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Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n017, fevereiro/2001) HPB chegou à Europa em abril de 1885 e lá morou por quase seis anos, até o final de sua vida em maio de 1891. Embora tenham sido anos de grandes sofrimentos físicos, foi nesse período difícil que ela produziu seus trabalhos mais importantes: escreveu A Doutrina Secreta, A Voz do Silêncio e A Chave Para a Teosofia; criou uma nova revista, Lucifer, para a qual escreveu muitos artigos; fundou a Blavatsky Lodge em Londres e a Seção Esotérica, escrevendo as instruções para seus membros. Todo esse trabalho só pode ser realizado porque HPB contou com a ajuda de um pequeno grupo de pessoas que não acreditando nas acusações do relatório Hodgson permaneceram a seu lado, auxiliando-a com trabalho, dinheiro e amizade. Nesse Informativo HPB trataremos desse período da vida de Madame Blavatsky. Logo que chegou na Europa HPB instalou-se em Torre del Greco, próximo a Nápoles, onde ficou por alguns meses. Com a saúde fragilizada, mudou-se para Würzburg, na Alemanha, onde chegou em 12 de agosto de 1885, acompanhada de Babajee. Ela escreve para a Sra. Sinnett: Constance Wachtmeister Constance Georgina Louise Bourbel de Monpinçon nasceu em 28 de março de 1838, em Florença, Itália. Perdeu seus pais muito cedo e foi viver com uma tia na Inglaterra. Em 1863 casou-se com seu primo, o conde Wachtmeister, com teve um filho, o conde Axel Raoul. Após três anos, o casal mudou-se para Estocolmo onde, em 1868, o conde foi nomeado Ministro das Relações Exteriores. Após a morte do marido, em 1871, ela ainda viveu vários anos na Suécia, indo passar os invernos em climas mais amenos. Em 1879 a condessa começou a investigar o Espiritismo e em 1881 filiou-se à ST. (CW VI, p. 448) Quando a condessa chegou em Würzburg, atendendo ao telegrama de HPB, recebeu uma calorosa recepção. HPB lhe pediu desculpas pela súbita mudança e explicou que inicialmente não queria que ela fosse para lá porque tinha apenas um quarto, e porque: A presença da condessa em Würzburg foi essencial para que HPB retomasse o trabalho de escrever a Doutrina. Como continuavam os rumores sobre HPB como impostora etc., Sinnett resolveu escrever sua biografia, como um modo de tentar contrabalançar esses falatórios adversos. Seu título inicial era Memoirs (Memórias). Entretanto, HPB não aprovava a idéia. A condessa escreve para Sinnett, em 7 de fevereiro de 1886: Ainda em fevereiro surgiu mais uma razão para HPB pedir a Sinnett que ele pelo menos postergasse a publicação das Memoirs. Um russo conhecido de sua família, Solovyoff, que nessa época já se voltava contra ela, começou ameaçá-la com a acusação de bigamia, pois ele dizia que: Em maio de 1886 H.P.B. havia deixado Würzburg para ir a Ostende, na Bélgica, passar o verão com sua irmã e sobrinha. No caminho, ao visitar os Gebhards em Elberfeld, sofreu uma queda, machucou o tornozelo e a perna, e foi obrigada a ficar por lá se recuperando. Ainda em maio, sua irmã Vera e a filha foram encontrá-la em Elberfeld. Em 8 de julho, as três partiram para Ostende de onde, no dia 14, sua irmã e a sobrinha voltaram para a Rússia. A condessa, que havia ido à Suécia, só voltou em agosto para Ostende. HPB escreve para a irmã, logo após sua partida: A família Gebhard foi fundamental para o desenvolvimento do trabalho teosófico na Alemanha. Gustav Gebhard tinha várias atividades: era banqueiro, tinha uma fábrica de seda e também era cônsul da Pérsia. Sua esposa, Mary, tinha uma genuína inclinação para o ocultismo e foi uma discípula de Eliphas Levi até a morte desse, em 1875. Nessa ocasião, Mary Gebhard começou a procurar outras conexões ocultas. Tendo ouvido sobre a ST escreveu para Olcott e, após uma troca de cartas, entrou como membro da Sociedade. (CW VI, p. 434) O casal Gebhard teve seis filhos e uma filha, e quase todos entraram para a ST. Em julho de 1884, quando HPB, Olcott e Mohini estavam na Europa, foi organizada a Germania Theosophical Society na casa dos Gebhards, sendo W. Hübbe-Schleiden o presidente, Mary a vice e seu filho mais velho, Franz, o secretário. Em agosto de 1884, HPB passou algum tempo na casa deles, com vários teosofistas como Mohini, Bertram Keightley e Francesca Arundale com sua mãe. Elberfeld se tornou um ponto de encontro para teosofistas. O terceiro filho, Arthur Gebhard, morou muitos anos em Nova Iorque e foi muito amigo de W.Q. Judge. Fazia freqüentes visitas à Europa e, numa dessas, em setembro de 1886, escreveu um "Manifesto" junto com Mohini, criticando a atuação de Olcott na presidência da ST. HPB escreveu uma resposta defendendo Olcott, que não foi publicada em vida, mas apenas em 1931, por Jinarajadasa, sob o título de O Programa Original da ST. Rudolf, o quarto filho, acompanhou Olcott em seu retorno à Índia, em outubro de 1884. (Inf. HPB 14) Os dois mais novos, os gêmeos Hermann e Walter, tiveram destinos trágicos. Ambos se suicidaram: Hermann em março de 1881 e Walter em 10 de abril de 1886. (CW VI, p. 436) No caso de Walter, HPB responsabilizou Babajee pelas condições que o induziram a cometer suicídio. Krishnaswami, ou Babajee, ou Darbhagiri Nath O verdadeiro nome de Babajee, também conhecido como Bowajee, Bawajee ou Darbhagiri Nath, era S. Krishnaswami. Ele juntou-se ao pequeno de grupo de trabalhadores da ST ainda em Bombay, entre 1880 e 1881, a pedido do Mestre KH, de quem era um discípulo em provação. Nessa época, ele abandonou seu nome original, denominando-se Babajee. (Eek, p. 537) Posteriormente, passou a usar o nome Darbhagiri Nath. Ao ser questionado sobre as mudanças de nome, Babajee explicou que era um costume entre seu povo mudar o nome quando se tornavam sannyases ou místicos, ou mesmo alunos de místicos. (LBS, p. 340) Há uma certa confusão em torno do nome Darbhagiri Nath porque esse era o "nome místico" de um outro chela do Mestre KH, chamado Gwala K. Deb. Em 1882, o Mestre KH queria que Deb e K. Pillai, um chela em provação, fossem encontrar Sinnett em Simla. Entretanto, Deb nessa ocasião estava no Tibet, e não podia ir em seu corpo físico. Babajee então consentiu que seu corpo físico fosse usado por Deb nessa missão. Após o término da experiência oculta, Babajee continuou a usar o "nome místico" de Deb, ou seja, Darbhagiri Nath. (Eek, p. 538) Babajee trabalhava como assistente de Damodar e também mudou-se para Adyar quando a Sede foi transferida para lá. Juntamente com Subba Row e Damodar, ele divide a responsabilidade por "dois terços dos "mayas" do Sr. Hodgson." (Inf. HPB 15, p. 3) Quando HPB deixou a Índia, em março de 1885, CW Leadbeater se oferecera para acompanhá-la. Entretanto, Babajee insistiu em vir para a Europa com ela, onde foi seu devotado auxiliar e companheiro por vários meses. Nos últimos dias de dezembro de 1885 o relatório final da SPR foi publicado. Nas conclusões desse relatório, os Mahatmas seriam uma invenção de HPB, realizada com o auxílio de cúmplices como os próprios Coulombs. Os fenômenos paranormais seriam tão somente truques, realizados por meio de prestidigitação ou outras formas de trapaça. O relatório conclui que HPB: "não era nem a porta-voz de sábios ocultos, nem uma mera aventureira vulgar; nós pensamos que ela alcançou um título para ser permanentemente lembrada como uma das mais perfeitas, engenhosas e interessantes impostoras da história." (Murphet, p. 184) Em carta para Sinnett, HPB comenta sobre o relatório, revelando seu estado de espírito: A publicação desse relatório talvez tenha sido um dos motivos que fez com que Babajee alterasse sua conduta em relação a HPB. Quando a condessa foi morar com HPB, ela encontrou Babajee muito infeliz, pensando em ir embora. Ela percebeu que ele estava se sentindo ferido e com inveja de Mohini, que estava em Londres fazendo vários trabalhos, enquanto que ele estava isolado com HPB. (LBS, p. 278) Então, por sugestão da condessa, e com o consentimento de HPB, Babajee foi passar algum tempo em Elberfeld, com os Gebhards. Entretanto, Babajee passou a exercer uma influência sobre os Gebhards no sentido de desacreditar HPB, sugerindo-lhes que as cartas dos Mestres por eles recebidas eram falsas e lhes dizendo que ela "não conhecia nada dos ensinamentos esotéricos; Ísis estava cheia de erros ridículos; e do mesmo modo meus [de HPB] artigos do The Theosophist." (CW VII, p. 50) Além disso, ele começou a escrever cartas para HPB insultando-a. A condessa, que cuidava da correspondência, lhe escreveu pedindo que parasse com isso, e avisando que não mais entregaria a HPB cartas desse teor. Então Babajee lhe escreveu, implorando que ela viesse imediatamente a Elberfeld ou ele estaria perdido, pois "o Guardião do Umbral havia vindo a ele, e que eu e somente eu poderia salvá-lo, que todos os Gebhards não poderiam fazer nada por ele; que eu, devido a meus poderes psíquicos, poderia ajudá-lo". (LBS, p. 278) Assustada, a condessa telegrafou para Mary Gebhard, perguntando se era realmente necessário que ela fosse a Elberfeld. A resposta veio: "Sim", e a condessa partiu imediatamente. Ao chegar, a Sra. Gebhard lhe disse que Babajee estava bem, e que ele só queria "forçá-la a vir aqui, porque ele disse que Mad. B. [Blavatsky] quer psicologizá-la." (LBS, p. 278) Na conversa particular com a condessa, Babajee comportou-se como um louco, gritando, batendo na mobília, dizendo que detestava HPB, que queria destruí-la e à ST. Quando a condessa lhe perguntou o porquê desse sentimento com relação a HPB, ele respondeu: "em primeiro lugar porque ela havia profanado os Mestres ao associá-los com os fenômenos, e em segundo lugar porque ela o havia insultado diversas vezes (e, eu diria, ferido sua vaidade)." (LBS, p. 279) Ele também disse que nunca mais voltaria para HPB, e que tentaria impedir que Mohini o fizesse. A condessa retornou a Würzburg, preocupada com a influência que Babajee estava exercendo sobre os Gebhards e com a confusão que estava ameaçando fazer. Após alguns dias ele escreveu para HPB, mostrando arrependimento, chamando-a "Querida e respeitada Mãe". (LBS, p. 336) Uma explicação para o episódio é dada pela condessa a Sinnett, escrevendo que a atitude de lunático de Babajee, devia ter sido causada por uma magia que sua avó, uma feiticeira, havia jogado nele. (LBS, p. 282) E que HPB havia achado, entre os livros dela que Babajee cuidava: "Uma carta dos Mestres teria lhes aconselhado a manter Walter longe de sua casa, sem dar qualquer razão para isso e os Gebhards teriam obedecido ao conselho, se eles não tivessem sido levados a acreditar, por alguém que eles consideravam e reverenciavam como um chela do Mahatma K.H., e que viveu dez anos com ele como eu descobri tarde demais que "nenhum Mahatma se importaria com os filhos de teosofistas, pouco ligando se eles viveram ou morreram" etc.; e que quase sem nenhuma exceção todas as notas e cartas recebidas por eles dos Mestres eram na melhor das hipóteses produzidas por elementais e, ocasionalmente, fraude de HPB." (LBS, p. 300) Archibald e Bertram Keightley A partir de agosto de 1886 HPB passou uma temporada em Ostende, trabalhando na Doutrina com o auxílio da condessa. Em março de 1887, Archibald Keightley, foi a Ostende para aconselhar-se com HPB sobre o futuro do trabalho em Londres, que sofria as conseqüências do relatório da SPR. Ela já havia lhe escrito que o trabalho necessitava de um líder com determinação e vontade firme. Archibald escreve que: Archibald era quase um ano mais velho que o irmão de seu pai, Bertram, que nasceu em Birkenhead, Inglaterra, em 4 de abril de 1860. Bertram foi educado dentro do Cristianismo místico de Swedenborg e também foi estudar em Cambridge, onde formou-se em Matemática. Ele sentia grande atração por filosofia e ciência e, na época de Cambridge, estudou mesmerismo, Eliphas Levi, os místicos medievais e os escritores neoplatônicos. (CW IX, p. 427) Em 1884, quando Sinnett editou seu livro Budismo Esotérico, os dois se encantaram com a obra e entraram em contato com o autor. No mesmo ano, Archibald e seu tio Bertram entraram para a ST em Londres, juntamente com o casal Oakley, sendo a cerimônia conduzida por Olcott, que na época estava em Londres. A primeira vez que os dois encontraram com HPB foi na reunião da Loja de Londres convocada para discutir a eleição entre Sinnett e Anna Kingsford, quando HPB chegou inesperadamente e Mohini jogou-se a seus pés. (Inf. HPB 9) Durante essa estadia de HPB, em 1884, Archibald quase não pode conviver com ela, pois estava ocupado com seus estudos, mas Bertram passou muito tempo com HPB, em Paris, Londres e Elberfeld, na casa dos Gebhards. Ao chegar em Ostende, em março de 1887, Archibald pretendia ficar num hotel, mas HPB insistiu que ele se hospedasse com ela. HPB logo lhe passou uma parte dos manuscritos da Doutrina, pedindo para ele "corrigir, cortar, alterar o Inglês, pontuar, de fato, tratá-lo como se fosse meu mesmo". (Wachtmeister, p. 83) Os poucos dias que passou em Ostende foram ocupados nessa leitura e no esforço de compreender a intenção do livro, pois em sua forma naquele momento: HPB prometeu a Archibald que iria a Londres, mas que ainda não podia fixar a data. Após dois ou três dias ele voltou à Inglaterra e começou a procurar um local onde pudesse hospedá-la. Porém, dez dias após seu retorno, chegaram notícias de que ela estava muito doente, com infecção nos rins. Dr. Ellis, um médico que fazia parte do grupo de teosofistas de Londres, foi para Ostende. Enquanto Mary Gebhard não chegava para auxiliar a condessa, essa contratou uma irmã de caridade para ajudar a cuidar de HPB, com resultados desastrosos. Assim que a condessa virava as costas, a freira segurava o crucifixo diante de HPB, lhe implorando que se convertesse e entrasse para a igreja, antes que fosse tarde demais. Isso deixava HPB furiosa e não restou outra alternativa para a condessa senão mandar a ajudante embora. (Wachtmeister, p. 59) Como os médicos acharam que dificilmente ela escaparia da morte, HPB chegou a fazer um testamento, deixando suas poucas posses para a condessa. Entretanto, de maneira análoga ao que Isabel Cooper-Oakley havia testemunhado na Índia (Inf. HPB 15), após uma noite em que parecia que HPB iria morrer, ela recuperou-se como por milagre. Madame Blavatsky contou à condessa que a cura se dera novamente por intervenção de seu Mestre, que lhe permitiu escolher seu destino: Blavatsky Lodge Archibald e Bertram Keightley, Dr. Ellis, Sr. Hamilton e a Sra. Keningale Cook (Mabel Collins) haviam decidido trazer HPB para Londres. Para tanto, Mabel Collins emprestou Maycot, sua casa em Upper Norwood, arredores de Londres. (Autobiography, p. 34) Archibald e Bertram foram buscá-la em Ostende. Como ela ainda estava bastante doente e tinha dificuldades de se locomover, a viagem foi bastante difícil. Os três chegaram a Maycot em 1° de maio de 1887 e, apesar de seu estado físico, HPB logo pediu que seu material para escrever fosse todo arrumado, a fim de que pudesse recomeçar a trabalhar na manhã seguinte. No horário costumeiro ela estava em sua escrivaninha, escrevendo. Os Keightley passaram a morar com ela em Maycot. Um ou dois dias após a chegada, HPB entregou a eles os manuscritos da Doutrina para eles lerem e corrigirem. Esse material formava uma pilha de papéis de quase um metro de altura. Após lerem cuidadosamente o material, eles chegaram à conclusão de que a obra "precisava ser rearrumada com um plano definido, pois como estava, o livro era outra "Ísis Sem Véu", apenas ainda pior, no que diz respeito a uma ausência de plano e seqüência lógica." (Wachtmeister, p. 78) HPB, então, lhes disse que ela lavava as mãos, e que eles tentassem organizá-la o melhor que pudessem. Os dois estudaram os manuscritos e lhe apresentaram uma organização com base no caráter do assunto, sugerindo que o trabalho fosse feito em quatro volumes, cada qual dividido em três partes: (1) as Stanzas e os Comentários; (2) Simbolismo e (3) Ciência. Também sugeriram que, ao invés de começar o primeiro volume com a história de alguns grandes ocultistas, ela seguisse a ordem natural de exposição, começando com a evolução do Cosmos, passando depois para a evolução do homem, para então lidar com a vida de grandes ocultistas. E finalmente, num quarto volume, falaria de Ocultismo Prático. (Wachtmeister, p. 79) O plano foi aprovado, dotando a Doutrina Secreta de um ordenamento lógico definido. Durante todo aquele verão, Bertram e Archibald trabalharam lendo, relendo, copiando e corrigindo os manuscritos da Doutrina. Archibald relata que passava os dias no grande esforço de sugerir um melhor arranjo e a correção de expressões de linguagem e ao mesmo tempo tentando preservar o estilo literário de Madame Blavatsky. A tarefa tornava-se ainda mais difícil pelo fato de que HPB lhe dizia para fazer como quisesse, enquanto que outros, que também haviam sido chamados para ajudar, insistiam que a linguagem original devia ser mantida, de modo que aqueles fossem ler o livro pudessem ter a sua escolha sobre o que a autora queria dizer. Enquanto isso: "Até agora ela está composta por quatorze pessoas. Você também sabe que uma Theosophical Publishing Company foi formada pelas mesmas pessoas e que nós não apenas começamos uma nova revista teosófica, mas que insistem em publicar eles mesmos a Doutrina Secreta. (...) Tenho reuniões regulares às quintas-feiras, quando dez ou onze pessoas têm que se apertar em meus dois quartos, e sentar em minha escrivaninha e sofá. Eu durmo no meu sofá de Würzburg, pois não há espaço para uma cama. Você, se vier, terá um quarto no andar de cima." (Wachtmeister, p. 65) Numa dessas conversas noturnas, HPB manifestou que estava tendo cada vez mais dificuldade de que seus pontos de vista fossem expressos no The Theosophist, que era editado na Índia, por Olcott. Então decidiram lançar uma nova revista. Mas houve muita discussão quanto ao seu nome: ""Verdade", "Tocha" e vários outros foram oferecidos como sugestões e foram rejeitados. Então veio o "Portador da Luz" e finalmente "Lucifer," como uma abreviação. Mas alguns se opuseram com a maior veemência a isso, por ser diabólico demais e ser muito contrário a "les convenances" [às convenções]. Pereça o mundo!" (Keightley) HPB escreve para sua irmã: "O nome ou título de uma revista iniciada com um objetivo definido é, portanto, da maior importância; pois, na verdade, é a semente invisível que, ou crescerá "tornando-se uma árvore frondosa" de cujos frutos deve depender a natureza dos resultados produzidos pelo referido objetivo, ou a árvore definhará e morrerá. Estas considerações mostram que o nome da presente revista (...) surgiu em conseqüência de muita reflexão sobre sua adequação, tendo sido adotado como o melhor símbolo para expressar aquele objetivo e os resultados em vista. "Ora, o primeiro e mais importante, senão o único objetivo da revista, está expresso na frase da Ia Epístola aos Coríntios, na página de rosto. É para iluminar as "coisas ocultas na escuridão" (IV, 5); para mostrar em seu verdadeiro aspecto e real significado original coisas e nomes, homens e suas ações e costumes; é, finalmente, para combater o preconceito, a hipocrisia e a falsidade em todas as nações, em todas as classes da sociedade e em todos os departamentos da vida. A tarefa é laboriosa, mas não impraticável, nem inútil, mesmo como uma experiência. "Assim, para uma tentativa de tal natureza, não poderia ser encontrado título melhor do que o escolhido. "Lúcifer" é a pálida estrela da manhã (...) Não há símbolo mais apropriado para o trabalho proposto o de lançar um raio de verdade em tudo o que está escondido pela escuridão do preconceito, pela interpretação social ou religiosa incorreta e, sobretudo, por aquela rotina idiota na vida, por meio da qual, uma vez que uma certa ação, coisa ou nome, tenham sido estigmatizados por invenções caluniosas, por mais injustas que sejam, faz com que as, assim chamadas, pessoas respeitáveis lhes dêem as costas tremendo, recusando-se até mesmo a olhar para eles sob qualquer outro ângulo que não seja o sancionado pela opinião pública. Um tal empreendimento, para forçar os pusilânimes a olhar a verdade diretamente no rosto, é auxiliado de forma mais eficaz por um título que pertence à categoria dos nomes estigmatizados." (CW VIII, p.5 ou "O Que Há Num Nome?") O período de maior associação de Mabel Collins com o trabalho da ST foi quando esteve formalmente como co-editora de Lucifer, que vai desde sua fundação em setembro de 1887, até outubro de 1888. A sua aproximação de HPB já começara meses antes. Basta relembrar que Maycot, a casa em que HPB morou entre maio e setembro de 1887, era dela. No início de 1887, apareceu mais um pequeno livro de autoria de Mabel Collins, Pelas Portas de Ouro, que ela revelou ter sido escrito da mesma maneira que o Idílio do Lótus Branco, ou seja, ditado por um "Visitante". (CW VIII, p. 430) Na segunda edição de Pelas Portas de Ouro, Mabel Collins acrescentou uma nota, falando: É interessante notarmos que HPB e Mabel Collins só haviam se encontrado um pouco antes do retorno de HPB da Europa para a Índia, em 1884. Nessa época o Idílio havia sido recém escrito. De acordo com HPB, elas só voltaram a se encontrar em 1887, em Londres. Do que lemos das descrições dos Keightleys referentes a época em que moraram com HPB em Maycot, vemos que embora a casa fosse de Mabel Collins, não há indicações de que ela costumava freqüentar a casa. Isso parece indicar que o elo maior de ligação entre as duas era o próprio Mestre Hillarion. Os "comentários" de Luz no Caminho, inexistentes quando o livro apareceu, foram originalmente publicados em Lucifer, nas edições de setembro a novembro de 1887 e de janeiro de 1888 e mais tarde passaram a fazer parte do livro. Aparentemente eles também são de autoria do Mestre Hillarion, pois em Lucifer vinham assinados apenas com um triângulo. (CW VIII, p. xxiii) Uma outra história de autoria de Mabel Collins, The Blossom and the Fruit A Tale of Love and Magic [A Flor e o Fruto Um Conto de Amor e Magia], foi publicada em capítulos em Lucifer, desde seu primeiro número, em setembro de 1887, até agosto de 1888. O personagem principal dessa história é Fleta, que numa encarnação anterior havia sido uma maga negra, e agora tenta atrair um companheiro de muitas vidas passadas para que ele também fique sob a influência de Ivan, um membro da Grande Fraternidade Branca, que está tentando ajudar Fleta. Mas nessa trajetória Fleta muitas vezes retorna aos seus velhos ritos e poderes. Entretanto, a história tomou esse rumo porque HPB interveio, alegando que Mabel Collins estava seriamente começando a enganar o leitor, pois: Quando HPB criou a Seção Esotérica, em outubro de 1888, Mabel Collins pediu ingresso, que foi inicialmente negado, até que ela implorou a HPB que lhe permitisse fazer parte. Na verdade Mabel Collins não tinha uma real compreensão dos objetivos da trabalho da ST. Como HPB escreveu para o juiz Khandalavala: "Até hoje ela (MC) não conhece nada de filosofia, nem gosta disso." (Gomes, p. 194) Mais adiante, no começo de 1889, Mabel Collins não apenas passou a negar que seus trabalhos tivessem sido feitos sob qualquer tipo de inspiração especial, mas começou a dizer que suas afirmações anteriores nesse sentido haviam sido feitas a pedido de HPB. Em julho de 1889, sob influência do Prof. Elliot Coues, Mabel Collins entrou com uma ação na justiça contra HPB, por calúnia e difamação. Quando o caso foi a julgamento, em julho de 1890, o advogado de HPB mostrou uma certa carta de Mabel Collins para HPB, para o outro advogado. Esse pediu então à corte para retirar o caso, o que foi feito. (CW VIII, p. 432) Lansdowne Road A condessa Wachtmeister chegou da Suécia em agosto de 1887, reunindo-se a HPB e os Keightleys em Maycot. Como a casa era pequena e distante do centro de Londres, eles decidiram mudar-se para um local mais central. A condessa fala da mudança: O primeiro volume da Doutrina foi publicado em 20 de outubro de 1888 e o segundo volume no final de dezembro ou em janeiro de 1889. Archibald, a pedido de HPB, havia ido para a 1ª Convenção da Seção Americana, em Chicago. Assim que ele voltou, em fevereiro de 1889, HPB lhe deu os dois volumes publicados, escrevendo no primeiro volume uma dedicatória que revela seu carinho por ele: "Para Archibald Keightley, um verdadeiro teosofista o amigo, auxiliar, irmão e filho oculto, de sua verdadeira e fiel até seu último éon H.P. Blavatsky." (CW IX, p. 431) E no segundo volume, escreveu: "Para Archibald Keightley, meu verdadeiramente amado amigo e irmão, e um dos zelosos editores desse trabalho; e possam esses volumes, quando a autora estiver morta e partido, lembrá-lo daquela cujo nome na presente encarnação é H.P. Blavatsky. Meus dias são meus Pralayas [períodos de dissolução, obscurecimento ou repouso], minhas noites meus Manvantaras. [o oposto de Pralaya, i.e., períodos de atividade] HPB." (CW IX, p. 431) A mudança para a casa na Lansdowne Road propiciou que outras pessoas integrassem a equipe de ajudantes, como G.R.S. Mead e D.E. Fawcett. Archibald escreve que, quando retornou da América, mais trabalhadores haviam se incorporado à casa, e havia trabalho para todos. E na casa: George R.S. Mead George Robert Stowe Mead nasceu em 22 de março de 1863, em Nuneaton, Inglaterra. Iniciou seus estudos em Matemática, mas logo depois mudou para línguas e literatura clássicas, obtendo um conhecimento de Grego e Latim que lhe seria de grande valor nos anos seguintes. Logo após graduar-se em Cambridge, em 1884, entrou para a ST. Por esta época leu o livro de Sinnett, Budismo Esotérico e associou-se a Bertram Keightley e Mohini Chatterji. (CW XIII, p. 393) Mead encontrou com HPB pela primeira vez em 1887, indo trabalhar com ela em agosto de 1889, como seu secretário, cargo que ocupou até o final da vida de HPB. Na ocasião três anos após a publicação do relatório final da SPR, ainda havia uma grande suspeita pública pairando no ar, pois "o público em geral daquela época, acreditando na impossibilidade de todos os fenômenos psíquicos, naturalmente condenou HPB sem qualquer questionamento." (Mead, p. 7) Entretanto, sua convivência com HPB logo lhe mostrou uma imagem que contradizia completamente aquela que o relatório da SPR apresentava. Mead relata que foi trabalhar com ela: "Ela freqüentemente era muitíssimo imprudente em suas declarações, e se estivesse brava falaria sem pensar qualquer coisa que pudesse vir em sua cabeça, não importando quem estivesse presente. Ela não parecia se importar com o que qualquer pessoa pudesse pensar, e algumas vezes iria se incriminar de todo tipo de coisas defeitos e fracassos mas nunca, sob quaisquer circunstâncias, mesmo em seus mais exaltados estados de espírito, ela pronunciou uma sílaba que de qualquer modo pudesse confirmar as especulações e acusações do Dr. Hodgson. Eu estou convencido de que se ela fosse realmente culpada das coisas que lhe acusavam a esse respeito, ela não poderia ter deixado escapar, em uma ou outra de suas freqüentes explosões ou confidências, alguma palavra ou indicação de uma natureza incriminatória." (Mead, p. 7) Dos 17 livros que Mead publicou, apenas dois tratam exclusivamente de assuntos relacionados com a filosofia oriental: The World Mistery ("O Mistério do Mundo"), quatro estudos em religiões comparadas publicado em 1895, e uma edição dos Upanishads, que ele traduziu e publicou em 1896. Com exceção desses dois trabalhos, todo o trabalho de Mead está relacionado com o Ocidente antigo e sete de seus livros tratam especificamente do Gnosticismo ou textos Gnósticos, começando com Simon Magus ("Simão Mago") em 1892. (Goodrick-Clarke, p. 138) Em 1890 Mead traduziu para o Inglês o texto Pistis-Sophia, a partir da versão em Latim de M.G. Schwartze, que fora feita diretamente do manuscrito copta original, no Museu Britânico. Ele publicou 252 páginas, com comentários e notas explicativas em Lucifer, entre abril de 1890 e maio de 1891, com notas adicionais de HPB. (CW VIII, p. 238) Em 1896, Mead revisou toda a tradução do texto e o publicou em forma de livro, sem as notas adicionais de HPB. Após a morte de HPB, Mead e Besant ficaram como editores de Lucifer. Em 1898, Mead mudou seu nome para The Theosophical Review, passando a ser seu único editor. Em 1899 ele casou-se com Laura Cooper, irmã de Isabel Cooper-Oakley Besant e Mead publicaram em junho de 1897 o chamado volume III da DoutrinaSecreta, que na edição brasileira, de 6 volumes, corresponde aos dois últimos. Nesse 3° volume eles incluíram escritos não publicados e ensinamentos esotéricos que HPB havia escrito para os membros da Seção Esotérica. Há muitos estudiosos que consideram que esse material publicado não fazia parte da Doutrina Secreta, e que o "verdadeiro" terceiro volume que HPB prometera escrever teria se perdido, nunca tendo sido publicado. (Caldwell) Aparentemente, grande parte do material publicado fazia parte do primeiro manuscrito da Doutrina e que na reorganização feita pelos Keightleys, ficou de fora dos dois primeiros volumes. Um exemplo disso é o material que diz respeito à vida de grandes Adeptos, como Simão Mago, São Paulo, Pedro, Apolônio de Tiana, São Cipriano de Antioquia, Gautama Buddha e Tsong-kha-pa. Bertram Keightley, que conhecia bem o material da Doutrina, desde seu primeiro manuscrito afirmou, quanto ao que HPB pretendia para o terceiro volume, que: "todo esse material foi publicado no terceiro volume, o qual contém absolutamente tudo que HPB deixou em manuscritos." (Caldwell) Mead foi também o responsável pelos preparativos e pelo discurso na cerimônia da cremação de HPB, em 11 de maio de 1891, onde disse: "HP Blavatsky está morta, mas HPB, nossa instrutora e amiga está viva, e viverá para sempre em nossos corações e memórias." (In Memory, p. 8) Num artigo de 1904, ele demonstra o quanto ela ainda estava viva dentro dele, ao escrever: Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings[CW], vol VI, VII, VIII, IX, XIII. TPH, Wheaton, 1977. Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett. TUP, Pasadena, 1973. Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky. The Blavatsky Archives (BA), 1999. http://blavatsky.cc Blavatsky, H.P. "O Que Há Num Nome?" http://www.blavatsky.net/portuguese/oqueha.htm Caldwell, D. "The Mith of the "Missing" Third Volume of The Secret Doctrine". BA, 1999 Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement. TPH, Adyar, 1978. Collins, M. Through The Gates of Gold Theosophy Company, Bombay,1984 Goodrick-Clarke, C. Theosophical History, vol. 4, n° 4-5, January 1993. Gomes, M. Theosophical History, vol. 3, n° 7-8, July-October, 1991. Keightley, A. Reminiscences of HP Blavatsky. BA, 1999. Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom, 1st Series. TPH, Adyar, 1973. Mead, G.R.S. Concerning HPB. Kessinger Publishing Company, Montana, USA, Murphet, H. When Daylight Comes TPH, Wheaton, 1988 Sinnett, A.P. Autobiography of Alfred Percy Sinnett. Theosophical History Centre, London, 1986. Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. Blavatsky, 1886. Kessinger Publ.Co, Montana. Some of her Pupils, In Memory of HPB. TPH, London, 1991 Wachtmeister, C. Reminiscences of H.P. Blavatsky and The Secret
Doctrine. TPH, Wheaton, 1976
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