O "Colapso de Koot Hoomi"
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n013, agosto/2000)


Na edição de 11 de setembro de1884 do Christian College Magazine apareceu a primeira parte do artigo entitulado "O Colapso de Koot Hoomi", escrito por seu editor, o reverendo George Patterson, com base em 15 cartas que os Coulombs alegavam terem sido escritas para eles por HPB. Algumas estavam em francês, outras em inglês e nelas HPB estaria lhes dando instruções de como produzir fenômenos ocultos de forma fraudulenta. Na edição de outubro mais um conjunto de cartas foi publicado. (CW VI, p. 295) 

Nesse Inf. HPB vamos conhecer um pouco dessas cartas e as primeiras conclusões da Society for Psychical Research (SPR) sobre os fenômenos relacionados a HPB e à ST. Veremos também como foram pintados os quadros que imortalizaram as imagens físicas dos Mahatmas, justamente num momento histórico em que suas próprias existências eram questionadas. 

Uma das primeiras reações de HPB à publicação das cartas foi renunciar ao cargo de Secretária Correspondente da ST, em 27 de setembro, comunicando sua decisão através de uma carta que ela pretendia publicar no jornal Light. Sua intenção era desvincular-se da ST, para que essa não se prejudicasse e pudesse prosperar, uma vez que ela, HPB, era "o principal, senão o único alvo para as críticas venenosas de nossos muitos inimigos". (CW VI, p. 283) Assim sendo: 

"... deixo de ocupar a posição oficial de Secretária Correspondente em nossa Sociedade e estou até mesmo desejando, se possível, que fosse esquecido que algum dia fui um de seus dois fundadores ativos. Eu rompo – por um longo período, de qualquer maneira – toda conexão com a Sede, com a Sociedade Mãe como um corpo, e com seus duzentos Ramos. Não retornarei a Adyar antes de ter inocentado a Sociedade de todas as perversas difamações sobre seu caráter, e que a pureza de suas intenções tenha sido melhor reconhecida." (CW VI, p. 283) Entretanto, Madame Blavatsky voltou atrás em sua decisão, atendendo pedidos, e a carta não chegou a ser publicada. Nessa carta ela lembra que "seja lá o que eu aparente ser, ou o que eu possa realmente ser, meus erros e deficiências são meus e não têm nada a ver com a Sociedade Teosófica." (CW VI, p. 284) 
Madras Christian College

Embora muitas pessoas associem o Madras Christian College a padres jesuítas dogmáticos, ele era ligado aos presbiterianos escoceses e, na verdade, o Madras C. College era uma escola cristã ecumênica. De fato, seu jornal apresentava uma abordagem bastante liberal para a época, como podemos ver num trecho do editorial de novembro de 1884, do reverendo metodista George Patterson onde, por mais errada que estivesse sua conclusão sobre o "grande" serviço que estaria prestando aos teosofistas, sua postura não é a de um missionário dogmático: 

"Reconhecemos plenamente o direito da Sociedade Teosófica de cultivar seu campo escolhido. Reconhecemos que algo como o que ela propõe com relação à literatura antiga e às religiões da Índia é uma absoluta necessidade atualmente. Acreditamos que, assim como os princípios de investigação da Sociedade são mais antigos que Mad. Blavatsky, eles irão viver por muito tempo após sua morte. Vamos ainda mais longe e dizemos que há grandes possibilidades diante da Sociedade e que o que é necessário para seu verdadeiro bem é sua completa separação dos falsos fenômenos e prodígios mentirosos. Ao apresentarmos, como fizemos, provas de que os Mahatmas de Madame Blavatsky são um mito e seus fenômenos apenas façanhas enganosas, clamamos estar prestando um serviço aos teosofistas sinceros e sérios maior do que a qualquer outra pessoa." (Price 1986, p.14) Em 27 de setembro, a convite do general Morgan, Patterson acompanhado dos reverendos Alexander e Padfield foram a Adyar, onde tiveram acesso ao "santuário" e a cartas e documentos na caligrafia de HPB. Eles mostraram a Hartmann, Subba Row, Judge e Morgan algumas das cartas publicadas. Dois dias depois Patterson publicou suas conclusões no Madras Mail "O resultado de uma comparação muito cuidadosa desses documentos foi o fortalecimento de nossa convicção de que as cartas publicadas são indubitavelmente genuínas. Não preciso detalhar nesse momento as considerações sob as quais esta conclusão se baseia. É suficiente dizer que estou bastante preparado para arcar com a responsabilidade que assumi ao publicar essas cartas como genuínas (...). Posso ainda acrescentar, em resposta às muitas perguntas que têm aparecido na imprensa, que ‘toda precaução’ tomada para determinar a genuinidade das cartas antes da publicação de fato incluiu seu exame pelos melhores especialistas em caligrafia disponíveis no sul da Índia." (Patterson, The Blavatsky Correspondence)
Os Comentários de HPB sobre as Cartas Publicadas

Em outubro o Conselho da Loja de Londres editou um panfleto sob o título "O Mais Recente Ataque à Sociedade Teosófica" onde HPB escreveu alguns comentários sobre 13 das 15 cartas publicadas na edição de setembro. Para ela apenas uma carta era realmente genuína, quatro eram cartas com trechos adicionados ou adulteradas e as restantes eram falsificadas. 

Ela chama a atenção para alguns detalhes nessas falsificações como, por exemplo, que jamais trocaria o nome do amigo, N.D. Khandalawala por "H. Khandalawalla", nem mencionaria o "Marajá de Lahore" - uma vez que esse personagem não existe. Também não falaria para a Sra. Coulomb a respeito de Ragoonath Rao – um dos membros do Conselho de Controle em Adyar, com quem a Sra. Coulomb se encontrava todos os dias – como se o estivesse apresentado: "Ragoonath Rao, o Presidente da Sociedade", mas usaria apenas o título "Dewan Bahadur". (CW VI, p. 295-297) Embora Hodgson tivesse as cartas em seu bolso quando foi conversar com HPB em Adyar, ele nunca permitiu que ela as examinasse. Para Sinnett, em agosto de 1885, ela escreve: 

"É claro que sem ver as cartas não posso ajudá-lo com nenhuma pista para o mistério. Eu sei como foi feito, mas uma vez que não posso prová-lo (...) de que adianta falar nisso? A caligrafia naquele cartão não era idêntica à minha? Entretanto você sabe que não foi feito por mim. A letra de Alexis Coulomb é naturalmente parecida com a minha. Todos nós sabemos como Damodar foi certa vez enganado por uma ordem escrita na minha caligrafia para subir ao andar de cima e me procurar em meu quarto em Bombay, quando eu estava em Allahabad. Era um truque do Sr. Coulomb, que pensou que seria um bom divertimento enganar a ele, ‘um chela’ – preparou um disfarce parecido comigo deitado na minha cama e, tendo surpreendido Damodar – e riu dele por três dias. Infelizmente aquele pedaço de nota não foi preservado. Não pretendia parecer nenhum fenômeno, mas apenas ser uma ‘boa farsa’ (une bonne farce) da parte de Coulomb, que preparou muitas. E se ele podia imitar tão bem minha letra numa nota, por que não poderia ter copiado (teve 4 anos para estudar e fazer isso) cada fragmento e nota minha para Mad. Coulomb num papel idêntico e fazer as interpolações que quisesse? (...) Vi Coulomb copiando uma dessas minhas notas, em sua mesa, numa cena que me foi mostrada pelo Mestre na luz astral." (LBS, p. 115-116)
O Memorando Stack

Como já mencionamos no Inf. HPB n.° 10, os membros que inicialmente compunham o comitê da SPR para investigar os fenômenos relacionados a HPB eram Gurney, Myers, Podmore, Sidgwick e Stack. J. Herbert Stack, um jornalista amigo de Sinnett, ficou responsável por fazer uma revisão no relatório preliminar. Suas anotações com sugestões e comentários são conhecidos como o "Memorando Stack". Na carta para Sidgwick, de 17 de outubro de 1884, que acompanhou suas anotações, fica bastante claro que ele não estava imparcial, mas sim propenso a julgar Madame Blavatsky como uma impostora, estando influenciado pelas cartas dos Coulomb, pela carta britânica de Massey e pelo caso Kiddle. Seu receio em tomar uma tal posição publicamente devia-se ao respeito e grande amizade que tinha por Sinnett. Ele escreve: 

"Tentei persuadir Myers e Gurney ontem: receio que meus argumentos não tenham tido muito efeito: eles ainda estão sob o feitiço de Madame Blavatsky. (...) 

"Uma das maiores dificuldades de qualquer veredicto claro ou decisivo na Teosofia surge da relutância que todos nós sentimos em falar sem rodeios. Por exemplo, se você toca nas cartas Coulomb você deve, com franqueza, apontar que Madame Blavatsky já foi pega numa fraude que se parece muito com aquelas que lhes são atribuídas pelos Coulombs. Ela escreveu à Sra. Billings: ‘Entregue essa carta para o Sr. Massey de modo fenomênico’. Ela escreveu (ou é dito que escreveu) para Madame Coulomb: ‘Entregue isso para Damodar de um modo miraculoso.’ Então devemos ter em mente que seus próprios amigos e discípulos admitem que ela não é ‘verdadeira’ e ‘confiável’. Depois temos Koot Hoomi condenado não apenas por plágio, mas por uma deliberada ordem de falsificação para se livrar da acusação. Acrescente os Coulombs, trapaceiros confessos – e teremos a fundadora da Sociedade, o Mahatma líder e os guardiões do sagrado ‘santuário’, todos maculados. 

"Agora, mostrar tudo isso claramente no seu relatório seria justo, mas doloroso e rude. Não gostaria de escrever um tal relatório público pois pessoalmente tenho um grande respeito por Sinnett. Mas se você fala de caráter, você não pode, com justiça, omitir esses fatos. Minha saída num caso desses seria o silêncio – ou uma grande reserva. (...) 

"Quanto ao fenômeno favorito deles, a precipitação de cartas, não há nada tão dentro do alcance de um mágico, e nenhum outro que, se quisessem, poderia ser tão irrefutavelmente testemunhado por pessoas de fora. Homens que estão uma vez por semana, ou coisa assim, enviando por meios ocultos cartas a milhares de milhas de distância, poderiam certamente enviar uma única vez uma carta exibindo em seu exterior os carimbos postais de Londres e de Calcutá do mesmo dia. Eles não farão isso, dizem eles: eles não concederão tanto. Então, por que todas essas publicações, palestras e esforços particulares de propaganda? Por que tentar converter o ocidente se eles estão resolvidos a manter-se envoltos numa dignidade oriental?" (Price, 1985, p. 11-12)

Stack recomenda que Sidgwick reduza o tamanho do relatório, pois: "Parecerá que a Teosofia é um assunto sério e importante se devotarmos a ela um documento tão volumoso." (Price, 1985, p. 6) Ele também sugere que um fenômeno claramente a favor de HPB – o tilintar de sinos que havia ocorrido na presença de dois membros do comitê, Myers e Gurney – fosse omitido do relatório pois era "um fato muito pequeno para ser registrado de forma tão elaborada e solene". Mesmo que essa não fosse uma evidência forte, isso não altera o fato de que deveria ter sido incluída no relatório, caso esse fosse realmente imparcial. (Price, 1985, p. 5-6) As sugestões foram acatadas por Sidgwick que apenas escreveu no relatório:  "Também se diz ocorrer a produção de sons sem meios físicos, e alguns desses casos encontram-se nos apêndices, mas esse fenômeno, mesmo que genuíno, pode possivelmente ser devido a alucinação auditiva, telepaticamente provocada." (SPR Report)
Relatório Preliminar da SPR

O comitê de investigação da SPR publicou, em dezembro de 1884, um relatório preliminar e provisório, que continha 42 apêndices com as descrições das testemunhas sobre os fenômenos. Ele também era apenas para circulação privada entre seus membros por duas razões: a primeira era que algumas testemunhas, especialmente Damodar e a Sra. "X" (Sra. Billings) poderiam não gostar das evidências que estavam sendo publicadas. A segunda razão era que o comitê ainda estava "num estado de deixar em suspenso o julgamento quanto à genuinidade e à importância dos fenômenos alegados." Assim, qualquer opinião dada nesse relatório deveria ser considerada como provisória e hipotética e não como uma conclusão definitiva. (SPR Report

Embora o comitê considerasse que, em princípio, as testemunhas teosóficas eram confiáveis, reconhecia que algum tipo de fraude havia sido praticado por pessoas ligadas à ST: 

"Pois mesmo supondo que seja provado que as cartas que os Coulombs alegam terem sido escritas por Madame Blavatsky tenham sido por eles falsificadas, ainda permanecerá como certo que os próprios Coulombs, que residiram por longo tempo na Sede da Sociedade Teosófica ocupando cargos de confiança, são trapaceiros, e que Madame Blavatsky, se não sua cúmplice, tem sido pelo menos enganada por eles, a ponto de, pelo menos, depositar confiança em pessoas extremamente indignas. Mais ainda, do que é conhecido como o incidente Kiddle – e algumas outras evidências que nos foram trazidas privadamente pelo Sr. C.C. Massey – sugerem, pelo menos para a mente ocidental, que nenhuma precaução pode ser excessiva ao lidar com evidências desse tipo." (SPR Report) Em seguida o comitê conclui não achar possível a afirmação dos Coulombs de que todos os fenômenos eram realizados por HPB, apenas com o auxílio deles e de alguns servos indianos, sendo todos os outros teosofistas enganados. Assim, só havia duas alternativas: ou os fenômenos eram genuínos, ou outras pessoas de boa posição na sociedade e consideradas de bom caráter, também haviam tomado parte deliberada na fraude. Decidiram então investigar as chamadas "projeções do duplo ou da forma astral" de pessoas vivas, o transporte ou duplicação de objetos e a precipitação de cartas, sobre as quais os Coulombs haviam lançado tantas suspeitas. 

Havia testemunhos da ocorrência de projeções astrais de Damodar e dos Mestres KH e M. Porém, a própria existência física dos Mahatmas já era um ponto controverso e suas aparições poderiam ser devidas a ilusões ou alucinações. Do ponto de vista da investigação científica, para estabelecer se realmente houvera a projeção astral, era preciso primeiro comprovar a existência física das pessoas e, em segundo lugar, era necessário certificar-se que a forma aparecendo não era o próprio homem real, ou algum outro se passando por ele, nem ilusões produzidas por aparatos ópticos ou alucinações geradas pela expectativa ou por processos mesméricos. 

Assim, se a existência física dos Mestres não fosse comprovada, os fenômenos de suas aparições não poderiam ser aceitos. O "caso Kiddle" havia deixado um clima de suspeitas não bem resolvidas. Além das explicações de KH não terem sido satisfatórias, deixando dúvidas, o Sr. Kiddle havia publicado um outro artigo mostrando outros trechos que apresentavam o mesmo problema de um aparente plágio, sobre os quais KH não havia se manifestado. Assim, o relatório conclui que as evidências acerca dos "fenômenos teosóficos" são de um tipo: 

"... particularmente difícil tanto de esclarecer quanto de avaliar. As pretensões são tão grandes e as linhas de testemunhos convergem e se fundem de um modo tão surpreendente, que é quase tão difícil dizer quais declarações devem ser aceitas, quanto o que deve ser inferido da aceitação de outras declarações. No todo, entretanto (embora com algumas sérias reservas), parece inegável que há um caso prima facie, pois pelo menos algumas partes das reivindicações feitas, no ponto em que se encontram as investigações da SPR, não podem, com coerência, ser ignoradas. E parece também evidente que uma verdadeira residência na Índia, por alguns meses, de algum observador de confiança (...) é quase que um pré-requisito necessário para qualquer julgamento mais definitivo." (SPR Report)
Os Retratos dos Mestres

Quando as aparições dos Mestres eram apresentadas como sendo resultado de truques realizados com o auxílio dos Coulombs, Madame Blavatsky costumava argumentar que ainda que isso pudesse explicar as aparições em Adyar, como explicaria suas aparições a milhares de milhas dos Coulombs? E como é que um bem conhecido artista havia pintado em Londres os retratos dos Mahatmas, sem jamais tê-los visto, e os reproduzido com uma tal semelhança que permitiu que Eles fossem imediatamente reconhecidos por ingleses e indianos que os haviam encontrado na Índia? (CW VI, p. 311) O relatório da SPR assim de manifesta sobre o quadro do Mestre M.: 

"... a produção do retrato do Mestre do coronel Olcott, Mahatma M., é interessante porque esse é o retrato a partir do qual (...) outras pessoas reconheceram o Mahatma M. quando o viram ou a sua suposta aparição. Entretanto, mal podemos considerar isso como uma evidência sem conhecer mais a respeito do cavalheiro que dizem tê-lo pintado." (SPR Report, Appendix I) Porém Olcott não revelou à SPR o nome do pintor, justificando que ele ocupava um cargo oficial e que não era recomendável que fosse divulgado que ele era um teosofista e, assim sendo, essa evidência não foi mais investigada. Vamos ver como é que esses retratos foram feitos. 

Em fevereiro de 1878, ainda em Nova Iorque, Olcott havia insistentemente pedido a HPB que ela lhe fizesse um retrato do Mestre M. Ela sempre lhe respondia que não tinha autorização para faze-lo, mas que eles poderiam tentar um outro método, isto é, fazer com que alguém que não o conhecesse, nem fosse um médium ou um ocultista, o desenhasse. 

Uma tarde, quando da visita de um amigo francês, Harisse, o qual tinha alguns dons artísticos, e a conversa versava sobre a Índia e a coragem dos Rajput (habitantes do Rajastão), HPB sussurrou a Olcott que, se ele fosse comprar o material necessário, ela tentaria fazer com que Harisse desenhasse o retrato do Mestre M. 

Ele foi a uma loja próxima e comprou uma folha de papel e crayons nas cores preto e branco, pagando-os com uma moeda de meio dólar. Ao chegar em casa e abrir o pacote caíram no chão duas moedas de prata de um quarto de dólar! Para Olcott foi um sinal de que o Mestre queria que o desenho ficasse como um presente para ele. (ODL I, p. 371) 

HPB então pediu a Harisse que desenhasse a cabeça de um líder hindu, da maneira que ele a imaginasse. Ele disse que não tinha nenhuma idéia clara a respeito e queria desenhar alguma outra coisa. Mas com a insistência de Olcott, concordou em tentar desenhar a cabeça de um hindu. HPB pediu a Olcott que ficasse quieto e fosse para o outro lado da sala e ela: 

"... foi e sentou-se perto do artista e ficou quieta fumando. De tempos em tempos ia vagarosamente atrás dele, como se estivesse observando o progresso de seu trabalho, mas não falou até que estivesse concluído, digamos uma hora mais tarde. Eu o recebi agradecido, o emoldurei e o pendurei em meu pequeno dormitório. Mas uma estranha coisa havia acontecido. Após termos dado uma última olhada na imagem, enquanto ela estava à frente do artista, e enquanto HPB a pegava para me entregar, a assinatura em forma de criptograma de meu Guru apareceu no papel; assim fixando sobre ela, como se fosse, seu imprimatur [permissão oficial para impressão], e grandemente aumentando o valor de seu presente. Mas naquela época eu não sabia se a imagem se parecia com o Guru ou não, pois ainda não o havia visto. Quando o vi, mais tarde, descobri uma verdadeira semelhança e, mais ainda, fui presenteado por ele com o turbante que o artista amador havia desenhado na imagem cobrindo sua cabeça." (ODL I, p. 371) Anos mais tarde, em junho de 1884, quando Olcott e HPB estavam em Londres, o coronel querendo ter um retrato melhor de seu Guru, lançou uma competição amigável entre os membros que eram artistas. Cinco – três profissionais e dois amadores – aceitaram fazer uma tentativa, e cada um deles recebeu uma cópia fotográfica do desenho feito em crayon por Harisse. Mas nenhum resultado apresentou uma semelhança melhor do que no esboço de Harisse. Antes que a competição tivesse acabado, Hermann Schmiechen, um conhecido retratista alemão, que morava em Londres, entrou para a ST e aceitou o convite de Olcott de fazer uma tentativa.  "A fotografia lhe foi entregue sem nenhuma sugestão de como o tema deveria ser tratado. Ele começou a trabalhar em 19 de junho e terminou em 9 de julho. Nesse período visitei seu estúdio quatro vezes sozinho e uma com HPB, e fiquei encantado com o gradual desenvolvimento da imagem mental que havia sido nitidamente impressa em seu cérebro, e que resultou num retrato tão perfeito de meu Guru quanto poderia ter sido pintado do natural. Diferentemente dos outros que haviam todos copiado a idéia de perfil, conforme feito por Harisse, Schmiechen fez o rosto completamente de frente e colocou nos olhos um tal fluxo de vida e senso da alma neles habitando de modo a verdadeiramente surpreender o observador. Era tão claramente um trabalho de gênio e uma prova do fato da transferência de pensamento quanto eu poderia imaginar. Na imagem ele havia captado tudo – rosto, tipo de pele, tamanho, forma e expressão dos olhos, postura natural da cabeça, aura brilhante e caráter majestoso. Isso também é verdade no caso do outro retrato, que forma um par com esse, que Schmiechen pintou de nosso outro Chefe Guru, e a pessoa sente como se os grandes olhos estivessem buscando o seu próprio coração." (ODL III, p. 163) Com relação à pintura desse outro quadro bastante conhecido – o do Mestre KH – Laura Holloway fez uma breve descrição do início de sua produção. Havia várias pessoas bem conhecidas no estúdio interessadas em acompanhar a experiência. HPB, fumando tranqüilamente, sentara-se numa poltrona em frente à plataforma onde estava o cavalete do pintor, numa posição que não podia ver o quadro. Outras duas mulheres sentadas na plataforma também fumavam:  "Ela [HPB] havia ‘ordenado’ a uma dessas mulheres [a própria Laura Holloway] que fizesse um cigarro e o fumasse, e a ordem foi seguida, embora com grande hesitação, pois era a primeira vez que fumava, e supunha que mesmo o suave tabaco egípcio usado pudesse lhe causar náuseas. HPB prometeu que isso não aconteceria e, encorajada pela Sra. Sinnett, que também estava fumando, o cigarro foi aceso. O resultado foi um curioso aquietar dos nervos, e ela logo perdeu todo o interesse pelo grupo de pessoas na sala, e apenas o cavalete e mão do artista absorveram sua atenção. 

"É estranho relatar que embora a fumante amadora se considerasse como uma espectadora foi a sua voz que pronunciou as palavras ‘comece-o’, e o artista rapidamente começou a delinear uma cabeça. Logo os olhos de todos os presentes estavam sobre ele, pois trabalhava com extrema rapidez. Enquanto a calma reinava no estúdio e todos estavam avidamente interessados no trabalho do Sr. Schmiechen, a fumante amadora na plataforma viu a figura de um homem se delinear ao lado do cavalete e, enquanto o artista com a cabeça debruçada sobre seu trabalho continuava o esboçando, ele ficou de pé ao seu lado sem um sinal ou movimento. Ela inclinou-se para sua amiga e sussurrou: ‘É o Mestre KH, ele está sendo desenhado. Ele está de pé perto do Sr. Schmiechen.’ 

"‘Descreva sua aparência e roupas’ desafiou HPB. E enquanto aqueles na sala se espantavam com a exclamação de Madame Blavatsky, a mulher respondeu: ‘Ele é quase da altura de Mohini, compleição delgada, maravilhoso rosto cheio de luz e vivacidade, cabelo preto cacheado que cai com graça e delicadeza e sobre o qual usa um barrete mole. Ele é uma sinfonia em cinzas e azuis. Sua roupa é a de um hindu – embora seja muito mais fina e rica do qualquer uma que eu jamais tenha visto – e há pele ornamentando seu traje. É o seu retrato que está sendo feito..." (Caldwell, p. 185)

Ela também relata que, embora HPB não pudesse ver o quadro no cavalete, fazia algumas observações ao artista, como: "Cuidado Schmiechen; não faça o rosto redondo demais, alongue o perfil e preste atenção na grande distância entre o nariz e as orelhas." (Caldwell, p. 185) 

Numa carta para Sinnett, o Mestre KH comenta sobre seu quadro: "Acredito que agora você esteja tão satisfeito com meu retrato pintado por Herr Schmiechien, quanto descontente com o que você tem? Entretanto todos possuem, a seu modo, semelhanças. Apenas enquanto os outros são produções de chelas, o último foi pintado com a mão de M. na mente do artista, e muitas vezes usando seu braço." (MLcr., p. 430; ML-60) 

Schmiechen fez duas ou mais cópias dos retratos, mas nenhuma delas apresentava a mesma vida que a primeira. Olcott descreve a força que emanava dos quadros: 

"... por algum truque do pincel do artista, a aura brilhante ao redor das duas cabeças parecia realmente estar num movimento trêmulo, bem como ela é na natureza. Não surpreende que o visitante de mente religiosa se sinta, como se fosse, tocado por um senso da sacralidade da sala onde estão os dois retratos e a introspecção meditativa é mais fácil lá do que em outro local. Embora grandiosos de dia, os quadros são ainda mais impressionantes à noite, quando adequadamente iluminados, e as imagens parecem como se prontas para sair de suas molduras e se aproximar da pessoa." (ODL III, p. 164) Os dois quadros originais pintados por Schmiechen estão em Adyar. Contra a vontade de Olcott, foram feitas fotografias das cópias "tão inferiores aos originais em Adyar quanto uma vela para a luz elétrica" as quais, para sua tristeza, foram posteriormente publicadas por Franz Hartmann. (ODL III, p. 164) 
Bibliografia

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, vol. IV, VI. TPH, Wheaton, 1975. 

Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett. TUP, Pasadena, 1973. 

Caldwell, D.H. The Occult World of Madame Blavatsky. Impossible Dream Publ., Tucson, 1991 

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Seq.) TPH, Quezon City, 1993. 

Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. I, III. TPH,Adyar, 1974. 

Patterson, G. "The Blavatsky Correspondence." Blavatsky Archives Online, 2000. 

Price, L. "The Stack Memorandun" TheosophicalHistory, Vol. 1. No. 1, pp. 4-13, Jan. 1985. 

Price, L. "Madame Blavatsky Unveiled?" Theosophical History Centre, London, 1986. 

Society for Psychical Research Committee. "First Report of the Committee of the Society for Psychical Research, Appointed to Investigate the Evidence for Marvellous Phenomena offered by Certain Members of the Theosophical Society." Blavatsky Archives Online, 2000. 

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