O Caso Kiddle
Marina Cesar Sisson
(Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0
11, junho/2000)
Em setembro de 1883, logo após sair o segundo livro de Sinnett,
"Esoteric Buddhism", um espírita americano chamado Henry
Kiddle escreveu um artigo no jornal espírita "Light" onde
ele comentava que quando lera o primeiro livro de Sinnett, "The Occult
World", um ano antes, ele ficara muito surpreso ao encontrar:
"...em uma das cartas apresentadas pelo Sr. Sinnett como tendo sido
transmitidas a ele por Koot Hoomi, na misteriosa maneira descrita, uma
passagem tirada quase que verbatim de um discurso sobre Espiritismo
feito por mim no Lago Pleasant, em agosto de 1880, e publicada no
mesmo mês pelo Banner of Light. Como o livro do Sr. Sinnett
não apareceu senão após um tempo considerável
(cerca de um ano, eu penso), é certo que não citei, consciente
ou inconscientemente, de suas páginas. Como, então, ela foi
parar na misteriosa carta de Koot Hoomi?" (Kiddle, "Esoteric
Buddhism")
Ele diz que, então, escreveu para Sinnett pedindo explicações
e incluindo uma cópia de seu discurso, com as partes usadas por
KH marcadas. Entretanto, como não recebeu resposta, Kiddle questionou
se KH não seria, na verdade, uma ilusão? Será que
existia mesmo uma fraternidade oculta de adeptos? Se KH era de fato um
adepto poderoso, porque precisaria "tomar emprestado" qualquer coisa de
um humilde estudante das questões espirituais?
Essa suspeita de plágio, que ficou conhecida como o "caso Kiddle",
gerou não apenas uma discussão que durou meses, mas um clima
de desconfiança e suspeita com relação à Madame
e todos os fenômenos associados aos Mestres. Nesse Inf.
HPB vamos examinar o "caso Kiddle".
O Texto de Kiddle e o da Carta
do Mestre KH
Kiddle argumentava que era importante questionar a existência
do adepto KH porque o conteúdo apresentado nos livros de Sinnett
era de uma tal natureza que só poderia ser verificado através
do uso de faculdades transcendentais. Como a grande maioria das pessoas
não possui essas faculdades, a validade desse conteúdo estava
na dependência de que KH fosse realmente um verdadeiro adepto. Assim
sendo, ele argumentava que seria importante que sua existência fosse
comprovada. E termina seu artigo mostrando as duas passagens – a usada
por ele em seu discurso e a usada na carta de KH para Sinnett, como transcrevemos
abaixo:
|
Extrato do discurso de Kiddle:
"Meus amigos, idéias regem o mundo; e à medida
que as mentes dos homens recebem novas idéias, deixando de lado
as velhas e estéreis, o mundo avança. A sociedade baseia-se
nelas; revoluções poderosas surgem delas; instituições
desmoronam ante sua marcha à frente. É tão impossível
resistir ao seu empuxo, quando chegar a hora, quanto deter o avanço
da maré. |
Extrato da carta do Mestre KH:
"Idéias regem o mundo; e à medida que as mentes dos homens
recebem novas idéias, deixando de lado as velhas e estéreis,
o mundo avançará, revoluções poderosas surgirão
delas; credos e mesmo poderes desmoronarão ante sua marcha à
frente, esmagados por sua força irresistível. Será
tão impossível resistir à sua influência, quando
chegar a hora, quanto deter o avanço da maré. Mas tudo isso
virá gradualmente e, antes que venha, temos um dever colocado ante
nós: aquele de varrer para tão longe quanto possível
a escória que nos foi deixada por nossos piedosos antepassados. |
| "E o instrumento chamado Espiritismo está
trazendo um novo conjunto de idéias para o mundo – idéias
sobre os mais importantes assuntos, que estão relacionadas com a
verdadeira posição do homem no universo; sua origem e destino;
a relação do mortal com o imortal; do temporário com
o Eterno; do finito com o infinito; da alma imortal do homem com o universo
material no qual ela agora habita – idéias maiores, mais gerais,
mais abrangentes, reconhecendo mais completamente o reino universal da
lei como a expressão da vontade Divina, permanente e inalterável,
com relação à qual existe apenas um Eterno
Agora, enquanto que para os mortais o tempo é passado ou
futuro, estando relacionado com suas existências finitas neste plano
material; etc." |
"Novas idéias têm que ser plantadas
em locais limpos, pois essas idéias tocam os assuntos mais importantes.
Não são os fenômenos físicos, mas essas idéias
universais que estudamos; e para compreender os primeiros, temos que antes
compreender as últimas. Elas estão relacionadas com a verdadeira
posição do homem no universo com relação a
seus nascimentos pretéritos e futuros, sua origem e seu destino
final; a relação do mortal com o imortal, do temporário
com o Eterno, do finito com o infinito; idéias mais amplas, mais
grandiosas, mais abrangentes, reconhecendo o reino eterno da lei imutável,
permanente e inalterável, em relação ao qual existe
apenas um ETERNO AGORA: enquanto que para os mortais
não iniciados o tempo é passado ou futuro, estando relacionado
com suas existências finitas neste grão de poeira material,
etc." (Kiddle, "Esoteric Buddhism") |
A semelhança é óbvia e a suspeita estava lançada.
Sinnett logo lhe respondeu, através de um artigo no mesmo jornal,
dizendo que não se lembrava de ter recebido sua carta anterior,
o que lastimava, pois se ainda estivesse na Índia lhe seria mais
fácil tratar a questão do aparente plágio de seu Adepto
Mestre. Ele observou que o trecho na carta de seu Mestre começava
com a frase: "Platão estava correto." E uma vez que ainda
levaria algum tempo até obter uma explicação para
o mistério ele, enquanto isso, apenas poderia salientar que:
"... o caminho que leva a relações pessoais com os adeptos
sempre se encontra coberto de provocações para desacreditá-los,
(...) sua política atual é mais de repelir do que de convidar
a confiança européia. Nós, que estamos ardentemente
desejosos de avançar na compreensão de sua filosofia, devemos
estar preparados para a cada momento encontrar armadilhas colocadas para
levantar nossas suspeitas; com relação à questão
que tratamos nesse momento me parece, de qualquer modo, que dificilmente
merece ser considerada como uma armadilha." (Sinnett, "Reply
to Mr. Kiddle")
Sinnett ainda dizia que qualquer um que conseguisse realizar a grandeza
do ensinamento esotérico apresentado, "não estará
inclinado a dar importância à questão relativamente
trivial agora levantada", e também que essa já seria
uma questão antiga e ultrapassada. É claro que sua resposta
só aumentou a desconfiança e outras manifestações
surgiram, alimentando uma discussão que durou vários meses.
Outras questões sobre a Madame também acabaram sendo levantadas.
Por exemplo, W.H. Harrison, questionava toda a evolução pública
dos fenômenos relacionados a HPB:
"No decorrer do ano de 1875, começaram a se espalhar afirmações
públicas de que certos fenômenos (...) ocorriam na presença
de uma senhora russa, Madame Blavatsky, mas sob condições
diferentes. De fato se afirmava que ela própria controlava os fenômenos.
Alguns anos mais tarde, se afirmou (...) que alguns dos fenômenos
em sua presença eram produzidos por certos homens altamente espiritualizados,
vivendo em reclusão em regiões inacessíveis nas montanhas
dos Himalaias, os quais desde então ficaram popularmente conhecidos
como os Irmãos dos Himalaias". (Harrison, "The Himalayan
Brothers")
Harrison relata que após estudar o livro de Sinnett havia chegado
à conclusão de que HPB era tão somente uma poderosa
médium e que os poderes relacionados a ela eram apenas:
"... os costumeiros ‘John’ e ‘Katie Kings’ seja lá quem eles
possam ser, e seja lá o que ela e seus amigos acreditem acerca do
que essas inteligências invisíveis afirmam quanto às
suas identidades. Eu não sabia, num período anterior de meus
escritos, que quando ela estava na América, um de seus espíritos
que na época atendiam regularmente às suas sessões,
de fato deu seu nome como sendo ‘John King’. Agora que Koot Hoomi está
em cena, será que o John King, mais humilde, dos primeiros dias
desapareceu?" (Harrison, ibid.)
Como vimos no Inf. HPB
n.° 5, John King, embora conhecido no mundo espírita da época
como um espírito desencarnado, na verdade, no caso de HPB, tratava-se
do Adepto que estava exercendo o papel de instrutor dela, conhecido pelo
nome de Mestre Hillarion. Harrison também argumenta que havia uma
falta de coerência nos teosofistas, pois:
"Dizem aos teosofistas que desejam entrar em comunicação
com os Irmãos dos Himalaias, e entrar em sua fraternidade, que eles
precisam levar uma vida de severos ascetas, abstendo-se de vinho, bebidas
alcoólicas, carne e fumo, que eles devem purificar seus pensamentos,
e assim por diante, mas após muitos anos de uma tal vida, não
é garantido que irão obter o que desejam. Como é,
então, que Madame Blavatsky, que não é uma asceta,
tem sido bem sucedida quando aqueles que seguem as instruções,
que ela não segue, podem falhar?" (Harrison, ibid.)
Quanto à crítica levantada por Harrison, convém lembrar
que a abstenção do uso de tabaco e de carne nunca foram requisitos
para qualquer pessoa se tornar um membro da ST. Mesmo para o ingresso na
Seção Esotérica, quando criada por HPB em 1888, não
havia tais requisitos. As regras 14 e 15 dessa Seção, na
época, estabeleciam que nem uso moderado de tabaco, nem o consumo
de carne eram proibidos, muito embora se recomendasse uma dieta vegetariana
ou o uso de peixe, uma vez que a carne reforça a natureza passional.
(CW XII, p. 496)
A Madame, de fato, não era uma asceta. Ela não ingeria
bebidas alcoólicas, porém não somente comia carne
e fumava regularmente como, na verdade, apreciava muito a ambos. A tentativa
de justificar esses hábitos de HPB alegando que ela precisava "densificar"
seus veículos não se sustenta diante de sua predileção
por eles. Tais explicações servem apenas para tentar encobrir
as contradições humanas de quem ainda era um discípulo
- não um Mestre. Elas criam uma fantasia ilusória que dificulta
ainda mais a compreensão dos mistérios que são inerentes
à vida daqueles que servem diretamente aos Mestres. Tais fantasias
também dificultam a compreensão das "provocações
para desacreditá-los" e das "armadilhas colocadas para levantar
nossas suspeitas" (Sinnett, "Reply to Mr. Kiddle"), inerentes
ao caminho que conduz até os Mestres.
A Explicação do
Mestre KH
Assim um clima de controvérsia, discussão e desconfiança
foi sendo criado através da publicação dessas discussões.
Em novembro HPB escreve para Sinnett:
"Massey está com sua fé abalada, pobre, querido
e suscetível companheiro. O plágio insolente achou
nele um crente fácil. KH plagiou de Kiddle! (...) É
claro que eles, os sutis metafísicos, não acreditarão
na verdadeira versão da história como eu a conheço.
Tanto pior para os tolos e os saduceus. (...) KH me repreende por falar
demais – diz que Ele não precisa de defesa e para eu não
me preocupar. (...) É claro que se Ele não te disse, nem
te explicou, deve ter boas razões para isso. Mas desde que Subba
Row nos trouxe o rascunho original (...) compreendi o que significava.
Porque aquela carta é apenas um terço da carta ditada
e que nunca foi publicada, pois você não a recebeu." (LBS,
p. 66-67)
E o Mestre KH precipita o seguinte comentário logo abaixo: "Verdadeira
prova da discrição dela! Eu mesmo lhe contarei tudo assim
que tiver uma hora de folga." (LBS, p. 67) No final de dezembro
de 1883, Sinnett recebeu a carta explicando o "plágio". Entretanto,
ele não podia revelar a explicação aos demais, pois
o Mestre lhe pediu um juramento de segredo:
"Meu bom e fiel amigo – as explicações aqui contidas
nunca teriam sido feitas se não fosse pelo fato de ter ultimamente
percebido como você esteve em apuros, durante suas conversas sobre
o assunto do ‘plágio’ com alguns amigos – particularmente com C.C.M
[Massey]. (...) negar a você a verdade – seria crueldade; entretanto,
dá-la ao mundo de espíritas preconceituosos e maldosamente
predispostos seria pura insensatez. Assim sendo, precisamos firmar um compromisso:
preciso colocar tanto você quanto o Sr. Ware, que goza de minha confiança,
sob um juramento de nunca explicar a ninguém, sem permissão
especial de minha parte, os fatos daqui por diante expostos – nem mesmo
ao Sr. M.A. Oxon [Stainton Moses] e C.C. Massey (...). Se pressionado por
qualquer um deles, você pode simplesmente responder que o ‘mistério
psicológico’ foi esclarecido para você e alguns outros; e
– SE satisfeitos – você pode acrescentar que
as ‘passagens paralelas’ não podem ser chamadas de plágio
ou palavras com esse sentido." (MLcr., p. 396; ML-93)
O Mestre continua a carta dizendo: "A solução é
tão simples e as circunstâncias tão engraçadas,
que eu confesso que ri quando minha atenção foi chamada para
elas, desde algum tempo. Não somente isso, elas ainda me fariam
sorrir mesmo agora, não fosse o conhecimento da dor que causam a
alguns verdadeiros amigos." (Idem, p. 398) E passa à explicação:
"A carta em questão foi por mim estruturada enquanto estava
numa viagem, e à cavalo. Foi ditada mentalmente na direção
de um jovem chela e ‘precipitada’ por ele, que ainda não
domina este ramo da química psíquica, e que teve que transcrevê-la
da impressão que estava pouco legível. Metade dela, assim,
foi omitida e a outra metade mais ou menos distorcida pelo ‘artista’. Quando
na época ele me perguntou se eu gostaria de examiná-la cuidadosamente
e corrigi-la, eu respondi, imprudentemente confesso – ‘de qualquer modo
servirá, meu rapaz – não tem grande importância se
você pular algumas palavras.’ Eu estava fisicamente muito cansado
por uma cavalgada de 48 horas consecutivas, e (de novo fisicamente) – meio
dormindo. Além disso, tinha questões muito importantes para
atender psiquicamente e assim restou pouco de mim para devotar àquela
carta. Estava predestinada, eu suponho. Quando acordei, descobri que já
havia sido enviada e como então não estava prevendo sua publicação,
desde aquela época nunca mais lhe dei atenção." (Idem,
p. 398)
O Mestre KH conta a Sinnett que, devido à correspondência
entre eles, Ele se interessara pelo progresso intelectual dos espíritas
que estavam mais ligados a fenômenos e, por isso, dirigiu sua atenção
para várias de suas reuniões, entre elas a do Lago Pleasant:
"Algumas das idéias e frases curiosas representando as esperanças
e aspirações gerais dos espíritas americanos ficaram
impressas em minha memória, e lembrei apenas dessas idéias
e frases, de forma bastante separada das personalidades que as elaboraram
ou as pronunciaram. Por isso minha completa ignorância do palestrante
a quem eu inocentemente defraudei, como poderia parecer, e que agora levanta
o clamor do público. Contudo, se tivesse ditado minha carta na forma
que agora aparece publicada, ela certamente pareceria suspeita e, por distante
que seja do que geralmente é chamado de plágio, ainda assim,
na ausência de quaisquer aspas, ela daria um fundamento para censura.
Mas eu não fiz nada disso, como o original agora à minha
frente claramente mostra." (Idem, p. 398)
A Precipitação
ou "Telégrafo" Mental
Antes de continuar com a explicação do que ocorrera, o
Mestre KH descreve que duas condições são necessárias
para uma perfeita e instantânea "telegrafia" mental:
"... uma intensa concentração no operador e uma completa
passividade receptiva no ‘leitor’. Dada uma perturbação em
qualquer condição, o resultado será proporcionalmente
imperfeito. O ‘leitor’ não vê a imagem como no cérebro
do ‘telegrafista’, mas como surgindo de seu próprio cérebro.
Quando o pensamento do último se dispersa, a corrente psíquica
se torna quebrada, a comunicação desconexa e incoerente.
No presente caso, foi como se o chela tivesse que recuperar o que
lhe foi possível da corrente que eu estava lhe enviando e, como
observado acima, juntar os pedaços quebrados da melhor maneira que
ele pudesse." (MLcr., p. 399; ML-93)
Ainda nas primeiras cartas entre Sinnett e o Mestre KH, esse havia compreendido
mal a caligrafia de Sinnett, trocando "out of tune" [fora de sintonia]
por "out of time" [fora de hora]. Quando Sinnett percebeu a troca e lhe
falou a respeito, o Mestre respondeu:
"Você escreveu ‘tune’? Bem, bem; eu preciso lhe pedir que me
compre um par de óculos em Londres. (...) Mas você deveria
adotar o meu hábito antiquado de ‘pequenas linhas’ sobre os ‘m’.
Aquelas barras são úteis, muito embora estejam ‘fora de sintonia
e fora de hora’ [out of tune and time] com relação
à caligrafia moderna. Além disso, tenha em mente que essas
minhas cartas não são escritas, mas impressas, ou
precipitadas, e depois é que todos os erros são corrigidos."
(MLcr., p. 26; ML-5)
Quando Sinnett lhe perguntou mais sobre esse processo de precipitação
e se o Mestre tinha que ler as cartas que Ele lhe escrevia, ou conseguia
lê-las por meio de algum processo oculto, no qual o significado lhe
aparecesse rapidamente, Ele respondeu:
"É claro que eu tenho que ler cada palavra que você
escreve: de outro modo faria uma bela confusão com elas. E seja
através de meus olhos físicos ou espirituais, o tempo requerido
para fazer isso é praticamente igual. O mesmo pode ser dito de minhas
respostas. Pois, quer eu as ‘precipite’, as dite ou as escreva eu mesmo,
a diferença no tempo economizado é mínima. Eu tenho
que refletir sobre elas, fotografar cada palavra e sentença
cuidadosamente em meu cérebro, antes que elas possam ser repetidas
por meio da ‘precipitação’. Assim como a fixação
das imagens formadas pela câmara, sobre superfícies quimicamente
preparadas, requer uma preparação prévia dentro do
foco do objeto a ser representado, pois do mesmo modo – como freqüentemente
acontece em fotografias ruins – as pernas do modelo podem parecer fora
de proporção com relação à sua cabeça
e assim por diante – temos que primeiro arrumar nossas sentenças
e imprimir cada letra que irá aparecer no papel em nossas mentes,
antes que elas fiquem prontas para serem lidas. No presente, isso é
tudo que posso lhe contar." (MLcr., p. 37; ML-6)
É curioso observar que justamente nessa carta acima citada, em que
o Mestre oferece uma explicação de como ocorre o processo
de precipitação ou "telégrafo" mental é que,
coincidentemente, se encontra o trecho que Kiddle acusa de ter sido plagiado
pelo Mestre KH. Num artigo sobre essa questão da precipitação,
HPB nos fala um pouco mais sobre esse processo:
"O trabalho de escrever as cartas em questão é realizado
por meio de um tipo de telegrafia psicológica; os Mahatmas muito
raramente escrevem suas cartas pela maneira usual. Uma conexão eletromagnética,
por assim dizer, existe no plano psicológico entre um Mahatma e
seus chelas, um dos quais age como seu escrevente. Quando o Mestre
quer que uma carta seja escrita desse modo, ele atrai a atenção
do chela a quem selecionou para a tarefa, fazendo com que um sino
astral (escutado por tantos de nossos membros e outros) seja tocado perto
dele, assim como o escritório de telégrafo que está
despachando a mensagem envia um sinal para o que está recebendo,
antes da mensagem ser enviada. Os pensamentos que surgem na mente do Mahatma
são então revestidos com palavras, pronunciadas mentalmente
e forçadas ao longo das correntes astrais que ele envia em direção
ao discípulo para penetrar no cérebro do último. Dali
elas são transmitidas pelas correntes nervosas para a palma de suas
mão e as pontas de seus dedos, que repousam sobre a superfície
de um pedaço de papel magneticamente preparado. À medida
que as ondas de pensamento são assim impressas no fino papel, materiais
são atraídos para ele do oceano de âkas [ou
Âkasha] (...) e marcas permanentes são deixadas." (CW
VI, p. 120)
O Texto Original da Carta
Quando da acusação de plágio, o Mestre KH, após
um exame dos originais, percebeu que Ele era o responsável pela
situação criada, pois o chela havia feito o que era
possível, uma vez que muitos caracteres e mesmo frases inteiras
se encontravam ilegíveis ou estavam faltando. Restaurando o texto,
o Mestre mostra a Sinnett que, na verdade, Ele estava citando o discurso
de Kiddle. Segue o texto completo, com as frases que faltam na primeira
carta em itálico:
"Elementos fenomênicos previamente nunca imaginados, ... finalmente
revelarão os segredos de seus processos misteriosos. Platão
estava certo em readmitir cada elemento de especulação
que Sócrates descartou. Os problemas do ser universal não
são inacessíveis e não são destituídos
de valor se forem alcançados. Mas esses últimos só
podem ser resolvidos pelo domínio daqueles elementos que agora mal
começam a se esboçar no horizonte dos profanos. Mesmo os
espíritas, com suas visões e noções equivocadas
e grotescamente pervertidas, estão vagamente compreendendo a nova
situação. Eles profetizam e suas profecias nem sempre deixam
de conter um pouco de verdade, de pré-visão intuitiva, por
assim dizer. Ouça alguns deles reafirmando o antigo, muito antigo
axioma de que ‘Idéias regem o mundo’; e, à medida que
as mentes dos homens recebem novas idéias, deixando de lado as velhas
e estéreis, o mundo avançará; revoluções
poderosas surgirão delas; instituições (sim, e
até mesmo credos e poderes, eles podem acrescentar) desmoronarão
ante sua marcha à frente, esmagados por sua própria força
inerente, não a força irresistível das ‘novas
idéias’ oferecidas pelos espíritas! Sim; eles estão
ao mesmo tempo certos e errados. Será tão impossível
resistir à sua influência, quando chegar a hora, quanto deter
o avanço da maré – pode estar certo. Mas o que eu vejo
que os espíritas falham em perceber, e seus ‘espíritos’ em
explicar (os últimos não sabendo mais do que o que eles podem
encontrar nos cérebros dos primeiros) é que tudo isso
virá gradualmente; e que antes que venha, eles tanto quanto
nós, temos todos um dever a executar, uma tarefa colocada
ante nós: aquela de varrer tão longe quanto possível
os detritos deixados para nós por nossos piedosos antepassados.
Novas idéias têm que ser plantadas em locais limpos, pois
essas idéias tocam nos assuntos mais importantes. Não são
os fenômenos físicos ou o instrumento chamado Espiritismo,
mas essas idéias universais que nós temos exatamente que
estudar; o númeno e não o fenômeno pois, para
compreender os ÚLTIMOS, temos que antes compreender
os PRIMEIROS. Elas de fato dizem respeito a
verdadeira posição do homem no universo, pode estar certo
– mas apenas com relação a seus nascimentos FUTUROS
não os PRETÉRITOS. Não
são os fenômenos físicos, por mais maravilhosos que
sejam, que poderão jamais explicar ao homem sua origem, que
dirá seu destino final, ou, como um deles o expressa -
a relação do mortal com o imortal, do temporário com
o Eterno; do finito com o infinito, etc. etc. Eles falam muito fluentemente
do que consideram como novas idéias ‘mais amplas, mais gerais,
mais grandiosas, mais abrangentes e ao mesmo tempo eles reconhecem,
ao invés do reino eterno da lei imutável, o reino
universal da lei como a expressão de uma vontade divina (!).
Esquecidos de suas crenças anteriores, e que ‘arrependeu-se o
Senhor de ter feito o Homem’ [Gen. 6, 6], esses pseudo filósofos
e reformadores pretendem inculcar sobre seus ouvintes que a expressão
dessa Vontade divina é ‘permanente e inalterável – em
presença da qual existe apenas um ETERNO AGORA:
enquanto que para os mortais (não iniciados?) o tempo é passado
ou futuro, estando relacionado com suas existências finitas neste
plano material’ – das quais eles conhecem tão pouco quanto de
suas esferas espirituais. Transformaram essas últimas num grão
de poeira à semelhança de nossa própria terra,
uma vida futura que o verdadeiro filósofo antes evitaria do que
buscaria. Mas eu sonho com meus olhos abertos .... Em todo caso, este não
é um ensinamento que seja privilégio deles. A maioria destas
idéias são tomadas, em partes, de Platão e dos filósofos
da Alexandria. É o que todos nós estudamos e o
que muitos de nós solucionaram ..... etc. etc." (MLcr., p.
400; ML-93)
Poucos meses após o recebimento dessa carta Sinnett foi dispensado
do segredo e, caso se sentisse preparado para "enfrentar o fogo das
negações furiosas e críticas adversas", ele estava
autorizado a publicar a carta com as explicações. (MLcr.,
p. 420; ML-94) Ele assim fez, aproveitando o lançamento da 4ª
edição de seu livro, "The Occult World" [O Mundo
Oculto].
As críticas adversas não tardaram a aparecer. Além
de não entenderem as explicações, agora os espíritas
estavam furiosos porque o discurso de Kiddle, realçando a importância
do papel do Espiritismo na formação de uma nova era para
a humanidade, havia sido transformado numa denúncia contra o próprio
Espiritismo. Em setembro de 1884 Kiddle publicou um novo estudo comparativo
de seu discurso com a carta, mostrando que havia outras passagens onde
o mesmo problema de "plágio" ocorria. (Kiddle, "More on
the Theosophical ‘Rosetta Stone’ ")
Veremos no próximo Informativo
HPB que o caso teve muita influência sobre Massey que,
abalado em sua confiança em HPB, em julho de 1884 escreveu um artigo
sobre o caso Kiddle relatando sua dificuldade em aceitar as explicações
do Mestre KH e declarando publicamente sua saída da ST. Como C.C.
Massey era um velho amigo de HPB e fundador da ST Britânica e da
Soc. de Pesquisas Psíquicas (SPR), essa atitude teve grande influência,
contra a Madame, na SPR.
Bibliografia
Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings,
vol. VI. TPH, Wheaton, 1975.
Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett.
TUP, Pasadena, 1973.
Kiddle, H. "Esoteric Buddhism by Henry Kiddle". Blavatsky
Archives Online, 1999.
Kiddle, H. "More on the Theosophical ‘Rosetta Stone’ ".
Blavatsky Archives Online, 1999.
Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological
Seq.) TPH, Quezon City, 1993.
Harrison, W.H. "Theosophy – The Himalayan Brothers" Blavatsky
Archives Online, 2000.
Sinnett, A.P. "Mr. Sinnett’s Reply to Mr. Kiddle". Blavatsky
Archives Online, 1999.
O Informativo
HPB tem por objetivo compartilhar o resultado de estudos
e pesquisas sobre
HPB realizados nos últimos anos.
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Marina Cesar Sisson
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