Swami Subba Row

Marina Cesar Sisson

(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 16, dezembro/2000)

Subba Row divide com Damodar a honra de ter sido um dos dois mais destacados membros indianos dos primeiros tempos da ST. Por seu intelecto brilhante e seus conhecimentos ocultos, ele era carinhosa e respeitosamente chamado de Swami (Instrutor) Subba Row. Devido a sua firme postura de negar-se a falar sobre os Mestres, especialmente com Hodgson, também divide com Damodar e Bowajee a responsabilidade por "dois terços dos "mayas" do Sr. Hodgson." (Inf. HPB 15, p. 3) Apesar de ter participado da ST apenas de 1882 a 1887, Subba Row exerceu um papel importante nesses primeiros tempos. Nesse Informativo HPB vamos conhecer um pouco de sua vida, seu trabalho na ST e suas relações com HPB.

Taraka Raja Yoga

O Sr. Tallapragada Subba Row nasceu em 6 de julho de 1856 no distrito de Godavari, na região de Coromandel, na costa oriental do sul da Índia. Sua família era de brâmanes Advaitas, que falavam o Telugu e eram influentes na região. Seu pai morreu quando ele tinha 6 meses de idade, ficando seu avô e tio maternos responsáveis por sua educação.

Ele começou a se destacar nos estudos aos 16 anos, quando entrou para o Presidency College, formando-se em 1876, com o 1° lugar da classe. Nesse ano casou-se com Sundaramma, filha de sua tia materna. Estudou Direito na Universidade de Madras, e logo tornou-se um destacado advogado. Poderia ter ganho muito dinheiro nessa profissão, se não fosse a irresistível atração que sentia pela filosofia oculta, à qual dedicou a maior parte de sua atenção até o final de sua curta vida, em 1890.

Subba Row adotava como sistema filosófico espiritual a Taraka Raja Yoga: "Um dos sistemas de Yoga dos brâmanes para o desenvolvimento do conhecimento e dos poderes puramente espirituais que conduzem ao Nirvana. É o sistema mais filosófico e, de fato, o mais secreto de todos, uma vez que seus verdadeiros ensinamentos jamais foram publicamente revelados." (Glosario, p. 775) Nas palavras de Subba Row:

"Taraka Raja Yoga é, como se fosse, o centro e o coração da filosofia Vedanta, uma vez que, em seus aspectos mais elevados, é decididamente a parte mais importante da antiga Religião-Sabedoria. Atualmente, se conhece muito pouco dele na Índia. O que usualmente se vê nos livros comumente lidos, dá apenas uma idéia muito inadequada de seu alcance ou de sua importância. Na verdade, entretanto, é um dos sete principais ramos nos quais toda a ciência oculta é dividida, e é derivado, de acordo com todas as narrativas, dos "filhos da chama" da misteriosa terra de Shamballa." (EW, p. 364)
Primeiro Encontro de HPB com Subba Row

Em setembro de 1881 Subba Row escreveu um artigo para o The Theosophist sobre os doze signos do zodíaco e suas antigas raízes hindus. Apresenta o significado esotérico de cada um dos signos, seus correspondentes ocidentais e suas relações com as forças na natureza. (EW, p. 3-19). HPB e Olcott haviam recém chegado à Índia, estabelecendo-se em Bombay, onde Damodar unira-se a eles. O artigo deu início a uma correspondência de HPB e de Damodar com Subba Row. Em 3 de fevereiro de 1882, ele escreveu para HPB:

"Penso que é altamente recomendável que você viesse aqui, se as circunstâncias permitirem, quando o coronel Olcott vier para cá de Calcutá. Sem dúvida estou, individualmente, muito ansioso para vê-la; mas esta não é a razão importante para lhe pedir que venha. Embora nenhum ramo da Associação Teosófica tenha sido estabelecido aqui ainda, há um bom número de cavalheiros que sinceramente simpatizam com seus propósitos e objetivos, e que ficariam muito felizes de vê-la. Eles conhecem muito pouco do coronel Olcott, exceto o que captaram de suas palestras públicas. Mas sua "Ísis Sem Véu" deixou uma impressão muito forte em suas mentes." (LBS, p. 316) De acordo com Olcott, foi a partir do primeiro encontro de Subba Row com HPB que esse soube que seu Guru era o Mestre Morya. E que, a partir daí, novas portas de percepção oculta se abriram para Subba Row, com o início dos contatos entre ele e seu Mestre. Olcott relata: "Foi como se um depósito de experiência oculta, há muito esquecida, tivesse sido subitamente aberto para ele; vieram lembranças de seu último nascimento; reconheceu seu Guru e daí por diante manteve contato com Ele e com outros Mahatmas; com alguns, pessoalmente, em nossa Sede, com outros, em outros lugares e por correspondência. Ele disse à sua mãe que HPB era uma grande Iogue e que havia visto muitos fenômenos estranhos em sua presença." (Eek, p. 662). Entretanto, podemos perceber na literatura que Olcott não estava correto ao fazer tais afirmações. Em carta do Mestre M. para Sinnett, de fevereiro de 1882, fica claro que Subba Row já estava em contato com seu Guru antes desse primeiro encontro com HPB, ocorrido em abril de 1882. Esse equívoco pode ser constatado pela maneira familiar e pelo contato direto do Mestre M. com Subba Row, como vemos na carta em que o Mestre aconselha a Sinnett que ele tivesse paciência com Subba Row, que estava absorvido em suas práticas religiosas, ou "tapas", e não deveria ser perturbado, lhe dizendo: "Dê-lhe tempo. (...) Eu lhe direi que não descuide de você, mas ele é muito cioso e considera ensinar a um inglês como um sacrilégio." (Mlcr., p. 129)

Algumas pessoas questionam por que um brâmane ortodoxo, cioso dos ensinamentos ocultos, para quem divulgá-los a ocidentais era um sacrilégio, entrou para a ST. A resposta deve estar exatamente no fato dele ser um chela e, como tal, estar cumprindo ordens de seu Guru. Ele filiou-se à ST em 25 de abril de 1882, poucos dias após encontrar-se com HPB e Olcott em Madras, "sozinho, privadamente, por alguma insondável razão de mistério" (ODL II, p. 343) Talvez essa "insondável razão de mistério" esteja justamente relacionada com o fato de que ele já não era uma pessoa comum, mas um chela.

Adyar: Os Jardins de Huddlestone

No início de maio HPB e Olcott partiram de Madras para Nellore, numa viagem que levava dois dias de barco. No primeiro barco iam apenas os dois com Babula e a tripulação e, num outro, alguns dos melhores amigos de Madras. Olcott diz que, em todos os anos de relacionamento com HPB, é essa viagem que guarda os momentos mais tranqüilos que tiveram juntos, principalmente porque ela estava de bom humor e gozando de boa saúde. Ele escreve:

"Querida, saudosa amiga, companheira, colega, instrutora, camarada: ninguém podia ser mais exasperante em seus piores momentos, ninguém era mais adorável e admirável em seus melhores. (...) Esta página aberta de meu diário (...) me traz de volta à memória (...) uma imagem de HPB em seu roupão surrado, sentada em seu compartimento em frente ao meu, fumando cigarros, sua enorme cabeça com seus cabelos marrons, crespos, caindo sobre a página que estava escrevendo, sua testa cheia de rugas, um olhar de pensamento introspectivo em seus olhos azuis claros, sua mão aristocrática deslizando a caneta rapidamente sobre as linhas e não se ouvindo nenhum ruído, a não ser a música líquida das pequenas ondas contra as laterais do barco". (ODL II, p. 349-350) Em 31 de maio, já de volta a Madras, HPB e Olcott foram levados pelos dois filhos do juiz Muttuswamy para ir ver uma propriedade que estava à venda, nas margens do rio Adyar. À primeira vista eles souberam que haviam encontrado seu futuro lar. Em suas viagens pela Índia e Ceilão, Olcott estava sempre em busca de um local melhor para ser a Sede da Sociedade e, embora várias casas lhe tivessem sido oferecidas no Ceilão, nada ainda havia sido resolvido.

Essa propriedade conhecida como os "Jardins de Huddlestone" tinha 11 hectares (27 acres) e estava sendo vendida por um preço muito barato, devido à recente abertura da estrada de ferro de Madras até a base das montanhas Nilgiri, que fez com que a viagem de Madras até a vila de Ootacamund (Ooty) levasse apenas um dia. Os oficiais ingleses que no verão fugiam do intenso calor de Madras compraram propriedades nas montanhas, deixando seus grandes bangalôs nos arredores de Madras vazios e sem compradores. Os "Jardins de Huddlestone" era uma dessas propriedades.

Com a ajuda de P. Iyaloo Naidu que adiantou parte do dinheiro, e do juiz Muttuswamy Chetty que assumiu um empréstimo para pagar o restante, a compra da propriedade foi efetuada. Com as doações recebidas, em um ano os empréstimos haviam sido pagos. (ODL II, p. 361)

HPB e Olcott ficaram em Madras até 6 de junho de 1882, quando voltaram para Bombay, deixando Subba Row como secretário do recém formado ramo da ST em Madras. Olcott revela que um dos fatores que pesou na escolha de Madras como Sede da Sociedade foi a presença de Subba Row nessa cidade. (ODL II, p. 362) A importância que Subba Row dava a essa região fica clara numa carta de fevereiro de 1882 para HPB, onde ele escreve:

"O pouco de ocultismo que ainda subsiste na Índia está centrado nesta região de Madras; (...). O grande reviver da Yoga Vydia na época de nosso grande Sankaracharia teve sua origem nessa parte da Índia; e desde aquela época até os dias de hoje, o sul da Índia nunca teve o infortúnio de ser desertado por todos os seus iniciados." (LBS, p. 318)
 
Os Conhecimentos Metafísicos de Subba Row

Ao escrever sobre a vida de Subba Row, Olcott relata que quando perguntou à sua mãe sobre o desenvolvimento dos conhecimentos místicos de seu filho, ela lhe disse que a primeira vez que ele falou sobre metafísica foi após o contato com os fundadores, em 1882, em Madras. (Eek, p. 662). Olcott escreve:

"Seu conhecimento armazenado de literatura sânscrita lhe voltou, e seu cunhado me disse que se você recitasse qualquer verso do Gita, Brahma-Sutras ou Upanishads, ele podia imediatamente lhe dizer de onde havia sido retirado e em que contexto empregado. (...) Ao conversar ele era muito brilhante e interessante; uma tarde ao seu lado era tão edificante quanto a leitura de um bom e profundo livro." (Eek, p. 663) Entretanto, na época da criação da biblioteca de Adyar, em 1886, Subba Row contou a Olcott que "um terço de sua vida é passada num mundo do qual sua própria mãe não tem a menor idéia." (ODL III, p. 394). Isso nos indica que novamente Olcott pode ter se enganado nas suas conclusões, ao supor que o conhecimento oculto de Subba Row havia subitamente voltado após o encontro com HPB. Ainda em fevereiro de 1882, antes de encontrar-se pessoalmente com HPB, Subba Row demonstra já possuir tais conhecimentos, ao escrever: "Para lhe falar a verdade, minha "sincera crença" é que a Índia ainda não perdeu seus adeptos e seu "NOME INEFÁVEL" – a Palavra perdida! A Índia ainda não está espiritualmente morta embora esteja rapidamente morrendo. Ainda temos homens serenos entre nós (...) aqueles que quase alcançaram as praias do oceano do Nirvana. (...) É apenas para os que crêem sinceramente na Yoga Vidya e na existência de Adeptos, que esses austeros místicos estão acessíveis. Mesmo se um teosofista inglês como o Sr. Hume, por acidente, se encontrasse com um desses homens, ele logo colocaria sua filosofia em prova. Sua aparência externa seria revoltante para o refinado gosto de um cavalheiro inglês. Aparentemente – seu comportamento seria aquele de um louco ou de um idiota, e ele falaria bobagens ininteligíveis de propósito, para afastar o visitante." (LBS, p. 316) Numa carta para HPB, em agosto de 1882 – apenas quatro meses após conhece-la pessoalmente – falando de seus próprios conhecimentos, Subba Row escreve: "Quanto ao adeptado, sei muito bem o quão distante estou dele. Até agora não ouvi falar de ninguém em minha posição que tivesse tido sucesso em se tornar um Adepto. Mesmo na prática conheço muito pouco de nossa Antiga Ciência Arcana." (LBS, p. 321) Porém a frase em itálico foi sublinhada pelo Mestre KH, que acrescentou o seguinte comentário: "Isto não é bem assim. Ele conhece muito para qualquer um de vocês."

O Ocultismo Exige Tudo ou Nada

Subba Row recusava-se a ministrar treinamento espiritual a qualquer um que não estivesse adequadamente preparado. Por exemplo, ele enfaticamente recusou-se a treinar Subrahmania Iyer, seu amigo e colega de tribunal, porque esse não realizava as observâncias religiosas diárias prescritas. (Ramanujachary, p. 22) Além disso, como um brâmane ortodoxo, acreditava que ensinar a ocidentais era um sacrilégio. Porém, HPB queria que Sinnett, como recompensa de sua dedicação e amizade, recebesse ensinamentos de Subba Row. Para tanto, começou uma verdadeira campanha, tanto com pedidos ao próprio Subba Row, quanto ao Guru de ambos, o Mestre M. A esse respeito, o Mestre KH escreve para Sinnett:

"Pobre Subba Row está "num dilema" – e é por isso que ele não lhe responde. Por um lado ele tem a indomável HPB que atormenta a vida de Morya para lhe recompensar, e o próprio M. que se pudesse gratificaria suas aspirações; de outro lado ele encontra a intransponível muralha da China das regras e da Lei." (Mlcr., p. 156) Como Sinnett não conseguia compreender nem mesmo os primeiros princípios do treinamento de um chela, o Mestre lhe aconselha a não assumir, na ocasião: "uma tarefa além de suas forças e capacidades; pois uma vez compromissado se quebrar sua promessa, isso o afastaria por anos, se não para sempre, de qualquer progresso futuro. Eu disse desde o início para Rishi "M" que sua intenção era boa, mas seu projeto precipitado. Como pode você, em sua posição, empreender qualquer trabalho desse tipo? O Ocultismo não deve ser tomado sem a devida seriedade. Ele exige tudo ou nada." (Mlcr., p. 155) O Mestre KH também lhe diz que sabia que Subba Row "nunca consentirá em vir para Simla. Mas se ordenado por Morya ele ensinará de Madras, i.e., corrigirá os manuscritos, como M. fez, comentará sobre eles, responderá perguntas e será muito, muito útil. Ele tem uma perfeita reverência e adoração por HPB." (Mlcr., p. 158) Esses sentimentos ficam claros numa carta que Subba Row escreveu para HPB, quando ela estava na Europa: "A Sociedade não pode se dar ao luxo de perde-la. Quanto a mim, sinto-me muito sozinho e desconfortável em sua ausência, e espero que, assim que for possível, você nos faça saber a data de sua partida. Após receber as ordens de nosso Mestre, penso que seria recomendável enviar para cá o Coronel Olcott alguns dias antes." (LBS, p. 322) Talvez diante da insistência de HPB, o Mestre M. acabou ordenando a Subba Row que desse instruções a Sinnett. Assim, em maio de 1882, Subba Row lhe escreve: "Várias vezes me foi solicitado nos últimos três meses, por Madame Blavatsky, que lhe desse tais instruções práticas em nossa Ciência oculta, conforme me seja permitido dar para alguém em sua posição; e agora sou ordenado por ... [M.] a ajudá-lo, até certo ponto, a erguer uma parte do primeiro véu de mistério." (Mlcr., p. 154) E continua dizendo que, para tanto, era preciso que Sinnett concordasse com algumas condições. Subba Row lhe pede "sua palavra de Honra de que nunca revelará a ninguém, pertencendo ou não à Sociedade Teosófica, os Segredos que lhe forem comunicados, a menos que receba minha autorização prévia para faze-lo." E lhe adverte que: "qualquer coisa como um estado de mente oscilante com relação à realidade da Ciência Oculta e a eficácia do processo prescrito provavelmente impedirá a produção do resultado desejado." (Mlcr., p. 154)

Subba Row também diz que era necessário que Sinnett agisse estritamente de acordo com essas instruções, e alterasse seu modo de vida para estar em conformidade com as mesmas. Esse era um ponto onde Subba Row via grandes dificuldades, pois considerava que Sinnett não estava preparado para esse compromisso. Ele escreve para HPB sobre essa questão, revelando nessa carta sua apreensão bem como seu enorme conhecimento de ocultismo prático:

"Sem dúvida lhe causaria considerável transtorno se ele fosse obrigado a mudar completamente seu modo de vida. Você verá pelas cartas que ele está muito ansioso em conhecer de antemão a natureza dos Siddhis, ou poderes de realizar prodígios, que se espera que ele obtenha pelo processo ou ritual que eu pretendo lhe prescrever.

"O poder ao qual ele será introduzido pelo processo em questão sem dúvida lhe desenvolverá maravilhosos poderes clarividentes, tanto em relação à visão quanto ao som em algumas de suas mais elevadas correlações". (Mlcr., p. 155)

O ponto de vista de Subba Row acabou prevalecendo sobre a vontade de HPB. Em 26 de junho de 1882, ele escreve para Sinnett que, após "uma consulta aos Irmãos, para suas opiniões e ordens", concluíram que não seria possível qualquer instrução prática na Ciência Oculta, pois: "Até onde vai meu conhecimento, nenhum estudante de Filosofia Oculta jamais teve sucesso em desenvolver seus poderes psíquicos sem levar a vida prescrita para tais estudantes; e não está dentro do poder do instrutor fazer uma exceção no caso de qualquer estudante. As regras estabelecidas pelos antigos instrutores de Ciência Oculta são inflexíveis (...) Se você acha impraticável mudar seu atual modo de vida, você não pode senão esperar por instruções práticas até que você esteja numa posição de fazer tais sacrifícios como os que a Ciência Oculta requer; e, pelo momento, deve se satisfazer com as instruções teóricas que for possível lhe dar.

"Quase não é necessário, agora, lhe informar se as instruções prometidas em minha primeira carta, sob as condições ali estabelecidas, iriam desenvolver em você tais poderes que lhe permitiriam tanto ver os Irmãos quanto conversar com eles clarividentemente. O treinamento oculto, seja como for que comece, irá no devido tempo necessariamente desenvolver tais poderes. Você estará adotando uma visão muito vulgar da Ciência Oculta se fizer a suposição de que a mera aquisição de poderes psíquicos é o mais elevado ou o único resultado desejado do treinamento oculto." (Mlcr., p. 164)
 

O Protesto dos Chelas

Se para Sinnett as condições já eram difíceis de serem seguidas, para seu amigo Hume, cujo envolvimento com HPB era bem menor, isso era quase impossível. Em agosto de 1883, Hume escreveu uma carta para HPB criticando duramente Ísis Sem Véu – que para ele estava repleta de erros – e aos Mestres, a quem ele chamava de "asiáticos egoístas" (LBS, p. 29). Hume dizia que os métodos dos Mestres "eram tão repulsivos que, por mais de uma vez, ele estivera a ponto de encerrar" suas relações com Eles para sempre. (Mlcr., p. 244) Hume assinava a carta como "H.X.". HPB escreve que sua vontade era jogar a carta no fogo, mas não o fez porque:

"KH mandou um recado por Morya que ele, de modo incondicional, o queria publicado e eu, é claro, tive tão somente que ficar quieta. Mas no final ele receberá um belo protesto de Subba Row e sete ou mais chelas, e se fará detestado por todos os hindus que acreditam nos Irmãos". (LBS, p. 29) A carta de Hume foi publicada no The Theosophist de setembro de 1883 seguida do protesto assinado por doze chelas, entre eles Subba Row, Damodar e Darbhagiri Nath (Bowajee). A publicação da carta foi precedida por um editorial de HPB, onde ela escrevia que estava publicando a carta de "H.X." sob forte protesto pessoal, e que só o fazia porque esse era o desejo dos Mestres, os quais ligavam tanto para opinião pública "quanto a grande pirâmide liga para o vento quente do deserto batendo sobre seu topo envelhecido." (CW IV, p. 227)

Numa carta para Sinnett, o Mestre KH diz que não tinha o direito de suprimir o artigo "ofensivo" por várias razões. Primeiro, porque desde o momento que haviam autorizado que Seus nomes fossem associados à ST e levados ao público tinham que assumir as penalidades daí resultantes. Assim sendo, o Mestre diz que tinham que "permitir a expressão de toda opinião, seja benevolente ou malevolente; e nos sentirmos, num dia, agudamente criticados; no outro, "proclamados"; no seguinte, idolatrados; e, no quarto dia, pisoteados na lama." (Mlcr., p. 248)

Em segundo lugar, porque Ele estava obedecendo ao próprio Chohan, que havia ordenado a publicação da carta de Hume e do "protesto" dos chelas, o qual também fora escrito sob Suas ordens. As duas assinaturas que encabeçam a lista, de Devi Muni e Paramahansa Shub-Tung, são de chelas diretamente ligados ao Chohan. No protesto, os chelas declaram sua devoção sem limites aos Mestres, o que para os europeus era como uma escravidão, e sugerem: 

"As raças ocidentais, entretanto, fariam bem em lembrar-se que se alguns dos pobres asiáticos chegaram a uma tal altura de conhecimento com relação aos mistérios da natureza, foi somente devido ao fato de que os Chelas sempre seguiram cegamente os ditames de seus Mestres, e nunca se colocaram acima, ou mesmo tão alto quanto seus Gurus. O resultado foi que cedo ou tarde eles foram recompensados por sua devoção, de acordo com seus respectivos méritos e capacidades por aqueles que, devido a anos de auto-sacrifício e devoção a seus Gurus se tornaram, por sua vez, ADEPTOS." (CW IV, p. 229) Esse clima de real liberdade de expressão, não só no discurso, mas também na prática, que os Mestres estavam requerendo, era uma característica marcante daquela época.. No episódio envolvendo Anna Kingsford e Maitland na Loja de Londres, quando eles protestaram contra a maneira submissa e a idolatria que os membros, liderados por Sinnett, estavam desenvolvendo com relação aos Mestres, Subba Row foi encarregado por seu Mestre a escrever uma resposta aos dois, publicada em janeiro de 1884. (Inf. HPB 8) Nessa carta à Loja de Londres, ele ressalta essa questão da liberdade dentro da ST: "Mas nenhum membro é permitido, pelas regras da Associação, forçar suas próprias opiniões ou crenças individuais sobre seus companheiros, ou insistir que elas sejam aceitas por eles. A Sociedade não constitui um corpo de instrutores religiosos, mas simplesmente uma associação de investigadores e buscadores.

"Estes são os princípios que estão definitivamente estabelecidos para a orientação a Sociedade Teosófica, com a aprovação e beneplácito de grandes Iniciados dos Himalaias, os quais são seus reais fundadores.(...) Se o Sr. Sinnett positivamente proibiu qualquer expressão de discordância ou de crítica a seu livro, ou "de sua suprema autoridade", como se alega na carta sob exame, ele está, sem dúvida, agindo contra as Regras da Sociedade. (...) O Sr. Sinnett tem tanto direito a explicar seu Budismo Esotérico aos membros da Loja de Londres, quanto a Sra. Kingsford e o Sr. Maitland têm de explicar o seu significado esotérico da simbologia cristã." (EW, p. 394-395)
 

Hume Tenta "Salvar" a Sociedade

Como já vimos, HPB havia chegado em Adyar, retornando da Europa, em dezembro de 1884. Durante a Convenção, um comitê composto para julgar se ela poderia ou não entrar na justiça contra os Coulombs e os missionários decidiu impedi-la de tal ação. Ela ficou muito doente e Olcott que havia ido para a Birmânia com Leadbeater, retornou às pressas para Adyar. Graças à intervenção do Mestre M. HPB melhorou subitamente e, no dia 10 de fevereiro de 1885 Olcott retornou à Birmânia para continuar seu trabalho em prol do Budismo. (Inf. HPB 15)

Na Sede em Adyar, devido à ausência de Olcott, o Comitê Central novamente assumiu a administração. Entretanto, no final de fevereiro, ainda na Birmânia, Olcott recebe notícias de Hartmann, informando que o Comitê Central havia renunciado e que alguns ramos ameaçavam se dissolver se não fosse autorizado que HPB entrasse na justiça contra os missionários. (ODL III, p. 223) Olcott escreve:

"HPB, com sua usual incongruência, me reprovou por tê-la impedido – como ela disse, embora não tivesse sido eu, mas a Convenção que fizera isso – de instaurar um processo contra eles; e me foram enviadas cópias do mais recente panfleto dos missionários contra nós. Como escrevi em meu diário, havia "algo hostil no ar"." (ODL III, p. 223) No dia seguinte chegou telegrama de Adyar, dizendo que HPB tivera uma recaída, e pedindo que ele voltasse urgentemente. Olcott chegou em Adyar dia 19 de março, descobrindo que, em 14 de março, o Sr. Hume, pretendendo "salvar" a ST, convocara uma reunião do Conselho para análise de uma proposta. HPB conta o que aconteceu numa carta para Sinnett: "O Sr. Hume quer salvar a Sociedade e encontrou um meio. (...) ele propôs, para salvar a Sociedade (...) forçar Coronel Olcott, seu presidente vitalício, Madame Blavatsky (...) etc., ao todo 16 pessoas, a renunciarem uma vez que todos eram impostores e cúmplices, já que os Mestres não existiam e muitos deles afirmaram que conheciam os Mestres independentemente de mim. A Sede deve ser vendida e, em seu lugar, erguida um nova Sociedade Teosófica Científico-Filosófico-Humanitária. Eu não estava na reunião (...) Mas os conselheiros vieram em grupo falar comigo após a reunião. Contudo, ao invés de aceitar a proposta e declarar os fenômenos uma fraude (...) rejeitaram a proposta, colocando-a de lado com desgosto. Todos eles acreditam nos Mahatmas e nos fenômenos que testemunharam pessoalmente, mas não permitirão mais que seus nomes sejam profanados. Os fenômenos devem ser, daqui por diante proibidos e se eles realmente ocorrerem independentemente, não se pode falar a respeito, sob pena de expulsão." (Mlcr., p. 444) Na mesma carta, HPB comenta uma ironia do destino: os conselheiros mal terminaram de votar a resolução que não haveria mais fenômenos na Sede, nem se falaria mais dos Mestres, quando, ainda na sala de reuniões, Subba Row recebeu uma carta do Mestre M. em sua língua nativa, o Telugu, a qual HPB desconhecia. Não obstante, mantiveram a decisão. HPB era a única ligação entre os membros europeus e os Mestres, mas para os hindus isso não importava, pois: "Dezenas deles são chelas, centenas Os conhecem, mas, como no caso de Subba Row, eles prefeririam morrer do que falar de seus Mestres. Hume não tirou nada de Subba Row, embora todos saibam quem ele é. (...) Embora eles sejam leais a mim, e o serão até o final, me acusam de ter profanado a Verdade e os Mestres, por ter sido o meio para os livros O Mundo Oculto e Budismo Esotérico." (Mlcr., p. 447) Outras notícias ruins continuavam a chegar. No dia 17 de março, um perito em caligrafia, Netherclift, havia declarado que a letra nas cartas publicadas pelos missionários era de HPB. Os missionários continuavam seu trabalho de difamação, editando e distribuindo pelo país novos panfletos contra a ST e HPB. Ela escreve: "Eles têm todas as vantagens sobre nós. Eles (os inimigos) trabalham dia e noite, inundando o país com literatura contra nós, e nós sentamos, imóveis, e apenas discutimos dentro da Sede." (Mlcr., p. 447). E apesar de alguns, como os Oakleys lhe assegurarem sua amizade, ela estava descrente. HPB escreve para Sinnett:  "Apesar de Hume, do amigo deles, Hodgson, e de todas as evidências, os Oakleys não acreditam que eu seja uma impostora. Eles têm total confiança nos Mestres; nada, dizem eles, fará com que duvidem da existência deles (...) e, como eles dizem, são meus melhores amigos. (...) Como posso acreditar que qualquer um seja meu amigo nesse momento? É apenas aquele que sabe, da mesma maneira que sabe que vive e respira, que nossos Mahatmas existem e os fenômenos são reais, é que pode se solidarizar comigo e olhar para mim como uma mártir; mas quem o faz?" (Mlcr., p. 447)
 
Hodgson e a Teoria da Espiã Russa

Pouco antes de retornar para a Inglaterra, Hodgson já estava convencido de que HPB havia realmente escrito as cartas publicadas pelos missionários. HPB reclamava que Hodgson estava conduzindo suas investigações de modo tendencioso. Ela escreve para Sinnett:

"Eu, junto com mil outros teosofistas, protestamos contra a maneira e forma como as investigações são realizadas pelo Sr. Hodgson. Ele interroga apenas nossos maiores inimigos – ladrões como Hurrychund Chintamon (...) e tendo ele lhe mostrado algumas novas cartas (!! eu devo ter escrito milhares!) recebidas por ele, como ele garante a Hodgson, há 7 anos atrás da América. Hodgson copia alguns parágrafos dessas cartas, que ele acredita serem os mais prejudiciais, e constrói sobre isso uma teoria de que sou uma espiã russa, além de ser uma impostora e de enganar Olcott desde o início." (LBS, p. 75) Hodgson afirmou ao Sr. Oakley que ele havia visto, numa carta de HPB para Chintamon, uma frase onde ela lhe pedia: "Encontre-me alguns membros que não sejam leais, mas desleais" ao governo anglo-hindu. (LBS, p. 76) Para ele era uma evidência de que ela era contra o governo. HPB diz sempre trabalhou para conciliar os hindus com os ingleses e, se foi ela que escreveu estas palavras, as escreveu em algum tipo de brincadeira. Ela lembrava que certa vez Chintamon lhe havia perguntado sobre o governo russo, se ele era tão cruel quanto o inglês com os povos que conquistava, ao que ela teria respondido: "Possam os céus protegê-los e salvá-los do governo russo. É melhor para cada hindu afogar-se imediatamente do que estar algum dia sob o governo russo, ou palavras nesse sentido – mas lembro-me perfeitamente do espírito com que as escrevi. E ainda assim por causa dessa carta e de um certo papel que me foi roubado por Madame Coulomb e que os missionários mostraram para ele, um papel total ou parcialmente escrito numa escrita cifrada, diz ele, o Sr. Hodgson tem publicamente me proclamado espiã russa."(LBS, p. 76) HPB explica que este papel só poderia ser um de seus manuscritos em Senzar, a linguagem secreta utilizada pelos Iniciados. Os Coulombs haviam roubado de sua mesa um papel de aparência suspeita, que entregaram aos missionários garantindo-lhes que era um código usado por espiões russos. Esses levaram "a prova" para a polícia, que a mandou para análise em Calcutá, onde por cinco meses os melhores especialistas tentaram descobrir o que significava, após o que desistiram desapontados. (LBS, p. 76) Alguns, como Hume, achavam que esse papel tinha apenas tolices, coisas sem importância. HPB escreve a esse respeito para Sinnett: "É um de meus manuscritos em Senzar. Tenho plena convicção disso, pois uma das folhas de meu caderno com páginas numeradas está faltando. Eu desafio qualquer um que não seja um ocultista tibetano a decifrá-lo, se for isso. De qualquer modo, os missionários fizeram o melhor que podiam para provar que eu era uma espiã russa, e falharam – enquanto que o Sr. Hodgson me proclamou como tal publicamente.

"Será isso justo, ou nobre, ou honesto? Por favor, pergunte ao Sr. Myers. E agora, pela teoria do Sr. Hume de que não há Mahatmas, todo a Sede está comprometida. Nós somos todos impostores e falsificadores da caligrafia do Mahatma KH." (LBS, p. 76)

Devido à relação de amizade com HPB e ao seu grande conhecimento esotérico, Subba Row também passou a ser considerado como suspeito por Hodgson. O Mestre KH escreve: "E agora Hume e Hodgson incitaram Subba Row à fúria lhe dizendo que, como um amigo e companheiro ocultista de Madame B. o governo suspeitava que ele também fosse um espião. É a história do "Conde St. Germain" e Cagliostro contada novamente." (Mlcr., p. 449)

Essa não era a primeira vez que HPB era acusada de ser uma espiã russa. Logo que ela e Olcott chegaram à Índia, ela era constantemente vigiada por um detetive, que a seguia por todos os lados. (ODL II, p. 82) Muito embora nunca nada tenha sido provado, essas acusações sempre acompanharam a vida de Madame Blavatsky.

É interessante notarmos que, em julho de 1995, a Dra. Maria Carlson publicou no Theosophical History uma carta que HPB teria escrito para a polícia secreta russa, oferecendo seus serviços como espiã. A carta havia sido originalmente publicada num respeitado jornal de Moscou, por dois acadêmicos russos. A Dra. Carlson escreve:

"Apesar de aparecer durante o ano politicamente ambíguo de 1988, a publicação dessa carta sensacional tem o seu lugar na mitologia que cresceu à volta de Mad. Blavatsky; ela tem sua própria contribuição à documentação contraditória e incongruente sobre a extraordinária vida de Mad. Blavatsky. Tem havido considerável especulação, ao longo dos anos, sobre o possível papel de espionagem na vida de Mad. Blavatsky (era ela, ou não, uma espiã russa?), mas nada nunca foi provado. Esta carta é a primeira indicação de que pode haver, de fato, algum fundamento para a especulação, embora a oferta de seus serviços aparentemente não foi aceita pela polícia secreta russa." (Carlson, p. 226) Ela também ressalta que na publicação da carta não se fala nada sobre a verificação da caligrafia, apenas que se encontrava nos arquivos da polícia secreta. E também que há uma frase curta da polícia, datada de 27 de janeiro de 1873, dizendo: "Nenhuma ação foi tomada com relação ao pedido de Madame Blavatskaia." (Carlson, p. 231)

A carta foi escrita em Odessa, datada 26 de dezembro de 1872. Nela HPB se apresenta, fala da Societé Spirité que fundara no Cairo, declara seu amor pela Rússia e oferece seus serviços esclarecendo que: "Não estou motivada por cobiça, mas, mais exatamente, pela proteção e assistência moral, mais do que material." (Carlson, p. 229) É possível que HPB tenha escrito a carta em reação à morte de seu grande amigo, Agardi Metrovich, um revolucionário mazinista, morto numa cilada em 1872, pouco antes dela retornar à Rússia. (Inf. HPB n.º 5)

HPB Deixa a Índia para Não Mais Voltar

Diante da acusação pública de espionagem, HPB resolveu renunciar a seu cargo de Secretária Correspondente, para que a Sociedade não fosse prejudicada. Ela escreve a Sinnett:

"Embora meus amigos, os Oakleys me aconselham a renunciar, enquanto que os hindus dizem que sairão todos da Sociedade se eu o fizer. Eu preciso renunciar, pois sendo considerada uma "Espiã Russa", ponho em perigo a Sociedade. Essa é minha vida durante minha convalescência, quando cada emoção, diz o médico, pode se tornar fatal. Tanto melhor. Eu irei, então, renunciar de facto." (Mlcr., p. 447) Hodgson partiu para Londres em 26 de março de 1885. Poucos dias depois, em 31 de março, gravemente doente, HPB partiu da Índia, para nunca mais voltar, acompanhada de Bowajee, Mary Flynn e Franz Hartmann. Para Judge, HPB diz que Hartmann foi junto porque:  "Subba Row disse que a menos que o Dr. H. deixasse Adyar ele iria renunciar. Todos os hindus se recusaram unanimemente a estar no mesmo comitê que ele; e Olcott foi notificado de que a menos que se fizesse o Doutor ir embora, muitos renunciariam. (...)

"Ainda está para ser visto o que a Doutrina Oculta, a Sociedade etc. se tornarão sem mim. Eu não ligo. Estou tão enojada com suas eternas intrigas, mentiras, conspirações e assim por diante, que à menor provocação renunciarei até mesmo da minha filiação & romperei para sempre toda conexão com a Sociedade. Olcott prepara, como ele me escreve, para me sacrificar pelo bem & salvação da Sociedade & firmemente acredita que ele está fazendo o que é correto. Ele não hesitaria em sacrificar a si mesmo, isso eu sei. (...)

Tenha cuidado com Hartmann. (...) Ele acredita (...) que eu geralmente sou uma "casca" que somente se torna boa para alguma coisa quando alguém mais entra nela. Acredite no que quiser." (HPB to Judge)

Olcott criou um comitê executivo experimental para administrar a Sociedade. Subba Row e A.J. Oakley estavam nesse comitê e Leadbeater era o secretário. Em 12 de abril de 1885, o comitê aceitou a renúncia de HPB do cargo de Secretária Correspondente. (ODL III, p. 233)

Embora não falasse publicamente sobre o assunto, Subba Row nunca deixou de reconhecer Madame Blavatsky como uma agente dos Mahatmas. Contudo, considerava que a própria ST era mais importante do que HPB e, portanto, tinha que estar acima das suspeitas que recaiam sobre ela. Numa carta para Sivavadhanulu Garu, em julho de 1885, ele escreve:

"O temperamento de Madame B. é, como você diz, muito ruim em alguns aspectos. Entretanto, acontece que ela é o único agente que pode ser empregado pelos Mahatmas para os propósitos da ST. Não fosse por esse mau temperamento, ela estaria agora em algum outro lugar. (...) A questão em discussão (...) não é se Madame B. é honesta ou desonesta, mas se a ciência oculta é uma realidade ou uma ficção. Mesmo um único fenômeno genuíno deve conseguir um veredicto em nosso favor. Meu cliente é a Sociedade Teosófica e não Madame B." (EW, p. 565) Em carta para HPB, de outubro de 1885, Olcott lhe conta que Subba Row havia declarado que "se HPB continuar com essa agitação (por panfletos, correspondência e conversas pessoais, e por rixas como a presente...), ele não apenas sairá da Sociedade Teosófica, mas levará todos aqueles sobre quem tiver influência a fazerem o mesmo." (Ranson, p. 228) Em maio de 1886, quando Olcott conversou com Subba Row sobre a possibilidade de HPB retornar à Índia, ele foi positivamente contrário a seu retorno. Olcott escreve: "Por alguma razão seus sentimentos com relação a ela haviam mudado completamente; ele agora estava positivamente hostil, e protestou dizendo que ela não deveria ser chamada por mais um ou dois anos, de modo a dar tempo para que a animosidade pública amainasse e evitar o escândalo que seria causado pelos missionários, incitando novamente os Coulombs a processá-la por difamação." (ODL III, p. 372)
 
A Doutrina Secreta Começa a Ser Escrita

Em setembro de 1883, ainda na Índia, HPB escreveu para Sinnett que agora "eu, inválida e meio morta, tenho que me sentar novamente por noites a fio e rescrever toda Ísis Sem Véu, chamando-a de A Doutrina Secreta e fazendo três senão quatro volumes a partir dos dois originais, com Subba Row me ajudando e escrevendo a maioria dos comentários e explicações." (LBS, p. 64)

Na edição de fevereiro de 1884, o The Theosophist publicou um anúncio, onde Subba Row aparece como co-autor, pedindo subscrições para auxiliar nos custos. (Zirkoff, p. 3) A publicação seria em feita em 20 fascículos mensais, de 77 páginas cada. (ODL III, p. 209) Entretanto, na noite de 8 de janeiro de 1885, HPB recebeu de seu Mestre outro plano para A Doutrina Secreta.

Para HPB, com sua saúde num estado lamentável, o trabalho de escrever horas a fio era realmente penoso, mas ela o fazia porque não ousava desobedecer às instruções de seu Mestre, cujas ordens, para ela, jamais seriam "pura loucura", como escreve em abril de 1884:

"Não me comprometi a reescrever e me incomodar com aquele livro infernal para o meu próprio doce prazer. Pudesse eu aniquilá-lo, arremessando a amaldiçoada obra na 8ª esfera, eu o faria. Mas minhas próprias predileções ou desejos não têm nada a ver com meu dever. O MESTRE ordena e quer que ela seja reescrita, e reescrevê-la eu irei; tanto melhor para aqueles que me ajudarão na tediosa tarefa, e tanto pior para aqueles que não ajudam e não ajudarão. (...) Nem jamais concordarei com você, com sua licença e seu perdão, é claro, que "é loucura tentar e escrever tal livro em partes mensais" uma vez que o Guru assim o ordena. Pois, apesar do enorme respeito que sinto por sua sabedoria ocidental e talentos para negócios, eu nunca diria de qualquer coisa que meu Mestre (em particular) e os Mestres (em geral) dizem para fazer, que é pura loucura cumprir suas ordens." (LBS, p. 88) Em sua partida da Índia, em 31 de março de 1885, quando se preparavam para entrar no vapor, Subba Row a incentivou a escrever, pedindo-lhe que enviasse semanalmente o que tivesse feito, para que ele fizesse notas e comentários.(Zirkoff, p. 7) Escrevendo para Vera Johnston, Hartmann relata que durante a viagem, em mar aberto, HPB "muito freqüentemente recebia, de alguma maneira oculta, muitas páginas de manuscritos referentes à Doutrina Secreta, cujo material ela estava coletando na época." (Zirkoff, p. 8) 

HPB chegou em Torre del Greco, na Itália, em 24 de abril de 1885. Sua saúde ainda era precária, e ela sofreu intensamente de reumatismo durante esses meses por lá. Hartmann partiu em maio, ficando Bowajee e Mary Flynn com HPB. Em junho ela escreve para a Sra. Sinnett:

"Aqui estou eu. Para onde irei em seguida, não sei mais do que um homem no mundo da lua. O único amigo que tenho na vida e na morte é o pobre pequeno Bowajee D. Nath exilado na Europa; e o pobre querido Damodar – no Tibet. D. Nath fica ao pé de minha cama, acordado por noites inteiras, me mesmerizando, como prescrito por seu Mestre. Por que Eles ainda querem me manter com vida é algo estranho demais para eu compreender; mas Seus modos são e sempre tem sido – incompreensíveis." (LBS, p. 100) No final de julho os três foram para a Alemanha, via Roma e St. Cergues, na Suíça, de onde Mary Flynn retornou para a Inglaterra. Em 12 de agosto HPB e Bowajee chegam em Würzburg, Alemanha. As difamações falando de HPB como impostora, como espiã russa, de fraudes etc., continuavam muito acesas. Sinnett não podia entender como é que os Mestres permitiam que isso acontecesse a Madame Blavatsky. Em 19 de agosto ela lhe escreve: "Tenho o que mereço, não pelos pecados de que sou acusada, mas por aqueles que ninguém conhece – exceto o Mestre e eu mesma. Serei eu maior, ou de qualquer modo melhor, do que eram St. Germain e Cagliostro, Giordano Bruno e Paracelsus, e tantos e tantos outros mártires cujos nomes aparecem nas enciclopédias do século XIX, sob os meritórios títulos de charlatões e impostores? Será o carma dos cegos e perversos juizes – não o meu." (LBS, p. 110) Sinnett diz que quando visitou-a em setembro "a Doutrina Secreta ainda estava intocada". (Sinnett, p. 302) Mas cerca de um mês depois, em outubro, ela lhe escreveu: "Estou muito ocupada com a D. Secreta. A coisa de Nova Iorque (querendo dizer as circunstâncias sob as quais Ísis Sem Véu foi escrita) se repetiu – apenas muito mais nítida e melhor. Começo a pensar que será ela que provará nossa inocência. Tamanhas imagens, panoramas, cenas, dramas antidiluvianos, e tudo mais! Nunca vi ou escutei tão bem." (Sinnett, p. 303) Em maio de 1886, HPB deixou Würzburg planejando ir para Ostende, na Bélgica. Antes de viajar, enviou o que havia escrito da Doutrina para Subba Row, em Adyar. No caminho, fez uma visita aos Gebhards, em Elberfeld, na Alemanha. Lá escorregou no assoalho do quarto, torcendo o tornozelo e machucando a perna, sendo obrigada a ficar com os Gebhards até julho, quando finalmente foi para Ostende. Em setembro de 1886, HPB escreve para Olcott que havia mandado mais uma parte do manuscrito da Doutrina através da Sra. Gebhard, que fora visitá-la.

Os manuscritos da Doutrina só chegaram em Adyar no início de dezembro de 1886. Por essa época, Subba Row estava se posicionando cada vez mais contra a abertura de ensinamentos esotéricos aos ocidentais e recusou-se a "fazer mais do que lê-la, dizendo que estava tão cheia de erros que se ele a tocasse teria que reescrevê-la completamente!" (ODL III, p. 398) HPB ficou muito aborrecida com sua atitude, mas recomeçou a escrever todo o texto, pois tinha grande consideração e respeito por Subba Row. Ela escreve para Olcott, em janeiro de 1887:

"Deixe S.R. [Subba Row] fazer o que ele quiser. Eu dou a ele carte blanche. Confio em sua sabedoria muito mais do que na minha, pois eu posso, em vários pontos, ter compreendido mal tanto o Mestre quanto o Velho C. [Cavalheiro, ou o Mestre Narayan]. Eles me dão apenas fatos e raramente ditam em seqüência." (Zirkoff, p. 38) Subba Row não colaborou mais com a trabalho da Doutrina Secreta. Em setembro de 1887, escrevendo para Subiah Chetty, HPB lhe diz: "Subba Row até mesmo se recusou, através de C. Oakley, a ler ou ter qualquer coisa a ver com minha Doutrina Secreta. Eu gastei aqui 30 libras para datilografá-la, com o propósito de lhe enviar e agora, quando tudo está pronto, ele se recusa a examiná-la. É claro que será um novo pretexto para ele pichar e criticar quando ela de fato for editada. Por esse motivo, eu retardarei sua publicação." (Zirkoff, p. 45)

Em 24 de fevereiro de 1888, HPB escreve a Olcott que recebera uma carta de um aluno pessoal de Subba Row, Tookaram Tatya, onde ele contava que Subba Row estava pronto para:

"me ajudar e corrigir minha D.S. desde que eu tirasse dela todas as referências aos Mestres! Agora, o que é isso? Será que ele quer dizer que eu deveria negar os Mestres, ou que eu não Os compreendo e mutilo os fatos que Eles me dão, ou que ele, S.R., conhece as doutrinas do Mestre melhor que eu? Pois pode significar tudo isso." (Zirkoff, p. 48) A recusa de Subba Row em ajudar na Doutrina Secreta repercutiu por toda a ST. Tookaram Tatya, diz que ele "declinou de empreender o trabalho porque acreditava que o mundo ainda não estava preparado para aceitar a divulgação daqueles segredos que ficaram, por boas razões, até então mantidos restritos ao conhecimento daqueles poucos consagrados." (EW, p. vi)

Sankaracharya

Subba Row tinha um projeto de reviver a Yoga Vydia no sul da Índia, com a formação de uma Sociedade Advaita, que também teria o papel de auxiliar e fortalecer a ST. Aparentemente ele trabalhou nesse projeto durante 1885, pois a Condessa de Wachtmeister, que havia ido morar com HPB em dezembro de 1885, escreve para Sinnett em 1º de janeiro de 1886, apenas dois dias após HPB ter recebido o relatório final da Society for Psychical Research [SPR]:

"Tivemos um dia terrível, e a Velha Senhora queria partir para Londres imediatamente. Eu a mantive tão quieta quanto pude, e agora ela desabafou seus sentimentos na carta anexa. (...) Se todos nós nos mantivermos verdadeiros e firmes, nada pode realmente nos ferir. O anexo lhe mostrará a imensa importância de manter a calma e o silêncio, esmagando o escândalo se possível. Não comentarei sobre o resultado de uma tal presidência na Índia como a de Sancharacharya – na direção de toda a nossa Sociedade.

"Como esta notícia foi enviada da Índia com a exigência do maior sigilo, coronel O. [Olcott] pede à Madame para não contar a ninguém por agora. Entretanto, sua alegria foi tão grande que ela me contou, sabendo que não sou pessoa de trair a confiança – e agora que você está nesse grande problema, eu disse a ela que seria correto da parte dela lhe contar, pois sei que você é um homem de palavra de honra e eu creio que essa notícia será um pequeno conforto e lhe auxiliará a superar os atuais problemas. Pense na magnitude e nas vastas proporções e importância que a Sociedade terá, em poucos anos, por todo o mundo." (LBS, p. 270)

Na carta de Olcott para HPB, citada pela Condessa, ele a relembra do grande projeto de Subba Row de "uma Sociedade Advaita nacional a ser secretamente levada por certos Iniciados e apadrinhada por Sancaracharya". Ele conta que essa sociedade fora recém formada e "foram redigidos estatutos, Sancaracharya concordando com a presidência" (LBS, p. 325), e que: "Subba Row pretende conduzi-la de modo que ela fortalecerá as Sociedades Teosóficas existentes, os ramos da ST, e criar novos onde não existe nenhum – assim você vê que ele está especialmente preocupado de que não haja novos escândalos ou confusões ligadas à ST, com receio que Sancaracharya (um Iniciado) e todo o grupo ortodoxo possa ficar assustado e comecem a nos dispersar. Agora, fique bem quieta, pelo amor de Deus, fique bem calma – você sabe quem é Sancaracharya!!!" (LBS, p. 325) Num artigo de julho de 1883, HPB chama Sancaracharya de "Papa da Índia", por pertencer a uma "hierarquia que reina espiritualmente, por sucessão, desde o primeiro Sankaracharya da Vedanta". Ela o descreve como sendo um "iniciado, o único homem na Índia que agora possui a chave para todos os mistérios brâmanes e tem autoridade espiritual desde o cabo Comorim até os Himalaias". (CW V, p. 62)

A Sociedade Advaita não se desenvolveu, e uma das razões foi o escândalo da SPR, que condenou HPB como uma impostora. Sendo um projeto que Subba Row considerava como da maior importância, é provável que seu fracasso tenha sido mais um fator para que ele não quisesse continuar colaborando com a Doutrina Secreta.

A Classificação dos Princípios do Homem

Outro ponto que certamente contribuiu para que Subba Row desistisse de colaborar com a Doutrina Secreta foi a discussão que se desenvolveu entre HPB e ele sobre a classificação dos princípios do homem. Durante a convenção de 1886, em Adyar, Subba Row deu palestras todas as manhãs sobre o Bhagavad-gita. Subrahmania Iyer, que não pode comparecer à convenção, contratou um taquígrafo para anotar essas palestras. Essas anotações foram revisadas pelo próprio Subba Row e publicadas no The Theosophist de fevereiro, março e abril de 1887.

Na primeira palestra, Subba Row dizia que qualquer sistema de instruções práticas para o desenvolvimento espiritual tinha que ser julgado, em primeiro lugar, com relação à natureza e às capacidades internas do ser humano e, em segundo lugar, com relação ao cosmos e às forças a que o homem está sujeito. Assim sendo, ele necessitava entrar numa análise da natureza do homem e do cosmos e, ao fazer essa análise, decidiu não adotar o sistema de sete princípios usualmente adotado nos escritos teosóficos, porque:

"Do mesmo modo que eu classificasse os princípios no homem, eu classificaria os princípios no sistema solar e no cosmos. (...) esta classificação sétupla, que não pretendo adotar, me parece ser uma classificação enganosa e muito pouco científica. (...) Quanta confusão essa classificação sétupla tem gerado! Estes sete princípios, como geralmente enumerados, não correspondem a quaisquer linhas naturais de divisão, por assim dizer, na constituição do homem. (...) esta classificação sétupla é quase conspícua por sua ausência em muitos de nossos livros hindus. De qualquer modo, uma parte considerável dela é quase ininteligível para mentes hindus, e assim é melhor adotarmos a tradicional classificação de quatro princípios, pela simples razão que ela divide o homem em tantas entidades quantas são capazes de ter existências separadas, e que estes quatro princípios estão associados com quatro upadhis [veículos] os quais, por sua vez, estão associados com quatro estados distintos de consciência. Assim, para todos os propósitos práticos – e para o propósito de explicar as doutrinas da filosofia religiosa – eu achei bem mais conveniente aderir à classificação quádrupla do que adotar a sétupla e multiplicar princípios de uma maneira que tem maior chance de introduzir confusão do que de esclarecer o assunto." (Notes) A resposta de HPB às críticas de Subba Row foi publicada no The Theosophist de abril de 1887, juntamente com a terceira parte das palestras de Subba Row. HPB comenta com Sinnett acerca de sua resposta: "Fawcett diz que é a resposta mais esmagadora; um artigo que combina polidez estudada com "admiração amigável" – e que eu o faço comer suas próprias palavras. Ele certamente terá uma dispepsia e uma indigestão." (LBS, p. 205) Na resposta, HPB escreve: "Esta aparente divergência com alguém cujas visões são corretamente consideradas em nossa Sociedade como quase decisivas em questões ocultas, é certamente um pretexto perigoso para dar aos nossos oponentes, que estão sempre alertas para detectar e proclamar contradições e inconsistências em nossa filosofia. Assim, sinto ser meu dever mostrar que na realidade não há inconsistências entre as visões do Sr. Subba Row e a nossa própria, na questão da divisão setenária". (EW, p. 315) Ela continua explicando que o sistema sétuplo não estava ausente apenas dos livros hindus, mas também dos budistas, pela simples razão de que era um sistema esotérico e, como tal, quase nunca ensinado abertamente. Ela própria também admite que: "É sem dúvida bem mais conveniente aderir à classificação quádrupla num sentido metafísico e sintético, assim como eu aderi à classificação tríplice – de corpo, alma e espírito – em Ísis Sem Véu, porque se houvesse então adotado a divisão sétupla, como fui compelida a fazer mais tarde, com o objetivo de análise estrita, ninguém a teria compreendido (...). Infelizmente – pois era prematuro – nós abrimos uma brecha na muralha da China do esoterismo e agora não podemos fechá-la novamente". (EW, p. 320) S. Row respondeu agradecendo o tom amigável, mas dizendo que suas críticas ao sistema setenário haviam sido intencionais e deliberadas, e que era importante que houvesse liberdade para se questionar a correção até mesmo dos "ensinamentos originais", isto é, aqueles que haviam sido publicados por Sinnett em seu livro Budismo Esotérico. (EW, p. 336) E acrescenta: "Em minha humilde opinião seria altamente perigoso para o futuro bem-estar e prosperidade da Sociedade Teosófica se fôssemos desenvolver, tão cedo em sua carreira, um credo ortodoxo a partir do material fornecido pelas fontes acima mencionadas, e elevar as publicações referidas acima à dignidade de uma revelação original. A maior parte dos membros da ST conhece muito bem as circunstâncias sob as quais estes ensinamentos foram dados. Seu caráter fragmentário tem sido freqüentemente reconhecido. Sua exposição defectiva é evidente à primeira vista; e suas imperfeições podem ser facilmente detectadas por meio de um exame cuidadoso." (EW, p. 337) Numa carta a Sinnett, o Mestre KH lhe diz que embora parecesse existir uma contradição entre a classificação de três princípios usada em Ísis e a sétupla, usada depois, esta contradição não era real. E que quando HPB estava escrevendo Ísis, Eles constantemente lhe diziam:  ""Você escreverá isso e isso, dê até e não mais" (...) Estava-se bem no início de um novo ciclo, em dias em que nem os cristãos, nem os espíritas haviam jamais pensado, que dizer mencionado, mais do que dois princípios no homem – corpo e Alma, à qual eles chamavam de Espírito. Se você tiver tempo de se reportar à literatura espírita daquela época encontrará que tanto para os espíritas fenomenalistas quanto para os cristãos, Alma e Espirito eram sinônimos." (Mlcr., p. 246) O Mestre KH também lhe conta que, a partir daí, sob ordens do Mestre Atrya, HPB foi a primeira pessoa que começou a explicar a diferença que existia entre Alma e Espírito, tendo que trazer "todo o arsenal de provas com ela, citações de Paulo e Platão, de Plutarco e Tiago etc., antes que os espíritas admitissem que os teosofistas estavam certos." (Mlcr., p. 246) Foi então: "que ela foi ordenada a escrever Ísis – apenas um ano após a Sociedade ter sido fundada. E como houve uma tal guerra sobre isso, infindáveis polêmicas e objeções no sentido de que não podia haver no homem duas almas – nós achamos que era prematuro dar ao público mais do que talvez pudesse assimilar, e antes que tivesse digerido a questão das "duas almas"; – e assim a posterior subdivisão da trindade em 7 princípios foi deixada sem ser mencionada em Ísis. E é porque ela obedeceu nossas ordens, e escreveu velando intencionalmente alguns de seus fatos – que agora, quando pensamos que chegou o tempo para dar a maior parte, senão toda a verdade – que ela tenha que ser deixada em apuros? Iria eu, ou qualquer um de nós, alguma vez deixá-la como um alvo para os espíritas alvejarem, e rirem das contradições, quando essas são inteiramente apenas na aparência, e provém tão somente de suas próprias ignorâncias sobre a verdade completa, uma verdade que eles não ouviriam, e nem mesmo agora a aceitarão, exceto sob protesto e com as maiores reservas? Certamente não." (Mlcr., p. 246) A discussão continuou até agosto de 1887, através das páginas do The Theosophist. Anos mais tarde, em suas instruções aos membros da Seção Esotérica, HPB escreve: "Todo esoterista que lê o The Theosophist deve lembrar-se quão amargamente Subba Row, um culto brâmane vedantino, se levantou contra a divisão setenária dos princípios no homem. Ele sabia bem que eu não tinha o direito e não ousaria explicar no The Theosophist, uma revista pública, a enumeração real, e simplesmente tirou vantagem de meu silêncio forçado." (CW XII, p. 605) Ela explica que a doutrina dos sete Tattvas (ou princípios do universo, assim como do homem) era mantida em grande sacralidade e segredo por todos os brâmanes da antigüidade, que terminaram praticamente a esquecendo. Entretanto esta doutrina: "... é ensinada até os dias de hoje nas escolas além da cordilheira dos Himalaias, mas agora ela mal é lembrada ou ouvida na Índia, exceto através de raros Iniciados. Esta política tem sido gradualmente alterada; suas linhas gerais começaram a ser ensinadas aos chelas e, no advento da ST na Índia, em 1879, fui ordenada a ensiná-la em sua forma exotérica para um ou dois, e obedeci." (CW XII, p. 605)
 
Morte de Subba Row

Subba Row saiu da ST em 1887, mas continuou como assinante de Lucifer e de The Theosophist e mantendo relações cordiais com Olcott e HPB.

Ele morreu em 24 de junho de 1890, aos 34 anos de idade. Olcott relata foi visitar Subba Row no dia 3 de junho, atendendo a seu pedido, para que lhe desse passes mesméricos com o intuito de tentar aliviar suas dores. Ele tinha o corpo todo coberto de furúnculos e pústulas, resultado de algum envenenamento do sangue. Olcott descreve:

"Conhecendo-o como o instruído ocultista que era, uma pessoa altamente apreciada por HPB (...) eu estava inexprimivelmente chocado ao vê-lo num tal estado físico. (...) Ao meio-dia do dia 24 ele disse àqueles a sua volta que seu Guru o havia chamado, que ele iria morrer, e que ele estava agora começando suas tapas (invocações místicas) e não queria ser perturbado. A partir daquele momento não falou com mais ninguém." (ODL IV, p. 241) HPB noticiou a morte de Subba Row, na edição de agosto de 1890 de Lucifer, dizendo que eram poucos os membros da ST ou os leitores da Doutrina que não conheciam o nome de Subba Row, o grande sábio vedantino. Ela acrescenta: "O carma tem misteriosos caminhos de executar seus fins, os quais para o profano devem permanecer para sempre insondáveis. Somente podemos sentir profundo pesar que um tal carma tenha atingido a alguém com cuja morte Madras foi privada de um intelecto gigantesco, e a Índia perdeu um de seus melhores eruditos.

"Possa seu próximo nascimento ser rápido e a sua vida ter uma duração mais longa e, sobretudo, possa ele ainda nascer na Aryavarta [Índia]. Sit tibi terra levis. [Se assim a terra desejar.]" (Ramajunachary, p. 45)
 

Bibliografia

Blavatsky, H.P. Glosario Teosofico. Ed. Kier, 1977.

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings (CW), vol. IV, V, XII. TPH, Wheaton, 1977.

Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett.(LBS) TUP, Pasadena, 1973.

Blavatsky, H.P. "Letter 2 from H.P.B. to W.Q. Judge, Dated May 1, 1885". BA, 1999 http://blavatsky.cc

Carlson, M. Theosophical History, V, No. 7, July 1995

Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement. TPH, Adyar, 1978.

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Seq.) (Mlcr.) TPH, Quezon City, 1993.

Olcott, H.S. Old Diary Leaves, (ODL) vol. II, III, IV TPH, Adyar, 1972.

Ramanujachary, N.C. A Lonely Disciple. TPH, Adyar, 1993

Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society. TPH, Adyar, 1989.

Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. Blavatsky, 1886. Kessinger Publ.Co., Montana.

Subba Row, T. Esoteric Writings (EW). TPH, Adyar, 1980

Subba Row, T. Notes on the Bhagavad Gita TUP http://www.theosociety.org/pasadena/tup-onl.htm

Zirkoff, B. de Rebirth of The Occult Tradition. TPH, Adyar, 1977.
 


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