Richard Hodgson em Adyar

Marina Cesar Sisson

(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n015, outubro/2000)

 Richard Hodgson Jr. – que estava destinado a ser conhecido "como ‘um dos maiores, senão o maior pesquisador de fenômenos psíquicos’ entre os fundadores da moderna parapsicologia" (Eek, p. 613) – nasceu na Austrália, em 24 de setembro de 1855. Formou-se em direito na universidade de Melbourne, em 1871, e foi para Cambridge, onde se bacharelou em Ciências Morais. Criado na Igreja Metodista, passou pela filosofia materialista e depois interessou-se pela pesquisa dos fenômenos psíquicos. Em 1882, quando a Society for Psychical Research (SPR) foi fundada, tendo Henry Sidgwick como presidente, Hodgson, que havia sido seu aluno de Filosofia Moral em Cambridge, já aparece como membro. (Eek, p. 613)

Em abril de 1884 Hodgson ganhou prestígio como sendo o primeiro investigador a desmascarar um caso encaminhado para análise da SPR: o de uma jovem analfabeta que simulava clarividência. No início de maio a SPR formou o comitê para análise dos fenômenos relacionados com HPB e a ST, do qual faziam parte Sidgwick e dois de seus alunos, Myers e Gurney, além de Podmore e Stack. (Eek, p. 614) O relatório preliminar do comitê, com as primeiras investigações, foi publicado em dezembro. Nessa ocasião, a Sra. Sidgwick e Hodgson também passaram a fazer parte do comitê. Esse último, com o prestígio adquirido por sua recente revelação de fraude, além de sua relação de amizade com Sidgwick, foi selecionado para as investigações na Índia. É interessante observarmos que a composição desse comitê estava longe de ser imparcial, pois:

"A maioria era de Cambridge, intimamente relacionada. Myers e Gurney haviam ambos sido alunos de Sidgwick. Isso provavelmente explica porque eles agiram de um modo tão passivo, permitindo que seus próprios testemunhos fossem cancelados sob sua orientação; (...) Um comitê composto por um homem, sua esposa e dois de seus alunos mal se poderia dizer que consiste de pessoas independentes. Um júri assim constituído nunca seria tolerado. Se suas origens tivessem sido mais heterogêneas, teria havido uma maior probabilidade de que pelo menos um se posicionasse contra os outros e dissesse: Eu tenho uma opinião diferente." (Fuller, p. 174) Richard Hodgson chegou na Índia em 18 de dezembro de 1884. Como já vimos, ele não pôde examinar o santuário pois esse havia desaparecido. (Inf. HPB 14). Porém o próprio quarto oculto também havia sido modificado. Logo após chegar em Adyar, em novembro de 1884, Olcott fizera uma reforma no quarto oculto. Certamente, os dois fatos contribuíram para criar mais suspeitas sobre possíveis fraudes nos fenômenos. Damodar escreve numa circular aos membros, em 9 de janeiro de 1885: "O Quarto Oculto e o Santuário – onde os quadros de dois Mestres eram mantidos, e onde tantos fenômenos ocultos ocorreram em presença de testemunhas incontestáveis – foram tão profanados pelos truques dos Coulombs durante a ausência de Madame Blavatsky na Europa, que o Presidente demoliu o quarto e o reconstruiu." (Eek, p. 512) Durante a convenção de dezembro de 1884 Hodgson pôde conviver e conversar livremente com os participantes. HPB escreveu para Sinnett: "Hodgson veio para Adyar; foi recebido como um amigo; examinou e interrogou minuciosa e rigorosamente todos que ele quis; (...) Pergunte a ele – alguma vez ele me confrontou com meus acusadores? Alguma vez ele tentou saber alguma coisa de mim, ou me deu uma chance de defesa ou explicação? NUNCA. Desde o primeiro dia ele agiu como se tivesse sido provada minha culpa sem qualquer sombra de dúvida. Ele fez o papel de traidor comigo; e não agiu como qualquer investigadorhonesto teria feito, mas como um promotor público ...". (LBS, p. 100) No início de janeiro Hodgson tomou o depoimento de HPB e no dia seguinte foi conversar com os Coulomb. Embora Hodgson carregasse as cartas consigo enquanto se hospedava em Adyar durante a convenção e quando foi examiná-la, HPB escreve que: "Ele nunca me permitiu ver as cartas; nunca me pediu para explicá-las. Até o dia de hoje, eu nunca vi a cor de alguma dessas cartas ‘incriminatórias’. E isso é chamado de pesquisa científica, feita de um modo imparcial!" (CW VII, p. 337)
É Necessário uma Natureza Justa para Ficar do Lado da Minoria

Hodgson achou HPB "difícil" por perceber ela não confiava nele. (Ranson, p. 217) Suas conversas com Damodar, Subba Row e Bowajee também foram "difíceis", pois para eles era degradante ter que responder sobre assuntos sagrados. Para os três era preferível calar-se, não defendendo HPB, pois divulgar qualquer coisa acerca dos Mestres seria uma vulgar profanação.

Mesmo com Hartmann, enquanto HPB e Olcott estavam na Europa, Damodar era bastante reticente, o que deu origem a desentendimentos entre os dois. Hartmann, como presidente do Conselho de Controle da Sede, achava que tinha direito a saber de tudo que ocorria, com o que Damodar não concordava. (Eek, p. 9) Para Hartmann, segredo e sigilo eram sinais de mentira:

"Assim, o Sr. Hodgson veio para Adyar. Hartmann começou colocando-o contra Subba Row, Bowajee, Damodar etc., dizendo-lhe que eles eram todos ‘terríveis mentirosos’, assim predispondo Hodgson contra as principais testemunhas." (HPB to Judge) De acordo com HPB, o Mestre KH atribuiu a Dharbagiri Nath (Bowajee), Damodar e Subba Row dois terços das ilusões que afetaram e prejudicaram o trabalho de Richard Hodgson: "... Mahatma KH sustenta que ele [Dharbagiri Nath], Damodar e Subba Row são responsáveis por dois terços das "mayas" [ilusões] do Sr. Hodgson. Foram eles que, irritados e insultados com sua aparição em Adyar, considerando sua (de Hodgson) investigação detalhada e sua conversa sobre os Mestres – degradante deles mesmos e uma blasfêmia com relação aos Mestres; ao invés de serem francos com H. [Hodgson] e lhe dizerem abertamente que havia muitas coisas que eles não poderiam lhe contar – continuaram trabalhando para aumentar sua perplexidade, permitindo que ele sugerisse coisas sem as contradizer, fazendo com que ele perdesse completamente o rumo. Veja bem, Hodgson não estava entre os seus: não tinha qualquer idéia do caráter de um verdadeiro hindu – especialmente de um chela – de sua intensa veneração por coisas sagradas, de sua reserva e privacidade em questões religiosas; e eles (nossos hindus) de quem nem mesmo eu jamais ouvi pronunciarem ou mencionarem um dos Mestres pelo nome – foram incitados à fúria ao ouvir Hodgson fazendo tão pouco daqueles nomes – falando de forma zombeteira de ‘KH’ e ‘M’ – etc. com os Oakleys." (LBS, p. 122) Para Subba Row, Madame Blavatsky era culpada por revelar segredos do Ocultismo e, por isso, seria melhor que as pessoas pensassem que ela não estava mais relacionada com os Mestres, duvidando dela, para que assim ela não divulgasse mais conhecimentos. HPB escreve a esse respeito para Francesca Arundale e sua mãe, em junho de 1885: "Brâmanes iniciados intransigentes – tais como Subba Row – nunca revelarão, nem mesmo aquilo que lhes é permitido revelar. Eles odeiam demais os europeus para isso. Ele não proclamou seriamente para o Sr. e Sra. C.O. [Cooper-Oakley] que eu era, daqui em diante, ‘uma casca desertada e abandonada pelos Mestres?’ Quando eu o censurei por isso, ele respondeu: ‘Você tem sido culpada pelo mais terrível dos crimes. Você tem revelado os segredos do Ocultismo – os mais sagrados e os mais ocultos. Antes seja você sacrificada do que aquilo que jamais deveria ser revelado para mentes européias. As pessoas tinham excessiva confiança em você. Era tempo de jogar dúvida em suas mentes. De outro modo, eles poderiam ter extraído de você tudo que você sabe.’ E ele agora está agindo sob esse princípio." (LBS, p. 95) Após o encontro com os Coulombs, Hodgson fez outras visitas ocasionais a Adyar, pedindo a Olcott trechos de seu diário e outras informações que sempre lhe foram fornecidas de boa vontade. Olcott ainda acreditava que Hodgson faria um relatório favorável a eles. Mas Isabel Cooper-Oakley escreve que, após umas poucas entrevistas de Hodgson com os Coulombs e os missionários, era evidente que ele estava se voltando contra HPB, que fazia parte da minoria: "É necessário uma cabeça fria e uma natureza justa para ficar do lado da minoria, e quando o Sr. Hodgson chegou na Índia ele encontrou toda a comunidade anglo-indiana armada contra Madame Blavatsky, por dois pontos principais: (1) porque ela era uma espiã russa; (2) porque ela ficava do lado dos hindus contra os anglo-indianos, se achasse que eles eram injustamente tratados e, sobretudo, porque tinha a coragem de dizer isso. Agora, a posição de um jovem homem que queria ao mesmo tempo fazer a coisa certa e ser popular com a maioria era necessariamente muito difícil, e uma contínua série de jantares não tendia a esclarecer suas visões, pois ele tinha incessantemente em seus ouvidos uma torrente de calúnias contra ela. (...) As investigações do Sr. Hodgson não foram conduzidas com uma mente imparcial, e de ouvir todos dizendo que Madame Blavatsky era uma impostora ele começou a acreditar: após umas poucas entrevistas com Mad. Coulomb e os missionários, vimos que suas opiniões estavam se voltando contra a minoria." (In Memory, p. 16) A Sra. Cooper-Oakley relata que as portas e painéis falsos construídos pelo Sr. Coulomb eram tão novos que quase não abriam, e era um fato óbvio que, nesse estado, certamente teriam inviabilizado a execução de qualquer truque por parte de HPB. Entretanto, o Sr. Hodgson: "... estava tão inclinado a ser um "sucesso" que esses simples fatos de bom senso foram desconsiderados por ele. Imediatamente após a Convenção terminar ele deixou a Sede e foi morar em Madras, até que suas investigações acabassem. HPB lhe pediu inúmeras vezes para ver as cartas que ela supostamente teria escrito, mas nem ela, nem nenhum de seus amigos íntimos jamais tiveram permissão de vê-las." (In Memory, p. 17)
Mestre M. Arrebata HPB das Garras da Morte

Com todos esses problemas HPB caiu gravemente enferma. Olcott e Leadbeater viajaram em 14 de janeiro para a Birmânia a convite do rei Theebaw III, para conversar sobre o trabalho em prol do Budismo. (ODL III, 208). Olcott ainda estava cumprindo sua programação quando, em 28 de janeiro, recebeu um telegrama de Damodar que dizia: "Volte imediatamente. Upasika (HPB) perigosamente doente." (ODL III, p. 215) Ele embarcou no dia seguinte, sentindo o coração pesado pela possibilidade de encontrá-la morta ao voltar. Escreveu em seu diário:

"Minha pobre colega, terá terminado sua vida de aventuras, angústia, violentos contrastes e inabalável devoção à humanidade? Ai de mim, minha perda será maior do que se você tivesse sido esposa, namorada ou irmã; pois agora terei que carregar sozinho o imenso fardo dessa responsabilidade que os Seres Sagrados nos encarregaram." (ODL III, p. 216) Ao chegar em Adyar dia 5 de fevereiro, Olcott encontrou-a entre a vida e a morte, com congestão dos rins, gota reumática e uma alarmante perda de vitalidade. Além disso, o coração também estava enfraquecido. Sua alegria ao vê-lo era tão grande que ela "colocou seus braços à volta de meu pescoço, quando cheguei ao lado de sua cama, e chorou em meu peito. Eu estava indizivelmente feliz de estar lá para, pelo menos, me despedir e lhe assegurar de minha inabalável lealdade." (ODL III, p. 216) Seus médicos disseram que era um milagre que ela não tivesse morrido. Como Olcott escreve para Francesca Arundale, isso só ocorreu devido à ação do Mestre: "Nosso Mestre novamente arrebatou HPB das garras da morte. Poucos dias atrás ela estava morrendo e eu fui chamado da Birmânia por telegrama, com quase nenhuma perspectiva de vê-la novamente. Mas quando três médicos estavam esperando que ela mergulhasse no coma e assim, sem sentidos, saísse da vida, Ele veio, colocou sua mão sobre ela, e todo o aspecto do caso mudou." (Caldwell, p. 206) A Sra. Cooper-Oakley ficara cuidando de HPB, numa crescente ansiedade e preocupação à medida que ela piorava. Ela relata que mesmo com HPB aparentemente a ponto de morrer, sentia-se sempre muito segura. Para ela: "Isso prova quão maravilhosa era a influência protetora de HPB, doente ou sã; pois embora eu estivesse completamente sozinha com ela (...) noite após noite vaguei para cima e para baixo [do terraço no topo do prédio], para respirar o ar fresco, entre 3 e 4 horas da manhã, e me perguntava, enquanto olhava a luz do dia romper sobre a baía de Bengala, por que eu me sentia tão sem medo, mesmo com ela deitada aparentemente a ponto de morrer. Eu nunca pude imaginar um sentimento de medo surgindo perto de HPB. Finalmente veio a angustiosa noite quando os médicos a desenganaram, e disseram que nada poderia ser feito (...) ela estava em coma (...) os médicos disseram que ela morreria nesse estado e eu sabia que, humanamente falando, essa seria a última noite de vigília. Não posso aqui entrar em detalhes do que aconteceu, uma experiência que nunca esquecerei; mas perto das 8h da manhã HPB subitamente abriu os olhos e pediu seu café, a primeira vez que ela falava naturalmente por dois dias. Fui procurar o médico, cujo assombro pela mudança era muito grande. HPB disse: ‘Ah! Doutor, você não acredita em nossos grandes Mestres.’ Dai por diante ela melhorou continuamente." (In Memory, p. 17)
Eu Não Seria Deixado Sozinho

No mesmo dia em que retornou, Olcott descobriu que Hartmann e Lane Fox haviam convencido HPB a assinar um documento que o depunha de seu cargo de Presidente e criava um Comitê composto de Subba Row e mais quatro europeus, que assumiria toda a direção da Sociedade. HPB havia escrito no documento: "Acreditando que esse novo arranjo é necessário para o bem estar da Sociedade, até onde isso me diz respeito, eu o aprovo." (ODL III, p. 229)

É interessante notar que embora HPB tivesse apenas o cargo de Secretária Correspondente, sua autoridade era incontestada até mesmo por Olcott, sendo suficiente sua assinatura no documento para ratificar a decisão. Olcott ficou chocado quando lhe entregaram a resolução, e foi lhe perguntar se ela realmente achava justo que ele, após tantos anos de lutas e dedicação pela Sociedade, fosse deposto dessa maneira. Ela respondeu:

"... que havia assinado algo que eles lhe trouxeram em seu leito de morte e que disseram que era muito importante para a Sociedade, mas que ela nunca havia compreendido tratar-se do que eu lhe descrevi, e que ela repudiava tal ingratidão. Ela me disse para rasgar os papéis, mas eu disse que não, que deveria guardá-los como a memória de um episódio que poderia ser útil para o historiador do futuro." (ODL III, p. 218) Olcott relata também que enquanto eles estavam conversando, ele recebeu um bilhete do Mestre M., de modo fenomênico, dizendo que HPB deveria assegurar a Subba Row e Damodar que, com sua morte, o elo entre a ST e o Mestre permaneceria inalterado. Na carta para Francesca Arundale, Olcott também descreve o apoio que ele recebeu do Mestre: "Anteontem as coisas pareciam tão ruins que Subba Row e Damodar desencorajaram-se, entraram em pânico e disseram que a ST se arruinaria. Bem, ontem veio aqui um certo Iogue indiano, vestido no costumeiro manto açafrão e acompanhado de uma asceta – que suponho ser sua discípula. Fui chamado, vim e me sentei, e ficamos olhando fixamente um para o outro em silêncio. Então ele fechou os olhos, se concentrou e me transmitiu psiquicamente sua mensagem. Ele havia sido enviado pelo Mahatma [Narayana] em Tirivellum (...) para me garantir que eu não seria deixado sozinho. Ele me lembrou de minha conversa do dia 7 com ... [Damodar] e ... [Subba Row] ... E me perguntou (mentalmente) se eu pude por um momento acreditar que ele, que sempre havia sido tão verdadeiro comigo, me deixaria continuar sem auxílio." (Caldwell, p. 206) A recuperação de HPB foi tão rápida que, em 10 de fevereiro, quando chegou telegrama de Leadbeater pedindo que Olcott voltasse a Birmânia, ela consentiu que ele retornasse. Chorando, ela despediu-se dele, que só conteve as lágrimas porque, naquele instante de pesar lhe voltou: "a recordação de que não permitiriam que ela morresse antes que seu trabalho estivesse concluído e alguém estivesse pronto para preencher a lacuna que ela deixaria." (ODL III, p. 218)

A Tentativa de Abrir os Olhos do Mundo Cego Quase Falhou

Em dezembro de 1884, Subba Row, preocupado com a continuidade da transmissão dos ensinamentos dos Mahatmas devido às suspeitas envolvendo HPB, havia proposto a criação de um comitê, que teria a função de receber ensinamentos esotéricos dos Mestres e transmiti-los para o "Grupo Interno" da Loja de Londres, além de contribuir com artigos para o The Theosophist. A proposta foi aceita pelos Mestres e ficou acertado que o material seria transmitido através de Subba Row e Damodar. Além dos dois, também faziam parte do comitê Olcott, Isabel Cooper-Oakley, A.J. Oakley e Ramaswanier Iyer. (Ranson, p. 206) Porém, os acontecimentos em Adyar impediram que esse projeto pudesse ser levado adiante. Na primavera de 1885, o Mestre KH escreve para Sinnett:

"Você deve ter entendido por agora, meu amigo, que a tentativa centenária feita por nós de abrir os olhos do mundo cego quase falhou: na Índia – parcialmente; na Europa, com umas poucas exceções – completamente. Há apenas uma chance de salvação para aqueles que ainda acreditam: unirem-se e enfrentarem a tempestade bravamente. (...)

"Assim, meu amigo, chegamos a um fim forçado para as projetadas instruções ocultas. Tudo estava arrumado e preparado. O Comitê secreto, apontado para receber nossas cartas e ensinamentos e transmiti-los ao grupo oriental estava pronto, quando alguns europeus – por razões que prefiro não mencionar – tomaram a si mesmos a autoridade de reverter a decisão de todo o Conselho. Eles declinaram (embora a razão que deram seja uma outra) – a receber nossas instruções através de Subba Row e Damodar, sendo o último odiado pelos Srs. Lane Fox e Hartmann. Subba Row renunciou e Damodar foi para o Tibet. Deverão os nossos hindus ser censurados por isso?" (MLcr., p. 449; ML-65)

Em 23 de fevereiro de 1885 Damodar havia partido de Madras para Calcutá, no navio SS Clan Graham, com a intenção de ir para o Tibet, via Calcutá, Benares e Darjeeling.

Na Verdade, Nossos Meios Não São os Seus Meios

Já em outubro de 1884 o Mestre KH advertira Sinnett que havia uma crise e, portanto, não era momento para reprovações ou recriminações, e sim para "lutarem unidos". E como essa crise era o resultado das inevitáveis provações a que estão sujeitos todos aqueles que se aproximam Deles, ela não estava sendo abafada, ao contrário, estava sendo atiçada por Eles:

"Seja lá quem for que tenha semeado as sementes da atual tempestade, o furacão é forte, e toda a Sociedade está colhendo-o e ele está mais sendo atiçado do que enfraquecido por parte de Shigatse. Você ri das provações – a palavra parece ridícula quando aplicada a você? Você esquece que aquele que se aproxima de nossos recintos, ainda que em pensamento, é arrastado para dentro do vórtex de provação." (MLcr 131, p. 435, ML 66) O Mestre KH lhe explica ainda que o "tesouro" do conhecimento oculto, que tantos procuram, tem guardiões fiéis e podia não ter sido HPB, Olcott ou qualquer outra pessoa que "despertara" esses guardiões, mas sim o próprio Sinnett mais do que eles ou do que a Sociedade coletivamente, uma vez que: "Livros como O Mundo Oculto e Budismo Esotérico não passam despercebidos aos olhos daqueles fiéis guardiões, e é absolutamente necessário que aqueles que poderão possuir aquele conhecimento devam ser completamente provados e testados. Infira disso o que quiser, mas lembre-se que meu Irmão e eu somos os únicos na Fraternidade que têm no coração a disseminação (até um certo limite) de nossas doutrinas, e HPB foi até agora nosso único mecanismo, nossa agente mais dócil." (MLcr 131, p. 435) O Mestre faz essa menção a respeito de HPB porque Sinnett reclamava muito de seu temperamento, que não raro dificultava ainda mais as situações já complicadas. Porém, mesmo ela sendo assim, isso não era desculpa para que ele deixasse de fazer todos os esforços possíveis para que o trabalho pudesse prosseguir, especialmente a correspondência entre eles. E acrescenta: "Admitindo que ela é tudo o que você descreve – e já lhe disse que o velho corpo combalido torna-se por vezes realmente perigoso – (...). Considere isso, como de fato é, uma positiva vantagem para todos os demais, que ela tivesse sido o que ela é, uma vez que isso lhes deu o maior estímulo para realizações, apesar das dificuldades que você acredita que ela tenha criado. Eu não digo que nós a teríamos preferido se um agente mais fácil de controlar estivesse disponível; mas ainda assim, no que diz respeito a vocês isso tem sido uma vantagem, e no entanto você a tem isolado por um longo tempo, se não para sempre, e desse modo criado tremendas dificuldades em meu caminho. (...) Bem – ela está praticamente morta; e é você – perdoe-me mais essa verdade – quem matou a rude, porém fiel agente, alguém que era de fato devotada a você pessoalmente. (...) Na verdade, nossos meios não são os seus meios, portanto resta apenas pouca esperança para nós no Ocidente." (MLcr 131, p. 435)
O Senso da Suprema Obrigação de Cumprir com o Meu Dever

Conforme podemos ler na literatura, Olcott também passou por seus momentos de provação. Quando veio da Birmânia para ver HPB ouviu falar que Hodgson, durante um jantar, havia mencionado que HPB era uma espiã russa. Ele e o Sr. Oakley foram conversar com Hodgson e saíram com a impressão de que o haviam convencido de que essa acusação era totalmente sem fundamento. Nessa conversa, Hodgson fez uma revelação a Olcott que lhe causou intenso sofrimento. Mostrou-lhe uma carta que HPB escrevera para H. Chintamon, da Arya Samaj em Bombaim, onde ela dizia que: "... eu [Olcott] estava tão sob seu encanto hipnótico que ela poderia me fazer acreditar no que ela quisesse, simplesmente olhando-me na face." (ODL III, p. 230) Mais do que o uso que os oponentes poderiam fazer dessa afirmação, Olcott escreve que:

"... pior do que isso, para meu coração, foi que HPB, de quem tenho sido amigo leal através de todas as circunstâncias, pudesse fazer esse ato de traição comigo; e meramente para satisfazer sua vaidade, como poderia parecer. Mas essa é a criatura contraditória que ela era, em seu eu físico, e eram esses traços que na época tornavam tão intensamente penoso para qualquer pessoa viver e trabalhar com ela por qualquer período de tempo. Tenho sempre dito que a dificuldade de se dar bem com ela, como Helena Petrovna, era infinitamente mais difícil do que superar todos os obstáculos externos, impedimentos e oposições que se ergueram no caminho do progresso da Sociedade."(ODL III, p. 230) HPB escreve para Sinnett sobre isso: "Não posso deixar a reputação do pobre Olcott ser atacada como está sendo, por Hume e o Sr. Hodgson que subitamente enlouqueceram com suas hipóteses de fraude mais fenomenais do que os próprios fenômenos." (LBS, p. 75) Nessa carta, ela diz que não negava que provavelmente tivesse escrito a Chintamon algo como: "Não se preocupe com Olcott e com o que ele diz (sobre a fusão das duas Sociedades), eu farei com que ele faça isso. Eu posso ‘psicologizar o velho homem com um olhar’ etc. Alguma coisa do tipo, de brincadeira, é claro. Isso é utilizado pelo Sr. Hodgson para mostrar claramente, baseado em minha própria confissão, que desde o início eu tenho iludido e psicologizado Olcott e que, portanto, seu testemunho não tem valor. (...) Pobre Olcott está pronto para cometer suicídio. É o final para os fenômenos para sempre – pelo menos quanto a sua divulgação – e vocês todos podem dar adeus aos ensinamentos e aos Mahatmas agora. Subba Row repete que a ciência sagrada foi profanada e jura que nunca abrirá seus lábios para um europeu sobre ocultismo." (LBS, p. 75-77) Olcott realmente sentiu-se profundamente traído. Ele afirma que nunca nada o afetou tanto, em toda sua experiência teosófica, quanto esse fato. Olcott escreve: "Isso me deixou desesperado e por 24 horas quase a ponto de ir à praia e me afogar no mar. Mas quando eu me perguntei com que propósito eu estava trabalhando, se para o louvor dos homens, ou pela gratidão de HPB ou de qualquer outra pessoa viva, todo esse desalento foi embora e minha mente nunca mais voltou a esse estado. O senso da suprema obrigação de cumprir com o meu dever, de servir aos Mestres na realização de seus elevados planos – sem agradecimentos, sem reconhecimento, mal compreendido, caluniado – não importa o que – veio como o raio de uma grande luz, e houve paz." (ODL III, p. 231)
Bibliografia

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings (CW), vol. VI, VII. TPH, Wheaton, 1977.

Blavatsky, H.P. The Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett.(LBS) TUP, Pasadena, 1973.

Blavatsky, H.P. "Letter 2 from H.P.B. to W.Q. Judge, Dated May 1, 1885". BA, 1999.

Caldwell, D.H. The Occult World of Madame Blavatsky. Impossible Dream Publ., Tucson, 1991

Eek, S. Damodar and the Pioneers of The Theosophical Movement. TPH, Adyar, 1978.

Fuller, J.O. Blavatsky and her Teachers. East-West Publ. e TPH, London, 1988.

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Seq.) (MLcr) TPH, Quezon City, 1993.

Olcott, H.S. Old Diary Leaves (ODL), vol. III. TPH,Adyar, 1974.

Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society. TPH, Adyar, 1989.

Some of her Pupils, In Memory of HPB. TPH, London, 1991
 
 

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