Curso de filosofia esotérica

Módulo 1

A DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO

É encorajador para os estudantes de Teosofia perceber que praticamente qualquer pessoa no mundo ocidental já ouviu falar da doutrina da Reencarnação. Igualmente reconfortante é a percepção que está crescendo o número de pessoas que consideram seriamente a idéia, e, passaram a enxergá-la como a única explicação plausível para os acontecimentos da vida. Entretanto, em conjunto com esta pronta aceitação da idéia geral, muitos e sérios mal-entendidos e aplicações errôneas são verificados. Ainda são muito poucos os indivíduos que tiveram a oportunidade de formar em si mesmos uma clara compreensão dos postulados básicos desta lei bastante antiga e abrangente --- quais de nossos aspectos são aqueles que sofrem a reencarnação verdadeira --- qual parte de nós morre e se vai --- como esta lei do retorno cíclico opera pela totalidade da vida --- e como isso nos afeta em nossa vida diária. 

A Madame H.P.Blavatsky, co-fundadora do presente Movimento Teosófico, o qual foi estabelecido em Nova Iorque em 1875, sustenta que a Reencarnação é uma das "chaves perdidas" do Cristianismo, desde ela fez parte dos ensinamentos iniciais. Uma das muitas controvérsias entre a comunidade cristã foi sobre o anátema pronunciado pelo Conselho de Constatinopla em 553 D.C., contra a doutrina da preexistência da alma --- e assim contra a reencarnação. Foi afirmado que este ato conduziu para a queda da cultura européia e o início da Idade das Trevas. 

O lado positivo da história é que H.P.Blavatsky deu tal importância a este princípio que ela afirmou ser através da revivificação do ensinamento verdadeiro a respeito deste princípio, em conjunto com a sua doutrina gêmea, o Carma, que a maré de egoísmo e miséria tão reinante no mundo atual será diminuída. Ela as chamou de doutrinas da esperança e responsabilidade.

QUAL PARTE DA NOSSA NATUREZA REENCARNA?

Devido à predominância do pensamento materialista em nossas escolas, até mesmo em nossas igrejas, nos últimos 100 anos, muitos de nós acabamos por nos identificar com o corpo físico. Nós facilmente consideramos que somos na verdade estas formas físicas, e se a reencarnação é um fato, então é esta personalidade (persona, significando máscara) que irá voltar em uma nova encarnação. No entanto, quando pensamos a esse respeito, sabemos que nós não podemos ser estes corpos. Eles são os instrumentos que o "NÓS" verdadeiro utiliza durante a vida desperta. Eles nascem e morrem, e são finalmente devolvidos para reciclagem pelo reservatório de matéria terrestre, para serem usados novamente por nós ou alguma outra entidade. 

E devemos perceber que assim como nós não somos as idéias que sustentamos, nem os sentimentos que experimentamos em algum momento em particular, pois eles estão sujeitos à mudanças, mudanças as quais podemos ficar à margem e avaliar. Nós, a consciência que se move de vida a vida, experiência a experiência, devemos ser algo mais, alguma coisa superior que possui e utiliza estes corpos, cérebros, sentimentos, etc., mas sendo sempre algo diferente destes, algo bem diferente destes veículos ou instrumentos. Mr. Crosbie, o fundador da United Lodge of Theosophists afirmou: (Universal Theosophy, p.24.)

A Teosofia apresenta uma perspectiva mais ampla ao mostrar que há no homem uma permanência a qual é a identidade através de todos os tipos de corpos. Não houve nenhuma mudança em nossa identidade desde a infância até os dias de hoje. O corpo mudou, o ambiente mudou, mas a identidade permanece a mesma e não irá mudar do modo como é hoje através de todas as mudanças do corpo físico, mente ou circunstâncias. Aquilo em nós que permanece inalterado é a única coisa real.  O "Eu" ou "Ego" real é aquele que sobrevive à morte, vivendo em e através de incontáveis corpos ou personalidades, todas diferentes porém importantes para a sua evolução espiritual. É a identidade contínua, a autoconsciência que persiste e carrega adiante, de vida a vida, a essência da experiência adquirida. É a realização dessas muitas experiências adquiridas que se mostra adiante na forma do talento, genialidade e de caráter em geral. Por outro lado, é a crença persistente na qual nós somos nada além da personalidade que nos fecha daquele poder, sabedoria e inspiração. A personalidade é o que nós herdamos, através do Carma, de nós mesmos. O caráter é o que nós fazemos ou não fazemos com essas oportunidades. 

O QUE, ENTÃO, É O NOSSO SER COMPLETO?

A Teosofia responde a muitas de nossas perplexidades, assim como às dúvidas da Psicologia e da Religião, através da explicação que, durante a encarnação, o homem tem uma natureza dupla, consistindo em um "Eu" superior, o qual é imortal, e um "Eu" inferior ou personalidade, a qual é um instrumento ou veículo para o primeiro, e é, como todas as formas, sujeito à morte e desintegração.

O Eu Superior é uma trindade consistindo do Espírito, Alma Espiritual e Mente (Atma, Buddhi e Manas, em Sânscrito). Esta entidade tríplice é o homem real, o qual reencarna de uma vida a outra em direção ao contínuo desdobramento de sua infinita sabedoria e poder. Atma é a fonte indefinível e impessoal de tudo; não um "Deus" pessoal e finito, mas uma Presença Divina universal. Ele é sem fronteiras, eterno e onipotente --- o poder ilimitado de crescer, conhecer e se tornar --- e cada um de nós é essencialmente ISSO.

Buddhi, de acordo com Mr. Judge, é o "Maior poder do intelecto, aquele que discerne e julga". É o que somos capazes de expressar da Mente Universal. É a nossa percepção adquirida da Divindade, da Divina Inteligência. A mente é um veículo ou instrumento consistindo do pensamento, vontade, sentimento, memória e imaginação, e ela pode estar a serviço de nossa natureza Buddhica ou superior, ou pode ser escrava de nossa natureza Cármica ou inferior. 

O "eu" inferior, ou transitório, é um quaternário consistindo do corpo, corpo Astral, Princípio da Vida e Princípio das Paixões e Desejos. Em Sânscrito estes quatro termos são chamados Rupa, Linga Sarira, Prana e Kama. O corpo é o envelope material feito de matéria deste plano (físico). O Linga Sarira ou Corpo Astral é um corpo padronizado elétrica e magneticamente, cujos campos magnéticos e elétricos estão constantemente alterando as moléculas físicas em suas funções apropriadas. Ele duplamente precede e sobrevive ao físico, e é o veículo que realmente contém os sentidos e de fato o nosso corpo físico verdadeiro. A matéria astral é uma matéria física de natureza mais fina. 

Prana é a energia da vida, e de acordo com o Ocean of Theosophy, p.37:

É um princípio universalmente difundido. É o oceano no qual a terra flutua; ele permeia o globo e cada ser ou objeto nele. Ele trabalha incessantemente sobre nós e ao nosso redor, pulsando sobre e através de nós, para sempre. Quando ocupamos um corpo, nós meramente utilizamos um instrumento mais especializado que qualquer outro para lidar tanto com Prana como com Jiva Jiva é a vida no seu aspecto universal. Prana é o aspecto individual que somos capazes de explorar e usar para nos manter "vivos" durante a encarnação.

Kama é o princípio o qual estamos provavelmente mais familiarizados. É o princípio das paixões e desejos e tem sido chamado de o princípio do equilíbrio, já que permanece no centro dos sete. O Sr. Crosbie afirma que "Ele é também o princípio mais desenvolvido e utilizado pelos homens em geral, formando a base de suas ações, e aqui também é o ‘equilíbrio’ pelo qual as coisas vão bem ou mal."

A respeito do Eu Inferior, o Sr. Judge afirma, no Ocean of Theosophy, p.32:

Esses quatro constituintes materiais inferiores são transitórios e sujeitos à desintegração da própria matéria, assim como à separação entre si. Quando é chegada a hora da sua separação, a combinação não pode mais ser mantida, o corpo físico morre, os átomos os quais cada um dos quatro princípios são compostos começam a se separar de cada um, e o conjunto completo desunido não é mais de grande uso como um instrumento para o homem real. Isto é o que é chamado de "morte" entre nós mortais, mas não é a morte para o homem verdadeiro porque ele é imortal, persistente.

Vamos recapitular...O Homem Real é a trindade Atma-Buddhi-Manas, ou Espírito e Mente, e ele utiliza certos agentes e instrumentos para manter contato com a natureza, de modo a conhecer a si mesmo. Estes instrumentos e agentes são encontrados nos Quatro inferiores --- ou Quaternário --- cada princípio é em si mesmo um instrumento para uma experiência particular pertencente ao seu campo, o corpo sendo o mais baixo, menos importante, e mais transitório de toda a série. (Ocean p. 34)

POR QUE NÓS TEMOS QUE REENCARNAR?

A Reencarnação é muito mais um processo benéfico. Ela dá ao homem o tempo e a oportunidade para realizar todas as aspirações que permanecem latentes na sua natureza interior. Ela oferece novos começos, com novos corpos, cérebros e circunstâncias. Ela permite períodos de descanso e assimilação muito necessários para a alma entre encarnações. E ela oferece novos veículos e ambientes dentro dos quais o homem pode reparar atos do passado os quais ele queria corrigir. É através da reencarnação que o homem pode estender ajuda às muitas "vidas" conscientes que formam a Grande Natureza, e que dependem dele para a sua evolução futura. 

Para compreender melhor esta interdependência e a necessidade da reencarnação, a qual é a renovação cíclica da associação com toda a Natureza, é importante deixar claro em nossas mentes o fato de que o homem, na sua natureza mais profunda, é uno com Deus, ou a Divina Presença que está na raiz de toda a Vida. É por isso que a Teosofia pode afirmar que "A Irmandade Universal é um fato na Natureza."

Poucos de nós, certamente, gostariam de permanecer aprisionados no mesmo corpo com o mesmo cérebro, percepções e sentimentos para todo o sempre. A vida ao nosso redor nos ensina que conforme progredimos, nós construímos novos e melhores edifícios, instrumentos, sociedades, etc., e colocamos os meios antigos para serem reciclados. O mesmo se dá com estas personalidades que utilizamos para entrar em contato com a vida nos vários planos da Natureza. Em cada nova vida nós temos a oportunidade de criar novos e melhores instrumentos, possibilitando-nos uma maior faixa de percepção e maior efetividade. E, é claro, isto pode dar um impulso maior para aquelas vidas que formam aqueles instrumentos. Com essa perspectiva universal, nós podemos ver que o único modo prático, real, de viver, é tornar todos os nossos pensamentos e atos tão benéficos e úteis quanto possível. 

O QUE CONSTITUI O PROGRESSO ATRAVÉS DA REENCARNAÇÃO?

O homem é essencialmente um perceptor. Na raiz do seu ser ele é o Espírito, ou Atma --- o ilimitado poder de perceber, aprender e crescer. Este poder é infinito, eterno e onipotente. Ele é o Eu Real de cada Ser Humano, dado o horizonte ilimitado para o conhecimento e a compreensão. Ele é também Buddhi, a invocação ou destilação de toda a experiência passada, a qual o arma com uma perspectiva panorâmica, e assim o permite (quando ele o ouve) a discernir, julgar, e reconhecer a verdade. Buddhi é a fonte da intuição, da inspiração e da consciência. Mas ele é também Manas, ou Mente, o instrumento que ele usa para operar neste plano --- a mente como sendo o plano real de ação. Estes são os três aspectos do Perceptor, o Ego Reencarnado, e é dentro desta trindade que toda a verdade e progresso duradouro é armazenada. E o verdadeiro progresso consiste na capacidade de traduzir o conhecimento daquele Eu Interior em ação no plano físico. 

No seu artigo "Genius" (Panfleto Spiritual Evolution) H.P. Blavatsky afirma:

Nenhum Ego difere de outro Ego, em sua essência e natureza primordial ou essencial. Aquilo que torna cada mortal um grande homem ou uma pessoa vulgar, doentia, é a qualidade e a consistência do invólucro físico, e a adequação ou inadequação do cérebro e do corpo ao transmitir e dar expressão à verdadeira luz do Homem verdadeiramente interior, e esta pertinência ou impertinência é, por sua vez, o resultado do Carma. Em seu livro Answers to the Questions on the Ocean of Theosophy, O Sr. Crosbie vai além: O Perceptor tem o poder de perceber e ampliar o seu alcance de percepções. Seu poder de percepção não é modificado pela razão ou quaisquer percepções adquiridas; ele pode sempre continuar a aumentar sua gama de percepção. Conforme a percepção continua a aumentar sua amplitude, ele evolui como um melhor instrumento através de envio e da recepção de impressões. Uma inteligência sempre crescente e uma verdadeira melhoria de forma constituem a evolução.  Todos nós já experimentamos o sentimento de que conhecemos mais do que somos capazes de expressar, que temos a capacidade de fazer melhor do que estamos fazendo, que existe um potencial dentro de nós que está sempre abaixo da superfície. Esta não é apenas uma interpretação favorável de nós mesmos. Há uma grande verdade neste sentimento. Os ensinamentos da Teosofia nos dizem que todas as experiências e conhecimentos passados permanecem trancados dentro de nós, porém dentro do alcance do homem pessoal, e podem ser trazidos à consciência e disponibilizados através da qualidade certa de esforço. O progresso verdadeiro consiste em readquirir o uso deste conhecimento através do treinamento, aperfeiçoamento ou melhor sintonia dos instrumentos do eu inferior, de modo que estes irão refletir ou transmitir a sabedoria do Ego Interior. Um passo na direção correta é a aplicação do melhor que conhecemos em cada tarefa que realizamos, não importa quão pequena. Mas há muito mais do que isso.

Para criar tal instrumento --- mesmo nesta vida --- é necessário adotar e estabelecer uma base universal verdadeira para o nosso pensar e agir. O pensar correto e efetivo deve se basear sobre idéias fundamentais que são verdadeiras a qualquer tempo, verdade em todas as circunstâncias e nunca contraditórias umas às outras. Se a base do nosso pensar não for verdadeira com as leis da vida, todas as nossas ações serão marcadas pelos mesmo erros. O que é necessário é um conhecimento desses princípios universais que irão conduzir à uma compreensão maior da natureza completa do homem, as eternas e imutáveis leis da vida as quais o homem se acha sujeito, e seu objetivo e destino no universo. A Lei Universal da Reencarnação, aplicada a toda e qualquer manifestação, é um dessas leis fundamentais que formam parte da base para o nosso pensar e perceber. 

POR QUE NÓS NÃO UTILIZAMOS TODA ESTA SABEDORIA INTERIOR?

Para muitos, esse arquivo de conhecimento e poder permanece quase inteiramente além do alcance, devido ao fato de persistirmos em nos identificar com o corpo e o cérebro. Nós fomos educados a pensar que a existência física é tudo o que existe na vida, que Alma e Espírito são coisas que pensamos apenas quando a morte está próxima, mas eles não tem aplicação prática na nossa vida diária. 

Não é difícil perceber que a grande maioria dos nossos pensamentos são de natureza pessoal, de um certo modo egoísta e muito relacionados aos aspectos da nossa natureza física. Assim, ocorre que esta prática ao longo de nossas vidas acabou por treinar o nosso cérebro a responder apenas às impressões e mensagens com este caráter. O Sr. Crosbie afirma "A barreira de cada homem não está na memória, mas nas falsas idéias a respeito da vida de acordo com as quais ele age." Entretanto, com alguma determinação e com a ajuda dos Grandes Mestres, essas idéias inibidoras as quais estamos amarrados podem ser substituídas por outras mais harmônicas com o mundo do nosso Eu Interior. 

O primeiro e mais importante passo que ser tomado, um passo sem o qual todo o resto é impossível, é convencer a nós mesmos que não somos o corpo, o cérebro, a personalidade, mas nós somos o Ego Reencarnado, Atma, Buddhi e Manas, a identidade contínua que utiliza as várias personalidades para adquirir experiência e aprendizado. Uma vez que tenhamos compreendido que na longa jornada a vida altruísta é a única vida prática, nossos pensamentos e ações serão desta natureza, e nossos cérebros irão se tornar sintonizados com as verdades da Alma, e estarão abertos à inspiração pelo Eu Superior. 

PODEMOS NOS LEMBRAR DE NOSSAS VIDAS PASSADAS?

A resposta a esta questão tem que sem tanto "sim" como "não", se nós considerarmos o homem em sua natureza dual, um Ego Reencarnado e seu veículo pessoal e transitório. A questão deve ser refeita: pode esta personalidade e cérebro atuais relembrar atividades e pensamentos da personalidade que estava no comando em uma encarnação precedente, e, se não, existe algum outro aspecto da memória que pode fazer a ponte entre esta e outra encarnação?

Falando da memória física ou pessoal, H.P.Blavatsky apresenta um argumento muito sólido contra a possibilidade de sermos capazes de lembrar eventos de nossas vidas passadas. Ela afirma, no livro Key to Theosophy, p. 127:

Desde que estes princípios os quais chamamos físicos...são desintegrados após a morte com os seus elementos constituintes, memória junto com o cérebro, esta memória destruída de uma personalidade destruída não pode lembrar nem gravar nada na reencarnação subsequente do Ego. A reencarnação significa que este Ego será guarnecido com um novo corpo, um novo cérebro e uma nova memória. Deste modo, seria absurdo esperar que esta memória se lembre daquilo que nunca foi gravado.  Por outro lado, nós aprendemos que a memória das experiências de todas as vidas passadas é retida na natureza interior do homem, e que os Mestres e Adeptos que adquiriram controle sobre a sua natureza inferior alcançaram o ponto no qual o seu desenvolvimento Espiritual os permite abrir estes arquivos de memória a qualquer momento que seja necessário. H.P.Blavatsky vai além ao afirmar que "...o Ego Espiritual pode agir apenas quando o ego pessoal está paralisado. O Eu Espiritual no homem é onisciente e tem todo o conhecimento inato dentro dele; enquanto o eu pessoal é a criatura do seu ambiente e um escravo da memória física." O que deve ser paralisado não é o instrumento pessoal, (nós não poderíamos aprender sem ele) mas a base pessoal e egoísta sobre a qual ele opera. 

No entanto, a memória dos eventos das vidas passadas está lá apesar de tudo, trancada em nossa natureza anímica. E a essência destas atividades, as quais são assimiladas pela alma na hora da morte, surge na vida presente em várias maneiras --- através da nossa intuição e sentimentos, por exemplo. Quem nunca teve a experiência de conhecer alguém o qual nunca havia encontrado antes, ou sentir-se familiar com algum lugar o qual nunca esteve nesta vida? E o que é o talento, a genialidade, além da precipitação na vida presente de alguém das lições ou habilidades aprendidas no passado? A atração de alguém por uma família em particular nesta encarnação, ou por um companheiro de trabalho, e até mesmo a busca de uma pessoa pela verdade e sua associação final com outros estudantes de Teosofia --- todas estas atrações não são mais que infiltrações da memória da Alma de ligações ancestrais que foram estabelecidas em outras vidas. 

Em todos os lugares nós ouvimos casos de memórias de vidas passadas. É possível que alguns destes relatos sejam verdade. Os Professores indicam que é possível em casos excepcionais, sob condições excepcionais, mas estes são casos raros que demandam explicações mais profundas. Muitos, por outro lado, podem ser leituras aleatórias de algum dos milhões de pacotes de memória (de outras vidas individuais) residentes na Luz Astral, o banco de memória da Terra. E muitos são os casos de fraudes estabelecidas para benefícios materiais. 

Existem, entretanto, centenas de casos genuínos de memórias claras de uma vida passada. Muitas foram avaliadas e gravadas em vários volumes pelo Dr. Ian Stevenson. Muitas delas são de natureza diferente que necessitam de uma explicação mais detalhada. Estes são os casos de crianças que morreram em idade muito precoce e as quais voltaram a encarnação em um tempo relativamente curto, tornando suas memórias mais fáceis de acessar. A diferença importante, de acordo com a Teosofia, é que em muitos desses casos o corpo Astral não chegou a se desintegrar, e foi utilizado novamente em um novo nascimento, e consequentemente reteve a memórias dos poucos anos vividos no corpo anterior. 

NÓS ENCARNAMOS COM AS PESSOAS AMADAS?

A doutrina da reencarnação nos ensina que tudo reencarna. É uma lei universal, e consequentemente deve incluir nossas associações e nossos relacionamentos. Como resultado das causas mutuamente produzidas, assim como das situações deixadas não resolvidas, nós voltamos em cada nova vida em companhia daqueles os quais vivemos e trabalhamos no passado. Isto inclui aqueles que amamos e nos amam, assim como com aqueles os quais nossas associações no passado deixaram situações que devem ser trabalhadas e resolvidas. Seria ótimo ter apenas aqueles que amamos ao nosso redor, em nossas vidas, mas a justiça demanda que nós não possamos nem devemos fugir das situações discordantes --- e a reencarnação nos oferece a oportunidade de transmutar inimizades e discórdias dos passado em harmonia e cooperação no presente. No seu artigo "Friends or Enemies in the Future", o Sr. Judge escreveu:

Nossos amigos ou inimigos futuros, deste modo, são aqueles que estão conosco e permanecem conosco no presente. Se eles são aqueles que hoje parecem inimigos, nós estamos cometendo um grande erro e apenas estamos adiando o momento da reconciliação por mais três vidas, se nos permitimos ser deficientes na caridade por eles...Pudéssemos ver um pouco adiante em nossas vidas, e veríamos aqueles pelos quais sentimos pouco carinho cruzando o plano daquela vida conosco e sempre no nosso caminho, sempre nos escondendo da luz. Mas, se mudarmos nossa atitude atual, aquela nova vida virá a ser tal que essas pessoas incômodas, parcialmente inimigas e obstrutivas estarão nos ajudando, nos apoiando em cada esforço que fizermos. Talvez seja por isso que São Paulo nos lembra da repreensão de Jesus ao "Não deixe o sol se por sobre sua ira,".

O QUE OCORRE ENTRE A MORTE E O RENASCIMENTO?

Talvez a primeira coisa a se ter em mente seja que mesmo na hora da morte e nos estados pós morte a consciência não é nunca interrompida. O Ego é o Perceptor e nunca cessa de perceber, seja neste plano ou em outro. Em segundo lugar, é importante entender que à morte nós não vamos a "lugar" algum tipo Céu ou Inferno, mas apenas mudamos nosso estado de consciência. Mas isto não ocorre de uma vez só. Na hora da morte o Ego tem trabalho a fazer extraindo e retendo o significado da vida recém terminada. A Teosofia ensina que existem várias "mortes" conforme cada camada ou veículo cessa de armazenar experiências. O Sr. Judge tem essa colocação a respeito do processo: (Ocean, p.99)

Quando o conjunto está frio e os olhos fechados, todas as forças do corpo e da mente se dirigem ao cérebro, e através de uma série de imagens a vida inteira recém terminada é registrada de maneira indelével no homem interior, não apenas como um quadro geral, mas também através de cada pequeno detalhe e até mesmo cada expressão minúscula. Neste momento, embora todas as indicações conduzam os cientistas afirmarem a morte, e embora para todos os efeitos a pessoa está morta para esta vida, o verdadeiro homem está trabalhando arduamente no seu cérebro, e não antes desse trabalho terminar a pessoa se vai.  Em outra parte desta Série os estados pós morte serão explicados em maiores detalhes, mas por agora é suficiente dizer que o Ego está fazendo o mesmo que as árvores fazem durante o inverno. As folhas caem e as flores morrem, mas a essência daquele ano de crescimento é retornada e armazenada na semente. Este é um período no qual o Ego revê a última vida vivida e se prepara para deixar a semente para a próxima vida. É um período necessário a alma, para o seu descanso e compreensão da peregrinação e do processo completo. 

O Sr. Judge descreve o que ocorre quando é chegado o momento do Ego entrar novamente em outra encarnação: (Ocean, p.116)

Com o término do período completo estabelecido para as forças da alma no devachan [um dos estados pós morte], as correntes magnéticas que a conectam com a terra começam a exercer seu poder. O Eu acorda do seu sonho, é nascido rapidamente em um novo corpo, e então, logo antes do nascimento, ele vê por um momento todas as causas que o conduziram ao devachan e de volta a vida por começar, e reconhecendo-as todas justas, como resultado de sua própria existência passada, ele não lamenta, apenas toma a estrada novamente --- e outra alma está retornando à terra. QUESTÕES SOBRE O TÓPICO 1

1 - Algumas pessoas pensam que a reencarnação não é justa porque nós sofremos por erros cometidos por outra pessoa em outra vida. O que você pensa sobre isto?

2 - Nós podemos, e realizamos as escolhas de nossa próxima vida? Explique detalhadamente.

3 - A reencarnação se aplica a coisas como idéias e crenças? E a raças, civilizações ou mundos? Explique.

4 - Nós iremos reencarnar com o mesmo sexo, raça ou nacionalidade? Explique.

5 - Você deve ter ouvido falar que o homem pode reencarnar em formas animais ou insetos como resultado de certas ações. Isto é realmente possível? Explique.

6 - Ao longo da Doutrina Secreta, H.P. Blavatsky fala da importância do uso das analogias e correspondências no estudo do ocultismo. Tendo o ciclo da reencarnação em mente, você pode ver correspondências ou analogias na Natureza, ou na natureza humana? Liste tudo o que você encontrar.

7 - Do que você aprendeu sobre o processo de reencarnação, você diria que a reencarnação dos Grandes Mestres e Salvadores da história difere da referente a uma pessoa normal? Explique.

8 - Com a reencarnação ocorrendo e a população continuando a crescer, a terra irá comportar a humanidade? Explique.

9 - Por que a reencarnação tem sido chamada "uma das chaves perdidas do Cristianismo" e por que o Sr. Judge diz que a reencarnação e o Carma são as principais características de um homem altamente evoluído?" Por que o conhecimento da reencarnação é tão importante neste momento?

LEITURAS COMPLEMENTARES

Um dos livros básicos que tem sido utilizado ano após ano para o estudo da Teosofia é The Ocean of Theosophy, de William Q. Judge. É significativo que na apresentação de seu texto, ele considere o tema Reencarnação importante e base suficiente para o estabelecimento de 3 capítulos do livro. Se você desejar leituras adicionais neste tema, certamente encontrará neste pequeno porém rico livro uma grande ajuda.

Outro texto que oferece muitos estímulos à reflexão, assim como aplicações práticas deste e outros princípios da Filosofia é The Key to Theosophy, de H. P. Blavatsky. O livro contém aplicações interessantes e práticas das doutrinas que não são encontradas em nenhum outro lugar dos Ensinamentos. 

E, se, no seu estudo, você se encontrar frente a muitas dúvidas e necessitar respostas, nós sugerimos que você vá ao Answers to Questions on the Ocean of Theosophy, de Robert Crosbie. Ele responde muitas das questões que surgem durante o estudo.

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Tradução: Marcelo Pagliarussi (marcelo@nit.ufscar.br)
 

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