na Sociedade Teosófica em geral, para a qual eu já dei o sangue de meu coração, aceitei o sacrifício, e agora, para torná-lo completo, traga-me um pouco de café e algo para comer, e me dê minha caixa de tabaco." (Wachtmeister, p. 62) Assim que HPB recuperou-se um pouco, a condessa deixou-a com a Sra. Gebhard e foi para a Suécia, para vender a propriedade que lá possuía, pois pretendia viver dali por diante ao lado de HPB, cuidando dela. (HPBLetters, X)

Blavatsky Lodge

Archibald e Bertram Keightley, Dr. Ellis, Sr. Hamilton e a Sra. Keningale Cook (Mabel Collins) haviam decidido trazer HPB para Londres. Para tanto, Mabel Collins emprestou Maycot, sua casa em Upper Norwood, arredores de Londres. (Autobiography, p. 34) Archibald e Bertram foram buscá-la em Ostende. Como ela ainda estava bastante doente e tinha dificuldades de se locomover, a viagem foi bastante difícil. Os três chegaram a Maycot em 1° de maio de 1887 e, apesar de seu estado físico, HPB logo pediu que seu material para escrever fosse todo arrumado, a fim de que pudesse recomeçar a trabalhar na manhã seguinte. No horário costumeiro ela estava em sua escrivaninha, escrevendo.

Os Keightley passaram a morar com ela em Maycot. Um ou dois dias após a chegada, HPB entregou a eles os manuscritos da Doutrina para eles lerem e corrigirem. Esse material formava uma pilha de papéis de quase um metro de altura. Após lerem cuidadosamente o material, eles chegaram à conclusão de que a obra "precisava ser rearrumada com um plano definido, pois como estava, o livro era outra "Ísis Sem Véu", apenas ainda pior, no que diz respeito a uma ausência de plano e seqüência lógica." (Wachtmeister, p. 78)

HPB, então, lhes disse que ela lavava as mãos, e que eles tentassem organizá-la o melhor que pudessem. Os dois estudaram os manuscritos e lhe apresentaram uma organização com base no caráter do assunto, sugerindo que o trabalho fosse feito em quatro volumes, cada qual dividido em três partes: (1) as Stanzas e os Comentários; (2) Simbolismo e (3) Ciência. Também sugeriram que, ao invés de começar o primeiro volume com a história de alguns grandes ocultistas, ela seguisse a ordem natural de exposição, começando com a evolução do Cosmos, passando depois para a evolução do homem, para então lidar com a vida de grandes ocultistas. E finalmente, num quarto volume, falaria de Ocultismo Prático. (Wachtmeister, p. 79) O plano foi aprovado, dotando a Doutrina Secreta de um ordenamento lógico definido.

Durante todo aquele verão, Bertram e Archibald trabalharam lendo, relendo, copiando e corrigindo os manuscritos da Doutrina. Archibald relata que passava os dias no grande esforço de sugerir um melhor arranjo e a correção de expressões de linguagem e ao mesmo tempo tentando preservar o estilo literário de Madame Blavatsky. A tarefa tornava-se ainda mais difícil pelo fato de que HPB lhe dizia para fazer como quisesse, enquanto que outros, que também haviam sido chamados para ajudar, insistiam que a linguagem original devia ser mantida, de modo que aqueles fossem ler o livro pudessem ter a sua escolha sobre o que a autora queria dizer. Enquanto isso:

"a referida autora me ameaçava com as mais horríveis dores e penalidades se o texto não fosse colocado num "Inglês correto". Naturalmente eu preferi a "obscura e profunda" boa vontade de Madame Blavatsky. Vivendo no estrangeiro, como ela viveu, seu cérebro estava cheio de expressões idiomáticas que não eram do Inglês, e o fato dela estar escrevendo o livro em Inglês, implicava numa tradução literal de expressões "estrangeiras", com os mais surpreendentes resultados." (Keightley) No dia 19 de maio de 1887 a Blavatsky Lodge foi fundada, sendo a reunião inaugural realizada nos aposentos de HPB em Maycot. Ela escreve para a irmã que mudara-se para Londres, diante da insistência de membros ingleses que lhe diziam: "‘Apenas você pode nos iluminar e dar vida à Sociedade em Londres, que está hibernando e inativa.’ Bem, agora eles têm o que queriam; eu vim e joguei mais lenha na fogueira – espero que eles não se arrependam. Sento em minha mesa e escrevo, enquanto todos eles pulam à volta e dançam a minha música. Ontem tivemos uma reunião na qual foi formado um novo ramo da ST e – só imagine – que eles unanimemente a chamaram ‘A Loja Blavatsky da Soc. Teosófica’!... Isso é o que chamo de bater direto na face da Psychical ResearchSociety; que eles saibam de que material nós somos feitos!" (HPB Letters, XI) Ela também escreve para a condessa, que ainda estava na Suécia, sobre a fundação da Blavatsky Lodge, e lhe pedindo que viesse logo, pois havia tanto trabalho teosófico para fazer que: "tenho que desistir de minha Doutrina Secreta ou deixar o trabalho teosófico sem ser feito. É por isso que sua presença é necessária mais do que qualquer outra coisa. Se perdemos as boas oportunidades, nunca teremos outras melhores. Você sabe, eu suponho, que uma Blavatsky Lodge foi organizada e legalizada por Sinnett e os demais.

"Até agora ela está composta por quatorze pessoas. Você também sabe que uma Theosophical Publishing Company foi formada pelas mesmas pessoas e que nós não apenas começamos uma nova revista teosófica, mas que insistem em publicar eles mesmos a Doutrina Secreta. (...) Tenho reuniões regulares às quintas-feiras, quando dez ou onze pessoas têm que se apertar em meus dois quartos, e sentar em minha escrivaninha e sofá. Eu durmo no meu sofá de Würzburg, pois não há espaço para uma cama. Você, se vier, terá um quarto no andar de cima." (Wachtmeister, p. 65)

Logo a presença de HPB começou a ser sentida, e Maycot tornou-se um local de peregrinação de pessoas que queriam falar com ela, que algumas vezes eram recebidas, outras não. HPB ficava trabalhando em seus aposentos durante quase todo o dia. Archibald Keightley relembra que após o jantar, durante o qual todos da casa se reuniam, a mesa era limpa e: "vinha tabaco e conversa, especialmente o primeiro, embora houvesse bastante da segunda. Eu gostaria de ter a memória e o poder para relatar aquelas conversas. Todas as coisas sob do sol, e algumas outras também, eram discutidas. (...) Com uma coisa Madame Blavatsky era intolerante – simulação, falsidade e hipocrisia. Com esses ela não tinha piedade; mas com o esforço genuíno, por mais que estivesse errado, ela não poupava trabalho para dar conselho e reorientação. (...) Eu nunca soube dela afirmar o que não era verdade, mas soube que ela algumas vezes teve que manter silêncio, porque aqueles que a interrogavam não tinham direito à informação. Nesses casos, eu depois soube, ela foi acusada de deliberada inverdade. Uma de suas tristezas vem à minha mente enquanto escrevo: "pois então você saberá que eu nunca, nunca enganei ninguém, embora tenha sido freqüentemente compelida a deixar que eles enganassem si mesmos."" (Keightley)
Lucifer

Numa dessas conversas noturnas, HPB manifestou que estava tendo cada vez mais dificuldade de que seus pontos de vista fossem expressos no The Theosophist, que era editado na Índia, por Olcott. Então decidiram lançar uma nova revista. Mas houve muita discussão quanto ao seu nome: ""Verdade", "Tocha" e vários outros foram oferecidos como sugestões e foram rejeitados. Então veio o "Portador da Luz" e finalmente "Lucifer," como uma abreviação. Mas alguns se opuseram com a maior veemência a isso, por ser diabólico demais e ser muito contrário a "les convenances" [às convenções]. Pereça o mundo!" (Keightley) HPB escreve para sua irmã:

"Estamos para fundar uma revista nossa, Lucifer. Não se deixe assustar: não é o diabo, no qual os católicos falsificaram o nome da Estrela da Manhã, sagrada para todo o mundo antigo (...) e não é dito no Apocalipse de S. João, ‘Eu, Jesus, a estrela da manhã’? Eu gostaria que as pessoas pelo menos tivessem isso em mente. É possível que o anjo rebelde tenha sido chamado Lucifer antes de sua queda, mas após sua transformação ele não deve ser chamado assim... É simplesmente assustadora a quantidade de trabalho que tenho. (...) Mas como poderei ter tempo para tudo – revistas, lições em ocultismo, a Doutrina Secreta, cuja primeira parte ainda não está pronta – em mesma não sei!" (HPB Letters, XI) No primeiro número da revista, editado em 15 de setembro de 1887, aparecem os nomes de H.P. Blavatsky e Mabel Collins como editoras. O primeiro artigo da revista explicava a escolha de seu polêmico nome: "O que há em um nome? Com freqüência, há mais em um nome do que o profano está preparado para compreender ou o místico culto para explicar. É uma influência invisível, secreta, mas muito potente que todo nome tem e "carrega onde quer que vá". (...)

"O nome ou título de uma revista iniciada com um objetivo definido é, portanto, da maior importância; pois, na verdade, é a semente invisível que, ou crescerá "tornando-se uma árvore frondosa" de cujos frutos deve depender a natureza dos resultados produzidos pelo referido objetivo, ou a árvore definhará e morrerá. Estas considerações mostram que o nome da presente revista (...) surgiu em conseqüência de muita reflexão sobre sua adequação, tendo sido adotado como o melhor símbolo para expressar aquele objetivo e os resultados em vista.

"Ora, o primeiro e mais importante, senão o único objetivo da revista, está expresso na frase da Ia Epístola aos Coríntios, na página de rosto. É para iluminar as "coisas ocultas na escuridão" (IV, 5); para mostrar em seu verdadeiro aspecto e real significado original coisas e nomes, homens e suas ações e costumes; é, finalmente, para combater o preconceito, a hipocrisia e a falsidade em todas as nações, em todas as classes da sociedade e em todos os departamentos da vida. A tarefa é laboriosa, mas não impraticável, nem inútil, mesmo como uma experiência.

"Assim, para uma tentativa de tal natureza, não poderia ser encontrado título melhor do que o escolhido. "Lúcifer" é a pálida estrela da manhã (...) Não há símbolo mais apropriado para o trabalho proposto – o de lançar um raio de verdade em tudo o que está escondido pela escuridão do preconceito, pela interpretação social ou religiosa incorreta e, sobretudo, por aquela rotina idiota na vida, por meio da qual, uma vez que uma certa ação, coisa ou nome, tenham sido estigmatizados por invenções caluniosas, por mais injustas que sejam, faz com que as, assim chamadas, pessoas respeitáveis lhes dêem as costas tremendo, recusando-se até mesmo a olhar para eles sob qualquer outro ângulo que não seja o sancionado pela opinião pública. Um tal empreendimento, para forçar os pusilânimes a olhar a verdade diretamente no rosto, é auxiliado de forma mais eficaz por um título que pertence à categoria dos nomes estigmatizados." (CW VIII, p.5 ou "O Que Há Num Nome?")

Mabel Collins

O período de maior associação de Mabel Collins com o trabalho da ST foi quando esteve formalmente como co-editora de Lucifer, que vai desde sua fundação em setembro de 1887, até outubro de 1888. A sua aproximação de HPB já começara meses antes. Basta relembrar que Maycot, a casa em que HPB morou entre maio e setembro de 1887, era dela.

No início de 1887, apareceu mais um pequeno livro de autoria de Mabel Collins, Pelas Portas de Ouro, que ela revelou ter sido escrito da mesma maneira que o Idílio do Lótus Branco, ou seja, ditado por um "Visitante". (CW VIII, p. 430) Na segunda edição de Pelas Portas de Ouro, Mabel Collins acrescentou uma nota, falando:

"Certa vez, quando estava sozinha escrevendo, um Visitante misterioso entrou em meu gabinete sem se anunciar, e ficou de pé ao meu lado. Eu esqueci de perguntar quem ele era, ou por que havia entrado tão sem cerimônias, pois ele começou a me falar sobre os Portões de Ouro. Sua fala tinha origem no conhecimento, e do fogo de seu discurso eu adquiri fé. Escrevi suas palavras, mas ai de mim, não posso esperar que o fogo vá arder tão brilhantemente em meu escrito quanto em seu discurso." (Collins) Como já vimos no Informativo HPB 5, o "Visitante" que a ajudara a escrever tanto o Idílio do Lótus Branco quanto Luz no Caminho era o Mestre Hillarion, que embora não fosse o Mestre (ou o Guru) de HPB, era seu Instrutor ou "Sahib".

É interessante notarmos que HPB e Mabel Collins só haviam se encontrado um pouco antes do retorno de HPB da Europa para a Índia, em 1884. Nessa época o Idílio havia sido recém escrito. De acordo com HPB, elas só voltaram a se encontrar em 1887, em Londres. Do que lemos das descrições dos Keightleys referentes a época em que moraram com HPB em Maycot, vemos que embora a casa fosse de Mabel Collins, não há indicações de que ela costumava freqüentar a casa. Isso parece indicar que o elo maior de ligação entre as duas era o próprio Mestre Hillarion.

Os "comentários" de Luz no Caminho, inexistentes quando o livro apareceu, foram originalmente publicados em Lucifer, nas edições de setembro a novembro de 1887 e de janeiro de 1888 e mais tarde passaram a fazer parte do livro. Aparentemente eles também são de autoria do Mestre Hillarion, pois em Lucifer vinham assinados apenas com um triângulo. (CW VIII, p. xxiii)

Uma outra história de autoria de Mabel Collins, The Blossom and the Fruit – A Tale of Love and Magic [A Flor e o Fruto – Um Conto de Amor e Magia], foi publicada em capítulos em Lucifer, desde seu primeiro número, em setembro de 1887, até agosto de 1888. O personagem principal dessa história é Fleta, que numa encarnação anterior havia sido uma maga negra, e agora tenta atrair um companheiro de muitas vidas passadas para que ele também fique sob a influência de Ivan, um membro da Grande Fraternidade Branca, que está tentando ajudar Fleta. Mas nessa trajetória Fleta muitas vezes retorna aos seus velhos ritos e poderes. Entretanto, a história tomou esse rumo porque HPB interveio, alegando que Mabel Collins estava seriamente começando a enganar o leitor, pois:

". . . . Fleta, a rainha DUGPA [feiticeira] em "A Flor e o Fruto", . . . . teria sido apresentada como um modelo perfeito de todas as virtudes da Magia Branca, se eu não tivesse insistido que a heroína do "Conto de Amor e Magia" fosse exposta e mostrada em seu verdadeiro caráter aos leitores de Lucifer, alguns dos quais estavam dolorosamente perplexos . . ." (CW VIII, p. 92) A partir de julho de 1888, a autoria é indicada como sendo de "Mabel Collins e ---", o que indica a entrada anônima de HPB na história. Esta deve ter sido uma das dificuldades que surgiram, no decorrer de 1888, no relacionamento entre HPB e Mabel Collins, e que culminaram em outubro, com HPB assumindo sozinha a direção de Lucifer. Como nessa época Mabel Collins estava muito doente, esse fato serviu como pretexto para a decisão de HPB. Embora não estivesse mais atuante em Lucifer, Mabel Collins continuou aparecendo como sendo co-editora até fevereiro de 1889.

Quando HPB criou a Seção Esotérica, em outubro de 1888, Mabel Collins pediu ingresso, que foi inicialmente negado, até que ela implorou a HPB que lhe permitisse fazer parte. Na verdade Mabel Collins não tinha uma real compreensão dos objetivos da trabalho da ST. Como HPB escreveu para o juiz Khandalavala: "Até hoje ela (MC) não conhece nada de filosofia, nem gosta disso." (Gomes, p. 194) Mais adiante, no começo de 1889, Mabel Collins não apenas passou a negar que seus trabalhos tivessem sido feitos sob qualquer tipo de inspiração especial, mas começou a dizer que suas afirmações anteriores nesse sentido haviam sido feitas a pedido de HPB.

Em julho de 1889, sob influência do Prof. Elliot Coues, Mabel Collins entrou com uma ação na justiça contra HPB, por calúnia e difamação. Quando o caso foi a julgamento, em julho de 1890, o advogado de HPB mostrou uma certa carta de Mabel Collins para HPB, para o outro advogado. Esse pediu então à corte para retirar o caso, o que foi feito. (CW VIII, p. 432)

Lansdowne Road

A condessa Wachtmeister chegou da Suécia em agosto de 1887, reunindo-se a HPB e os Keightleys em Maycot. Como a casa era pequena e distante do centro de Londres, eles decidiram mudar-se para um local mais central. A condessa fala da mudança:

"Eu vim para a Inglaterra em agosto de 1887, encontrei HPB em Norwood, e logo depois nos mudamos para Lansdowne Road, 17, Holland Park, e então começou uma nova, difícil e freqüentemente dolorosa vida. As provações seguiam-se umas às outras em rápida sucessão, mas o próprio resultado de todos estas provações e preocupações foi o desenvolvimento da Sociedade e a disseminação das verdades teosóficas." (In Memory, p. 20) A casa na Lansdowne Road, era bem maior e HPB pode ocupar todo o andar de baixo. Tinha um pequeno dormitório que ligava-se a um escritório grande, onde ela escrevia. Os Keightleys preocupavam-se com pequenos detalhes que pudessem contribuir com o bem-estar de HPB. Assim, no escritório a mobília foi arrumada à volta de HPB de modo que ela pudesse alcançar seus livros e papéis sem dificuldades. (Wachtmeister, p. 67)

O primeiro volume da Doutrina foi publicado em 20 de outubro de 1888 e o segundo volume no final de dezembro ou em janeiro de 1889. Archibald, a pedido de HPB, havia ido para a 1ª Convenção da Seção Americana, em Chicago. Assim que ele voltou, em fevereiro de 1889, HPB lhe deu os dois volumes publicados, escrevendo no primeiro volume uma dedicatória que revela seu carinho por ele: "Para Archibald Keightley, um verdadeiro teosofista – o amigo, auxiliar, irmão e filho oculto, de sua verdadeira e fiel – até seu último éon – H.P. Blavatsky." (CW IX, p. 431)

E no segundo volume, escreveu: "Para Archibald Keightley, meu verdadeiramente amado amigo e irmão, e um dos zelosos editores desse trabalho; e possam esses volumes, quando a autora estiver morta e partido, lembrá-lo daquela cujo nome na presente encarnação é H.P. Blavatsky. Meus dias são meus Pralayas [períodos de dissolução, obscurecimento ou repouso], minhas noites – meus Manvantaras. [o oposto de Pralaya, i.e., períodos de atividade] HPB." (CW IX, p. 431)

A mudança para a casa na Lansdowne Road propiciou que outras pessoas integrassem a equipe de ajudantes, como G.R.S. Mead e D.E. Fawcett. Archibald escreve que, quando retornou da América, mais trabalhadores haviam se incorporado à casa, e havia trabalho para todos. E na casa:

"A vida prosseguia com crescente pressão, cada um de nós tendo uma relação especial com HPB, cada um recebendo um tratamento diferente. Tot homines, quot sententiae, e as variações da rotina diária e da vida eram todas adaptadas para testar e para a fortalecedora reparação de qualquer defeito de caráter que pudesse afetar o trabalho que estávamos fazendo." (Keightley) Mesmo com a Doutrina publicada, HPB continuava com uma intensa atividade literária. Além de seus artigos para Lucifer e das instruções para a Seção Esotérica, ela escreveu e publicou: A Chave para a Teosofia, em julho de 1889, A Voz do Silêncio, em setembro e Gemas do Oriente, um livrinho com pensamentos diários, em junho de 1890.

George R.S. Mead

George Robert Stowe Mead nasceu em 22 de março de 1863, em Nuneaton, Inglaterra. Iniciou seus estudos em Matemática, mas logo depois mudou para línguas e literatura clássicas, obtendo um conhecimento de Grego e Latim que lhe seria de grande valor nos anos seguintes. Logo após graduar-se em Cambridge, em 1884, entrou para a ST. Por esta época leu o livro de Sinnett, Budismo Esotérico e associou-se a Bertram Keightley e Mohini Chatterji. (CW XIII, p. 393)

Mead encontrou com HPB pela primeira vez em 1887, indo trabalhar com ela em agosto de 1889, como seu secretário, cargo que ocupou até o final da vida de HPB. Na ocasião – três anos após a publicação do relatório final da SPR, ainda havia uma grande suspeita pública pairando no ar, pois "o público em geral daquela época, acreditando na impossibilidade de todos os fenômenos psíquicos, naturalmente condenou HPB sem qualquer questionamento." (Mead, p. 7) Entretanto, sua convivência com HPB logo lhe mostrou uma imagem que contradizia completamente aquela que o relatório da SPR apresentava. Mead relata que foi trabalhar com ela:

"com um conhecimento acurado do Relatório e de todas as suas elaboradas hipóteses em minha mente; e não poderia ter sido de outro modo. Mas poucos meses de relações pessoais com HPB me convenceram de que as próprias falhas de seu caráter eram tais que ela não poderia, de modo algum, ter levado adiante uma fraude cuidadosamente planejada, mesmo que ela o quisesse fazer, e muito menos um esquema elaborado de trapaça, dependendo da manipulação de dispositivos mecânicos e da ajuda de cúmplices astutos.

"Ela freqüentemente era muitíssimo imprudente em suas declarações, e se estivesse brava falaria sem pensar qualquer coisa que pudesse vir em sua cabeça, não importando quem estivesse presente. Ela não parecia se importar com o que qualquer pessoa pudesse pensar, e algumas vezes iria se incriminar de todo tipo de coisas – defeitos e fracassos – mas nunca, sob quaisquer circunstâncias, mesmo em seus mais exaltados estados de espírito, ela pronunciou uma sílaba que de qualquer modo pudesse confirmar as especulações e acusações do Dr. Hodgson. Eu estou convencido de que se ela fosse realmente culpada das coisas que lhe acusavam a esse respeito, ela não poderia ter deixado escapar, em uma ou outra de suas freqüentes explosões ou confidências, alguma palavra ou indicação de uma natureza incriminatória." (Mead, p. 7)

Outro aspecto que para Mead mostrou a inocência de HPB foi como ela o recebeu, pois quando foi trabalhar como seu secretário particular, ela mal o conhecia. Se fosse uma impostora, seria arriscado empregar alguém assim, pois muitas vezes ela era espionada pelos inimigos. Entretanto, ela não apenas o admitiu à sua íntima convivência, mas o recebeu com total confiança: "Ela me deixou responsável por todas as suas chaves, seus manuscritos, sua escrivaninha e suas várias gavetas nas quais ela mantinha seus papéis mais particulares; não apenas isso, mas ainda mais, sob a alegação de que precisava ser deixada em paz para seus escritos, ela absolutamente se recusou a ser incomodada com suas cartas, e me fez assumir sua volumosa correspondência, e isso sem nem mesmo primeiro abri-la pessoalmente. Não apenas metaforicamente, mas algumas vezes verdadeiramente arremessava as missivas ofensivas em minha cabeça!" (Mead, p. 8) Mead não somente tinha que ler toda a correspondência, mas também responder às cartas, da melhor maneira que pudesse. HPB era muito lacônica em suas orientações quanto a como responder às cartas, e gradualmente foi ficando ainda mais silenciosa, de modo que: "freqüentemente eu tinha que correr o risco de desagradá-la, insistindo por uma resposta ou tentando persuadi-la para que ela mesma respondesse alguma carta que fosse de grande importância. Era comparativamente fácil manter a salvo a correspondência que chegava pela manhã, mas as cartas chegando nas entregas posteriores eram uma dificuldade; pois HPB severamente negava todo acesso a seu quarto e, para compensar isso, costumava guardar cuidadosamente as cartas importantes em esconderijos, de modo a me entregá-las mais tarde, enquanto as demais eram deixadas à sua própria sorte. O plano não era bom, pois ela quase sempre esquecia de seus esconderijos e freqüentemente eu não podia resgatar o resto das cartas perdidas e extraviadas entre seus manuscritos, pois ela não deixaria ninguém tocar no trabalho que estava ocupada no momento, e assim elas tinham que ficar, para serem respondidas quando finalmente fossem desenterradas numa data distante. Mas gradualmente também nós encontramos nossos melhores métodos, e por último não tínhamos que jogar tantos jogos de esconde-esconde." (In Memory, p. 33) Quando Mead começou a trabalhar com HPB, ela estava em Jérsei, e ele foi encontrá-la. Logo após sua chegada, HPB entrou inesperadamente em seu quarto, com um manuscrito, pedindo-lhe que lesse e desse sua opinião. Era a terceira parte de Voz do Silêncio. Enquanto ele lia, ela: "sentou-se e fumou seus cigarros, batendo com o pé no chão, como freqüentemente era seu hábito. Eu continuei lendo, esquecendo sua presença diante da beleza e sublimidade do tema, até que ela quebrou meu silêncio com "Então?" Eu lhe disse que era a coisa mais grandiosa de toda a nossa literatura teosófica e tentei, contrariamente ao meu costume, transmitir em palavras algo do entusiasmo que sentia. Mas mesmo assim HPB não estava satisfeita com seu trabalho e expressou sua grande apreensão de que tivesse falhado em fazer justiça ao original em sua tradução, e mal pode ser persuadida de que havia feito um bom trabalho. Esta era uma de suas principais características. Ela nunca estava confiante em seu próprio trabalho literário e ouvia alegremente todas as críticas, mesmo de pessoas que deveriam ter ficado quietas. Estranhamente, sempre estava muito receosa de seus melhores artigos e trabalhos e muito confiante em seus escritos polêmicos." (In Memory, p. 32) Quando eles voltaram para Lansdowne Road, "uma daquelas mudanças, tão familiares para aqueles que trabalharam com HPB, ocorreu"(InMemory, p. 32) e os dois Keightleys foram viajar para o exterior. Assim, a maior parte do trabalho dos dois recaiu sobre Mead, que gradualmente passou a compartilhar mais da companhia de HPB. Mead começou então uma carreira de escritor, que manteve até o final de sua vida. Ele foi um dos grandes eruditos que a ST teve na época, e um dos únicos que dedicou-se ao estudo das origens do Cristianismo.

Dos 17 livros que Mead publicou, apenas dois tratam exclusivamente de assuntos relacionados com a filosofia oriental: The World Mistery ("O Mistério do Mundo"), quatro estudos em religiões comparadas publicado em 1895, e uma edição dos Upanishads, que ele traduziu e publicou em 1896. Com exceção desses dois trabalhos, todo o trabalho de Mead está relacionado com o Ocidente antigo e sete de seus livros tratam especificamente do Gnosticismo ou textos Gnósticos, começando com Simon Magus ("Simão Mago") em 1892. (Goodrick-Clarke, p. 138)

Em 1890 Mead traduziu para o Inglês o texto Pistis-Sophia, a partir da versão em Latim de M.G. Schwartze, que fora feita diretamente do manuscrito copta original, no Museu Britânico. Ele publicou 252 páginas, com comentários e notas explicativas em Lucifer, entre abril de 1890 e maio de 1891, com notas adicionais de HPB. (CW VIII, p. 238) Em 1896, Mead revisou toda a tradução do texto e o publicou em forma de livro, sem as notas adicionais de HPB.

Após a morte de HPB, Mead e Besant ficaram como editores de Lucifer. Em 1898, Mead mudou seu nome para The Theosophical Review, passando a ser seu único editor. Em 1899 ele casou-se com Laura Cooper, irmã de Isabel Cooper-Oakley

Besant e Mead publicaram em junho de 1897 o chamado volume III da DoutrinaSecreta, que na edição brasileira, de 6 volumes, corresponde aos dois últimos. Nesse 3° volume eles incluíram escritos não publicados e ensinamentos esotéricos que HPB havia escrito para os membros da Seção Esotérica. Há muitos estudiosos que consideram que esse material publicado não fazia parte da Doutrina Secreta, e que o "verdadeiro" terceiro volume que HPB prometera escrever teria se perdido, nunca tendo sido publicado. (Caldwell)

Aparentemente, grande parte do material publicado fazia parte do primeiro manuscrito da Doutrina e que na reorganização feita pelos Keightleys, ficou de fora dos dois primeiros volumes. Um exemplo disso é o material que diz respeito à vida de grandes Adeptos, como Simão Mago, São Paulo, Pedro, Apolônio de Tiana, São Cipriano de Antioquia, Gautama Buddha e Tsong-kha-pa. 

Bertram Keightley, que conhecia bem o material da Doutrina, desde seu primeiro manuscrito afirmou, quanto ao que HPB pretendia para o terceiro volume, que: "todo esse material foi publicado no terceiro volume, o qual contém absolutamente tudo que HPB deixou em manuscritos." (Caldwell)

Mead foi também o responsável pelos preparativos e pelo discurso na cerimônia da cremação de HPB, em 11 de maio de 1891, onde disse: "HP Blavatsky está morta, mas HPB, nossa instrutora e amiga está viva, e viverá para sempre em nossos corações e memórias." (In Memory, p. 8) Num artigo de 1904, ele demonstra o quanto ela ainda estava viva dentro dele, ao escrever:

"H.P.B. era uma guerreira, não uma sacerdotisa, era uma profetisa mais do que uma vidente; ela era, além disso, muitas coisas que você não esperaria, como um instrumento para trazer de volta a memória de muito do que havia de mais sagrado e sábio na antigüidade. Ela era de fato, como se fosse, o símbolo vivo da aparente insensatez deste mundo, pela qual a sabedoria é prenunciada. Nesta vida, estou convencido, nunca sentirei novamente tanta consideração por alguém quanto por ela; somente ela me deu um sentimento de estar em contato com alguém colossal, titânico, às vezes quase cósmico. Algumas vezes tenho me perguntado se esse estranho ser realmente pertencia à nossa humanidade – e ainda assim ela era tão humana, tão cativante. Teria ela fugido de algum outro planeta, por assim dizer? Será que ela normalmente pertencia à evolução deles? Quien sabe? Para todas essas questões, nenhum de nós que a conheceu e a amou pode dar qualquer resposta segura; ela permanece nossa esfinge, nosso mistério, nossa ternamente amada Velha Senhora." (Mead, p. 19)
Bibliografia

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings[CW], vol VI, VII, VIII, IX, XIII. TPH, Wheaton, 1977.

Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett. TUP, Pasadena, 1973.

Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky. The Blavatsky Archives (BA), 1999. http://blavatsky.cc

Blavatsky, H.P. "O Que Há Num Nome?" http://www.blavatsky.net/portuguese/oqueha.htm

Caldwell, D. "The Mith of the "Missing" Third Volume of The Secret Doctrine". BA, 1999

Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement. TPH, Adyar, 1978.

Collins, M. Through The Gates of Gold Theosophy Company, Bombay,1984

Goodrick-Clarke, C. Theosophical History, vol. 4, n° 4-5, January 1993.

Gomes, M. Theosophical History, vol. 3, n° 7-8, July-October, 1991.

Keightley, A. Reminiscences of HP Blavatsky. BA, 1999.

Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom, 1st Series. TPH, Adyar, 1973.

Mead, G.R.S. Concerning HPB. Kessinger Publishing Company, Montana, USA,

Murphet, H. When Daylight Comes TPH, Wheaton, 1988

Sinnett, A.P. Autobiography of Alfred Percy Sinnett. Theosophical History Centre, London, 1986.

Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. Blavatsky, 1886. Kessinger Publ.Co, Montana.

Some of her Pupils, In Memory of HPB. TPH, London, 1991

Wachtmeister, C. Reminiscences of H.P. Blavatsky and The Secret Doctrine. TPH, Wheaton, 1976
 
 

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