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Marina Cesar Sisson (Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n014, setembro/2000) Como vimos anteriormente, HPB, Olcott e Mohini haviam partido para a Europa em fevereiro de 1884 para tentar ajudar a solucionar a crise que havia se instalado na Loja de Londres, envolvendo Anna Kingsford e Sinnett. Na Inglaterra os fundadores haviam feito contato com a Society for Psychical Research (SPR) que em maio de 1884 resolveu criar um comitê para investigar os fenômenos relacionados com a ST e HPB. (Inf. HPB 12) Enquanto estavam na Europa, o Conselho de Controle em Adyar, que ficara
responsável pela administração da Sede, entrou em
conflito com os Coulombs que acabaram sendo expulsos de lá. (Inf.
HPB 10) No final de setembro de 1884 Franz Hartmann, presidente
do Conselho de Controle da Sede, telegrafou pedindo que Olcott voltasse
para Adyar. Ele partiu em 20 de outubro, de Marselha para Bombay, acompanhado
de Rudolf Gebhard e chegou em Adyar em 15 de novembro. (CW VI, p.
xxxvii) No dia 17 dissolveu o Conselho de Controle e reassumiu suas funções
administrativas como presidente. Nesse Informativo
HPB veremos como foi a volta de HPB para Adyar com Leadbeater
e o casal Oakley e os problemas enfrentados após sua chegada. Em 31 de outubro HPB partiu de Londres para Índia, via Egito, acompanhada de Isabel Cooper-Oakley e seu marido A.J. Oakley. Um dia antes, Charles Webster Leadbeater (CWL) havia ido visitá-la em Londres e lhe falara de seu grande desejo de ser um discípulo do Mestre KH. Ele havia até mesmo escrito uma carta ao Mestre, enviando-a através de um médium, mas não obtivera resposta. HPB lhe disse que a resposta chegaria no dia seguinte em sua casa, o que de fato aconteceu. Nessa resposta o Mestre KH lhe dizia que embora não tivesse recebido sua carta conhecia o seu conteúdo. Entre outras questões, lhe explicava que aceitar alguém como um chela, não dependia de Sua vontade pessoal, mas que só poderia ser o resultado: É interessante notarmos a diferença de tratamento do Mestre entre a 1ª e a 2ª mensagem recebida. Enquanto que na 1ª carta o Mestre diz que não poderia exigir que ele fizesse isso ou aquilo, mas apenas poderia aconselhá-lo, na 2ª, quando o recebeu como chela, passa a lhe dar orientações bastante específicas, as quais CWL apressou-se em cumprir, pois como ele mesmo dizia: "Emquestões ocultas ouvir é obedecer." (How, p. 53). Jinarajadasa comenta sobre isso: "É porque o Mestre é meu barômetro e confio cegamente Nele mesmo quando não entendo Sua política, e para todos os fins e propósitos Ele é o primeiro a me sacrificar e a permitir que as coisas mais cruéis aconteçam comigo, que eu sou o que sou – apenas uma velha mulher caprichosa e ‘lamuriosa’ na visão dos cegos – sempre uma Upasika, agindo sob ‘ordens’ aos olhos daqueles ‘que sabem’ – sempre tão pouco constante." (HPB to Judge) Leadbeater conseguiu arrumar suas coisas e encontrar-se com HPB em Porto Said. Lá chegando ela o recebeu dizendo: "Bem, Leadbeater, então você realmente veio, apesar de todas as dificuldades." Ao lhe responder que sempre fazia questão de honrar com suas promessas, ela apenas retrucou: "Melhor para você." CWL sentiu que HPB estava satisfeita com sua presença, pois estava voltando com um sacerdote cristão, que havia abandonado sua posição para se tornar seu seguidor fervoroso, num momento em que era atacada por missionários cristãos. (How, p. 57) HPB, CWL e o casal Oakley foram para um hotel em Porto Said, onde esperavam aguardar tranqüilamente a chegada de um novo vapor. Porém, quando se preparavam para dormir, HPB: Na popa do vapor ficava uma pequena cabana de cerca de 10 m² que era chamada de cabina geral. E junto dela, nos fundos, havia um compartimento sem janelas, denominado "quarto das senhoras", onde HPB acomodou-se. O Sr. Oakley, exausto e algo aborrecido pela súbita alteração dos planos, jogou-se num duro assento de madeira num canto, enquanto Leadbeater e a Sra. Oakley, considerando o enorme exército de baratas que tomava conta de ambas as peças, preferiram passar a noite andando – limitados pelo espaço de seis passos para cada lado do convés – e parando ocasionalmente para olhar o Sr. Oakley que "dormia calmamente, embora absolutamente coberto pelas repugnantes criaturas já mencionadas – e outras." (How, p. 60) Subitamente a monotonia da noite foi quebrada por gritos de dar pena, vindos do "quarto das senhoras". A Sra. Oakley correu para lá, corajosamente "enfrentando o flagelo dos insetos com apenas um estremecimento momentâneo; mas ela encontrou Madame Blavatsky muito doente e em grande dor e veementemente exigindo instalações sanitárias que, naquele pequeno e esquálido rebocador, simplesmente não existiam."(How, p. 60) Após convencer o capitão a esperá-los um pouco na próxima parada, Leadbeater e o Sr. Oakley tiveram que carregar HPB – que na época pesava 111 kg – até a terra, por uma estreita tábua de talvez 30 cm de largura: Foi então que eles viram uma espécie de bola de névoa branca se formando num buraco do teto e se condensando num pedaço de papel dobrado que caiu no chão do compartimento do trem. Leadbeater pegou-o e entregou-o a HPB. Ao lê-lo ela ficou com a face vermelha e disse: "Umph! Isso é o que ganho por tentar lhes avisar sobre os problemas que estão à frente de vocês!" e passou o papel para CWL, que lhe perguntou se poderia lê-lo. Ela respondeu: "Por que você pensa que lhe dei?" Lendo-o, descobriu tratar-se de uma nota do Mestre KH sugerindo, de um modo gentil porém firme, que era uma pena que ela, tendo consigo candidatos tão sérios e entusiastas, "lhes desse uma visão tão sombria de um caminho que, por mais difícil que pudesse ser, estava destinado a conduzi-los finalmente a uma alegria indizível. E a mensagem concluía com algumas palavras de gentis elogios endereçados nominalmente a cada um de nós." (How, p. 65) Chegando ao Cairo dirigiram-se ao Hotel Shepeard, local onde os ingleses
hospedavam-se. HPB sentou-se em cima das numerosas bagagens, no meio da
salão, enquanto o Sr. Oakley lutava para passar pelas 30 ou 40 pessoas
que se apinhavam no saguão de entrada, para conseguir quartos. Ele
mal havia conseguido as acomodações quando HPB saltou de
cima das bagagens e começou a chamá-lo excitadamente dizendo
que iriam para o Hotel d’Orient, onde os Coulomb trabalharam, pois lá
conseguiriam provas contra eles, e: "É claro que isso causou
a costumeira confusão; o pobre Sr. Oakley teve que voltar e cancelar
os quartos que havia contratado ..." (How, p. 67) É interessante o depoimento de Leadbeater com relação ao efeito produzido por essas primeiras semanas com HPB, onde o inesperado e o não usual, muitas vezes expondo-os a confusões, dificuldades e ao ridículo, era mais freqüente do que o "normal", ou do que se poderia esperar dentro de padrões convencionais. Eram por vezes situações tão difíceis que CWL comenta: "Bem, e agora estou partindo para Madras para lutar com os missionários pseudo cristãos. Seja feita a vontade de Deus (...). Adeus minha querida, meus amados: talvez para sempre, mas até mesmo isso não importaria. A felicidade não é para ser ganha na terra. Aqui temos apenas o escuro hall de entrada, e somente abrindo a porta para o local onde verdadeiramente se vive, para a sala de estar da vida, poderemos ver a luz. Seja no Céu, no Nirvana, no Swarga, é tudo a mesma coisa: o nome não importa. Mas quanto ao Princípio divino, ele é Um, e há apenas uma Luz, por mais diferentes que sejam as maneiras que ela possa ser compreendida pelas várias escuridões terrenas. Esperemos pacientemente pelo dia de nosso real, nosso melhor nascimento. Sua, até aquele dia, até o Nirvana e para sempre." (Blavatsky Letters, VIII) Uma grande multidão recebeu HPB no cais de Madras, com flores e manifestações de apoio, e de lá foram para um salão onde várias pessoas discursaram em sua homenagem. Animada com as provas obtidas no Cairo, Madame Blavatsky estava decidida a processar os Coulombs. Entretanto, Olcott achava que essas provas não eram suficientes e sua experiência como advogado prático lhe dizia que não tinham chances de ganhar. Assim, apesar de HPB insistir para que ele lhe arrumasse um advogado, ele se recusava. Como ela continuava a insistir, Olcott ameaçou renunciar a seu cargo e os dois acabaram concordando em deixar a decisão, de entrar ou não na justiça contra os Coulombs, nas mãos de um comitê formado por advogados e juizes, selecionados entre os delegados da Convenção de fins de 1884, que começaria em poucos dias. (ODL III, p. 197-198) Muitos membros, especialmente os orientais, não podiam aceitar que assuntos sagrados, como a existência dos Mestres, fossem tratados numa corte de justiça. Para eles, era melhor que HPB fosse sacrificada do que ver os nomes dos Mestres profanados. Além disso, as cortes de justiça eram formadas por anglo-indianos que, de um modo geral, alimentavam forte preconceito contra o trabalho da ST. Olcott, conhecendo o temperamento extremamente excitável de HPB, também temia vê-la depondo como testemunha. Após discussões, o comitê decidiu: Ao chegar em Madras, em 18 de dezembro de 1884, Richard Hodgson (o investigador indicado pelo comitê da SPR) logo quis examinar o santuário e o quarto oculto. Entretanto, Damodar, que estava responsável pelas chaves do quarto, não deixou que ele lá entrasse, uma vez que tanto Madame Blavatsky, quanto Olcott e Hartmann estavam ausentes no Ceilão. Lembremo-nos que os Coulombs acusavam HPB de forjar fenômenos, especialmente aqueles relacionados com o santuário – local onde eram colocadas mensagens para serem enviadas aos Mestres e onde as respostas eram materializadas. O santuário era um pequeno armário, pendurado numa fina parede de tijolos que separava o quarto oculto do dormitório de HPB. O Sr. Coulomb atestou para Hodgson que ele tinha removido o santuário "... logo após ter sido originalmente pendurado na parede, serrou o painel central em dois e colou um pedaço de couro atrás, de modo que a parte de cima pudesse ser facilmente levantada. Atrás desse painel deslizante foi feito um buraco na parede." (Hodgson) Coulomb disse também que em novembro de 1883, construíram uma outra fina parede de tijolos para bloquear o acesso do dormitório, paralela à parede onde o santuário estava pendurado, ficando um espaço vazio de cerca de 30 cm entre as paredes do dormitório e do quarto oculto. Logo depois haviam encostado na parede do dormitório uma cômoda, de uns 91 cm de altura e 86 cm de largura e, nesse ponto da parede: Diferentemente do testemunho de Coulomb, W.Q. Judge relata que, quando o Comitê de Controle da Sede retomou a guarda dos aposentos de HPB (após a expulsão dos Coulombs), descobriram um buraco inacabado na parede entre o dormitório e o quarto oculto. O buraco era tão novo que ainda havia restos de reboco e pontas de ripas de madeira pelo chão. No dormitório, havia sido colocado um armário com um painel como fundo falso, cobrindo o buraco na parede: "Mas o painel era novo demais para funcionar bem e tinha que ser violentamente golpeado para poder ser aberto. Tudo estava mal planejado, sem lubrificação e não estava bem lixado. Ele havia sido mandado embora antes de ter tido tempo de terminar." (Cranston, p. 269) Quando HPB e Olcott chegaram de viagem, Hodgson logo quis saber onde estava o santuário. Porém o ele havia desaparecido! Damodar relatou que o levara para seu quarto ao meio dia de 20 de setembro, mas que na manhã seguinte o santuário havia sumido! Escrevendo para Judge, em maio de 1885, HPB lhe diz que Hartmann, de início havia declarado a Hodgson que o santuário havia sido roubado do quarto de Damodar, chegando a lhe mostrar marcas de pés e mãos nas paredes sob a janela de Damodar. E ainda lhe sugerira que quando fosse conversar com os Coulombs tentasse ver se o santuário não estava escondido por lá. Depois, quando Hodgson já estava claramente contra HPB, Hartmann e Hume inventaram uma teoria de que havia sido HPB quem havia ordenado a seu servo Babula – que voltara antes deles da Europa – a "desaparecer com o santuário comprometedor." (HPB to Judge) Hodgson já havia aceito essa versão contra HPB, e até mesmo a escrito em seu relatório, quando Hartmann: Como vimos em números anteriores, já havia várias circunstâncias desfavoráveis, que despertavam suspeitas sobre os fenômenos relacionados a HPB. A essas somaram-se esses últimos episódios que descrevemos acima. Não parece provável que todas essas circunstâncias sejam fruto do acaso. Nesse sentido, concluímos com a afirmação de Sinnett de que, para ele, era extremamente exasperante como os Mestres: Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings (CW), vol. VI, XII. TPH, Wheaton, 1977. Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky. The Blavatsky Archives (BA), 1999. http://blavatskyarchives.com Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatskyto A.P. Sinnett. (LBS) TUP, Pasadena, 1973. Blavatsky, H.P. "Letter 2 from H.P.B. to W.Q. Judge, Dated May 1, 1885". BA, 1999. Cranston, S. "The Extraordinary Life and Influence of Helena Blavatsky,. G.P. Putnam’s Sons, NY, 1994. Hodgson, R. "The Theosophical Society. Russian Intrigue or Religious Evolution?" BA, 1999. Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom (LMW), 2nd Series. TPH, Adyar, 1973. Jinarajadasa, C. (ed.) The "KH" Letters to C.W. Leadbeater. TPH, Adyar, 1941. Leadbeater, C.W. How Theosophy Came To Me. TPH, Adyar, 1986. Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. III. TPH, Adyar, 1974. Perera, A. "Adoption of Buddhism by a Christian Minister" BA, 2000. TS Report "Report of the Committee Appointed by the Annual Convention
of The Theos. Soc." BA, 1999. e pesquisas sobre HPB realizados nos últimos anos. Comentários, sugestões ou perguntas são bem-vindos e devem ser encaminhados para a autora Marina Cesar Sisson msisson@zaz.com.br Caixa Postal 08.861 70.312-970 Brasília, DF - Brasil BN-Inglês | BN-Português| alto |