Swami Subba Row
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
16, dezembro/2000)
Subba Row divide com Damodar a honra de ter sido um dos dois mais destacados
membros indianos dos primeiros tempos da ST. Por seu intelecto brilhante
e seus conhecimentos ocultos, ele era carinhosa e respeitosamente chamado
de Swami (Instrutor) Subba Row. Devido a sua firme postura de negar-se
a falar sobre os Mestres, especialmente com Hodgson, também divide
com Damodar e Bowajee a responsabilidade por "dois terços dos
"mayas" do Sr. Hodgson." (Inf. HPB 15, p. 3) Apesar de ter participado
da ST apenas de 1882 a 1887, Subba Row exerceu um papel importante nesses
primeiros tempos. Nesse Informativo
HPB vamos conhecer um pouco de sua vida, seu trabalho na
ST e suas relações com HPB.
Taraka Raja Yoga
O Sr. Tallapragada Subba Row nasceu em 6 de julho de 1856 no distrito
de Godavari, na região de Coromandel, na costa oriental do
sul da Índia. Sua família era de brâmanes Advaitas,
que falavam o Telugu e eram influentes na região. Seu pai
morreu quando ele tinha 6 meses de idade, ficando seu avô e tio maternos
responsáveis por sua educação.
Ele começou a se destacar nos estudos aos 16 anos, quando entrou
para o Presidency College, formando-se em 1876, com o 1° lugar
da classe. Nesse ano casou-se com Sundaramma, filha de sua tia materna.
Estudou Direito na Universidade de Madras, e logo tornou-se um destacado
advogado. Poderia ter ganho muito dinheiro nessa profissão, se não
fosse a irresistível atração que sentia pela filosofia
oculta, à qual dedicou a maior parte de sua atenção
até o final de sua curta vida, em 1890.
Subba Row adotava como sistema filosófico espiritual a Taraka
Raja Yoga: "Um dos sistemas de Yoga dos brâmanes para o desenvolvimento
do conhecimento e dos poderes puramente espirituais que conduzem ao Nirvana.
É o sistema mais filosófico e, de fato, o mais secreto de
todos, uma vez que seus verdadeiros ensinamentos jamais foram publicamente
revelados." (Glosario, p. 775) Nas palavras de Subba Row:
"Taraka Raja Yoga é, como se fosse, o
centro e o coração da filosofia Vedanta, uma vez que, em
seus aspectos mais elevados, é decididamente a parte mais importante
da antiga Religião-Sabedoria. Atualmente, se conhece muito pouco
dele na Índia. O que usualmente se vê nos livros comumente
lidos, dá apenas uma idéia muito inadequada de seu alcance
ou de sua importância. Na verdade, entretanto, é um dos sete
principais ramos nos quais toda a ciência oculta é dividida,
e é derivado, de acordo com todas as narrativas, dos "filhos da
chama" da misteriosa terra de Shamballa." (EW, p. 364)
Primeiro Encontro de HPB com
Subba Row
Em setembro de 1881 Subba Row escreveu um artigo para o The Theosophist
sobre os doze signos do zodíaco e suas antigas raízes hindus.
Apresenta o significado esotérico de cada um dos signos, seus correspondentes
ocidentais e suas relações com as forças na natureza.
(EW, p. 3-19). HPB e Olcott haviam recém chegado à
Índia, estabelecendo-se em Bombay, onde Damodar unira-se a eles.
O artigo deu início a uma correspondência de HPB e de Damodar
com Subba Row. Em 3 de fevereiro de 1882, ele escreveu para HPB:
"Penso que é altamente recomendável que você viesse
aqui, se as circunstâncias permitirem, quando o coronel Olcott vier
para cá de Calcutá. Sem dúvida estou, individualmente,
muito ansioso para vê-la; mas esta não é a razão
importante para lhe pedir que venha. Embora nenhum ramo da Associação
Teosófica tenha sido estabelecido aqui ainda, há um bom número
de cavalheiros que sinceramente simpatizam com seus propósitos e
objetivos, e que ficariam muito felizes de vê-la. Eles conhecem muito
pouco do coronel Olcott, exceto o que captaram de suas palestras públicas.
Mas sua "Ísis Sem Véu" deixou uma impressão
muito forte em suas mentes." (LBS, p. 316)
De acordo com Olcott, foi a partir do primeiro encontro de Subba Row com
HPB que esse soube que seu Guru era o Mestre Morya. E que, a partir daí,
novas portas de percepção oculta se abriram para Subba Row,
com o início dos contatos entre ele e seu Mestre. Olcott relata:
"Foi como se um depósito de experiência oculta, há
muito esquecida, tivesse sido subitamente aberto para ele; vieram lembranças
de seu último nascimento; reconheceu seu Guru e daí por diante
manteve contato com Ele e com outros Mahatmas; com alguns, pessoalmente,
em nossa Sede, com outros, em outros lugares e por correspondência.
Ele disse à sua mãe que HPB era uma grande Iogue e que havia
visto muitos fenômenos estranhos em sua presença." (Eek,
p. 662).
Entretanto, podemos perceber na literatura que Olcott não estava
correto ao fazer tais afirmações. Em carta do Mestre M. para
Sinnett, de fevereiro de 1882, fica claro que Subba Row já estava
em contato com seu Guru antes desse primeiro encontro com HPB, ocorrido
em abril de 1882. Esse equívoco pode ser constatado pela maneira
familiar e pelo contato direto do Mestre M. com Subba Row, como vemos na
carta em que o Mestre aconselha a Sinnett que ele tivesse paciência
com Subba Row, que estava absorvido em suas práticas religiosas,
ou "tapas", e não deveria ser perturbado, lhe dizendo: "Dê-lhe
tempo. (...) Eu lhe direi que não descuide de você, mas ele
é muito cioso e considera ensinar a um inglês como um sacrilégio."
(Mlcr., p. 129)
Algumas pessoas questionam por que um brâmane ortodoxo, cioso
dos ensinamentos ocultos, para quem divulgá-los a ocidentais era
um sacrilégio, entrou para a ST. A resposta deve estar exatamente
no fato dele ser um chela e, como tal, estar cumprindo ordens de
seu Guru. Ele filiou-se à ST em 25 de abril de 1882, poucos dias
após encontrar-se com HPB e Olcott em Madras, "sozinho, privadamente,
por alguma insondável razão de mistério" (ODL
II, p. 343) Talvez essa "insondável razão de mistério"
esteja justamente relacionada com o fato de que ele já não
era uma pessoa comum, mas um chela.
Adyar: Os Jardins de Huddlestone
No início de maio HPB e Olcott partiram de Madras para Nellore,
numa viagem que levava dois dias de barco. No primeiro barco iam apenas
os dois com Babula e a tripulação e, num outro, alguns dos
melhores amigos de Madras. Olcott diz que, em todos os anos de relacionamento
com HPB, é essa viagem que guarda os momentos mais tranqüilos
que tiveram juntos, principalmente porque ela estava de bom humor e gozando
de boa saúde. Ele escreve:
"Querida, saudosa amiga, companheira, colega, instrutora, camarada:
ninguém podia ser mais exasperante em seus piores momentos, ninguém
era mais adorável e admirável em seus melhores. (...) Esta
página aberta de meu diário (...) me traz de volta à
memória (...) uma imagem de HPB em seu roupão surrado, sentada
em seu compartimento em frente ao meu, fumando cigarros, sua enorme cabeça
com seus cabelos marrons, crespos, caindo sobre a página que estava
escrevendo, sua testa cheia de rugas, um olhar de pensamento introspectivo
em seus olhos azuis claros, sua mão aristocrática deslizando
a caneta rapidamente sobre as linhas e não se ouvindo nenhum ruído,
a não ser a música líquida das pequenas ondas contra
as laterais do barco". (ODL II, p. 349-350)
Em 31 de maio, já de volta a Madras, HPB e Olcott foram levados
pelos dois filhos do juiz Muttuswamy para ir ver uma propriedade que estava
à venda, nas margens do rio Adyar. À primeira vista eles
souberam que haviam encontrado seu futuro lar. Em suas viagens pela Índia
e Ceilão, Olcott estava sempre em busca de um local melhor para
ser a Sede da Sociedade e, embora várias casas lhe tivessem sido
oferecidas no Ceilão, nada ainda havia sido resolvido.
Essa propriedade conhecida como os "Jardins de Huddlestone" tinha 11
hectares (27 acres) e estava sendo vendida por um preço muito barato,
devido à recente abertura da estrada de ferro de Madras até
a base das montanhas Nilgiri, que fez com que a viagem de Madras até
a vila de Ootacamund (Ooty) levasse apenas um dia. Os oficiais ingleses
que no verão fugiam do intenso calor de Madras compraram propriedades
nas montanhas, deixando seus grandes bangalôs nos arredores de Madras
vazios e sem compradores. Os "Jardins de Huddlestone" era uma dessas propriedades.
Com a ajuda de P. Iyaloo Naidu que adiantou parte do dinheiro, e do
juiz Muttuswamy Chetty que assumiu um empréstimo para pagar o restante,
a compra da propriedade foi efetuada. Com as doações recebidas,
em um ano os empréstimos haviam sido pagos. (ODL II, p. 361)
HPB e Olcott ficaram em Madras até 6 de junho de 1882, quando
voltaram para Bombay, deixando Subba Row como secretário do recém
formado ramo da ST em Madras. Olcott revela que um dos fatores que pesou
na escolha de Madras como Sede da Sociedade foi a presença de Subba
Row nessa cidade. (ODL II, p. 362) A importância que Subba
Row dava a essa região fica clara numa carta de fevereiro de 1882
para HPB, onde ele escreve:
"O pouco de ocultismo que ainda subsiste na Índia está
centrado nesta região de Madras; (...). O grande reviver da Yoga
Vydia na época de nosso grande Sankaracharia teve sua origem
nessa parte da Índia; e desde aquela época até os
dias de hoje, o sul da Índia nunca teve o infortúnio de ser
desertado por todos os seus iniciados." (LBS, p. 318)
Os Conhecimentos Metafísicos
de Subba Row
Ao escrever sobre a vida de Subba Row, Olcott relata que quando perguntou
à sua mãe sobre o desenvolvimento dos conhecimentos místicos
de seu filho, ela lhe disse que a primeira vez que ele falou sobre metafísica
foi após o contato com os fundadores, em 1882, em Madras. (Eek,
p. 662). Olcott escreve:
"Seu conhecimento armazenado de literatura sânscrita lhe voltou,
e seu cunhado me disse que se você recitasse qualquer verso do Gita,
Brahma-Sutras ou Upanishads, ele podia imediatamente lhe
dizer de onde havia sido retirado e em que contexto empregado. (...) Ao
conversar ele era muito brilhante e interessante; uma tarde ao seu lado
era tão edificante quanto a leitura de um bom e profundo livro."
(Eek, p. 663)
Entretanto, na época da criação da biblioteca de Adyar,
em 1886, Subba Row contou a Olcott que "um terço de sua vida
é passada num mundo do qual sua própria mãe não
tem a menor idéia." (ODL III, p. 394). Isso nos indica
que novamente Olcott pode ter se enganado nas suas conclusões, ao
supor que o conhecimento oculto de Subba Row havia subitamente voltado
após o encontro com HPB. Ainda em fevereiro de 1882, antes de encontrar-se
pessoalmente com HPB, Subba Row demonstra já possuir tais conhecimentos,
ao escrever:
"Para lhe falar a verdade, minha "sincera crença" é
que a Índia ainda não perdeu seus adeptos e seu "NOME
INEFÁVEL" – a Palavra
perdida! A Índia ainda não está espiritualmente
morta embora esteja rapidamente morrendo. Ainda temos homens
serenos entre nós (...) aqueles que quase alcançaram as praias
do oceano do Nirvana. (...) É apenas para os que crêem sinceramente
na Yoga Vidya e na existência de Adeptos, que esses austeros
místicos estão acessíveis. Mesmo se um teosofista
inglês como o Sr. Hume, por acidente, se encontrasse com um desses
homens, ele logo colocaria sua filosofia em prova. Sua aparência
externa seria revoltante para o refinado gosto de um cavalheiro inglês.
Aparentemente – seu comportamento seria aquele de um louco ou de
um idiota, e ele falaria bobagens ininteligíveis de propósito,
para afastar o visitante." (LBS, p. 316)
Numa carta para HPB, em agosto de 1882 – apenas quatro meses após
conhece-la pessoalmente – falando de seus próprios conhecimentos,
Subba Row escreve:
"Quanto ao adeptado, sei muito bem o quão distante estou dele.
Até agora não ouvi falar de ninguém em minha posição
que tivesse tido sucesso em se tornar um Adepto. Mesmo na prática
conheço muito pouco de nossa Antiga Ciência Arcana." (LBS,
p. 321)
Porém a frase em itálico foi sublinhada pelo Mestre KH, que
acrescentou o seguinte comentário: "Isto não é
bem assim. Ele conhece muito para qualquer um de vocês."
O Ocultismo Exige Tudo ou
Nada
Subba Row recusava-se a ministrar treinamento espiritual a qualquer
um que não estivesse adequadamente preparado. Por exemplo, ele enfaticamente
recusou-se a treinar Subrahmania Iyer, seu amigo e colega de tribunal,
porque esse não realizava as observâncias religiosas diárias
prescritas. (Ramanujachary, p. 22) Além disso, como um brâmane
ortodoxo, acreditava que ensinar a ocidentais era um sacrilégio.
Porém, HPB queria que Sinnett, como recompensa de sua dedicação
e amizade, recebesse ensinamentos de Subba Row. Para tanto, começou
uma verdadeira campanha, tanto com pedidos ao próprio Subba Row,
quanto ao Guru de ambos, o Mestre M. A esse respeito, o Mestre KH escreve
para Sinnett:
"Pobre Subba Row está "num dilema" – e é por isso que
ele não lhe responde. Por um lado ele tem a indomável HPB
que atormenta a vida de Morya para lhe recompensar, e o próprio
M. que se pudesse gratificaria suas aspirações; de outro
lado ele encontra a intransponível muralha da China das regras e
da Lei." (Mlcr., p. 156)
Como Sinnett não conseguia compreender nem mesmo os primeiros princípios
do treinamento de um chela, o Mestre lhe aconselha a não
assumir, na ocasião:
"uma tarefa além de suas forças e capacidades; pois
uma vez compromissado se quebrar sua promessa, isso o afastaria por
anos, se não para sempre, de qualquer progresso futuro. Eu disse
desde o início para Rishi "M" que sua intenção
era boa, mas seu projeto precipitado. Como pode você, em sua
posição, empreender qualquer trabalho desse tipo? O Ocultismo
não deve ser tomado sem a devida seriedade. Ele exige tudo
ou nada." (Mlcr., p. 155)
O Mestre KH também lhe diz que sabia que Subba Row "nunca
consentirá em vir para Simla. Mas se ordenado por Morya ele ensinará
de Madras, i.e., corrigirá os manuscritos, como M. fez, comentará
sobre eles, responderá perguntas e será muito, muito
útil. Ele tem uma perfeita reverência e adoração
por HPB." (Mlcr., p. 158) Esses sentimentos ficam claros numa
carta que Subba Row escreveu para HPB, quando ela estava na Europa:
"A Sociedade não pode se dar ao luxo de perde-la. Quanto a
mim, sinto-me muito sozinho e desconfortável em sua ausência,
e espero que, assim que for possível, você nos faça
saber a data de sua partida. Após receber as ordens de nosso
Mestre, penso que seria recomendável enviar para cá o Coronel
Olcott alguns dias antes." (LBS, p. 322)
Talvez diante da insistência de HPB, o Mestre M. acabou ordenando
a Subba Row que desse instruções a Sinnett. Assim, em maio
de 1882, Subba Row lhe escreve:
"Várias vezes me foi solicitado nos últimos três
meses, por Madame Blavatsky, que lhe desse tais instruções
práticas em nossa Ciência oculta, conforme me seja permitido
dar para alguém em sua posição; e agora sou ordenado
por ... [M.] a ajudá-lo, até certo ponto, a erguer uma parte
do primeiro véu de mistério." (Mlcr., p. 154)
E continua dizendo que, para tanto, era preciso que Sinnett concordasse
com algumas condições. Subba Row lhe pede "sua palavra
de Honra de que nunca revelará a ninguém, pertencendo ou
não à Sociedade Teosófica, os Segredos que lhe forem
comunicados, a menos que receba minha autorização prévia
para faze-lo." E lhe adverte que: "qualquer coisa como um estado
de mente oscilante com relação à realidade da Ciência
Oculta e a eficácia do processo prescrito provavelmente impedirá
a produção do resultado desejado." (Mlcr., p.
154)
Subba Row também diz que era necessário que Sinnett agisse
estritamente de acordo com essas instruções, e alterasse
seu modo de vida para estar em conformidade com as mesmas. Esse era um
ponto onde Subba Row via grandes dificuldades, pois considerava que Sinnett
não estava preparado para esse compromisso. Ele escreve para HPB
sobre essa questão, revelando nessa carta sua apreensão bem
como seu enorme conhecimento de ocultismo prático:
"Sem dúvida lhe causaria considerável transtorno se
ele fosse obrigado a mudar completamente seu modo de vida. Você verá
pelas cartas que ele está muito ansioso em conhecer de antemão
a natureza dos Siddhis, ou poderes de realizar prodígios,
que se espera que ele obtenha pelo processo ou ritual que eu pretendo lhe
prescrever.
"O poder ao qual ele será introduzido pelo processo em questão
sem dúvida lhe desenvolverá maravilhosos poderes clarividentes,
tanto em relação à visão quanto ao som em algumas
de suas mais elevadas correlações". (Mlcr., p. 155)
O ponto de vista de Subba Row acabou prevalecendo sobre a vontade de HPB.
Em 26 de junho de 1882, ele escreve para Sinnett que, após "uma
consulta aos Irmãos, para suas opiniões e ordens", concluíram
que não seria possível qualquer instrução prática
na Ciência Oculta, pois:
"Até onde vai meu conhecimento, nenhum estudante de Filosofia
Oculta jamais teve sucesso em desenvolver seus poderes psíquicos
sem levar a vida prescrita para tais estudantes; e não está
dentro do poder do instrutor fazer uma exceção no caso de
qualquer estudante. As regras estabelecidas pelos antigos instrutores de
Ciência Oculta são inflexíveis (...) Se você
acha impraticável mudar seu atual modo de vida, você não
pode senão esperar por instruções práticas
até que você esteja numa posição de fazer tais
sacrifícios como os que a Ciência Oculta requer; e, pelo momento,
deve se satisfazer com as instruções teóricas que
for possível lhe dar.
"Quase não é necessário, agora, lhe informar se
as instruções prometidas em minha primeira carta, sob as
condições ali estabelecidas, iriam desenvolver em você
tais poderes que lhe permitiriam tanto ver os Irmãos quanto conversar
com eles clarividentemente. O treinamento oculto, seja como for que comece,
irá no devido tempo necessariamente desenvolver tais poderes. Você
estará adotando uma visão muito vulgar da Ciência Oculta
se fizer a suposição de que a mera aquisição
de poderes psíquicos é o mais elevado ou o único resultado
desejado do treinamento oculto." (Mlcr., p. 164)
O Protesto dos Chelas
Se para Sinnett as condições já eram difíceis
de serem seguidas, para seu amigo Hume, cujo envolvimento com HPB era bem
menor, isso era quase impossível. Em agosto de 1883, Hume escreveu
uma carta para HPB criticando duramente Ísis Sem Véu
– que para ele estava repleta de erros – e aos Mestres, a quem ele chamava
de "asiáticos egoístas" (LBS, p. 29). Hume
dizia que os métodos dos Mestres "eram tão repulsivos
que, por mais de uma vez, ele estivera a ponto de encerrar" suas relações
com Eles para sempre. (Mlcr., p. 244) Hume assinava a carta como
"H.X.". HPB escreve que sua vontade era jogar a carta no fogo, mas não
o fez porque:
"KH mandou um recado por Morya que ele, de modo incondicional, o queria
publicado e eu, é claro, tive tão somente que ficar quieta.
Mas no final ele receberá um belo protesto de Subba Row e sete ou
mais chelas, e se fará detestado por todos os hindus
que acreditam nos Irmãos". (LBS, p. 29)
A carta de Hume foi publicada no The Theosophist de setembro
de 1883 seguida do protesto assinado por doze chelas, entre eles
Subba Row, Damodar e Darbhagiri Nath (Bowajee). A publicação
da carta foi precedida por um editorial de HPB, onde ela escrevia que estava
publicando a carta de "H.X." sob forte protesto pessoal, e que só
o fazia porque esse era o desejo dos Mestres, os quais ligavam tanto para
opinião pública "quanto a grande pirâmide liga para
o vento quente do deserto batendo sobre seu topo envelhecido." (CW
IV, p. 227)
Numa carta para Sinnett, o Mestre KH diz que não tinha o direito
de suprimir o artigo "ofensivo" por várias razões. Primeiro,
porque desde o momento que haviam autorizado que Seus nomes fossem associados
à ST e levados ao público tinham que assumir as penalidades
daí resultantes. Assim sendo, o Mestre diz que tinham que "permitir
a expressão de toda opinião, seja benevolente ou malevolente;
e nos sentirmos, num dia, agudamente criticados; no outro, "proclamados";
no seguinte, idolatrados; e, no quarto dia, pisoteados na lama." (Mlcr.,
p. 248)
Em segundo lugar, porque Ele estava obedecendo ao próprio Chohan,
que havia ordenado a publicação da carta de Hume e do "protesto"
dos chelas, o qual também fora escrito sob Suas ordens. As
duas assinaturas que encabeçam a lista, de Devi Muni e Paramahansa
Shub-Tung, são de chelas diretamente ligados ao Chohan. No
protesto, os chelas declaram sua devoção sem limites
aos Mestres, o que para os europeus era como uma escravidão, e sugerem:
"As raças ocidentais, entretanto, fariam bem em lembrar-se
que se alguns dos pobres asiáticos chegaram a uma tal altura de
conhecimento com relação aos mistérios da natureza,
foi somente devido ao fato de que os Chelas sempre seguiram cegamente
os ditames de seus Mestres, e nunca se colocaram acima, ou mesmo tão
alto quanto seus Gurus. O resultado foi que cedo ou tarde eles foram recompensados
por sua devoção, de acordo com seus respectivos méritos
e capacidades por aqueles que, devido a anos de auto-sacrifício
e devoção a seus Gurus se tornaram, por sua vez, ADEPTOS."
(CW IV, p. 229)
Esse clima de real liberdade de expressão, não só
no discurso, mas também na prática, que os Mestres estavam
requerendo, era uma característica marcante daquela época..
No episódio envolvendo Anna Kingsford e Maitland na Loja de Londres,
quando eles protestaram contra a maneira submissa e a idolatria que os
membros, liderados por Sinnett, estavam desenvolvendo com relação
aos Mestres, Subba Row foi encarregado por seu Mestre a escrever uma resposta
aos dois, publicada em janeiro de 1884. (Inf.
HPB 8) Nessa carta à Loja de Londres, ele ressalta
essa questão da liberdade dentro da ST:
"Mas nenhum membro é permitido, pelas regras da Associação,
forçar suas próprias opiniões ou crenças individuais
sobre seus companheiros, ou insistir que elas sejam aceitas por eles. A
Sociedade não constitui um corpo de instrutores religiosos, mas
simplesmente uma associação de investigadores e buscadores.
"Estes são os princípios que estão definitivamente
estabelecidos para a orientação a Sociedade Teosófica,
com a aprovação e beneplácito de grandes Iniciados
dos Himalaias, os quais são seus reais fundadores.(...) Se o Sr.
Sinnett positivamente proibiu qualquer expressão de discordância
ou de crítica a seu livro, ou "de sua suprema autoridade", como
se alega na carta sob exame, ele está, sem dúvida, agindo
contra as Regras da Sociedade. (...) O Sr. Sinnett tem tanto direito a
explicar seu Budismo Esotérico aos membros da Loja de Londres, quanto
a Sra. Kingsford e o Sr. Maitland têm de explicar o seu significado
esotérico da simbologia cristã." (EW, p. 394-395)
Hume Tenta "Salvar" a Sociedade
Como já vimos, HPB havia chegado em Adyar, retornando da Europa,
em dezembro de 1884. Durante a Convenção, um comitê
composto para julgar se ela poderia ou não entrar na justiça
contra os Coulombs e os missionários decidiu impedi-la de tal ação.
Ela ficou muito doente e Olcott que havia ido para a Birmânia com
Leadbeater, retornou às pressas para Adyar. Graças à
intervenção do Mestre M. HPB melhorou subitamente e, no dia
10 de fevereiro de 1885 Olcott retornou à Birmânia para continuar
seu trabalho em prol do Budismo. (Inf.
HPB 15)
Na Sede em Adyar, devido à ausência de Olcott, o Comitê
Central novamente assumiu a administração. Entretanto, no
final de fevereiro, ainda na Birmânia, Olcott recebe notícias
de Hartmann, informando que o Comitê Central havia renunciado e que
alguns ramos ameaçavam se dissolver se não fosse autorizado
que HPB entrasse na justiça contra os missionários. (ODL
III, p. 223) Olcott escreve:
"HPB, com sua usual incongruência, me reprovou por tê-la
impedido – como ela disse, embora não tivesse sido eu, mas a Convenção
que fizera isso – de instaurar um processo contra eles; e me foram enviadas
cópias do mais recente panfleto dos missionários contra nós.
Como escrevi em meu diário, havia "algo hostil no ar"." (ODL
III, p. 223)
No dia seguinte chegou telegrama de Adyar, dizendo que HPB tivera uma recaída,
e pedindo que ele voltasse urgentemente. Olcott chegou em Adyar dia 19
de março, descobrindo que, em 14 de março, o Sr. Hume, pretendendo
"salvar" a ST, convocara uma reunião do Conselho para análise
de uma proposta. HPB conta o que aconteceu numa carta para Sinnett:
"O Sr. Hume quer salvar a Sociedade e encontrou um meio. (...)
ele propôs, para salvar a Sociedade (...) forçar Coronel Olcott,
seu presidente vitalício, Madame Blavatsky (...) etc., ao todo 16
pessoas, a renunciarem uma vez que todos eram impostores
e cúmplices, já que os Mestres não existiam
e muitos deles afirmaram que conheciam os Mestres independentemente
de mim. A Sede deve ser vendida e, em seu lugar, erguida um nova Sociedade
Teosófica Científico-Filosófico-Humanitária.
Eu não estava na reunião (...) Mas os conselheiros vieram
em grupo falar comigo após a reunião. Contudo, ao invés
de aceitar a proposta e declarar os fenômenos uma fraude (...) rejeitaram
a proposta, colocando-a de lado com desgosto. Todos eles acreditam nos
Mahatmas e nos fenômenos que testemunharam pessoalmente, mas não
permitirão mais que seus nomes sejam profanados. Os fenômenos
devem ser, daqui por diante proibidos e se eles realmente ocorrerem independentemente,
não se pode falar a respeito, sob pena de expulsão."
(Mlcr., p. 444)
Na mesma carta, HPB comenta uma ironia do destino: os conselheiros mal
terminaram de votar a resolução que não haveria mais
fenômenos na Sede, nem se falaria mais dos Mestres, quando, ainda
na sala de reuniões, Subba Row recebeu uma carta do Mestre M. em
sua língua nativa, o Telugu, a qual HPB desconhecia. Não
obstante, mantiveram a decisão. HPB era a única ligação
entre os membros europeus e os Mestres, mas para os hindus isso não
importava, pois:
"Dezenas deles são chelas, centenas Os conhecem,
mas, como no caso de Subba Row, eles prefeririam morrer do que falar de
seus Mestres. Hume não tirou nada de Subba Row, embora todos
saibam quem ele é. (...) Embora eles sejam leais a mim, e o serão
até o final, me acusam de ter profanado a Verdade e os Mestres,
por ter sido o meio para os livros O Mundo Oculto
e Budismo Esotérico." (Mlcr., p. 447)
Outras notícias ruins continuavam a chegar. No dia 17 de março,
um perito em caligrafia, Netherclift, havia declarado que a letra nas cartas
publicadas pelos missionários era de HPB. Os missionários
continuavam seu trabalho de difamação, editando e distribuindo
pelo país novos panfletos contra a ST e HPB. Ela escreve: "Eles
têm todas as vantagens sobre nós. Eles (os inimigos) trabalham
dia e noite, inundando o país com literatura contra nós,
e nós sentamos, imóveis, e apenas discutimos dentro da Sede."
(Mlcr., p. 447). E apesar de alguns, como os Oakleys lhe assegurarem
sua amizade, ela estava descrente. HPB escreve para Sinnett:
"Apesar de Hume, do amigo deles, Hodgson, e de todas as evidências,
os Oakleys não acreditam que eu seja uma impostora. Eles
têm total confiança nos Mestres; nada, dizem eles, fará
com que duvidem da existência deles (...) e, como eles dizem, são
meus melhores amigos. (...) Como posso acreditar que qualquer um
seja meu amigo nesse momento? É apenas aquele que sabe, da
mesma maneira que sabe que vive e respira, que nossos Mahatmas existem
e os fenômenos são reais, é que pode se solidarizar
comigo e olhar para mim como uma mártir; mas quem o faz?" (Mlcr.,
p. 447)
Hodgson e a Teoria da Espiã
Russa
Pouco antes de retornar para a Inglaterra, Hodgson já estava
convencido de que HPB havia realmente escrito as cartas publicadas pelos
missionários. HPB reclamava que Hodgson estava conduzindo suas investigações
de modo tendencioso. Ela escreve para Sinnett:
"Eu, junto com mil outros teosofistas, protestamos contra a maneira
e forma como as investigações são realizadas pelo
Sr. Hodgson. Ele interroga apenas nossos maiores inimigos – ladrões
como Hurrychund Chintamon (...) e tendo ele lhe mostrado algumas novas
cartas (!! eu devo ter escrito milhares!) recebidas por ele, como ele garante
a Hodgson, há 7 anos atrás da América. Hodgson copia
alguns parágrafos dessas cartas, que ele acredita serem os mais
prejudiciais, e constrói sobre isso uma teoria de que sou uma espiã
russa, além de ser uma impostora e de enganar Olcott desde
o início." (LBS, p. 75)
Hodgson afirmou ao Sr. Oakley que ele havia visto, numa carta de HPB para
Chintamon, uma frase onde ela lhe pedia: "Encontre-me alguns membros
que não sejam leais, mas desleais" ao governo
anglo-hindu. (LBS, p. 76) Para ele era uma evidência de que
ela era contra o governo. HPB diz sempre trabalhou para conciliar os hindus
com os ingleses e, se foi ela que escreveu estas palavras, as escreveu
em algum tipo de brincadeira. Ela lembrava que certa vez Chintamon lhe
havia perguntado sobre o governo russo, se ele era tão cruel quanto
o inglês com os povos que conquistava, ao que ela teria respondido:
"Possam os céus protegê-los e salvá-los do
governo russo. É melhor para cada hindu afogar-se imediatamente
do que estar algum dia sob o governo russo, ou palavras nesse sentido
– mas lembro-me perfeitamente do espírito com que as escrevi. E
ainda assim por causa dessa carta e de um certo papel que me foi roubado
por Madame Coulomb e que os missionários mostraram para ele, um
papel total ou parcialmente escrito numa escrita cifrada, diz ele,
o Sr. Hodgson tem publicamente me proclamado espiã russa."(LBS,
p. 76)
HPB explica que este papel só poderia ser um de seus manuscritos
em Senzar, a linguagem secreta utilizada pelos Iniciados. Os Coulombs
haviam roubado de sua mesa um papel de aparência suspeita, que entregaram
aos missionários garantindo-lhes que era um código usado
por espiões russos. Esses levaram "a prova" para a polícia,
que a mandou para análise em Calcutá, onde por cinco meses
os melhores especialistas tentaram descobrir o que significava, após
o que desistiram desapontados. (LBS, p. 76) Alguns, como Hume, achavam
que esse papel tinha apenas tolices, coisas sem importância. HPB
escreve a esse respeito para Sinnett:
"É um de meus manuscritos em Senzar. Tenho plena convicção
disso, pois uma das folhas de meu caderno com páginas numeradas
está faltando. Eu desafio qualquer um que não seja um ocultista
tibetano a decifrá-lo, se for isso. De qualquer modo, os missionários
fizeram o melhor que podiam para provar que eu era uma espiã russa,
e falharam – enquanto que o Sr. Hodgson me proclamou como tal publicamente.
"Será isso justo, ou nobre, ou honesto? Por favor, pergunte ao
Sr. Myers. E agora, pela teoria do Sr. Hume de que não há
Mahatmas, todo a Sede está comprometida. Nós somos todos
impostores e falsificadores da caligrafia do Mahatma KH." (LBS,
p. 76)
Devido à relação de amizade com HPB e ao seu grande
conhecimento esotérico, Subba Row também passou a ser considerado
como suspeito por Hodgson. O Mestre KH escreve: "E agora Hume e Hodgson
incitaram Subba Row à fúria lhe dizendo que, como um amigo
e companheiro ocultista de Madame B. o governo suspeitava que ele também
fosse um espião. É a história do "Conde
St. Germain" e Cagliostro contada novamente." (Mlcr., p. 449)
Essa não era a primeira vez que HPB era acusada de ser uma espiã
russa. Logo que ela e Olcott chegaram à Índia, ela era constantemente
vigiada por um detetive, que a seguia por todos os lados. (ODL II,
p. 82) Muito embora nunca nada tenha sido provado, essas acusações
sempre acompanharam a vida de Madame Blavatsky.
É interessante notarmos que, em julho de 1995, a Dra. Maria Carlson
publicou no Theosophical History uma carta que HPB teria escrito
para a polícia secreta russa, oferecendo seus serviços como
espiã. A carta havia sido originalmente publicada num respeitado
jornal de Moscou, por dois acadêmicos russos. A Dra. Carlson escreve:
"Apesar de aparecer durante o ano politicamente ambíguo de
1988, a publicação dessa carta sensacional tem o seu lugar
na mitologia que cresceu à volta de Mad. Blavatsky; ela tem sua
própria contribuição à documentação
contraditória e incongruente sobre a extraordinária vida
de Mad. Blavatsky. Tem havido considerável especulação,
ao longo dos anos, sobre o possível papel de espionagem na vida
de Mad. Blavatsky (era ela, ou não, uma espiã russa?), mas
nada nunca foi provado. Esta carta é a primeira indicação
de que pode haver, de fato, algum fundamento para a especulação,
embora a oferta de seus serviços aparentemente não foi aceita
pela polícia secreta russa." (Carlson, p. 226)
Ela também ressalta que na publicação da carta não
se fala nada sobre a verificação da caligrafia, apenas que
se encontrava nos arquivos da polícia secreta. E também que
há uma frase curta da polícia, datada de 27 de janeiro de
1873, dizendo: "Nenhuma ação foi tomada com relação
ao pedido de Madame Blavatskaia." (Carlson, p. 231)
A carta foi escrita em Odessa, datada 26 de dezembro de 1872. Nela HPB
se apresenta, fala da Societé Spirité que fundara
no Cairo, declara seu amor pela Rússia e oferece seus serviços
esclarecendo que: "Não estou motivada por cobiça, mas,
mais exatamente, pela proteção e assistência moral,
mais do que material." (Carlson, p. 229) É possível
que HPB tenha escrito a carta em reação à morte de
seu grande amigo, Agardi Metrovich, um revolucionário mazinista,
morto numa cilada em 1872, pouco antes dela retornar à Rússia.
(Inf. HPB n.º
5)
HPB Deixa a Índia para Não
Mais Voltar
Diante da acusação pública de espionagem, HPB resolveu
renunciar a seu cargo de Secretária Correspondente, para que a Sociedade
não fosse prejudicada. Ela escreve a Sinnett:
"Embora meus amigos, os Oakleys me aconselham a renunciar, enquanto
que os hindus dizem que sairão todos da Sociedade se eu o fizer.
Eu preciso renunciar, pois sendo considerada uma "Espiã Russa",
ponho em perigo a Sociedade. Essa é minha vida durante minha
convalescência, quando cada emoção, diz o médico,
pode se tornar fatal. Tanto melhor. Eu irei, então,
renunciar de facto." (Mlcr., p. 447)
Hodgson partiu para Londres em 26 de março de 1885. Poucos dias
depois, em 31 de março, gravemente doente, HPB partiu da Índia,
para nunca mais voltar, acompanhada de Bowajee, Mary Flynn e Franz Hartmann.
Para Judge, HPB diz que Hartmann foi junto porque:
"Subba Row disse que a menos que o Dr. H. deixasse Adyar ele iria
renunciar. Todos os hindus se recusaram unanimemente a estar no mesmo comitê
que ele; e Olcott foi notificado de que a menos que se fizesse o Doutor
ir embora, muitos renunciariam. (...)
"Ainda está para ser visto o que a Doutrina Oculta, a Sociedade
etc. se tornarão sem mim. Eu não ligo. Estou tão enojada
com suas eternas intrigas, mentiras, conspirações e assim
por diante, que à menor provocação renunciarei até
mesmo da minha filiação & romperei para sempre toda conexão
com a Sociedade. Olcott prepara, como ele me escreve, para me sacrificar
pelo bem & salvação da Sociedade & firmemente acredita
que ele está fazendo o que é correto. Ele não hesitaria
em sacrificar a si mesmo, isso eu sei. (...)
Tenha cuidado com Hartmann. (...) Ele acredita (...) que eu geralmente
sou uma "casca" que somente se torna boa para alguma coisa quando alguém
mais entra nela. Acredite no que quiser." (HPB to Judge)
Olcott criou um comitê executivo experimental para administrar a
Sociedade. Subba Row e A.J. Oakley estavam nesse comitê e
Leadbeater era o secretário. Em 12 de abril de 1885, o comitê
aceitou a renúncia de HPB do cargo de Secretária Correspondente.
(ODL III, p. 233)
Embora não falasse publicamente sobre o assunto, Subba Row nunca
deixou de reconhecer Madame Blavatsky como uma agente dos Mahatmas. Contudo,
considerava que a própria ST era mais importante do que HPB e, portanto,
tinha que estar acima das suspeitas que recaiam sobre ela. Numa carta para
Sivavadhanulu Garu, em julho de 1885, ele escreve:
"O temperamento de Madame B. é, como você diz, muito
ruim em alguns aspectos. Entretanto, acontece que ela é o único
agente que pode ser empregado pelos Mahatmas para os propósitos
da ST. Não fosse por esse mau temperamento, ela estaria agora em
algum outro lugar. (...) A questão em discussão (...) não
é se Madame B. é honesta ou desonesta, mas se a ciência
oculta é uma realidade ou uma ficção. Mesmo um único
fenômeno genuíno deve conseguir um veredicto em nosso favor.
Meu cliente é a Sociedade Teosófica e não Madame B."
(EW, p. 565)
Em carta para HPB, de outubro de 1885, Olcott lhe conta que Subba Row
havia declarado que "se HPB continuar com essa agitação
(por panfletos, correspondência e conversas pessoais, e por rixas
como a presente...), ele não apenas sairá da Sociedade Teosófica,
mas levará todos aqueles sobre quem tiver influência a fazerem
o mesmo." (Ranson, p. 228) Em maio de 1886, quando Olcott conversou
com Subba Row sobre a possibilidade de HPB retornar à Índia,
ele foi positivamente contrário a seu retorno. Olcott escreve:
"Por alguma razão seus sentimentos com relação
a ela haviam mudado completamente; ele agora estava positivamente hostil,
e protestou dizendo que ela não deveria ser chamada por mais um
ou dois anos, de modo a dar tempo para que a animosidade pública
amainasse e evitar o escândalo que seria causado pelos missionários,
incitando novamente os Coulombs a processá-la por difamação."
(ODL III, p. 372)
A Doutrina Secreta Começa
a Ser Escrita
Em setembro de 1883, ainda na Índia, HPB escreveu para Sinnett
que agora "eu, inválida e meio morta, tenho que me sentar novamente
por noites a fio e rescrever toda Ísis Sem Véu, chamando-a
de A Doutrina Secreta e fazendo três senão quatro volumes
a partir dos dois originais, com Subba Row me ajudando e escrevendo
a maioria dos comentários e explicações." (LBS,
p. 64)
Na edição de fevereiro de 1884, o The Theosophist
publicou um anúncio, onde Subba Row aparece como co-autor, pedindo
subscrições para auxiliar nos custos. (Zirkoff, p.
3) A publicação seria em feita em 20 fascículos mensais,
de 77 páginas cada. (ODL III, p. 209) Entretanto, na noite
de 8 de janeiro de 1885, HPB recebeu de seu Mestre outro plano para A
Doutrina Secreta.
Para HPB, com sua saúde num estado lamentável, o trabalho
de escrever horas a fio era realmente penoso, mas ela o fazia porque não
ousava desobedecer às instruções de seu Mestre, cujas
ordens, para ela, jamais seriam "pura loucura", como escreve em
abril de 1884:
"Não me comprometi a reescrever e me incomodar com aquele livro
infernal para o meu próprio doce prazer. Pudesse eu aniquilá-lo,
arremessando a amaldiçoada obra na 8ª esfera, eu o faria. Mas
minhas próprias predileções ou desejos não
têm nada a ver com meu dever. O MESTRE ordena
e quer que ela seja reescrita, e reescrevê-la eu irei; tanto
melhor para aqueles que me ajudarão na tediosa tarefa, e tanto
pior para aqueles que não ajudam e não
ajudarão. (...) Nem jamais concordarei com você, com sua licença
e seu perdão, é claro, que "é loucura tentar e escrever
tal livro em partes mensais" uma vez que o Guru assim o ordena.
Pois, apesar do enorme respeito que sinto por sua sabedoria ocidental e
talentos para negócios, eu nunca diria de qualquer coisa que meu
Mestre (em particular) e os Mestres (em geral) dizem para fazer,
que é pura loucura cumprir suas ordens." (LBS, p.
88)
Em sua partida da Índia, em 31 de março de 1885, quando se
preparavam para entrar no vapor, Subba Row a incentivou a escrever, pedindo-lhe
que enviasse semanalmente o que tivesse feito, para que ele fizesse notas
e comentários.(Zirkoff, p. 7) Escrevendo para Vera Johnston,
Hartmann relata que durante a viagem, em mar aberto, HPB "muito freqüentemente
recebia, de alguma maneira oculta, muitas páginas de manuscritos
referentes à Doutrina Secreta, cujo material ela estava coletando
na época." (Zirkoff, p. 8)
HPB chegou em Torre del Greco, na Itália, em 24 de abril de 1885.
Sua saúde ainda era precária, e ela sofreu intensamente de
reumatismo durante esses meses por lá. Hartmann partiu em maio,
ficando Bowajee e Mary Flynn com HPB. Em junho ela escreve para a Sra.
Sinnett:
"Aqui estou eu. Para onde irei em seguida, não sei mais do
que um homem no mundo da lua. O único amigo que tenho na vida e
na morte é o pobre pequeno Bowajee D. Nath exilado na Europa; e
o pobre querido Damodar – no Tibet. D. Nath fica ao pé de minha
cama, acordado por noites inteiras, me mesmerizando, como prescrito por
seu Mestre. Por que Eles ainda querem me manter com vida é algo
estranho demais para eu compreender; mas Seus modos são e
sempre tem sido – incompreensíveis." (LBS, p. 100)
No final de julho os três foram para a Alemanha, via Roma e St. Cergues,
na Suíça, de onde Mary Flynn retornou para a Inglaterra.
Em 12 de agosto HPB e Bowajee chegam em Würzburg, Alemanha. As difamações
falando de HPB como impostora, como espiã russa, de fraudes etc.,
continuavam muito acesas. Sinnett não podia entender como é
que os Mestres permitiam que isso acontecesse a Madame Blavatsky. Em 19
de agosto ela lhe escreve:
"Tenho o que mereço, não pelos pecados de que sou
acusada, mas por aqueles que ninguém conhece – exceto
o Mestre e eu mesma. Serei eu maior, ou de qualquer modo melhor, do que
eram St. Germain e Cagliostro, Giordano Bruno e Paracelsus, e tantos e
tantos outros mártires cujos nomes aparecem nas enciclopédias
do século XIX, sob os meritórios títulos de charlatões
e impostores? Será o carma dos cegos e perversos juizes
– não o meu." (LBS, p. 110)
Sinnett diz que quando visitou-a em setembro "a Doutrina Secreta ainda
estava intocada". (Sinnett, p. 302) Mas cerca de um mês
depois, em outubro, ela lhe escreveu:
"Estou muito ocupada com a D. Secreta. A coisa de Nova Iorque
(querendo dizer as circunstâncias sob as quais Ísis Sem
Véu foi escrita) se repetiu – apenas muito mais nítida
e melhor. Começo a pensar que será ela que provará
nossa inocência. Tamanhas imagens, panoramas, cenas, dramas antidiluvianos,
e tudo mais! Nunca vi ou escutei tão bem." (Sinnett, p. 303)
Em maio de 1886, HPB deixou Würzburg planejando ir para Ostende, na
Bélgica. Antes de viajar, enviou o que havia escrito da Doutrina
para Subba Row, em Adyar. No caminho, fez uma visita aos Gebhards, em Elberfeld,
na Alemanha. Lá escorregou no assoalho do quarto, torcendo o tornozelo
e machucando a perna, sendo obrigada a ficar com os Gebhards até
julho, quando finalmente foi para Ostende. Em setembro de 1886, HPB escreve
para Olcott que havia mandado mais uma parte do manuscrito da Doutrina
através da Sra. Gebhard, que fora visitá-la.
Os manuscritos da Doutrina só chegaram em Adyar no início
de dezembro de 1886. Por essa época, Subba Row estava se posicionando
cada vez mais contra a abertura de ensinamentos esotéricos aos ocidentais
e recusou-se a "fazer mais do que lê-la, dizendo que estava tão
cheia de erros que se ele a tocasse teria que reescrevê-la completamente!"
(ODL III, p. 398) HPB ficou muito aborrecida com sua atitude, mas
recomeçou a escrever todo o texto, pois tinha grande consideração
e respeito por Subba Row. Ela escreve para Olcott, em janeiro de 1887:
"Deixe S.R. [Subba Row] fazer o que ele quiser. Eu dou a ele carte
blanche. Confio em sua sabedoria muito mais do que na minha, pois eu
posso, em vários pontos, ter compreendido mal tanto o Mestre quanto
o Velho C. [Cavalheiro, ou o Mestre Narayan]. Eles me dão apenas
fatos e raramente ditam em seqüência." (Zirkoff, p. 38)
Subba Row não colaborou mais com a trabalho da Doutrina Secreta.
Em setembro de 1887, escrevendo para Subiah Chetty, HPB lhe diz: "Subba
Row até mesmo se recusou, através de C. Oakley, a ler ou
ter qualquer coisa a ver com minha Doutrina Secreta. Eu gastei aqui 30
libras para datilografá-la, com o propósito de lhe enviar
e agora, quando tudo está pronto, ele se recusa a examiná-la.
É claro que será um novo pretexto para ele pichar e criticar
quando ela de fato for editada. Por esse motivo, eu retardarei sua publicação."
(Zirkoff, p. 45)
Em 24 de fevereiro de 1888, HPB escreve a Olcott que recebera uma carta
de um aluno pessoal de Subba Row, Tookaram Tatya, onde ele contava que
Subba Row estava pronto para:
"me ajudar e corrigir minha D.S. desde que eu
tirasse dela todas as referências aos Mestres! Agora, o que é
isso? Será que ele quer dizer que eu deveria negar os Mestres,
ou que eu não Os compreendo e mutilo os fatos que Eles me dão,
ou que ele, S.R., conhece as doutrinas do Mestre melhor que eu?
Pois pode significar tudo isso." (Zirkoff, p. 48)
A recusa de Subba Row em ajudar na Doutrina Secreta repercutiu
por toda a ST. Tookaram Tatya, diz que ele "declinou de empreender o
trabalho porque acreditava que o mundo ainda não estava preparado
para aceitar a divulgação daqueles segredos que ficaram,
por boas razões, até então mantidos restritos ao conhecimento
daqueles poucos consagrados." (EW, p. vi)
Sankaracharya
Subba Row tinha um projeto de reviver a Yoga Vydia
no sul da Índia, com a formação de uma Sociedade Advaita,
que também teria o papel de auxiliar e fortalecer a ST. Aparentemente
ele trabalhou nesse projeto durante 1885, pois a Condessa de Wachtmeister,
que havia ido morar com HPB em dezembro de 1885, escreve para Sinnett em
1º de janeiro de 1886, apenas dois dias após HPB ter recebido
o relatório final da Society for Psychical Research [SPR]:
"Tivemos um dia terrível, e a Velha Senhora queria partir para
Londres imediatamente. Eu a mantive tão quieta quanto pude, e agora
ela desabafou seus sentimentos na carta anexa. (...) Se todos nós
nos mantivermos verdadeiros e firmes, nada
pode realmente nos ferir. O anexo lhe mostrará a imensa importância
de manter a calma e o silêncio, esmagando o escândalo se possível.
Não comentarei sobre o resultado de uma tal presidência na
Índia como a de Sancharacharya – na direção de toda
a nossa Sociedade.
"Como esta notícia foi enviada da Índia com a exigência
do maior sigilo, coronel O. [Olcott] pede à Madame para não
contar a ninguém por agora. Entretanto, sua alegria foi tão
grande que ela me contou, sabendo que não sou pessoa de trair a
confiança – e agora que você está nesse grande problema,
eu disse a ela que seria correto da parte dela lhe contar,
pois sei que você é um homem de palavra de honra e eu creio
que essa notícia será um pequeno conforto e lhe auxiliará
a superar os atuais problemas. Pense na magnitude e nas vastas proporções
e importância que a Sociedade terá, em poucos anos, por todo
o mundo." (LBS, p. 270)
Na carta de Olcott para HPB, citada pela Condessa, ele a relembra do grande
projeto de Subba Row de "uma Sociedade Advaita nacional a ser
secretamente levada por certos Iniciados e apadrinhada por Sancaracharya".
Ele conta que essa sociedade fora recém formada e "foram redigidos
estatutos, Sancaracharya concordando com a presidência" (LBS,
p. 325), e que:
"Subba Row pretende conduzi-la de modo que ela fortalecerá
as Sociedades Teosóficas existentes, os ramos da ST, e criar novos
onde não existe nenhum – assim você vê que ele está
especialmente preocupado de que não haja novos escândalos
ou confusões ligadas à ST, com receio que Sancaracharya (um
Iniciado) e todo o grupo ortodoxo possa ficar assustado e comecem a nos
dispersar. Agora, fique bem quieta, pelo amor de Deus, fique bem calma
– você sabe quem é Sancaracharya!!!" (LBS, p.
325)
Num artigo de julho de 1883, HPB chama Sancaracharya de "Papa da Índia",
por pertencer a uma "hierarquia que reina espiritualmente, por sucessão,
desde o primeiro Sankaracharya da Vedanta". Ela o descreve como sendo
um "iniciado, o único homem na Índia que agora
possui a chave para todos os mistérios brâmanes e tem autoridade
espiritual desde o cabo Comorim até os Himalaias". (CW
V, p. 62)
A Sociedade Advaita não se desenvolveu, e uma das razões
foi o escândalo da SPR, que condenou HPB como uma impostora.
Sendo um projeto que Subba Row considerava como da maior importância,
é provável que seu fracasso tenha sido mais um fator para
que ele não quisesse continuar colaborando com a Doutrina
Secreta.
A Classificação dos
Princípios do Homem
Outro ponto que certamente contribuiu para que Subba Row desistisse
de colaborar com a Doutrina Secreta foi a discussão que se
desenvolveu entre HPB e ele sobre a classificação dos princípios
do homem. Durante a convenção de 1886, em Adyar, Subba Row
deu palestras todas as manhãs sobre o Bhagavad-gita.
Subrahmania Iyer, que não pode comparecer à convenção,
contratou um taquígrafo para anotar essas palestras. Essas anotações
foram revisadas pelo próprio Subba Row e publicadas no The
Theosophist de fevereiro, março e abril de 1887.
Na primeira palestra, Subba Row dizia que qualquer sistema de instruções
práticas para o desenvolvimento espiritual tinha que ser julgado,
em primeiro lugar, com relação à natureza e às
capacidades internas do ser humano e, em segundo lugar, com relação
ao cosmos e às forças a que o homem está sujeito.
Assim sendo, ele necessitava entrar numa análise da natureza do
homem e do cosmos e, ao fazer essa análise, decidiu não adotar
o sistema de sete princípios usualmente adotado nos escritos teosóficos,
porque:
"Do mesmo modo que eu classificasse os princípios no homem,
eu classificaria os princípios no sistema solar e no cosmos. (...)
esta classificação sétupla, que não pretendo
adotar, me parece ser uma classificação enganosa e muito
pouco científica. (...) Quanta confusão essa classificação
sétupla tem gerado! Estes sete princípios, como geralmente
enumerados, não correspondem a quaisquer linhas naturais de divisão,
por assim dizer, na constituição do homem. (...) esta classificação
sétupla é quase conspícua por sua ausência em
muitos de nossos livros hindus. De qualquer modo, uma parte considerável
dela é quase ininteligível para mentes hindus, e assim é
melhor adotarmos a tradicional classificação de quatro princípios,
pela simples razão que ela divide o homem em tantas entidades quantas
são capazes de ter existências separadas, e que estes quatro
princípios estão associados com quatro upadhis [veículos]
os quais, por sua vez, estão associados com quatro estados distintos
de consciência. Assim, para todos os propósitos práticos
– e para o propósito de explicar as doutrinas da filosofia religiosa
– eu achei bem mais conveniente aderir à classificação
quádrupla do que adotar a sétupla e multiplicar princípios
de uma maneira que tem maior chance de introduzir confusão do que
de esclarecer o assunto." (Notes)
A resposta de HPB às críticas de Subba Row foi publicada
no The Theosophist de abril de 1887, juntamente com a terceira parte
das palestras de Subba Row. HPB comenta com Sinnett acerca de sua resposta:
"Fawcett diz que é a resposta mais esmagadora; um artigo que
combina polidez estudada com "admiração amigável"
– e que eu o faço comer suas próprias palavras. Ele certamente
terá uma dispepsia e uma indigestão." (LBS, p.
205) Na resposta, HPB escreve:
"Esta aparente divergência com alguém cujas visões
são corretamente consideradas em nossa Sociedade como quase decisivas
em questões ocultas, é certamente um pretexto perigoso para
dar aos nossos oponentes, que estão sempre alertas para detectar
e proclamar contradições e inconsistências em nossa
filosofia. Assim, sinto ser meu dever mostrar que na realidade não
há inconsistências entre as visões do Sr. Subba Row
e a nossa própria, na questão da divisão setenária".
(EW, p. 315)
Ela continua explicando que o sistema sétuplo não estava
ausente apenas dos livros hindus, mas também dos budistas, pela
simples razão de que era um sistema esotérico e, como tal,
quase nunca ensinado abertamente. Ela própria também admite
que:
"É sem dúvida bem mais conveniente aderir à classificação
quádrupla num sentido metafísico e sintético, assim
como eu aderi à classificação tríplice – de
corpo, alma e espírito – em Ísis Sem Véu, porque
se houvesse então adotado a divisão sétupla, como
fui compelida a fazer mais tarde, com o objetivo de análise estrita,
ninguém a teria compreendido (...). Infelizmente – pois era
prematuro – nós abrimos uma brecha na muralha da China do esoterismo
e agora não podemos fechá-la novamente". (EW, p. 320)
S. Row respondeu agradecendo o tom amigável, mas dizendo que suas
críticas ao sistema setenário haviam sido intencionais e
deliberadas, e que era importante que houvesse liberdade para se questionar
a correção até mesmo dos "ensinamentos originais",
isto é, aqueles que haviam sido publicados por Sinnett em seu livro
Budismo Esotérico. (EW, p. 336) E acrescenta:
"Em minha humilde opinião seria altamente perigoso para o futuro
bem-estar e prosperidade da Sociedade Teosófica se fôssemos
desenvolver, tão cedo em sua carreira, um credo ortodoxo a partir
do material fornecido pelas fontes acima mencionadas, e elevar as publicações
referidas acima à dignidade de uma revelação original.
A maior parte dos membros da ST conhece muito bem as circunstâncias
sob as quais estes ensinamentos foram dados. Seu caráter fragmentário
tem sido freqüentemente reconhecido. Sua exposição defectiva
é evidente à primeira vista; e suas imperfeições
podem ser facilmente detectadas por meio de um exame cuidadoso." (EW,
p. 337)
Numa carta a Sinnett, o Mestre KH lhe diz que embora parecesse existir
uma contradição entre a classificação de três
princípios usada em Ísis e a sétupla, usada
depois, esta contradição não era real. E que quando
HPB estava escrevendo Ísis, Eles constantemente lhe diziam:
""Você escreverá isso e isso, dê até
aí e não mais" (...) Estava-se bem no início
de um novo ciclo, em dias em que nem os cristãos, nem os espíritas
haviam jamais pensado, que dizer mencionado, mais do que dois princípios
no homem – corpo e Alma, à qual eles chamavam de Espírito.
Se você tiver tempo de se reportar à literatura espírita
daquela época encontrará que tanto para os espíritas
fenomenalistas quanto para os cristãos, Alma e Espirito
eram sinônimos." (Mlcr., p. 246)
O Mestre KH também lhe conta que, a partir daí, sob ordens
do Mestre Atrya, HPB foi a primeira pessoa que começou a explicar
a diferença que existia entre Alma e Espírito, tendo que
trazer "todo o arsenal de provas com ela, citações
de Paulo e Platão, de Plutarco e Tiago etc., antes que os espíritas
admitissem que os teosofistas estavam certos." (Mlcr., p. 246)
Foi então:
"que ela foi ordenada a escrever Ísis – apenas um ano
após a Sociedade ter sido fundada. E como houve uma tal guerra sobre
isso, infindáveis polêmicas e objeções no sentido
de que não podia haver no homem duas almas – nós achamos
que era prematuro dar ao público mais do que talvez pudesse assimilar,
e antes que tivesse digerido a questão das "duas almas"; –
e assim a posterior subdivisão da trindade em 7 princípios
foi deixada sem ser mencionada em Ísis. E é porque ela
obedeceu nossas ordens, e escreveu velando intencionalmente alguns
de seus fatos – que agora, quando pensamos que chegou o tempo para dar
a maior parte, senão toda a verdade – que ela tenha que ser
deixada em apuros? Iria eu, ou qualquer um de nós, alguma vez deixá-la
como um alvo para os espíritas alvejarem, e rirem das contradições,
quando essas são inteiramente apenas na aparência, e provém
tão somente de suas próprias ignorâncias sobre a verdade
completa, uma verdade que eles não ouviriam, e nem mesmo agora a
aceitarão, exceto sob protesto e com as maiores reservas? Certamente
não." (Mlcr., p. 246)
A discussão continuou até agosto de 1887, através
das páginas do The Theosophist. Anos mais tarde, em suas
instruções aos membros da Seção Esotérica,
HPB escreve:
"Todo esoterista que lê o The Theosophist deve lembrar-se
quão amargamente Subba Row, um culto brâmane vedantino, se
levantou contra a divisão setenária dos princípios
no homem. Ele sabia bem que eu não tinha o direito
e não ousaria explicar no The Theosophist, uma revista pública,
a enumeração real, e simplesmente tirou vantagem de meu silêncio
forçado." (CW XII, p. 605)
Ela explica que a doutrina dos sete Tattvas (ou princípios
do universo, assim como do homem) era mantida em grande sacralidade e segredo
por todos os brâmanes da antigüidade, que terminaram praticamente
a esquecendo. Entretanto esta doutrina:
"... é ensinada até os dias de hoje nas escolas além
da cordilheira dos Himalaias, mas agora ela mal é lembrada ou ouvida
na Índia, exceto através de raros Iniciados. Esta política
tem sido gradualmente alterada; suas linhas gerais começaram a ser
ensinadas aos chelas e, no advento da ST na Índia, em 1879,
fui ordenada a ensiná-la em sua forma exotérica para
um ou dois, e obedeci." (CW XII, p. 605)
Morte de Subba Row
Subba Row saiu da ST em 1887, mas continuou como assinante de Lucifer
e de The Theosophist e mantendo relações cordiais
com Olcott e HPB.
Ele morreu em 24 de junho de 1890, aos 34 anos de idade. Olcott relata
foi visitar Subba Row no dia 3 de junho, atendendo a seu pedido, para que
lhe desse passes mesméricos com o intuito de tentar aliviar suas
dores. Ele tinha o corpo todo coberto de furúnculos e pústulas,
resultado de algum envenenamento do sangue. Olcott descreve:
"Conhecendo-o como o instruído ocultista que era, uma pessoa
altamente apreciada por HPB (...) eu estava inexprimivelmente chocado ao
vê-lo num tal estado físico. (...) Ao meio-dia do dia 24 ele
disse àqueles a sua volta que seu Guru o havia chamado, que ele
iria morrer, e que ele estava agora começando suas tapas
(invocações místicas) e não queria ser perturbado.
A partir daquele momento não falou com mais ninguém." (ODL
IV, p. 241)
HPB noticiou a morte de Subba Row, na edição de agosto de
1890 de Lucifer, dizendo que eram poucos os membros da ST ou os
leitores da Doutrina que não conheciam o nome de Subba Row,
o grande sábio vedantino. Ela acrescenta:
"O carma tem misteriosos caminhos de executar seus fins, os quais
para o profano devem permanecer para sempre insondáveis. Somente
podemos sentir profundo pesar que um tal carma tenha atingido a alguém
com cuja morte Madras foi privada de um intelecto gigantesco, e a Índia
perdeu um de seus melhores eruditos.
"Possa seu próximo nascimento ser rápido e a sua vida
ter uma duração mais longa e, sobretudo, possa ele ainda
nascer na Aryavarta [Índia]. Sit tibi terra levis.
[Se assim a terra desejar.]" (Ramajunachary, p. 45)
Bibliografia
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Kier, 1977.
Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings
(CW), vol. IV, V, XII. TPH, Wheaton, 1977.
Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett.(LBS)
TUP, Pasadena, 1973.
Blavatsky, H.P. "Letter 2 from H.P.B. to W.Q. Judge, Dated May
1, 1885". BA, 1999 http://blavatsky.cc
Carlson, M. Theosophical History, V, No.
7, July 1995
Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical
Movement. TPH, Adyar, 1978.
Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in
Chronological Seq.) (Mlcr.) TPH, Quezon City, 1993.
Olcott, H.S. Old Diary Leaves, (ODL)
vol. II, III, IV TPH, Adyar, 1972.
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Adyar, 1993
Ranson, J. A Short History of the Theosophical
Society. TPH, Adyar, 1989.
Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame
H.P. Blavatsky, 1886. Kessinger Publ.Co., Montana.
Subba Row, T. Esoteric Writings (EW).
TPH, Adyar, 1980
Subba Row, T. Notes on the Bhagavad Gita
TUP http://www.theosociety.org/pasadena/tup-onl.htm
Zirkoff, B. de Rebirth of The Occult Tradition.
TPH, Adyar, 1977.
O Informativo HPB tem
por objetivo compartilhar o resultado de estudos
e pesquisas sobre HPB
realizados nos últimos anos.
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