O Caso Coulomb
    Marina Cesar Sisson
    (Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 10, Maio/00)
     

    Em 1871, quando HPB estava no Cairo, Emma Cutting trabalhava num pequeno hotel e lhe foi de grande auxílio, inclusive na sua tentativa de fundar a Societé Spirité. Ela casou-se com Alexis Coulomb, um francês nascido no Egito, tornando-se a Sra. Coulomb. Numa de suas descrições de viagens pelo Egito, escrita em 1874, Peebles a descreve como uma ardorosa espírita: 

    "Madame Blavatsky, ajudada por outras almas valentes, formou uma sociedade de espíritas no Cairo, cerca de três anos atrás. (...) A senhora cujo marido cuida do Hotel Oriental é uma espírita convicta. Impulsionado pelo espírito missionário, deixei um pacote de panfletos e folhetos com ela, para distribuição gratuita". (Peebles, p. 297) Emma Coulomb também tinha algumas capacidades psíquicas, como escreve o Mestre KH para Franz Hartmann:  "Mad. Coulomb é uma médium e, como tal, irresponsável por muitas coisas que ela possa dizer ou fazer." (LMW 2nd S., p. 131) Em 1880, ela e o marido estavam passando por dificuldades financeiras e, sabendo que a Madame estava em Bombay, pediram-lhe ajuda. O casal juntou-se ao pequeno grupo de trabalhadores, ainda em Bombay, em troca de casa e comida. Emma Coulomb trabalhava como governanta da casa e Alexis Coulomb, que era um marceneiro habilidoso, na manutenção. 

    Em 1884, Emma Coulomb entregou para o rev. Patterson cartas que ela alegava terem sido escritas por HPB, onde a Madame combinava detalhes de truques para a realização de seus fenômenos, "provando", assim, que os fenômenos eram fraudes e HPB uma impostora. 

    As cartas foram publicadas pelo Christian College Magazine, sob o título de "O Colapso de Koot Hoomi". (CW VI, p. 295) Essa publicação foi a gota d’água na crise que já envolvia HPB e a ST e que acabou gerando a investigação pela Society for Psychical Research (SPR), que concluiu que a Madame era uma charlatã, uma farsante que enganava as pessoas com a ajuda de cúmplices como Damodar, Olcott e os próprios Coulombs, e que havia inventado a figura dos Mestres e, portanto, forjado suas cartas. A discussão sobre a charlatanice, ou não, de HPB ainda está presente nos dias de hoje. Neste Inf. HPB vamos conhecer um pouco desse famoso "Caso Coulomb". 

    No Cairo

    Em junho de 1871, indo de Chipre para Alexandria, o vapor em que HPB viajava naufragou, devido à explosão da carga de pólvora que transportava. Entre os poucos passageiros que se salvaram estava HPB, graças ao auxílio de John King. (Inf. HPB n.º 5) O governo grego ajudou os sobreviventes, dando-lhes a passagem até seu destino. HPB chegou ao Cairo sem dinheiro ou bagagens, uma vez que tudo havia se perdido no naufrágio e, então, Emma Coulomb que trabalhava no Hotel Oriental ajudou-a nessa situação difícil. 

    Já citamos no Inf. HPB n.º 5 um episódio ocorrido no Cairo, em 1872, envolvendo Agardi Metrovich. Ele era um russo com quem Madame estava em contato desde suas primeiras viagens. Ela relata para Sinnett: "Agardi Metrovich sempre foi meu mais fiel e devotado amigo desde 1850. Com a ajuda da Condessa Kisselev, eu o salvei das prisões da Áustria." (LBS, p. 189) Metrovich era um revolucionário mazinista que havia insultado o Papa tendo sido por essa razão exilado de Roma em 1863. HPB encontrou-o no Cairo em 1873 e, sabendo que ele corria perigo, tentou de todos os modos protege-lo, mantendo-o em casa e cuidando dele. Porém, ao que tudo indica, ele caiu numa armadilha preparada por monges católico-romanos e acabou morrendo. Como ninguém queria enterrá-lo, Madame e um discípulo do Mestre Hillarion o enterraram. O que não mencionamos no Inf. HPB n.º 5 é que todo esse mistério e os cuidados dedicados a Metrovich foram presenciados por Emma Coulomb, então próxima a HPB, e fez Emma Coulomb: 

    "... abrir seus olhos e ouvidos e ela começou a bisbilhotar e me incomodar para eu lhe dizer se era verdade - o que as pessoas diziam de mim – que eu era secretamente casada com ele, e suponho que ela não ousava dizer o que as pessoas acreditavam, muito caridosamente: que ele era algo pior que um marido. Eu mandei ela pastar, e lhe disse que as pessoas podiam acreditar e dizer o que quisessem, pois eu não ligava. Esse é o germe de todo o falatório posterior. (...) O cônsul me disse que eu não tinha nada que ser amiga de revolucionários e mazinistas, e que as pessoas diziam que ele era meu amante. Eu lhe respondi que como ele (Ag. Metrovich) havia vindo da Rússia com um passaporte regular, era amigo de meus parentes e não havia feito nada contra o meu país, eu tinha o direito de ser amiga dele e de quem mais eu escolhesse. E quanto à conversa suja a meu respeito, eu estava acostumada a isso e apenas lamentava que a reputação não correspondesse aos fatos – ‘avoir le reputation sans en avoir les plaisirs’ [‘ter a reputação sem ter os prazeres’] – (se algum) tem sido sempre o meu destino." (LBS, p. 190)
    Em Bombay

    Logo depois da morte de Metrovich HPB partiu para Rússia para encontrar com seus familiares. O casal Coulomb após algumas tentativas frustradas de negócios, devendo dinheiro, saiu do Egito e foi para o Ceilão, onde recebeu ajuda do cônsul francês. Sabendo das atividades dos teosofistas em Bombay pelos jornais singaleses, Emma Coulomb escreveu para HPB. Nessa primeira carta, de agosto de 1879, Emma Coulomb fala da situação difícil que estavam passando e anexa uma cópia de um jornal local, para o qual ela havia escrito uma carta defendendo a reputação da Madame de acusações maldosas e, elogiando-a, dizia: 

    "Conheço essa senhora há oito anos e preciso dizer a verdade de que não há nada contra seu caráter. Nós vivemos na mesma cidade e, ao contrário, ela era considerada como uma das senhoras mais inteligentes da época. Madame B. é uma música, uma pintora, uma lingüista, uma autora e posso dizer que muito poucas senhoras e, de fato, poucos cavalheiros têm um conhecimento das coisas em geral como Madame Blavatsky." (ODL II, p. 97) Essa defesa pública, somada à gentileza com que Emma Coulomb havia recebido HPB no Cairo, abriu o caminho para uma relação mais estreita e iniciou-se uma correspondência entre elas. Em 28 de março de 1880 o casal apareceu inesperadamente em Bombay, trazendo apenas algumas roupas e uma caixa de ferramentas, e foram bem recebidos. (ODL II, p. 147) Ficou acertado que ficariam com HPB e Olcott até que conseguissem arrumar emprego e moradia. Entretanto, o Sr. Coulomb não parava em nenhum emprego e eles foram ficando por lá, sem quaisquer planos definidos para o futuro. Como ele era muito habilidoso, ela uma excelente dona de casa, e ambos sempre procuravam auxiliar, os dois foram se integrando ao grupo de trabalhadores na Sede. 

    Quando HPB, Damodar e Olcott foram para o Ceilão (Inf. HPB n.º 6), o casal ficou em Bombay, junto com Rosa Bates, que havia vindo de Nova Iorque com os fundadores. Devido às habilidades de Emma Coulomb, Olcott, imprudentemente, a colocou como governanta da casa, cargo antes ocupado por Rosa Bates. Em julho, quando os fundadores voltaram, a confusão estava armada na Sede em Bombay, com as duas mulheres fazendo todo tipo de acusações uma à outra. Rosa Bates acusava Emma Coulomb até mesmo de ter tentado envenená-la. Olcott relata: 

    "... fui chamado para arbitrar suas diferenças e sentei-me imparcialmente, ouvindo suas absurdas alegações por duas tardes inteiras e, finalmente, decidi em favor de Madame Coulomb no que diz respeito à estúpida acusação de envenenamento, que não tinha um único fato que a comprovasse. (...) HPB sentou-se perto enquanto a arbitragem prosseguia, fumando ainda mais cigarros que do que de costume, fazendo comentários ocasionais cuja tendência era mais aumentar do que apaziguar a excitação." (ODL II, p. 207-8) Em agosto, não aceitando a decisão, Rosa Bates brigou com Olcott e HPB. Wimbridge, que também havia vindo de Nova Iorque com os fundadores, ficou do lado de Rosa Bates, criando uma divisão no grupo da Sede. A situação foi ficando difícil pois todos conviviam sob o mesmo teto mas nem mesmo se falavam mais. Poucos dias depois, com a ajuda de Olcott, Wimbridge conseguiu montar um negócio em Bombay e os dois se retiraram da Sociedade. (ODL II, p. 209) 

    Anos mais tarde, em agosto de 1885, HPB revela a Sinnett que Emma Coulomb já havia tentado traí-la em julho de 1880, quando ainda estavam em Bombay. Talvez ela estivesse querendo garantir algum dinheiro, caso Olcott e HPB decidissem em favor de Rosa Bates. HPB escreve: 

    "Ela começou a construir seu plano de traição em 1880, desde o primeiro dia em que desembarcou em Bombay com seu marido, ambos sem ter o que vestir, sem um tostão e famintos. Ela ofereceu vender meus segredos para o Rev. Bowen, do The Bombay Guardian, em julho de 1880 (...). Eu a conhecia e tentei o melhor que pude não odiá-la, mas como sempre falhei nisso, tentei compensar abrigando e alimentando a vil serpente." (LBS, p. 110) Pela maneira como HPB tratou Emma Coulomb até o episódio das cartas, não me parece que ela soubesse desse fato na época, em 1880, mas que só teve conhecimento dessa tentativa de venda dos "segredos" bem mais tarde. 
    O "Santuário"

    Quando a Sede da ST foi transferida de Bombay para Adyar, Madras, em dezembro de 1882, os Coulomb também foram para lá. Emma Coulomb continuou em suas funções de governanta da casa. HPB ocupava o andar de cima do prédio principal, onde havia sido construído um novo quarto. Sinnett e sua esposa passaram por lá antes de irem para Londres, e ele descreve: 

    "O novo quarto, recém acabado, teve sua construção apressada para que pudéssemos vê-lo pronto; ele foi destinado pela Madame para ser seu ‘quarto oculto’, seu próprio sanctum, especialmente privado, onde ela seria visitada tão somente por seus amigos mais íntimos. Ele veio a ser tristemente profanado por seus piores inimigos um ou dois anos depois. No seu ardor de afeição por tudo que dizia respeito aos ‘Mestres’, ela havia especialmente se dedicado em decorar um certo pequeno armário suspenso, que seria mantido sagrado, exclusivamente para as comunicações ocorrendo entre estes Mestres e ela mesma, e já tinha lhe dado a designação sob a qual ele mais tarde se tornou tão tristemente célebre – o santuário ["shrine"]. Aqui ela havia colocado alguns pequenos tesouros ocultos – relíquias de sua estadia no Tibet – dois pequenos retratos que ela possuía dos Mahatmas e algumas outras pequenas coisas associadas a eles em sua imaginação." (Sinnett, p. 258) O "santuário" ficava cercado por cortinas, no "quarto oculto", vizinho ao dormitório de HPB. Ele foi desenhado pelo próprio Alexis Coulomb, e foi construído em partes desmontáveis, para que a Madame pudesse levá-lo em sua bagagem quando fosse passar algum tempo fora de Adyar. (CW VI, p. 415) Funcionava como um local para comunicação com os Mestres – as cartas a Eles endereçadas eram ali colocadas, e as respostas lá apareciam materializadas. Esse é um fenômeno oculto:  "...tão rigidamente sujeito a leis naturais quanto o comportamento do vapor ou da eletricidade. Um local mantido puro de todo ‘magnetismo’, a não ser aquele conectado com o trabalho de integrar e desintegrar cartas, facilitaria o processo, e o ‘santuário’ foi usado dezenas de vezes para a comunicação de questões entre os Mestres e os chelas ligados à Sociedade ... " (Sinnett, p. 258) Em dezembro de 1883, quando o príncipe Harisinghji compareceu à convenção anual em Adyar, Emma Coulomb lhe pediu um "empréstimo" de 2000 rúpias para que ela pudesse montar um pequeno hotel e sair de Adyar. O príncipe, sem saber o que fazer, lhe prometeu que numa outra ocasião emprestaria. HPB e Olcott não eram ricos e o dinheiro que eles entregavam para Emma Coulomb dava apenas para as despesas da casa, não sobrando dinheiro para ela própria. Quando havia necessidade de mais recursos, esses eram conseguidos por doações – de membros ou dos próprios Mestres. Um exemplo disso ocorreu nessa primeira convenção em Adyar, a de 1883. 

    O juiz P. Sreenivas havia arcado com quase todas as despesas – cerca de 500 rúpias – embora esse gasto fosse demasiado para ele. Quando HPB soube da preocupação de Olcott com essa despesa, ela "refletiu por um momento" – provavelmente comunicando-se mentalmente com o Mestre – chamou Damodar e lhe pediu para ir até o "santuário" trazer um pacote que lá encontraria. Em menos de 5 minutos ele voltou trazendo uma carta fechada endereçada para "P. Sreenivas Row". Sendo chamado, o juiz abriu-a, encontrando uma afetuosa carta do Mestre KH agradecendo seus serviços e anexando notas promissórias do governo, nas costas das quais estava escrito, em lápis azul, as iniciais "K.H." e que somavam 500 rúpias! (ODL III, p. 66) 

    Em fevereiro de 1884, acompanhada de Mohini, Franz Hartmann, Emma Coulomb e Babula, HPB parte em viagem para o norte da Índia. Ao visitarem o príncipe Harisinghji em Varel, Emma Coulomb lhe cobrou a promessa do empréstimo. Porém, HPB ficou sabendo do pedido e proibiu que qualquer empréstimo fosse feito o que, naturalmente, desgostou muito Emma Coulomb, que contava com esse dinheiro para conseguir sua independência financeira. Ao se despedir de Babula ela lhe disse: "Me vingarei de sua patroa por me impedir de pegar minhas 2000 rúpias." (Ryan, cap.13) 

    Olcott e HPB na Europa

    De Bombay HPB, Mohini e Olcott partiram para a Europa em 20 de fevereiro de 1884, para resolver o caso da Loja de Londres, envolvendo Sinnett e Anna Kingsford. (Inf. HPB n.º 7) Olcott havia criado um comitê, chamado de Conselho de Controle, para cuidar da administração da Sede em Adyar. Seu presidente era Franz Hartmann e faziam parte dele St. George Lane Fox, W.T. Brown, R. Raghunath Row, G. Mutuswamy Chetty, P. Sreenivas Row e T. Subba Row. 

    Os Coulombs haviam ficado com as chaves dos aposentos de HPB e, em 3 de março, quando o Conselho tentou lá fazer sua reunião, Alexis Coulomb não permitiu que ninguém entrasse. Poucos dias depois Damodar pediu a Emma Coulomb para usar o quarto de HPB. Ela não apenas negou, mas lhe contou que HPB havia pedido para seu marido fazer portas falsas em seus aposentos. Esse fato fez com que Hartmann e Lane Fox resolvessem investigar a questão. (CW VI, p. xxvi) O Conselho mandou que os Coulomb se retirassem da Sede, porém eles não concordaram e se fecharam nos aposentos de HPB. 

    Embora HPB e Olcott não pudessem suspeitar do que estava acontecendo em Adyar, os Mestres o sabiam, pois numa carta em 5 de abril de 1884, que foi precipitada do teto de um trem, enquanto Olcott e Mohini iam de Paris para Londres, o Mestre KH lhe escreve: 

    "Não se surpreenda com nada que você possa ouvir de Adyar. Nem se desencoraje. É possível – embora tentemos evitar isso, dentro dos limites do carma – que vocês tenham que passar por grandes aborrecimentos domésticos. Vocês abrigaram sob seu teto um traidor e um inimigo por anos, e o grupo dos missionários está mais que disposto a se aproveitar de qualquer auxílio que ela possa ser induzida a prestar. Uma completa conspiração está a caminho. Ela está furiosa com o aparecimento do Sr. Lane Fox e com os poderes que você deu ao Conselho de Controle." (LMW 1st S., p. 43) Em Adyar a convivência entre os Coulombs e o Conselho de Controle foi se tornando cada vez mais difícil. Mesmo assim, o Mestre KH escreve para Franz Hartmann pedindo que ele fosse caridoso com Emma Coulomb, pois:  "Enquanto alguém não tiver desenvolvido um perfeito senso de justiça, ele antes deveria preferir errar pelo lado da misericórdia do que cometer o menor ato de injustiça. Mad. Coulomb é uma médium e, como tal, irresponsável por muitas coisas que ela possa dizer ou fazer. (...) Ela tem suas próprias fraquezas, mas seus maus efeitos podem ser minimizados exercendo sobre sua mente uma influência moral através de um sentimento gentil e amigável. Sua natureza mediúnica é um auxílio nessa direção, se for tirado proveito adequado dessa vantagem. É meu desejo, portanto, que ela continue tomando conta das coisas da casa, com o Conselho de Controle naturalmente exercendo um apropriado controle e supervisão e vendo, junto com ela, que nenhum gasto desnecessário seja feito. Uma boa reforma é necessária e pode melhor ser feita com a ajuda do que o antagonismo de Mad. Coulomb. Damodar teria lhe contado isso, mas sua mente foi obscurecida de propósito, sem que ele soubesse, para testar suas intuições." (LMW 2nd S., p. 131) Em 13 de maio o Conselho de Controle reuniu-se e julgou doze acusações de má conduta da Sra. Coulomb que incluíam injúrias, mentiras, furto de cartas, bisbilhotagem e tentativa de extorsão, apoiados por grande número de testemunhos. Emma Coulomb não admitiu nem negou as acusações e após considerável resistência ela e o marido foram expulsos de Adyar. 

    Quando o Conselho de Controle entrou nos aposentos de HPB percebeu que, enquanto estava lá fechado, Alexis Coulomb havia construído buracos e painéis deslizantes os quais, mais tarde, eles afirmariam tratar-se de artimanhas mecânicas utilizadas por HPB para a produção de seus fenômenos. (Ryan, cap. 13) 

    Um Vento Hostil Está Soprando Sobre Nós

    Na Inglaterra, Olcott havia feito bons contatos com a SPR - Society for Psychical Research [Sociedade para Pesquisas Psíquicas], contatando seus principais líderes que estavam interessados nos fenômenos relacionados com HPB e nas aparições dos Mestres. Em maio de 1884, o conselho da SPR apontou um comitê para investigar os fenômenos ligados à Sociedade Teosófica. Os membros desse comitê eram: E. Gurney, F.W.H. Myers, F. Podmore, Henry Sidgwick e J.H. Stack. Depois também vieram a fazer parte dele a Sra. Sidgwick e Richard Hodgson. Ainda em Londres, o comitê entrevistou HPB, Olcott, Mohini e Sinnett. Após as entrevistas publicaram um relatório preliminar para circulação apenas entre seus membros no qual declaravam que, à primeira vista, parecia haver algo de verdadeiro nas pretensões dos teosofistas, porém que seria necessário que "um observador de confiança passasse alguns meses na Índia" estudando o caso. (Ranson, p. 212) 

    Em setembro e outubro de 1884, o Christian College Magazine publicou dois artigos com cartas que Emma Coulomb afirmava terem sido escritas por HPB, nas quais ela combinava detalhes de fraudes com o casal. A SPR então designou um jovem australiano, Richard Hodgson, para ir à Índia investigar. Ele foi para Adyar em novembro de 1884, onde teve acesso a todas as informações disponíveis. Sua conclusão foi de que essas cartas eram verdadeiras e a SPR declarou que HPB era uma impostora, uma charlatã, "uma astuta prestidigitadora, com preparações elaboradas, levadas a cabo com parceiros". Para HPB a acusação foi um duro golpe. Ainda com a saúde fragilizada, ela escreve para sua irmã que teria que voltar à Índia, para defender-se: 

    "Tudo mudou. Um vento hostil está soprando sobre nós. Que cura, que saúde será possível para mim? Terei que voltar rapidamente para o clima que é fatal para mim. Não há como evitar. Ainda que eu pagasse por isso com a morte, preciso esclarecer estes esquemas e calúnias porque não é apenas a mim que eles prejudicam: eles abalam a confiança das pessoas em nosso trabalho e na Sociedade, à qual eu dei toda a minha alma. Então, como posso ligar para a minha vida? .... Eles nos escrevem que em Madras, Bombay e Calcutta os muros das ruas estão cobertos com milhares de cartazes: ‘Queda de Madame Blavatsky; suas Intrigas e Fraudes Descobertas’- e assim por diante." (Letters of H.P. Blavatsky, VII)
    Todo Fato Genuíno Sempre Mostra um Lado Fraco

    Para aqueles que conhecem pouco sobre a vida de HPB, pode parecer que essa tenha sido a primeira vez que ela sofria a acusação de ser uma impostora – mas isso está muito longe da verdade. Ainda na casa dos Eddy, em 1874, ocorreu a primeira acusação pública de fraude de que temos conhecimento ligada à Madame. 

    Na sessão do dia 24 de outubro, o "espírito" se dirigiu a ela dizendo que daria uma prova concreta da genuinidade das manifestações que lá estavam ocorrendo, não só para ela como também para todo o mundo céptico: "Colocarei em suas mãos o prendedor da medalha de honra usada em vida por seu valente pai, e enterrada com seu corpo na Rússia." Logo a seguir, descreve Olcott, HPB emitiu uma exclamação e quando a luz foi jogada sobre ela, "nós todos vimos Mad. de B. [Blavatsky] segurando em suas mãos um prendedor de prata de um tipo muito curioso, que ela olhava admirada e sem palavras." (Gomes, p. 41) 

    Seu pai havia morrido em 27 de julho de 1873 e, para provar a autenticidade do prendedor, ela mostrou um retrato a óleo do pai em que ele usava a medalha presa por uma fita a esse prendedor. A excitação foi grande, e a notícia logo foi para os jornais. Daniel D. Home, um bem conhecido médium da época acusou então HPB de fraude, com base no fato de que na Rússia não era um hábito enterrar os mortos com suas medalhas. Explicando para Aksakoff, HPB lhe escreve que o "espírito" lhe havia dado a medalha, trazendo-a do túmulo de seu pai em Stavrapol, e dito "... a trazemos como uma lembrança nossa, em quem você acredita e tem fé." (Neff, p. 203) 

    Como vimos no Inf. HPB n.º 5, John King, o "espírito" barbudo que estava executando esses fenômenos, não era outro senão o Mestre Hillarion. Essa conclusão é reforçada pela frase acima, pois espíritos desencarnados não eram aqueles "em que ela sempre acreditou e teve fé", mas sim nos Mestres. 

    É interessante notar que o Mestre KH escreve numa carta a Sinnett que D.D. Home era "o mais amargo e cruel inimigo que O. [Olcott] e Mad. B tem, embora ele nunca tenha encontrado nenhum deles." (Mlcr., p. 53; ML- 8) E, assim sendo, tendo achado um lado fraco, passível de suspeita no fenômeno, não nos surpreende que ele o explorasse para acusar Madame de impostora. 

    Numa carta para Solovyoff, HPB comenta sobre essa característica dos fenômenos, dizendo que havia aprendido que "não há como convencer pessoas apenas com fatos suspeitos, e também que todo fato genuíno sempre mostra um ou outro lado fraco, sobre o qual é fácil os oponentes se apegarem." (Solovyoff, p. 248). Em janeiro de 1876, HPB ainda colhia os frutos dessa controvérsia, e dá um depoimento de que essa não havia sido a primeira vez que ela era acusada: 

    "Qualquer que seja a objeção que alguém possa ter a meu respeito devido ao país, religião, estudo oculto, rudeza de fala, fumar cigarros, ou qualquer outra peculiaridade, minha folha de serviços em conexão com o Espiritismo por longos anos não me mostra ganhando dinheiro através dele, ou obtendo qualquer outra vantagem direta ou indireta. Ao contrário: aqueles que me encontraram em todas as partes do mundo (...), testemunharão que eu dei milhares de dólares, arrisquei minha vida, desafiei a Igreja Católica, quando se necessitava de mais coragem para faze-lo do que os espíritas parecem demonstrar ao encontrar elementais, e no campo e na corte, no mar e no deserto, nos países civilizados e nos selvagens eu sempre fui, do início até o fim, amiga e defensora dos médiuns. (...)    "E como vocês pensam que fui recompensada? Com honras, emolumentos e posição social? (...) Tenho sido difamada da maneira mais vergonhosa, e as mais despudoradas mentiras circularam sobre meu caráter e antecedentes pelos próprios médiuns que estive defendendo, mesmo correndo o risco de ser considerada como sua cúmplice quando seus truques fossem detectados. O que aconteceu nas cidades americanas não é pior nem diferente do que tem me acontecido na Europa, Ásia e África.(...) Ingratidão e injustiça tem sido a parte que me coube desde que eu comecei me relacionar com médiuns espíritas." (Sotheran) No próximo Informativo HPB continuaremos estudando esse momento histórico da ST, examinando outras circunstâncias que também contribuíram para que a SPR chegasse à conclusão de que HPB era uma impostora. Quando surgiu a acusação de que a Madame era uma farsante, feita pelos Coulombs através da publicação das cartas no Christian College Magazine, já existia todo um conjunto de fatos que estavam gerando um clima de suspeita. Desde a acusação de plágio por parte do Mestre KH – conhecido como o caso Kiddle, lançando dúvidas sobre a veracidade da existência dos Mahatmas, até outras supostas fraudes anteriores por parte de HPB, especialmente o caso de uma carta recebida de um "Irmão" por C.C. Massey, um dos fundadores da ST Britânica. É importante conhecermos todo esse contexto histórico para podermos avaliar corretamente os fatos do passado e com eles aprendermos. 
    Bibliografia

    Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, vol. VI. TPH, Wheaton, 1977. 

    Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky The Blavatsky Archives Online, 1999. 

    Blavatsky, H.P. Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett. TUP, Pasadena, 1973. 

    Gomes, M. The Dawning of the Theosophical Movement. TPH, Wheaton, 1987 

    Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Seq.) TPH, Quezon City, 1993. 

    Jinarajadasa, C. (ed.) Letters from the Masters of the Wisdom, 1st and 2nd Series. TPH, Adyar, 1973. 

    Neff, Mary K. Personal Memoirs of H.P. Blavatsky. Quest Book, TPH, Wheaton, 1971. 

    Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. II, III. TPH, Adyar, 1974. 

    Peebles, J.M. Five Journeys around the World. Peebles Publ. Co., Battle Creek, 1910. 

    Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society. TPH, Adyar, 1989. 

    Ryan, C.J. H.P. Blavatsky and the Theosophical Movement. TUP Online, 1997. 

    Sinnett, A.P. Incidentes in the Life of Madame H.P. Blavatsky, 1886. Kessinger Publ. Co., Montana. 

    Sotheran, C. Charles Sotheran on Madame Blavatsky. The Blavatsky Archives Online, 1999. 

    Solovyoff, V.S. A Modern Priestess of Isis, Longmans, Green, and Co., London, 1895. 
     

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